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Tenho seguido com alguma atenção as noticias sobre a a suposta proibição de que se fale português nas escolas do Luxemburgo.

 

Logo da primeira vez que ouvi a noticia na televisão estava com a minha filha R. e a surpresa e curiosidade dela fiquei sem resposta, o único que me lembrei é que e que lhe expliquei foi que  luxemburguês é uma língua em vias de extinção e haveria por parte das autoridades escolares alguma vontade de a proteger... não faz muito sentido.

 

Depois dei por mim a pensar, eu emigrei em criança, tinha 10 anos quando cheguei a Caracas, não falava uma palavra de castelhano, passado um mês entrei para a escola pública e a verdade é que raramente voltei a falar português, na escola, na rua com amigos, incluindo os portugueses, até em casa com o meu irmão, sempre falei castelhano...  se calhar será também muito por isso que sempre fui bom aluno e que sempre me integrei completamente até ao ponto de para quem não me conhecia, passar sempre por venezuelano e nunca por estrangeiro.

 

É evidente que estamos a falar de um país diferente, de uma cultura diferente e de formas de integração completamente diferente e opostas. Na Venezuela todos nos sentíamos venezuelanos e sempre nos sentimos completamente integrados no país e na cultura... o que a julgar pelo que tenho visto e ouvido, nem sempre acontece com quem emigra para o Luxemburgo e outros países da Europa.

 

De tudo o que ouvi, o que mais impressão me fez foi o seguinte:

"Para o presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), a proibição pode levar também a um sentimento de desvalorização da língua materna"

 

Língua materna? Será que alguém parou para penar o que será a língua materna para uma criança que viveu a maior parte da sua vida num país estrangeiro? Será que é mesmo o português?

 

De novo posso falar por mim, passados dois ou três anos de viver em Caracas a minha língua materna era o castelhano, era nessa língua que eu tinha que estudar, namorar, viver... é evidente que continuava a ler e a falar português quando era necessário, mas a minha língua não era nem podia ser o português.

 

Quando aos vinte anos voltei para Portugal, a minha língua passou naturalmente a ser o português, passados dois ou três meses até aos "ãos" me tinha habituado .. e a vida seguiu em frente.

 

Sinceramente não entendo toda esta polémica, acho que no Luxemburgo se as crianças não estão numa escola bilingue, se são avaliadas em luxemburguês, faz todo o sentido que falem na língua da escola e percebo perfeitamente que os professores não gostam e/ou não queiram, ter no meio das aulas crianças a falar entre si numa língua que na maior parte dos casos nem eles nem as restantes crianças entendam.

 

É evidente que há aqui excesso de zelo quando se proíbe também no recreio, mas para ser sincero, eu não vejo vantagem nenhuma que as crianças que vivem no centro da Europa não tenham como língua principal outra qualquer que não o português, queiram os pais ou não, a verdade é que na sua grande maioria é lá e não cá que eles vão ter que se desenvencilhar na vida... e para vir cá nas férias, o português que se fala em casa basta e sobra.

 

Jorge Soares

publicado às 22:45


1 comentário

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De Padrinhos Civis a 05.11.2014 às 15:57

Oh Jorge, mas castigar?

Eu percebo as suas palavras, mas há aí um dado na comparação da emigração portuguesa na Venezuela com o Luxemburgo, que penso que falha (já visitei os dois países, encontrei portugueses nos dois). É que a percentagem de portugueses no Luxemburgo relativamente à dos luxemburgueses é incomparavelmente maior que de portugueses na Venezuela face aos venezuelanos. Isto significa que a tendência para continuar a falar em português é maior. Na rua, encontram-se portugueses a cada passo. A dada altura, estive num evento de rua, onde a maioria dos presentes eram portugueses... Falar na língua local, é menos necessário que na Venezuela. É disto também que se queixam outros povos hospedeiros em relação a grandes comunidades que nunca chegam a aprender a língua local - nos Estados Unidos, por exemplo, encontrei várias pessoas que não sabiam falar inglês, apenas castelhano ou chinês, porque vivem maioritariamente na sua comunidade, embora num país estrangeiro. Quem recebe essas comunidades sente-se acossado - anúncios publicitários na língua estrangeira por todo o lado, no seu país, incomoda alguns e eu compreendo as razões desse incómodo.

Fundamentos à parte, para o facto dos meninos portugueses insistirem em conversar em português, quando afinal estão em país estrangeiro e de eu perceber as razões do incómodo luxemburguês (talvez seja uma sensação de invasão), a história do castigo é que me incomoda. Se querem que os meninos fiquem devidamente integrados na cultura e língua luxemburguesas, poderão tomar outras medidas que não os castigos, vale?

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