Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Conto - A câmara pornográfica

por Jorge Soares, em 17.11.18

pornográfica.jpg

Quando Lobato faleceu ninguém tinha ou sabia da chave do escritório, e evitando a janela lateral, pois situava-se o apartamento no oitavo andar, viúva e neto recorreram a um chaveiro com a finalidade de ordenar o seu espólio. Sendo ele investigador de polícia, adentraram o recinto na expectativa de relatórios, inquéritos e documentos, mas ali debateram-se com outro espetáculo: era o crepúsculo de uma quarta, e nem o sol moribundo como fonte de iluminação deixou de projetar nas muralhas daquele covil um sem número de silhuetas lascivas, concebidas a partir dos periódicos estocados em caixas e armários, tantas as revistas eróticas quanto as categorias de depravação.

A viúva, mulher franzina e apagada, cheia de hesitações, se não foi molestada pelas protuberâncias e quinas o foi pela simples existência, pelo que viu e sentiu ao defrontar-se com as obsessões do falecido. Colocou uma das mãos na testa e a segunda no peito, e acudida pelo neto, que antes enxotou o animado chaveiro, sentou-se de cócoras.
 
Ai, ciciou Helena, como dói.
 
Tamanho susto resultou no cancelamento da missa de sétimo dia e no silêncio dos familiares, e já então, graças à faxineira, conhecidos e desconhecidos discutiam o evento e os mal-intencionados atribuíam tais indecências à viúva e não ao velho. Roger, o neto, desdenhando as fofocas e servindo-se do sono barbitúrico de sua avó, com interesse técnico folheou uma ou duas, ou três ou trinta, e ao decidir livrar-se delas recorreu a um terceiro, desembolsando o triplo do acertado quando o mesmo viu as gravuras e recusou-se a trabalhar.
 
Ante o sorriso do porteiro levaram-nas dentro de caixas e despejaram-nas numa carroça, e depois de seis viagens o aposento enfim cintilava, em harmonia com o crucifixo acima da janela. Por ela ingressavam os raios da tarde silenciosa, destacando-se nos móveis um suor endurecido como cera de vela, estrias feitas à unha e, no chão, entre os ladrilhos de madeira, fios de musgo, e isso viu Helena da última leva sair. À noite sua ínfima compleição assumiu outra estatura sobre a cama, onde esparramou-se alegre, satisfeita, joelhos escancarados e ventre arejado, dir-se-ia uma vítima de atropelamento. De manhã acordou com os automóveis, e após saborear o café armou-se de esfregão e balde, decidida a tornar o escritório habitável. Para lá foi assoviando, e sua felicidade excedia, e muito, o luto, não mais expresso na escuridão dos trajes ou no cansaço do rosto, resultando esse sentimento de uma ingenuidade e devoção animalesca ao presente. Saltitante, largou os utensílios ante a porta, e de abrir a fechadura esmoreceu: o quarto, novamente, estava atulhado de revistas pornográficas.
 
Ao vir em seu auxílio, o neto, impaciente, questionou-a, indagou se não era ela quem servia-se da ocasião com o intuito de jogar fora as suas, e só suas, imundícies, mas a velha, usando de argumentos lógicos e lúcidos, demonstrou que não teria a força exigida para movimentar tanto peso, ou mesmo que as dimensões do apartamento não comportariam tal volume.
E, de noite, não ouvi nada, assegurou.
Ríspido e nervoso Roger chamou o papeleiro, que ao ir embora em sua carroça era acompanhado por um séquito de bêbados alvoroçados, malucos desnudos e crianças peçonhentas, todos enfrentando as chicotadas do condutor e disputando as brochuras que porventura caíam. Essa madrugada Helena enfrentou desperta, virando-se e explorando os limites da cama, ouvindo os roncos do neto que, desconfiado da avó, pernoitou na sala e com a aurora redescobriu pela terceira vez o aposento atulhado de publicações, um pôster orgiástico exibindo-se num dos armarinhos.
 
Mas isso é o cúmulo, ralhou ele, e Helena lacrimejava ao seu lado.
 
Desconsolados, neto e avó sentaram-se e discutiram a ocorrência. Bebericando água com açúcar, chegaram à conclusão de que nenhuma hipótese verossímil explicaria o fenômeno, e por fim reputaram o mesmo a uma assombração. Helena prontificou-se a convocar o pastor local, Benício, e feita a ligação telefônica no mesmo dia o religioso adentrava a sala e alisava as revistas com o cuidado de quem maneja explosivos. Era um homem de noventa anos, forçado à pequena estatura pelo tempo, mas outrossim enérgico, com mãos translúcidas e compridas, desproporcionais ao corpo. Disse ele que não era aquele um caso de assombração ou possessão, era sim a mítica figura da câmara erótica, descrita no evangelho apócrifo de Rocco e nas crônicas de Zabed, o sábio, além de mencionada em numerosos episódios da história ocidental e oriental.
 
Essa câmara, essa distinção arquitetônica, disse ele, é a manifestação sexo-espacial do universo, um local destinado às múltiplas variantes carnais existentes. Secando o canto da boca com seu lencinho, também disse que alguns eruditos inferiam a possibilidade de tais recintos serem expurgados via liturgias heréticas, e a terminar seu discurso trancou-se no aposento e enfrentou a madrugada e sabe-se lá quais e quantos demônios, com as últimas estrelas assomando dali abatido, o braço direito caído e sem forças.
 
O rito falhou, confessou ele à viúva enquanto Roger encaminhava-se ao escritório. O rito falhou. Envolvia seus olhos avermelhados uma bolsa de escuridão, e trêmulo e fora de si quis tascar um beijo sulfuroso, final, em Helena. Lutaram os dois, e arranhando-o de cima a baixo, chutando-o na canela, conseguiu expulsá-lo dali. Roger, retornando do quarto, ao ver a avó perguntou se Benício fora embora, pois nada ouvira do embate. Ela nada falou, abatida, somente abraçou o neto e entreviu, no bolso de sua calça, uma revista enrolada.
 
Vou descansar, disse, soltando-o, e evitou seu rosto. 
 
Mas e a senhora não sair um pouco, esquecer esse lugar, indagou ele.
 
Helena recusou a oferta. Queria dormir, descansar, e de Roger sair, convencido, agarrou ela um frasco de álcool e uma caixa de fósforos e dirigiu-se ao escritório. Sentou-se na cadeira do falecido, rota e rasgada mas nunca rangente, e dali observou o local. Premiam-lhe os lábios a infeliz musculatura da boca e uma maçaroca de rugas acinzentadas. Suspirou a viúva, avó e mulher, e pegando do chão uma publicação intitulada ‘Colegiais Japonesas Albinas e Tentáculos de Outro Mundo’, massageou os seios combalidos e deu-se por vencida.
 
As de copas
 
Retirado de Samizdat

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:47



Ó pra mim!

foto do autor



Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D