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Conto - Histórias de sonhos

por Jorge Soares, em 21.02.15

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Eu a conheci num lançamento de livro. A música que tocava era diferente de quase tudo que estamos habituados. Música contemporânea experimental, creio que era este o nome. Enquanto muitos pareciam estranhar, ela demonstrava prazer e alegria. Logo soube que tinha a ver com seu neto, que foi morar nos Estados Unidos justamente para estudar esse tipo de música. 

 

Da música e do neto passamos a falar de outros assuntos, e ela começou a contar episódios de sua vida. A neta bailarina e estudante de Jornalismo, que sofreu por ficar em segundo lugar num processo seletivo de uma companhia francesa de balé. Suas comunicações com o neto via Skype, que pede conselhos a ela, não aos pais.

 

Até que falou de sua recente viuvez, surpreendendo-me. Até então, era toda risos e brilho nos olhos, inclusive no esquerdo que, cego, nada azulando à deriva em seu globo. Perdeu o marido há onze meses. Estava tudo preparado para a comemoração, era o aniversário dele, 18 de março. Salgados, doces, doces dietéticos, refrigerantes, sucos, cerveja. Todos estavam chegando quando uma das noras, médica, reconheceu algo estranho no rosto de Jorginho (era chamado assim desde criança). Pediu licença à sogra para levá-lo ao pronto-socorro, coisa breve, só pra dar uma garantida de que estava tudo certo. Não estava. O que era para ser uma ida rápida foi consumindo o tempo até a festa ser desmontada, a comida e a bebida doadas para um asilo vizinho. Ninguém queria mais comer, seu Jorginho fora internado. A diabetes, que o acompanhava há quarenta anos, complicara.

 

Seu Jorginho não saiu mais do hospital. A mulher o visitava diariamente, sem sentir a densidade do real que surgia sem gentilezas. Uma sobrinha, psiquiatra, orientou os filhos a administrarem ansiolíticos em meio aos remédios muitos que ela também tomava. Não percebia que o marido morria.

 

Sem que o casal desconfiasse, os filhos os filmaram caminhando pelos corredores do hospital, captando, eternizando a doçura com que aquelas mãos se tocavam, o sorriso no rosto dele, que lhe dizia Você é tão linda, meu amor, e eu te amo tanto, tanto. E ela então respondia Eu também, eu também. E os dois riam, porque era assim há sessenta anos.

 

Depois de dez dias Jorginho morreu. De início levaram-na para os filhos, ficou uns meses longe de sua própria casa, viajou bastante, mas estava de volta.

 

Onze meses para ter o primeiro sonho com o marido. Deitara-se pouco depois das onze, uma amiga fazendo companhia. A voz foi vindo de muito longe. Te amo, meu amor, te amo, te amo. Falando, falando, até ela acordar assustada – enternecida, mas assustada, devia ter dormido muito, ele a chamava, os remédios, ela tinha que tomar o antibiótico às sete. Sentou-se na cama para enxergar o rádio-relógio, apenas uma da manhã.

 

Quando finalmente amanheceu contou o sonho para a amiga, que opinou fosse algo que Jorginho ainda lhe precisasse reforçar. Nessa parte da história minha amiga tem os olhos transbordando, ainda mais azuis. Porém logo sorri e diz que eu não poderia imaginar, mas uma das netas, a mais namoradeira, completou pela primeira vez um ano ininterrupto de namoro e veio falar que gostaria de lhe apresentar o rapaz, só pedia que não se assustasse. Pensou em tudo: tatuagens, piercings, até drogas.

 

Nada disso, o moço parece bonzinho que só. Tem o mesmo nome e apelido do avô, Jorginho. Minha amiga esclarece que é muito católica, não acredita em reencarnação nem nada parecido, mas a coincidência a divertiu. Ela que só conheceu Jorginho, ambos com catorze anos, fala, sorridente e de novo serena, que nunca foi namoradeira, mas o marido sim. Adorava dançar e namorou várias, mas sempre lhe dizia É com você que quero casar. E casou. Ela não gostava de bailes, ele parou de ir. Ele gostava de falar de futebol e política, ela não. Eram bem diferentes nessas coisas, por isso ela sorri ainda mais e me joga a pergunta Não dizem que os opostos se atraem? Então, é verdade, responde a própria indagação de imediato. Nessa hora a música para e levantamos, é hora de comprar o livro, pegar autógrafos, tirar fotos.

 

Marina Silva Ruivo

 

Retiradp de Samizdat

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publicado às 22:30


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