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Lembram-se daquele "custe o que custar" de Passos Coelho? ...para ler e reflectir

 

"Estou desmotivado… mais! Estou revoltado!


Porquê? Tentando fugir a toda e qualquer subjetividade, vou-me restringir a factos (sem respeitar um acordo ortográfico que assassina a minha língua materna):

 

1. Tenho 38 anos, sou Médico há 15 anos. Possuo uma especialidade em Anestesiologia, uma subespecialidade em Medicina Intensiva e a competência em Emergência Médica. Gosto do que faço!

 

2. Recebo menos de metade de quando acabei a especialidade há 8 anos. É um facto. Para receber o meu ordenado base limpo tenho de acrescentar em média 100 horas extras por mês. Trabalho assim 65 horas por semana a uma média de 9 euros por hora. É um facto.

 

3. Este ano estive de serviço no dia de Natal, o ano passado fiz o 31 de Dezembro. É um facto. Nesse dia de Natal fui insultado pelo familiar de um doente que não concordou com o horário da visita do meu serviço. É um facto. Tenho um filho com 5 anos e não tenho dinheiro para pagar o infantário a um segundo que não tenho. É um facto.

 

4. Pertenço à minoria de Portugueses que paga impostos, e como sou considerado rico o meu filho paga mais na creche que muitos outros… pelo mesmo serviço, porque não come mais, nem come antes. É um facto.

 

5. Todos os dias tenho de tomar decisões clínicas que determinam a vida e a morte de pessoas ao meu cuidado. É um facto. Hemorragias aneurismáticas, como as do mediático caso do David, são apenas um exemplo das situações que eu e os meus colegas temos de tratar o melhor que sabemos e podemos. É um facto.

 

6. Mesmo sendo médico limito-me a comentar profissionalmente situações que são da minha área de diferenciação. A Medicina é tão vasta que se comentar situações ou acontecimentos de outras áreas sei que vai sair asneira. É um facto.

 

7. Vivo num País em que quem comenta o penalti e o fora de jogo acha que sabe o suficiente para ditar o certo e o errado naquilo que faço todos os dias. Em que aqueles técnicos de ideias gerais, a quem chamamos jornalistas, e os seus amigos comentadores profissionais, se sentem à vontade para “cagar lérias” sobre aquilo que desconhecem e não têm capacidade técnica para apreciar. É um facto. Por mais de 9 euros à hora… Julgo eu, porque nunca me mostraram o recibo de vencimento!

 

8. Trabalho num serviço de saúde onde tenho de improvisar a toda a hora porque o fármaco x e y “não há” (Ups… estamos proibidos de dizer que não há!). É um facto. Onde temos vários ventiladores de 30 mil euros avariados (um deles há mais de 1 ano!) porque “ninguém” pagou a manutenção. É um facto. Eu levo o meu carro à revisão todos os anos e pago. É um facto.

 

9. No dia em que o que me pagarem para ir trabalhar não for o suficiente para a despesa da gasolina e do estacionamento ( como concerteza acontece com algumas equipas de prevenção específicas do SNS), não o farei. É um facto. Isso não retira qualquer valor ao juramento de Hipócrates, nem a Lei obriga (ainda!) ao trabalho escravo. É um facto.

 

10. Se eu estiver doente e precisar de assistência prestada pelos meus colegas no SNS tenho de pagar taxa moderadora, ao contrário de muitos outros… É um facto. E se andar de comboio, como não sou trabalhador da CP também pago. É um facto.

 

11. Eu e os meus colegas trabalhamos mais doentes que muitos doentes que são vistos no serviço de urgência. É um facto. Vivo numa região em que qualquer dor de dentes, grão no olho ou escaldão da praia vai para a urgência do hospital numa ambulância de emergência médica. Muitas vezes com a família no carro imediatamente atrás da ambulância. E sem pagar um tostão. É um facto.

 

12. No hospital em que trabalho existem mais de 100 camas de agudos ocupadas com as chamadas “altas problemáticas”. Situação que se arrasta há vários anos e legislaturas e cuja resolução (política) escapa aos mais dotados. É um facto.

 

13. Vivo numa região em que se gastam muitos milhões em fogo de artifício e marinas abandonadas, sem existir contudo dinheiro para um monitor e um ventilador de transporte para a sala de emergência de um hospital dito central e centro de trauma certificado. É um facto.

 

14. A descoberta das vacinas constitui um dos maiores avanços da Medicina do século XX e a implementação de um plano de vacinação global para a população é um marco histórico de qualquer civilização, contribuindo para a redução da mortalidade infantil e aumento da esperança de vida. É um facto. Vivo num país que já não consegue garantir uma cobertura vacinal completa e atempada às sua crianças. Um retrocesso de gerações… um sistema podre e decadente. Não vejo os noticiários abrirem com esta notícia. É um facto. O meu filho não fez a vacina da difteria, tétano e tosse convulsa aos 5 anos. Não há… Talvez para o ano. É um facto.

 

15. E por tudo isto estou revoltado… É um facto.


Funchal, penúltimo dia de 2015.
Ricardo Duarte. Cédula da Ordem dos Médicos 41436"

 

Retirado da Visão

publicado às 23:00


1 comentário

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De Anónimo a 12.01.2016 às 22:27

pronto pronto, descobriu-se a indignaçao agora as redes sociais andam atrasadas........ sempre

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/medicos/a-carta-de-um-medico-que-se-despede-de-portugal

12 novembro 2014

A carta de um médico que se despede de Portugal

Centenas de médicos estão a sair do país. Empresas de recrutamento e governos estrangeiros encontram cá o cenário ideal: profissionais bem formados e com condições salariais que conseguem ultrapassar facilmente

Erique Guedes Pinto está de malas feitas. Sexta-feira parte para Inglaterra, onde vai liderar uma equipa de radiologia de intervenção, num hospital do sistema de saúde britânico. Desistiu, finalmente, após uma luta de dois anos para ser contratado como especialista no Hospital Amadora-Sintra. É só o último a pedir certificado à Ordem para ir embora.

«Ao longo de todo este tempo, vim sempre recusando vários contratos internacionais que me foram propostos (…) Mas, infelizmente, já não é possível encontrar mais motivação para continuar num país no qual a medicina está numa total e completa mercantilização», escreve, na carta de «despedida» à Ordem dos Médicos.

Cerca de 200 médicos portugueses emigraram só no primeiro semestre deste ano, uma tendência que tem vindo a acentuar-se, sobretudo entre os jovens especialistas. Lá fora, há empresas e governos muito interessados neles. Portugal é agora uma espécie de paraíso do recrutamento destes profissionais de saúde, como já o era dos enfermeiros.

«Há países que chegaram à conclusão que é mais rentável contratar médicos já formados do que formar médicos. Os médicos portugueses são muito bem formados e vão para fora ganhar salários 3 a 5 vezes mais altos, em média», explica à TVI24 o bastonário José Manuel Silva.

Segundo as contas da Ordem dos Médicos, o Serviço Nacional de Saúde vai perder para o estrangeiro pelo menos 400 médicos só este ano. Isto, contando que a tendência apenas se mantém, mas pode ser pior: «Com as campanhas mais recentes, vão emigrar cada vez mais».

No caso de Erique Guedes Pinto, demorou apenas uns dias a encontrar trabalho no estrangeiro. Na passada sexta-feira, a Administração Central do Sistema de Saúde deu o aval ao Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca para que o dispensasse. Uma semana depois, vai-se embora o único especialista em radiologia de intervenção desta unidade. «Desmantelaram completamente esta equipa por razões financeiras, mas até poupavam dinheiro ficando com este médico, porque ele fazia procedimentos em ambulatório, evitando que os doentes tivessem de ser operados», lamenta José Manuel Silva.

Os médicos que estão a emigrar são de todas as especialidades. Normalmente, estão no ativo e são sobretudo jovens especialistas, que têm um «salário extraordinariamente baixo, de cerca de 8 euros limpos à hora». «Este é um salário que não retribui minimamente o trabalho médico», constata José Manuel Silva.

Os anúncios de empresas de recrutamento no site da Ordem mostram que o dinheiro, lá fora, não é um problema. Entre esta segunda e terça-feira, representantes de hospitais da Arábia Saudita estiveram em Portugal a entrevistar algumas dezenas dos cerca de 200 candidatos com um grande trunfo: um salário entre os 8 e os 11 mil euros por mês, «livre de impostos», com alojamento garantido para a família, seguro de saúde familiar, «até 44 dias de férias», viagens pagas e mais «prémios». Mas não são os únicos interessados:

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