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Quero morrer lúcido!

por Jorge Soares, em 14.09.08

estrada da vida

 

Nunca fui pessoa de pensar muito na morte ou em morrer, não acredito no céu ou no inferno, acredito que está em mim tentar converter o meu mundo no céu dos que me rodeiam, porque inferno já ele é. A vida e a morte são dados adquiridos sendo que a segunda é o fim da primeira e chega quando tiver que chegar, não há muito mais a pensar.

 

No dia a seguir à minha operação no Hospital de Setúbal, o grande tema de conversa das enfermeiras era o senhor com 101 anos que estava internado. Por acaso, o homem foi transferido para o Outão na mesma ambulância que eu e para meu grande azar foi colocado na cama ao lado da minha.

 

No inicio no Outão, todas as auxiliares e enfermeiras acharam imensa piada ao homem, um algarvio de 101 anos que consegue dizer o ano em que nasceu  e que até está lúcido ao ponto de exigir ir mesmo fisicamente à casa de banho apesar da perna partida, é uma enorme novidade. Na verdade o homem não estava assim tão lúcido, a mudança de hospital para ele foi algo muito confuso e apesar de que o primeiro dia foi pacifico, a primeira noite foi um autêntico inferno, nem ele nem nenhum dos que estávamos na enfermaria dormimos, as enfermeiras e auxiliares também não e claro, a coisa deixou de ter piada. Na verdade houve um dia em que me apeteceu colocar duas senhoras na ordem, tal o desleixo com que tratavam o homem.

 

Nos dias a seguir o senhor foi acalmando, quando percebeu que o "dono da casa" não ia aparecer para pôr ordem como ele exigia, que as enfermeiras e auxiliares não o levavam à casa de banho e portanto tinha mesmo que utilizar a arrastadeira, que o dia era para estar sentado e não deitado para ver se a noite era para dormir, que a cama não ia cair apesar de a ele lhe estar sempre a parecer, etc,etc, etc.

 

Ao terceiro ou quarto dia dei por mim a pensar que não quero chegar aos 101 anos, não assim, quando deixamos de ter vida e de ter capacidade para viver por nós; quando deixamos de conseguir comer ou realizar as tarefas básicas que nos garantam o minimo de conforto, deve ser a altura de decidir que já vivemos e que é a altura de deixar os outros viver.

 

Jorge

PS:imagem retirada da internet

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publicado às 22:43


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