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ABANDONO.jpg

 

Ainda na infância, aqueles amigos umbilicais descobriram-se apaixonados. Juraram-se, acreditaram-se, o relógio adiantou ponteiros, anelaram-se, casaram-se.

 

Os anos passaram apressados: o desejo queimou o primeiro; a sede bebeu o segundo; a fome comeu o terceiro. Quatro anos e as bocas frias ruminavam; os corpos gritavam em silêncio pelo pequeno corpo que não lhes chegava. À  parteira, menos um  luz para mostrar; ao padre, uma falta na pia batismal no domingo; ao Mundo, uma ideia negada; ao casal, uma chupeta e dois pesinhos para medir os limites da casa.

 

Não queriam adquirir choro que não lhe fosse proveniente dos próprios olhos. Acreditavam que, com isso, teriam de se acostumar à vereda que o pequeno desconhecido traria desenhada. Todos os planos davam para um filho; todos os meses davam para o fracasso.

 

Uma noite, enquanto viam TV na sala, escutaram um choro primário vindo do jardim. Sufocado entre flores e espinhos, formigas e grama úmida, chegou a casa aquele minúsculo ser de olhos ainda fechados.

 

E por ali descobriu para que servem os pés, subiu as escadas, dormiu sozinho, espremeu a primeira espinha, dormiu junto a uma estranha sorrateira, desceu para ser calouro, subiu com o diploma, beijou os pais, partiu para longe, encontrou o útero que lhe fermentou, libertou-o da prisão, ofereceu-lhe casa, chama-o carinhosamente de“mãe”.

 

Longe dali, um par de cabelos brancos, ainda de luto, lamenta o que poderia ter sido, e foi.

 

Lúcia Costa

Retirado de Conto Outra

publicado às 21:13

menina-triste.jpg

 

Imagem de aqui

 

Adopção:

Criação, por sentença judicial, de um vínculo jurídico semelhante ao que resulta da filiação natural, independentemente dos laços de sangue;filiação legal

In Infopédia

 

O assunto foi noticia na TVI e no Correio da manhã e foi-me aparecendo no Facebook em forma de comentários isolados principalmente  de estupefacção por parte das pessoas.

 

Segundo o que pude perceber, um casal de Vila Real enviou para um centro de acolhimento uma criança de 12 anos  que tinha adoptado há quatro ou cinco anos, porque alegadamente esta teria mau feitio. A criança tinha sido adoptada junto com um irmão que por incrível que pareça, o tribunal permitiu que continuasse a viver com os mesmos senhores.

 

Há aqui algumas coisas que é necessário esclarecer, não consegui perceber se estas crianças foram adoptadas com adopção plena ou não, mas caso tenham sido, a adopção é um vínculo definitivo, depois de decretada é para sempre o que estes senhores fizeram além de que não tem nome, ao contrário do que foi dito na comunicação social, não é uma devolução, as devoluções ocorrem antes de que seja decretada a adopção, depois disso não há forma de desfazer o vínculo e se alguém lhe quiser da rum nome terá que ser abandono.

 

O que este senhores fizeram foi pegar num dos seus filhos e atirá-lo porta fora, como se este fosse um electrodoméstico avariado, a miúda tinha defeitos, tinha mau feitio, por isso já não a querem... 

 

Eu já disse aqui mais que uma vez que, pelo menos para mim, não há filhos adoptivos e biológicos, há filhos ... e sei por experiência que não há filhos fáceis. Ser pai é muito complicado, muito caro e completamente estafante, há muitos dias em que nos apetece gritar e/ou fugir, mas se há coisa que nunca me apeteceu foi pegar nos meus filhos e atirá-los porta fora, porque isso vai contra o meu coração e contra o amor que tenho por eles.

 

Evidentemente não conheço estes senhores de lado nenhum, mas está à vista que para eles a adopção é algo diferente do que é para mim e para todos os pais e mães adoptivas que  conheço, nós adoptamos para ter filhos, alguém que faça parte de nós e connosco forme uma família, para eles não sei o que será, mas de certeza que não é de forma alguma ter filhos, porque ninguém faz a um verdadeiro filho o que eles fizeram.

 

No meio de tudo isto há algo que para mim é completamente inexplicável, como é que depois de algo assim, o tribunal permite que a outra criança continue a viver com eles? O que estará este a sentir ao saber que a sua irmã foi descartada da família desta forma? Como é que se explica a uma criança que a sua irmã tem defeitos e por isso foi abandonada? Por favor alguém tenha juízo e volte a juntar os dois irmãos, de preferência na instituição, porque quem não consegue amar um, de certeza que não consegue amar o outro, além disso, tenho muitas dúvidas que estes senhores alguma vez tenham olhado para estas crianças como seus filhos.

 

Jorge Soares

publicado às 21:38

Conto - O menino

por Jorge Soares, em 18.04.15

omenino.JPG

 

 
São os olhos dele que não me deixam dormir. Os olhos opacos, estáticos, engessados, pousados na ausência. Eles não pedem, esses olhos. Não se movem em buscas. Sabem que seja nos arredores, seja no imensurável do longe, o que há é o nada. Não, não é. Antes fosse o nada. Esse vazio que não acalenta, mas que também não dói. O que cerca esses olhos vazios é o tudo. O inalcançável e esfuziante colorido do tudo. Que não lhe pertence. 
 
Ele apenas desistiu. Sabe que os vidros das vitrines foram feitos para promover o apartheid do pão. Ele sabe — aprendeu nas aulas de cotidiano — que lugar de menino pobre e preto é no sinal dos cruzamentos, nos montes de lixo, nos becos do morro, no papelão das caixas desmembradas em camas, na porta dos cafés pedindo um trocado e ganhando deboche. E limpa com cuspe o sangue do dedo que machucou na véspera. E cheira um pouco de thinner pra matar a fome que nem é de véspera. E não volta para o barraco pobre onde vive com a mãe porque lá agora tem um homem que faz a sua mãe de pasto, e que faz os filhos da sua mãe de pasto. 
 
Ele não quer olhar mais nada. Não quer ver o que não pode ter. Nem quer ver o que incomoda. Como a piedade nos olhos da mulher que lhe trouxe comida. Foi ontem? Ou anteontem? Ela passou as mãos nos seus cabelos sujos e emaranhados e sorriu e perguntou o nome dele e sorriu de novo. Depois lhe deu a marmita embrulhada num saco de plástico branco. E ele não aguentou. Sentiu o corpo esquentando, tremendo, se preparando para um abraço que não existiria. Mas existiu. Existiu, sim. E aí ela foi embora. Tinha mesmo que ir. Todos vão. 
 
Por isso ele não quer mais ver. Não ia suportar outro sorriso. Não para depois ter que olhar novamente para a feiura das calçadas cheias de escarros. Ter que olhar para a lata de cola, para os pés descalços, para o dedo sujo de sangue que ele vai limpar mais uma vez com a saliva grossa. Ele não quer mais ver o sol que é amarelo como o dos desenhos dos meninos que ele viu no mural do pátio da escolinha. Viu pela grade. E achou bonito. E quis ter lápis de cor de ponta afiada para desenhar um sol para si mesmo. Para guardar no bolso do short surrado e iluminar o breu do medo.
 
Ele não quer mais ver o que é bonito. Nem o céu cheio de estrelas, nem as nuvens gordas e brancas, nem os desenhos dos meninos, nem o sorriso da moça que acarinha os seus cabelos. Ver é sofrimento. Desejo de mais. E ele não quer, não pode. 
 
São os olhos dele que me mordem os sentidos. Até ontem, opacos, apáticos, tão cheios de renúncia. Hoje, dois buracos fundos de onde escorre o sangue ainda vivo que ele limpa com saliva. Dizem que furou com um lápis de cor. Para desenhar um sol por dentro.
 
Ele agora quase sorri. Eu sigo adiante. Com os meus olhos culpados
 
Cinthia Kriemler
 
Retirado de Samizdat

publicado às 21:44

Ninguém espera por mim?


 

Esta carta já por aqui passou, na altura 4 ou 5 pessoas mostraram-se interessadas e pediram-me os contactos do centro de acolhimento, fiquei com esperança que alguma delas fosse mesmo adoptar ...esta semana enviei um mail à responsável do centro de acolhimento para perguntar se tinha havido desenvolvimentos, a resposta foi que tinha havido um mail a pedir informações, nada mais... 

 

Estas coisas deixam-me triste, há tanta gente que me diz que quer adoptar, há tanta gente que se queixa do tempo de espera... no outro dia houve quem me recriminasse porque fui duro naquele post O que é um processo de adopção?, há quem diga que fui injusto com as pessoas, fui? e não estaremos todos a ser injustos com esta criança e com todas as outras que anseiam por uma família?

 

 

Ninguém  espera por mim?

 

Olá,

 

Resolvi escrever-te porque sei que deseja ter um filho. Não, eu não sou o bebé com que tu sonhas….. já não uso fraldas, não como papas….. mas ainda sou uma criança e queria tanto ter um papá e uma mamã. Já não me lembro bem, mas um dia fiquei só …. E ficar sozinho no mundo com a minha idade é muito triste.

 

Vivo desde essa altura (já vão 10 anos) numa casa bonita, com muito meninos e meninas e há muitas senhoras muito simpáticas que tomam conta de nós. Mas continuo a sentir-me só ….. não tenho um papá e uma mamã…. e eu queria tanto….

 

Eu sei, não sou o bebé com que tu sonhas…. Mas sabes? Eu também sou como tu. Também sonho. Sonho que um dia vou ter uma mamã que me vai ajudar a escolher a roupa que vou vestir, que me vai a buscar à escola, que me vai contar historia, a aconchegar os cobertores e a dar-me um grande beijinho de boa noite….

 

Sonho que um dia vou ter um papá que vai andar comigo de bicicleta e me vai ver nas actividades da escola ….   e   …… eu vou ser tão feliz!!...


Quando isso acontecer…..

  • Vou deixar de chorar porque os meus colegas vão deixar de me gozar porque eu não tenho papá nem mamã;
  • Vou deixar de chorar quando me magoo porque a minha mamã vai dar-me um beijinho na ferida e vai passar logo;
  • Vou deixar de chorar quando um colega mais velho me bater porque vou ter um papá  para me proteger;
  • Vou deixar de chorar quando arranjarem papas para os meninos mais pequeninos…. Porque já não vou estar aqui, porque….. vou ter a minha família…. E vou dizer que tenho um papá e uma mamã.

Já sou grande mas ainda sou crianças. Bem sei que o meu futuro está hipotecado seja pela idade, tenho 13 anos, e seja pela saúde, tenho um problema de coração,

 

Mas continuo a desejar de poder ser ainda “um filho amado” …. conheces alguém que queria ser a minha mamã e o meu papá?.....

 

Tenho os contactos da pessoa que me enviou o mail  que facilitarei com todo gosto a quem se mostrar interessado, por favor divulguem, eu não quero perder a esperança de que conseguimos encontrar uns pais para esta criança.. não quero mesmo.

 

O meu mail é: jfreitas.soares@sapo.pt

 

Jorge Soares

publicado às 21:08

Menino abandonado

Imagem da Internet

 

 

O seguinte texto foi-me enviado pela responsável de um centro de acolhimento, é uma carta de uma criança que quer ser adoptada, uma criança que foi abandonada há muito tempo e que está assim, abandonada, até hoje.

 

Ninguém  espera por mim?

 

Olá,

 

Resolvi escrever-te porque sei que deseja ter um filho. Não, eu não sou o bebé com que tu sonhas….. já não uso fraldas, não como papas….. mas ainda sou uma criança e queria tanto ter um papá e uma mamã. Já não me lembro bem, mas um dia fiquei só …. E ficar sozinho no mundo com a minha idade é muito triste.

 

Vivo desde essa altura (já vão 10 anos) numa casa bonita, com muito meninos e meninas e há muitas senhoras muito simpáticas que tomam conta de nós. Mas continuo a sentir-me só ….. não tenho um papá e uma mamã…. e eu queria tanto….

 

Eu sei, não sou o bebé com que tu sonhas…. Mas sabes? Eu também sou como tu. Também sonho. Sonho que um dia vou ter uma mamã que me vai ajudar a escolher a roupa que vou vestir, que me vai a buscar à escola, que me vai contar historia, a aconchegar os cobertores e a dar-me um grande beijinho de boa noite….

 

Sonho que um dia vou ter um papá que vai andar comigo de bicicleta e me vai ver nas actividades da escola ….   e   …… eu vou ser tão feliz!!...


Quando isso acontecer…..

  • Vou deixar de chorar porque os meus colegas vão deixar de me gozar porque eu não tenho papá nem mamã;
  • Vou deixar de chorar quando me magoo porque a minha mamã vai dar-me um beijinho na ferida e vai passar logo;
  • Vou deixar de chorar quando um colega mais velho me bater porque vou ter um papá  para me proteger;
  • Vou deixar de chorar quando arranjarem papas para os meninos mais pequeninos…. Porque já não vou estar aqui, porque….. vou ter a minha família…. E vou dizer que tenho um papá e uma mamã.

Já sou grande mas ainda sou crianças. Bem sei que o meu futuro está hipotecado seja pela idade, tenho 13 anos, e seja pela saúde, tenho um problema de coração,

 

Mas continuo a desejar de poder ser ainda “um filho amado” …. conheces alguém que queria ser a minha mamã e o meu papá?.....

 

Tenho os contactos da pessoa que me enviou o mail  que facilitarei com todo gosto a quem se mostrar interessado.

 

Jorge Soares

publicado às 22:00

deixam  filha de dois anos abandonada no aeroporto

Imagem do DN

 

Imagine a situação, depois de todo um ano a sonhar com aquelas férias maravilhosas num lugar paradisíaco, você está com a família no aeroporto, prestes a apanhar o avião para finalmente poder sentir que está de férias. No último momento, mesmo quando o sonho se está a tornar realidade, você descobre que o passaporte da sua filha mais nova de apenas dois anos, não é válido e portanto ela não vai poder embarcar... o que faria?

 

Não há muitas respostas possíveis, assim de repente só me ocorrem duas hipóteses,  ou ninguém apanha o avião e depois vemos o que fazemos, ou a família vai de férias e eu fico com a mais nova para tratar do assunto, deve haver uma forma qualquer de ir ter com a família mais tarde.

 

Bom, na realidade há uma terceira hipótese, quem tem os documentos em dia vai de férias, quem não tem, fica em terra.... pois, há aquele detalhe de estarmos a falar de uma criança de dois anos... mas há quem não veja problema nisso.

 

Segundo o DN, aconteceu na Polónia, numa situação destas ... Uma menina de dois anos foi deixada em lágrimas no aeroporto em Katowice, na Polónia, enquanto o resto da família foi de férias para a Grécia.


Ainda segundo a notícia, a menina estava histérica quando se apercebeu que a família ia de férias e ela ficava ali sozinha, mas isso não demoveu pais e restantes familiares, que apanharam o avião e a deixaram mesmo em terra.

 

Há coisas que são até dificeis de comentar, eu não consigo imaginar que existisse algum motivo que me fizesse deixar um dos meus filhos para trás, muito menos para ir de férias. 

 

Mas que raio se passa com o mundo e com as pessoas, como é que chegamos a um ponto em que uns pais preferem deixar uma criança de dois anos sozinha e abandonada num aeroporto do que abidcar de uma viagem de férias?

 

Jorge Soares

publicado às 21:13


Ó pra mim!

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Mail: jfreitas.soares@gmail.com






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