Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Conto de Natal - O sol subindo na noite

por Jorge Soares, em 20.12.14

natal.jpg

 

Imagem de aqui 

 

A menina aparece como uma figura minúscula no pequeno adro da igreja. O homem é uma bola. Matéria humana enrolada. Está debruçado sobre o próprio frio, a fome, a vergonha, a tristeza, a revolta. É isso que a menina vê quando ele desembrulha o corpo e se volta para ela com os olhos encovados. Não sabendo nada do que espera um adulto, ela vê que aquele adulto está desapontado com a vida e consigo mesmo. Está velho, tem o rosto pesado de rugas.

 

Sendo um desconhecido, na sua história e naquela ocasião de o encontrar abandonado por ali como nem os animais se viam – ela, pelo menos, nunca tinha visto -, havia qualquer coisa de familiar. Era, afinal, um episódio com algo de fundador. Nas mais simples histórias tradicionais, em muitas das histórias infantis, a tragédia era o maior motor do carácter humano e a bondade um poderoso instrumento de felicidade.

 

A desgraça, que podia ser como uma espécie de clima particular em que sobre alguém chovia sem parar, já a pressentia; tinha ideia de alguns segredos se movimentarem por vezes pela sua casa.

 

Entre o homem e a menina, está uma enorme pilha de lenha, em formato piramidal, a base criando um círculo gigante no centro da praça. Ergue-se já à altura dos sinos da igreja. A menina veio ver quanto cresceu a pirâmide na última hora. O homem espera que venham acender a grande fogueira, como um sol na noite. A aldeia inteira está recolhida, prestes a começar a ceia de Natal.

 

A menina então desvia o olhar e corre para casa com as pernas nervosas. O homem dobra-se novamente, aquece as mãos com o sopro da boca.

II

Quatro horas depois, a menina batia palmas ao encanto do fogo. Subindo, subindo, fez-se um clarão de apagar estrelas. Quando o frio se sentia instalando como sincelo nas costas, ela rodava sobre si mesma, dando a cara ao resto da noite. Depois tornava a virar-se e a sentir o quente até dentro da boca quando se ria. Estendia as mãos para a fogueira e virava-as de um lado e do outro como carne a assar. O círculo estava completo de gente, o adro da igreja ruidoso. Os rapazes da aldeia desapareciam à vez para repicar os sinos. Tudo acontecia como planeado, como em todos os Natais, porque na aldeia sempre mantinham a tradição.

 

 

 

SUSANA MOREIRA MARQUES

 

Retirado do Público

publicado às 20:56

Bem vindos a Beirais

 

Imagem de aqui

 

Não sou nada dado a telenovelas e há bastante tempo que tirando as noticias e um ou outro programa da RTP2, não via nenhum programa da televisão nacional, cá por casa os serões eram passados entre a blogosfera e os canais das series. Até que na RTP começou a dar Bem-vindos a Beirais.

 

Beirais é uma aldeia tipicamente portuguesa, o primeiro que nos chama a atenção é que fica algures entre as serras do Minho ou das beiras, rodeada de montanhas, rios com cascatas  e campos verdes cheios de flores, mas tem o aspecto de uma qualquer aldeia saloia ou alentejana.

 

O que nos mostra a série é o dia a dia de uma aldeia cheia de histórias e peripécias, entre os protagonistas podemos ver todas as personagens típicas que existem em qualquer aldeia, desde o padre e as beatas da igreja até aos jovens que que apesar de viverem longe dos meios urbanos não deixam de ser jovens actuais com os mesmos sonhos e preocupações que qualquer outro jovem citadino da mesma idade.

 

A série, que está exemplarmente escrita e melhor interpretada, aborda de uma forma muito bem disposta sem deixar de ser de uma forma seria, um tema diferente cada dia.

 

Já por ali passaram temas como o celibato e o casamento dos padres, a homossexualidade, a violência de género, os perigos da internet e das redes sociais, os interesses políticos, a emigração dos jovens e um largo etc.

 

Tudo isto muito bem enquadrado na historia de vida das diferentes personagens que vão desde o empresário citadino que deixa tudo para trás e vai viver para o campo, até aquela senhora que existe em todas as aldeias que conhece todas as ervas e mesinhas, passando pelo médico, pelos guardas, os cangalheiros, a senhora da mercearia, o senhor da oficina, o barbeiro....

 

Sei que a série dá à mesma hora que na concorrência passam as telenovelas, mesmo assim está a levar a RTP a níveis de audiência que não tinha neste horário há muito tempo, um verdadeiro caso de sucesso da produção nacional, tudo isto com excelentes actores portugueses de todas as gerações.

 

Em resumo, se um dia eu quiser mudar de vida, deixar tudo para trás e ir viver para um sitio tranquilo mas ao mesmo tempo moderno, é de certeza para uma aldeia como a que é retratada na série que eu vou querer ir.

 

Bem haja por quem consegue fazer coisas diferentes e com muito valor na televisão Portuguesa, afinal em Portugal as televisões não são todas iguais.

 

Jorge Soares

publicado às 22:40


Ó pra mim!

foto do autor



Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D