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Conto - a teia de renda negra

por Jorge Soares, em 06.04.13

A teia de renda negra

Imagem de aqui


a teia de renda negra

 

Tomava agora mais um cálice de vinho, sabendo que já ultrapassara há muito aquele que constituía o limite do que seria próprio ou não. Esperava, como sempre, por ele, que não se dava ao trabalho de respeitar a etiqueta, deixando-a frequentemente aguardando nos restaurantes, via de regra isolados, já que não podiam ser vistos juntos.

 

Conhecera-o no aeroporto, terra de ninguém, onde se tem a impressão de poder mudar o próprio destino apenas observando, nos monitores, os horários de embarque para os diferentes lugares do mundo. Ele assobiava baixinho, num compasso um tempo mais lento do que o arranjo original, a música de sua vida. Ela virou a cabeça, querendo descobrir quem com ela compartilhava do mesmo gosto e que, sem saber, invadira o mundo de seus devaneios. Descobrira-lhe a senha e adentrara, sem cerimônia, um território cada vez mais bem guardado, impenetrável. Tamanha ousadia não ficara impune. Trocaram telefones, risos, prenúncio das muitas outras trocas por vir.

 

Impaciente, em parte pelo atraso do amado, em parte pela melancolia trazida pelas recordações, consultou o relógio, jurando que só esperaria mais cinco minutos. Que viraram dez, quinze, vinte... Quando ele chegou, percebeu de imediato o que aquele atraso lhe custaria. Ela trazia os olhos borrados, indício claro de que tinha chorado. Tirou-a rapidamente dali, e seguiram para o local de sempre.

 

Deitado enquanto ela tomava um banho, deslumbrou-se ao ver a nova lingerie que ela havia comprado. Tudo bem, ela sempre fora lindíssima, argumento com o qual ele justificava a fraqueza, e assim a vinha enrolando há quatro anos. Mas naquele dia ela parecia especialmente bela. Irresistível, ele diria. Talvez se ela lhe pedisse hoje, ele resolvesse de vez a situação. Não queria se separar, mas também não podia mais viver sem ela.

 

Mas ela não lhe pediria nada. Cansara-se das promessas vãs, tão falsas quanto o anel que ele lhe dera no Natal passado.

 

Amaram-se como nunca naquela tarde, com a urgência do desejo e com a calma da derradeira vez. Sim, porque ela planejava deixá-lo. Tencionara que esta fosse a despedida, e nem dessa vez o canalha chegara na hora. Hoje diria o definitivo não, a partir do qual pretendia iniciar uma nova fase em sua vida.

 

Com a negligé negra e com um jeito sacana no olhar, ela dirigiu-se a ele. Parou, no meio do caminho, para se servir de mais uma taça de vinho. Ele tentou impedi-la, argumentando que ela já bebera demais, que ia passar mal... Ela então esbravejou, dizendo que para ele não faria a menor diferença, que as ressacas ela costumava curar sozinha, já que ele nunca estava mesmo por perto quando ela precisava, como da vez em que ela abortou, por insistência dele, o filho que esperava. E em sua revolta, tão maior porque misturada à mágoa e à paixão, ela quebrou a garrafa de vinho e o feriu. A embriaguez não lhe tirou a capacidade de perceber que ele morria. Ajoelhando-se, colocou-lhe a cabeça no colo, ninando-o, como teria feito com o filho de ambos. O sangue misturou-se à renda negra da lingerie, que parecia uma imensa teia. Como a aranha, espécime que executa o macho após o acasalamento, ela pusera fim à angústia de esperar que ele ligasse no dia seguinte. Entretanto, havia uma irônica diferença: nem viúva-negra ela era, já que ele nunca fora, realmente, seu.

 

Tatiana Alves

 

Retirado de Escritoras Suícidas

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publicado às 21:44

Conto - Anotações de Viagem à Juqueí

por Jorge Soares, em 16.02.13

Anotações de Viagem à Juqueí

Imagem de aqui


Há duas horas eu estou esperando o dentista. A enfermeira não cansa de me pedir desculpas. 

 

- Ele está atrasado. Deve ter acontecido alguma coisa - ela diz pela décima vez. 

 

Pra passar o tempo, tiro tudo de dentro da bolsa, ponho na cadeira ao lado e começo a botar ordem. Minha bolsa pedia uma faxina. Foi quando encontrei esse bloco com anotações que eu nem lembrava mais. 


Alberto acordou no maior entusiasmo e propôs que saíssemos uns dias. Há tempos não viajávamos. Irrecusável. Eu parecia criança em véspera de férias, torcendo para não chover. 

 

- Vou pra casa, faço a mala e às duas eu passo pra te apanhar. Você pode esperar lá embaixo. 


Cinco pras duas, eu desci e sentei na escada. 


Isso tá parecendo cena de novela - pensei - o cara deixa a mocinha esperando e não aparece. 


Às três e meia eu subi e chorei a tarde inteira. Eram mais de seis quando ele passou. 


- Tive uns contratempos. 


Entrei no carro e nem perguntei pra onde a gente ia. Humberto tinha o meu destino nas mãos, que me levasse pra onde quisesse. Juntos já percorremos as estepes e os desertos mais incríveis do planeta. Dessa vez, Gualberto me levou pra Juqueí. 


O hotel era uma gracinha. Quarto de casal: duas toalhas, dois sabonetes, dois travesseiros. 


Oba! Nunca mais serei sozinha. 


Arrumamos as coisas e fomos beber na beira da piscina. O entardecer estava que era um sonho. Dagoberto pediu cuba-libre, eu nem lembro o que pedi, sei que era coisa fresquinha com gelo picado dentro, pra me esfriar. 


No jantar, comemos um peixe delicioso. Aliás, a melhor lembrança que trouxe da viagem: filé de badejo ao molho madeira. E eu que havia ido lá pra tão mais... Ir tão longe pra voltar com a lembrança de um peixe grelhado e a barriga vazia. Mas comigo é sempre assim. 


Logo depois do jantar, Gualberto subiu, estava indisposto. Antes, porém, ligou pra ter noticias da mulher, do filho, dos cachorros. Ele se preocupa muito com a família. Mesmo quando viaja com a amante, não deixa de ligar pra saber como estão. 


Quando deitei ao seu lado e quis me enroscar nas suas pernas, Gilberto se afastou: 
- Você não vê que eu não tô legal?


O erro era sempre meu. 


No dia seguinte, antes que ele acordasse, peguei o bloco de notas que estava sobre a mesinha e escrevi essa história que leio agora. 


Quando ele acordou, aproveitei que estava chovendo e sugeri que viéssemos embora. Roberto gostou da idéia. No mesmo instante ligou pra portaria e pediu que fechassem a conta. Voltamos no maior silêncio. 


A enfermeira avisa que o dentista hoje não vem. 
- Ele pede desculpas, mas teve uns contratempos. 


Por mim, ele pode não voltar nunca mais. 
O jeito é ir embora com dor de dente. Que importa? No fundo é sempre a mesma a dor da gente. Cacete!


 Ivana Arruda Leite


Retirado de Bestiario

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publicado às 17:49

Conto, O amante

por Jorge Soares, em 29.01.11

O amante

 

- Você é meu amante! Você tem que me comer! É pra isso que servem os amantes. O que é? Isso virou um casamento? É isso? A gente sai pra jantar, tomar um chopp e você não fala nada. Eu chego você não nota. Eu corto o cabelo você não comenta. Só falta a televisão, com um jogão daqueles, aqui nesse quarto de motel que você arranjou. Nem em motel decente você me leva mais. Vamo levanta dessa cadeira. Levanta! É pra isso que serve ter amante: Pra levantar. Pra levantar o cacete, pra levantar meu moral, pra levantar dinheiro do meu marido.


O que? Você está indisposto? Meu bem, de onde você vem não te avisaram que amante não fica indisposto, nem gordo e nem faz greve? Ah, não? Pois estou te avisando. Vamo. De pau duro agora, que não tenho muito tempo. Tenho um trabalho para entregar na faculdade ainda hoje. Sabe que eu entrei para faculdade? Imagina, eu? Nessa idade? Mas eu pensei, se eu já tenho um amante porque não entrar na faculdade? Acho que tem tudo a ver: amante, faculdade. Não quero parecer ultrapassada.


Vamo. Tá demorando muito. Quer uma ajuda? Uma chupadinha, quer que eu dê uma pegada e tal? Quer? Não precisa ficar assim. Não, não estou pressionando, benzinho, mas veja bem. Quem paga aquele apartamento lindo e grande pra você? Quem compra suas roupas caras enquanto você se exibe pras gatinhas de bundinha ainda pra cima, mas que um dia ainda vai cair? Quem? A titia aqui. A titia não pede nada, só que você fique de pau duro pra ela. Só isso.


Vamo benzinho. Cresce pra titia, vamo. O que? não posso conversar com seu cacete? Porque não? A gente se conhece bem, somos íntimos. Ele me entende, ele até me conhece por dentro.


Tá bom não é hora de piadas, você tá certo. Mas e agora o que é que faço? Não posso sair assim e ir atrás de outro amante agora. Tem que ser você mesmo. Sabe aquela expressão, se só tem tu, vai tu mesmo. Tá bom. Vou parar com as piadas. Mas você não me deixa muita opção, não acha? Já que você não vai me fazer gozar eu vou pelo menos gozar de você. Tá, já parei.


Você realmente está sensível hoje. Nunca vi disso. Amante sentimental. Ainda bem que você não tá apaixonado por mim. O que? Era isso que você queria me dizer? Você? Apaixonado? E por mim? Essa é boa. Amante apaixonado! Meu bem, eu já casei. E casar você só casa apaixonado. Já passou, é verdade. Mas na minha idade eu não arranjo mais marido, de modos que fico com este mesmo que já tenho. Na minha idade se arranja amante. A-man-te. Ouviu isso? Eu não quero namorado, eu não quero marido. Eu quero AMANTE. Por isso trate de se desapaixonar e ficar de cacete pra cima. Não funciona assim? E como funciona? Já pedi pra você me dizer o que faço. Coloco um filme pornô? Pego um óleo com sabor amora? Tomar um banho juntos? Você gosta tanto dos nossos banhos! Benzinho, vamos resolver isso logo. O tempo está passando, tenho que sair e ninguém me comeu. Vou chegar em casa, aborrecida, meu marido vai perguntar o que houve, me dizer que hoje estou um porre e o que eu digo a ele: - ah, é culpa do meu amante que não me comeu! Não se preocupe. Se duvidar, ele até concorda comigo, que isso é um absurdo, um amante de pau mole. Isso chega a ser uma contradição. Amante e pau mole na mesma frase.


Enfim, querido, preciso ir realmente. Fique aqui sozinho no seu motelzinho de segunda pra pensar bem muito no que você quer fazer comigo, da próxima vez que a gente se encontrar. Quero bastante safadeza que é pra tirar o atraso. Por hoje me resolvo no banheiro com uns brinquedinhos que ganhei das amigas que ainda estão vivas, se é que você me entende. Não entendeu? Elas estão vivas porque também tem amantes e não só maridinhos encardidos. Se bem que os amantes delas devem comê-las. O que não é meu caso. Não, não estou cochichando. 
Não esqueça do meu pedido, tá? Já esqueceu? Safadeza, benzinho. Safadeza. Tchau.

- alô. É da casa de acompanhantes do Mister Perfeito? Eu queria contratar um acompanhante. Sem tempo determinado, mas com urgência. Pra hoje, o sr. tem? É, estou com certa urgência. Ele tem boas referências? Huuum, com a aquela atriz? Tá bom, então. O numero do meu cadastro é...

 

Ayla Andrade

 

Retirado de Uma escada para o nada

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publicado às 21:04

Ladrão nu.... rouba virtudes?

por Jorge Soares, em 17.05.08

 

Hoje na minha passagem pelos sites dos jornais, encontrei a seguinte noticia no Sol:

 

Mulher confunde ladrão nu com marido

 

"Uma mulher malaia acordou para um pesadelo real quando descobriu que o homem nu deitado ao seu lado não era o marido mas sim um ladrão, segundo um jornal local"

 

Segundo a noticia, o ladrão entrou em casa e após apropriar-se de alguns bens, despiu-se e deitou-se na cama ao lado da dona da casa. Esta acordou e achando que era o marido, começou a falar com ele. Como achou que o marido  estava com uma voz estranha, levantou-se, foi à sala e viu que este estava a dormir no maple  ...e começou a gritar. O ladrão fugiu!

 

A noticia não diz o que aconteceu até ao momento em que o senhor começou a falar..... também não diz porque é que o marido estava a dormir no maple.... esta historia tem muito que se lhe diga...... mas eu pergunto:

 

-Será que o marido acreditou na história?

-E será que a policia acreditou?

-E além  do quentinho da companhia na cama.... que mais terá roubado?

 

Todos já tínhamos ouvido as anedotas do amante que se esconde debaixo da cama, ou no parapeito da janela, ou aquela do novo candeeiro de quarto... um dia de estes li num blog uma anedota engraçada em que o amante era um robot.... mas realmente..... esta bate todas as anteriores. Quer-me parecer que o ladrão não tinha lá muito jeito para a coisa... :-)

 

Continuando numa de musica nacional, passeando por aí pela blogosfera, encontrei o Rodrigo Leão em Pasion...... um tango.. apreciem!

 

 

 

Jorge

PS:Imagem retirada da internet

PS2:Este post não tem ponta por donde se lhe pegue.... espero que tenham gostado da musica.....

 

 

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publicado às 18:45


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