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Conto - Autodeclaração

por Jorge Soares, em 08.03.14

Pardos

 

Imagem de aqui 

 

 

Mal ou bem, já nos acostumamos. Cada vez que se tenta entrar numa rede social na internet é necessário prestar contas, minimamente, sobre quem se é. É o nome, o sobrenome, o jeito como deseja ser chamado, a data de nascimento, o trabalho ou a ocupação, interesses, preferências, restrições, e e-mails: o principal, o alternativo, o de segurança, etc. Depois de completar campos marcados com asteriscos e ficar em dúvida se gasta tempo ou não com os opcionais, a pessoa precisa ainda digitar como vê uma sequência de letras, números e outros símbolos misturados dentro de um retângulo editável. Para provar que não é um robô. Está assim de gente recorrendo a terapias para curar a crise existencial que momentos decisivos como esse disparam. Se na rotina virtual é dessa maneira, imagina na vida, ordinária, nessa, de todo dia?

 

Valéria vivia passando recibo a respeito de si, mas nem percebia de tão envolvida que sempre esteve com o futuro. Tudo nela parecia acusar, revelar, apresentar, dizer. Em parte. Em uma parte visível e fácil de lidar. Queria ser médica e andar pelo mundo tratando de doenças em regiões de onde normalmente tinha notícia somente pela televisão. Era cabeça, tronco, membros, pele, órgãos, células, sangue, oxigênio, bisturi, medicamentos, livros e mais livros sobre saúde e sobre como funcionam os corpos humanos, um interesse sem fim e o mesmo assunto compulsivamente, feito vinil arranhado, repetindo e repetindo e repetindo o mesmo trecho. Além da que tinha na escola, sabia o rumo das bibliotecas da cidade e da universidade e fazia desses lugares pontos estratégicos de concentração. Falta pouco para os exames de admissão e preciso estar pronta, dizia para dentro pelo menos uma dúzia de vezes, diariamente, como uma reza, um mantra particular, enquanto cumpria à risca seu plano de estudos. 

 

Prestaria provas em oito instituições de ensino superior, todas com seus calhamaços de exigências e formulários, curiosidades estapafúrdias - ô palavrinha que gostava de pronunciar: es-ta-pa-fúr-dia e suas variações – e prazos de inscrições abertos. Cheia de esperanças, juntou documentos e começou a preencher os requisitos da primeira. Com os novos rearranjos do governo para o ingresso nas universidades, as combinações poderiam ou não dar certo para Valéria. Andava sobre a linha que separa ou amarra esforço e sorte quando percebeu que, na verdade, não entendia o jogo. Havia estudado mais do que bastante, mas nem chegara perto do todo, do infinito.

 

Autodeclarar-se isto ou aquilo não era problema, o caso é que realmente não sabia. As certezas resvalando pelas teclas do computador. Olhou para as mãos abertas, correu os olhos pelos braços e. Não era preta, nem branca, nem amarela, que raio significava o termo “pardo”? Só lembrava do rolo de papel que na escola usavam para fazer cartazes. E sexo? Nunca tinha feito. Nasceu com vagina, mas não tinha tempo para desejar ninguém, podia muito bem gostar de mulheres e/ou de homens, tinha um apreço tão grande por gente, em especial por crianças e velhos. E que diferença fazia contar do salário da mãe e do pai, um morto outro sumido, se era ela e não eles quem auscultaria peitos e diagnosticaria dores dali para frente? Seria indígena? Compartilhava de cabelos lisos e negros e selvagens e de uma vontade inexplicável de verde com povos distantes. Por que não? Na dúvida, Valéria rasurou os espaços em branco e escreveu “sou um robô” em letras bem maiúsculas no espaço “observações”. Confusa, vestiu o cansaço, suspirou intenção e dúvida, e guardou a médica no bolso.

 

Andreia Pires

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:37

Conto, Penélope

por Jorge Soares, em 23.07.11

penélope

 

Sempre fui um desenhista sem ambição. Despercebido em minha saleta, desenhava letras, garrafas, automóveis. Voltando ao meu apartamento, abria enlatados e esquentava minha comida. Continuo assim.

Cheguei à solidão através de três mulheres. Só na primeira houve paixão. Nas outras, um ceticismo prático. Enquanto isso, me iludia: cinema, jogo, praia, viagens de fim-de-semana. Também isso se perdeu. Ao fim (nem tanto: quarenta anos), restei numa exaustão conformada, fitando a parede branca, asas tortas se debatendo em silêncio. Mas a capacidade de ficar sozinho alimentou minha soberba: a sensação de liberdade, a ilusão da escolha.

Passei a desenhar também à noite, por conta própria. Formas: ruas, casas, homens, mulheres. O que parecia uma fuga - nos meus desenhos eu estava em casa - se transformou em prazer. O painel da aparência se ordenava nos meus traços. Nas minhas ruas, eu mesmo fazia a História. Punha os desenhos na parede e me protegia neste mundo inventado, que ia se desdobrando, folhas sobre folhas. Rosto na janela, multidões nas ruas, prédios vazios, alguém perdido no beco. Uma rua, um bairro, uma cidade inteira parecida com a minha ramificava-se em vizinhos, primos, mães, órfãos, árvores, risadas e socos. Uma mulher apressada, um rosto súbito que se volta no vento da tarde, me atraiu. Chamava-se Penélope, um nome a um tempo clássico e falso. Perdi muitas horas olhando para ela, que, não mais que um vulto, parecia pronta.
Tentei esquecê-la, mas a cada novo desenho eu voltava à minha Penélope suspensa na parede, imperfeita e acabada, completa para sempre como um sol morto. A sensação de alguém conhecido, mas que não conhecemos. De onde? De nenhum lugar. Talvez... e eu abria mais uma folha em branco, prosseguindo o mapa em outra direção. Por pouco tempo; uma distração e meus olhos voltavam a ela, com medo - muito que eu olhasse, e Penélope súbita revelaria o amarelo do tempo, o truque do traço, a invenção do papel.

Precisava enfrentá-la. Recortei Penélope da multidão e coloquei-a diante de mim. Como era incompleta! E no entanto... Decidi, presunçoso, lhe dar todos os traços do meu realismo. Lá ia eu, bêbado de uma idéia, empilhando Penélopes em preto-e-branco, a começar pelo rosto. Sempre a sensação de alguém conhecido, uma sombra, um sinal, uma inexistente prima da infância, uma funcionária de supermercado, um esbarrão na praça da Figueira (a face inquisitiva se voltando), um suspiro esperando o ônibus que não chega, mãos que se tocam no mesmo jornal da banca, mas quando? Ao me perder - não, esses olhos não são dela - rasgava o papel e recomeçava, voltando sempre ao primeiro esboço, o verdadeiro. Um cego tateando estátuas.

Afinal - um cigarro saboroso nos lábios, uma tragada na alma - dominei sua face, cada linha e nuance. Que prazer, olhando o teto! Desdobrei Penélope, cada vez mais dócil. De frente. Olhando para mim. De longe. Cabeça erguida. Tirando o sapato. Escovando os dentes. Silenciosa. Triste. Alegre. Com os cabelos compridos - compridos, negros e espessos. Depois, cortei seus cabelos. Fiz Penélope chorar. Dormir. Pensar. Lado a lado, comparava os desenhos. Ela mesma se comparava ao espelho, rigorosamente a mesma mulher.

E como eu ria, feliz da vida! O desespero de voltar do emprego - agora pintando cartazes de filmes, vida útil de uma semana, O Exterminador do Passado, A Viúva Faceira, Longo Teto Noite Adentro, Bambolê III, O Incrível Homem que Esquecia - o desespero de me entregar à Penélope, desvendá-la, nua, na intimidade do banho, de abrir a porta de seu guarda-roupa e pendurar lá tudo que ela quisesse. Desenhei quatro diamantes na gaveta do seu criado-mudo.

Braços, pernas, seios, curvas. Como era exatamente Penélope? Nas primeiras tentativas ela entristeceu, porque eu estava mentindo, enganado pelos padrões dos outros. Até que, sem saída - nem fui trabalhar naquela tarde - descobri o corpo que correspondia exatamente ao seu rosto. Um corpo, uma altura, um peso. Os braços me pareceram desproporcionais; ao refazê-los, as medidas teimavam - braços, mãos, unhas. Inteira, e com pudor. Nua, fechava os olhos, a mão cobrindo a pequena mancha da perna, uma queimadura da infância? Outra página desenhada, a expressão a um tempo íntima e distante. De onde essa mulher tão familiar?

Cobri os meus espaços de Penélope. Horas e horas contemplando alguém que me criava. Tão completa! Mas eu não tinha o poder de desvendá-la. Desenhei-a se oferecendo, até implorando que eu me lançasse naquele aquário de nada - e sempre uma redoma preservando-a. Deixei Penélope em paz, imóvel nas minhas paredes. Abria uma lata de cerveja e passeava pelos desenhos, com a falsa indiferença de quem já desistiu. Meses depois, bêbado, tentei redesenhá-la, e fracassei. Senti medo. Idêntica a ela mesma, Penélope achou graça. Eu também, ressentido e mais velho.

A onipresença das minhas paredes se transformou numa sombra das ruas: senti que me vigiavam. No ônibus, na praça, nas curvas da Trindade, a sombra de Penélope me acompanhava, como quem depende, como quem se diverte, como quem não tem saída. Uma proximidade inquieta: de algum lugar, em algum momento, alguém vai segurar minha mão para um encontro assustador e inevitável. Onde andará Penélope? Um tanto por vingança, um tanto por desejo, tomei seu rosto emprestado para um outdoor na beira-mar anunciando xampu de farmácia, a serviço de um novo emprego. Tão deformada assim, colorida!

Num sábado bissexto, passei o dia no Pântano do Sul, bebendo só. Esperava o ônibus das cinco. Alguém me chamou para empurrar um carro na areia:
- Penélope?
Ela não disse nem sim nem não, mostrando o pneu enterrado. Pensei que estivesse assustada, mas não; apenas distante, perguntou se eu ia à cidade. Fiz que sim, o sol na cabeça. Ela acelerou, eu empurrei, e o carro saiu fácil, mas me encheu de areia. Ela abriu a porta, eu entrei, inseguro. Por dez minutos falamos banalidades: o banco sujo de areia, o vento, o calor, o cinto de segurança, que não funciona. Depois, extensões agoniantes de silêncio, ao longo do caminho que ela já sabia. Eu vigiava aquele perfil: idêntica. Na Trindade, Penélope estacionou o carro e desligou o motor. Olhou para mim, muito séria. Alguém que se destaca de uma página em branco, na precisão do meu lápis. Leviano e cavalheiro, abri a porta para ela e segurei sua mão: mão firme e quente. Gostei de Penélope assim, em silêncio: um medo terrível de que a voz alta diminuísse minha obra.

Entramos no apartamento e ela foi direto aos desenhos. Nem espanto, só um quase sorriso:
- Essa sou eu?!
Não respondi, nem ela esperava resposta. Caminhou pelas paredes, vendo-se tão perfeitamente imóvel.
- Você me vigiava.
- Você me vigiava...
Afinal ela achou graça, previsivelmente inclinando a cabeça e passando a mão nos cabelos, exata no meu desenho. Seguiu-se um buraco de silêncio, tão pesado que não saía do lugar. Atravessar esse terror, a fala: a interminável tortura dos detalhes, a profissão, o corte da roupa, o leite na geladeira, o prazo, o troco no cinema, a memória, o acúmulo despropositado das coisas que se deve fazer, cada uma delas nos tirando um pedaço. Insisti no silêncio: cada palavra e estamos menores - medo de olhar para Penélope e descobrir um erro. Que horror é esse que ameaça minha solidão?

Nos meses que se seguiram - sei lá onde vivia Penélope, sei lá que espaço ocupava no mundo! - jamais pronunciei seu nome. Quem sabe nele se evidenciasse o engano e o desastre? Mas não: lá estava a pequena mancha na perna, que ela movia com a leveza de um bico-de-pena, nua no nosso desejo. Uma ânsia corrosiva de descobri-la mais e mais, mas tudo nela já estava desenhado, página a página. Amei Penélope com desespero, pressentindo o fim.

Depois, começou lentamente a morte de Penélope. Semana a semana ela perdia a cor, a firmeza, a voz. Perdia a leveza, a elegância e o brilho dos olhos, surtos de escuridão numa página em branco. Uma noite, minha mão trespassou seu braço, como a um vento. Metade do rosto eclipsava-se, uma lua sem rumo. Eu vi Penélope sofrer: suas últimas frases, sem sintaxe, imploravam alguma coisa que parecia salvação. Há três dias, acordei definitivamente sem Penélope, todas as paredes em branco. Ontem, da janela do quarto, vi oficiais do trânsito rebocando seu carro, abandonado na calçada estreita.

 

CRISTOVÂO TEZZA

 

Retirado de Bestiário

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publicado às 21:57

Conto, Carla

por Jorge Soares, em 16.07.11

Carla de Mauro Pinheiro

 

O sol mergulhava no horizonte, como um lerdo suicida pulando pela janela de mais um dia. Acendi um cigarro e fiquei olhando para a rua, vendo as pessoas fugirem dos carros enfurecidos. Pura covardia, os veículos arrancam cada vez mais rápido e essa gente já mal consegue andar. No outro lado da sala, o computador está aceso e abandonado, sua tela branca como a minha mente, porém muito mais brilhante. Não é mais preciso digitar nada. Está tudo ali. Não disse? Foi só eu me distrair e outro atropelamento acontece lá em baixo. Um ônibus desta vez. Curiosos solidários acercam-se do corpo inerte. No bloco que deixo preso ao batente da janela, escrevo o número 54 e a data.

Do centro da sala, vem a voz de Carla.

— É estranho. Não sei como alguém pode sentir atração por alguma coisa deformada... incompleta.

Ela está sentada à contraluz, os cachos de seus cabelos louros atravessados pelos raios da luminária atrás do sofá. Sua solitária perna direita repousada sobre a mesa do telefone. O crepúsculo começava a se insinuar dentro do apartamento.

— Pelo menos, você acabou de vez com minha esperança de ser amada inteiramente. Você... ninguém nunca poderá me amar inteiramente. As vezes, eu acho que não é de mim que você gosta. O que te atrai é o que está faltando, que foi arrancado de mim.

Depois de dois anos sem quase poder se levantar, Carla além de engordar também aprimorara seu discurso. Quando a conheci no hospital, mesmo após o trauma, seu domínio da língua era rudimentar. Agora, adquirira vocabulário e o utilizava fartamente. O conteúdo do que dizia não importava muito. Era sempre o mesmo, aquela fúria inesgotável contra sua própria sorte. Ela precisava se maltratar de vez em quando. E que não tentassem impedi-la. Era como uma expansão do seu ser mutilado, que quer correr e dançar, mas só tem palavras para se equilibrar. E eu estava ali também para isso: aturar suas recaídas de anjo soturno a quem eu prometera o sol.

Certa vez, após longa reflexão, Carla me disse que se pudesse escolher, preferiria perder a voz do que uma perna. Nossas conversas eram muito estranhas, ainda que nos pare cessem naturais. Eu não disse nada, sempre me refugiando no silêncio, apenas pensei que concordava com ela. Sua voz voltou a voar pela sala.

— E macabro saber que a nossa imperfeição é o que mais encanta alguém. Acho que você é mais doente do que eu, sabe? Tem algo de sádico nisso.

— Você não está doente, Carla. Sua saúde está ótima...

— Mas você está doente, não está? Será que já não é hora de você usar essa fartura de pernas e fazer alguma coisa da sua vida? Ou continuar com o que foi interrompido. Escreve seu segundo livro, vai. Está difícil de sair, né? Mal nas céu e você já é um escritor extinto.

— Não sou mais um escritor. Acho que vou lutar boxe. Pelo menos poderei usar mais as minhas pernas.

— Coitado de você. Na sua idade, já não dá mais para aprender. Vai ganhar muita porrada.

Carla faz um esforço para colocar a perna sobre o sofá. Seu olhar já brilha novamente. Por um nada, ela é tomada pela emoção e as lágrimas começam a jorrar, os vasos lacrimais parecem romper-se por trás de seus olhos claros. Expliquem- me a química da dor.

— Se é para ganhar pomada também, vou pensar em outra coisa.

— Chega mais perto, meu pugilista. Vamos conversar. Talvez a gente ache alguma idéia juntos.

Pronto, ela já está meiga outra vez. Ao me aproximar dela, minha perna direita acerta em cheio a mesinha do telefone. Aquilo a faz rir e relaxar. Ajoelhando ao pé do sofá, encosto minha cabeça sobre sua barriga e tento não pensar em coisa alguma.

O que mais me apraz ao fazer amor com Carla, além de lhe proporcionar léguas de emoção que sua perna, mesmo acompanhada de outra, nunca conseguiria transpor, é possuí-la transversalmente, com ampla visão do seu corpo. Seus olhos fechados, seu pé se retorcendo, seu fêmur amputado, sua pele remendada roçando sobre meu ventre. Como se eu a fizesse levitar, perpendicular ao meu corpo.

— Carla, você não acha que nossos diálogos soam como os de personagens de um livro?

— Um livro? Quelle drôle d’idée, un livre! Nunca pensei nisso. Você deve saber melhor do que eu. O que você ouve andando por aí?

— Ouço uma língua enlouquecida, selvagem, que os especialistas com sua mania de tudo especificar chamam de híbrida. Mas não importa o que digam, a ignorância me parece mais criativa do que o saber...

— Você chama de criatividade esta algaravia?

— Talvez, mas a confusão é mais saudável do que a lógica.

— Mas não chega a lugar algum.

— Chegar a algum lugar não tem a menor importância para a confusão. Ainda por cima, que mania de querer sempre chegar a algum lugar...

Carla põe o dedo sobre minha boca para eu parar de falar. De repente, ela parece muito cansada. Virando-se sobre o sofá, ela fica de costas para mim e diz,

— Vem, vem por trás de mim. Gosto de sentar sobre suas pernas. Como se fossem minhas.

A noite se esparrama pela sala deixando-nos ilhados sob um pálido foco de luz, Posso sentir os pulmões de Carla arfando contra meu peito. Lá fora, outra freada seguida de um baque seco e o alvoroço inútil dos passantes. Número 55, pensei.

 

Mauro Pinheiro
Retirado de Releituras

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publicado às 18:05

Conto, Se na noite, um estranho

por Jorge Soares, em 09.07.11

Se na noite um estranho

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

forçando a porta de entrada penetrasse em meu apartamento, e diabólico e cruel, explorasse com seus passos macios e premeditados a minha intimidade, devassasse a corrente dos meus pensamentos, extraindo dos cantos do meu cérebro as palavras não ditas, apenas pensadas, se invadisse os meus aposentos, revirasse as minhas gavetas, à cata do quê? jóias, se não as tenho, dinheiro escondido, muito menos, fetiches? tão ocultos jamais expostos, como aquela roupa íntima vermelha usada nos momentos do sexo mais pervertido, ou aquele pé de coelho que um dia me ofertaram com a promessa de que ele amaciaria os caminhos, se esse estranho embaralhasse a minha vida, violentasse o meu pudor sem a minha concordância, penetrasse a minha cozinha em busca de alimento, encontrasse aquela sobremesa especial que fiz com carinho, e com um bah de desprezo, atirasse tudo ao cachorro, não sem antes lhe dar um pontapé no traseiro, em seguida sem aviso, alcançasse a faca afiada e com ela me ameaçasse, se entregue ou eu te furo, e me atirasse ao chão e me possuísse sob gritos de meu protesto irado, se esse estranho me humilhasse de todas as maneiras, penetrando violentamente todos os orifícios de meu corpo em busca do prazer insaciável, achando que o meu dever era aceitar resignada a sua condição de macho de cetro impiedoso, e a minha de fêmea sempre pronta, pernas abertas, e se depois da posse, estirado ainda no ladrilho frio da cozinha, acendesse um cigarro e me olhasse com os olhos semicerrados, feliz com a sua conquista e vangloriando-se de ser bom amante, o querido de todas as mulheres do bairro, se esse estranho depois do ato do sexo, percorrendo com uma faca todos os contornos de meu corpo, parando em meus mamilos duros de prazer, penetrando a minha vagina ainda quente, riscando a minha pele eriçada, então se levantasse e ordenasse, faça um café, mulher, abra uma cerveja, se mexa, me agrade, que eu mereço pois afinal entrei na tua vida para te fazer feliz, ah, se ainda esse estranho resolvesse aportar na minha casa, e dela tomar posse, com promessas de mudança e de carinhos, se chegasse todos as noites depois de passar em meia dúzia de bares, embora para que ele não voltasse, eu rezasse todo os terços, que ele me arrancava das mãos pisava sobre as contas, gritando eu sou teu único Deus, e, se como senhor e dono me exigisse, me possuísse pele enésima vez, gritando, nenhum deus te dará mais aleluias do que eu, e depois de todas as vontades satisfeitas, deitasse na minha cama e dormisse a sono solto, até a manhã seguinte, e se assim fossem todos os dias, a relação de dois estranhos sob o mesmo teto, e se eu mais uma vez rogasse aos santos, sobre meus joelhos sangrando, para acontecer algum fato, mesmo que fosse uma desgraça, que interrompesse essa corrente, ou que a minha vontade predominasse por alguns instantes, o tempo suficiente para expulsá-lo de minha vida, eu agradeceria pelo resto da vida, mas se a fraqueza, o medo, o amor, o ódio ou o prazer, impedissem o cumprimento dessa vontade, e eu insensata o matasse com mil facadas perfurantes que lhe alcançassem a alma de coisa ruim, talvez seu espírito retornasse mais feroz do que o anterior desencarnado, e mais me torturasse, me penetrando, me violentando, me satisfazendo. Se esse estranho a cada dia se fizesse mais odioso e mais desejado, se minasse em meu íntimo dia a dia, minuto a minuto, a volição da vida, se arraigasse o desejo insensato de liquidá-lo na hora do orgasmo, a hora da distração e do alheamento, se despertasse em mim o lobo interior que leva à crueldade em vez da gazela que bale, se esse estranho me asfixiasse com seu suor, e num momento de fúria eu o estrangulasse ou o aleijasse cortando seus testículos recheados, e o banisse da minha vida escravizada, então talvez eu descansasse e abrisse as portas para a solidão se alojar. Se esse estranho não tivesse o riso cínico de superioridade estampado na face, a lubricidade sempre pronta, se não soubesse o poder de sua dominação, da força da perdição que impele à morte, a certeza do seu absolutismo, se esse estranho que invadiu a minha noite não tivesse consciência do quanto se tornou imprescindível, se desaparecesse assim como apareceu, com seus passos mansos e sua fala macia, com suas pretensas promessas de felicidade, se esse estranho que comigo hoje habita se fosse, desistisse de mim, então talvez eu me desesperasse.

Se numa noite, um estranho tentasse entrar em minha vida para se instalar, eu o teria impedido, teria trancado com todas as chaves a porta de entrada da minha casa, e mais as entradas de meus sentimentos, fechado o caminho do labirinto do meu corpo, ou gritado por auxílio, e se ele superando a minha força física e as minhas intenções, conseguisse o seu intuito, e me submetesse ao seu sexo, então eu o assassinaria, e seria em legítima defesa. E se ele implorasse, em nome do passado, do amor, da luxúria, eu recusaria para que ele fosse nada mais, apenas um estranho na noite tentando forçar a minha porta de entrada. Se na noite, um estranho tocasse a porta da minha alma e do meu destino,

 

Nilza Amaral

 

Retirado de Nilza Amaral Blog

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publicado às 21:17

Conto: Ele e ela

por Jorge Soares, em 11.12.10

Imagem de aqui

 

Se conhecem num bloco de pierrôs em que ela é a única colombina. Ela bebe cerveja. Ele, caipirinha. Se vêem, sorriem, se beijam. 

Quando nos conhecemos ele disse que gostou da minha ousadia. "Ousadia? Mas esse cara nem me conhece", pensei, mas aceitei a cantada. Na verdade, achei aquele elogio o máximo! Ficamos juntos até o bloco se desfazer no Largo dos Guimarães. 

Ele não consegue parar de pensar nela. Gosta de imaginar qual é a forma do seu corpo sem fantasia. Passa horas olhando vitrines, tentando adivinhar em que tipo de roupa ela se encaixa melhor, o tamanho, o comprimento...

Um dia o vi olhando uma vitrine de roupas femininas. Admirava os manequins como se visse mulheres no lugar dos bonecos. Parei na sua frente, ele me olhou como quem não acreditasse, sorriu leve, comentou algo sobre "...a ressaca daquele dia", falou mais algumas coisas que eu não consegui decifrar, muito menos tentei entender. Meu pensamento estava preso na imagem dele refletida na vitrine. Escrevi num papel meu telefone. "Não...", ele disse, e eu recuei, "...esse não é o seu tipo de roupa", continuou, esticando o braço, e eu voltei à posição original, como se nada tivesse sido dito. Ele dobrou o papel sem reparar que o meu nome não estava lá. Me beijou no canto da boca.

Ele telefona para ela, sentindo um aperto desconjuntado no peito. Não haviam dito seus nomes, era como se se conhecessem há muito...

Acordei com a voz dele na secretária eletrônica cantando "colombina onde está você, eu vou dançar o iê ie iê. Me liga". Eu corri pra atender, mas não deu tempo. Deixou um número. Nos encontramos no Largo. "Não consigo parar de pensar em você. Quero continuar o que ainda não começamos", ele disse me olhando fundo. Eu sorri. Sempre gostei de paradoxos.

"Te amo", ela diz, mas ele não acredita, mesmo sabendo que ela não mente. Ela faz declarações de amor com a mesma tranqüilidade que acende um cigarro depois do café ou come um prato de filé com fritas. Aos cinqüenta anos um homem já tem opinião formada sobre o que é o amor e ele sabe que uma pessoa capaz de dizer te amo de forma tão natural apenas pensa sentir o que diz. "Você acha que me ama", ele responde. Ela rodopia o corpo leve, inescrupuloso, e sai, batendo a porta do apartamento. Na esquina da rua se vira e acena para ele, que recua um passo da janela, se protegendo atrás das cortinas. Ela espera alguns segundos, ele reaparece e acena de volta com um gesto duro e frio como um espasmo. 

Ela levanta de leve os ombros, dá meia-volta e dobra a esquina. 

Ele se senta na poltrona perto da janela, acende um cigarro e olha a fumaça. 

Ele achava que me conhecia. Dizia que eu pensava que o amava. Acreditava me conhecer mais do que eu mesma. Sabe como é, coisa de homem que acha que já viveu tudo. Na época ele preparava uma tese de mestrado sobre o amor. Algo sobre manifestações amorosas à luz da sociedade pós-moderna. Acho que ele ia ter um bocado de trabalho. Na primeira vez que transamos, ele jurou que me amaria pra sempre se eu continuasse fazendo sexo oral nele daquele jeito. Ali eu percebi que ele ia ter que pesquisar muito pra desenvolver uma tese convincente. Eu não acho que um homem que jura amor eterno a uma mulher só pelo jeito que ela chupa ele entenda realmente do assunto. Talvez ele só entenda mesmo de sexo oral. O que, cá pra nós, não deixa de ser uma vantagem. 

O cheiro dela. É um cheiro que ele não sabe explicar, um cheiro impossível, que ele só sente quando não sente direito, só percebe quando não presta atenção, misturado com cheiro de rosa, incenso, creme hidratante e chiclete de canela, que ela gruda nas costas da mão quando toma suco de beterraba com laranja. "Pra saúde", ela diz, brindando o copo num outro imaginário, e bebe o conteúdo quase de um gole só, de olhos fechados para não sentir o gosto. Abre um sorriso satisfeito, desfaz a careta refletida no vidro do copo, leva a mão à boca e resgata o chiclete ainda úmido.

Um dia peguei na mesinha de cabeceira da cama dele uma matéria de jornal: "Machos e fêmeas: o poder do cheiro nas relações amorosas". Ali explicava que homens mais velhos se interessam por mulheres mais novas por causa do cheiro delas. É que essas mulheres, como as fêmeas de qualquer espécie, exalam um cheiro mais forte, e isso compensa a perda progressiva do olfato dos homens mais velhos, o que também acontece aos machos de qualquer espécie. Achei aquilo tudo muito primata pro meu gosto, mas entendi porque ele ultimamente andava cheirando as minhas calcinhas.

Os dois primeiros anos deles juntos são ótimos. Ele gosta da juventude dela, do seu jeito apressado de encarar as coisas. Olha para ela e se lembra dele.

Sabe quando uma pessoa te olha tão através de você que alcança aquilo que está lá atrás e nem você enxerga mais? Pois é, não foram poucas as vezes em que ele me olhou assim. Uma vez eu virei pra trás e vi que não tinha ninguém. Achei divertido, mas foi aí que comecei a entender sem ainda saber: eu já estava só. 

"Sinto uma certa pressa", ela diz. "De quê?", ele quer saber, mas ela não sabe responder. Ele gosta de palavras, explicações, e algumas ela não sabe dar. 

Eu gostava da maturidade dele. Daquele jeito pouco apressado de olhar o mundo. Os cabelos grisalhos, os olhos por trás dos óculos, a calma, principalmente a calma. Uma calma típica dos que sabem e não têm medo disso, dos que sabem que nem sempre foi assim. Era aquela calma dele que eu procurava, mas eu tinha pressa, muita pressa de encontrá-la. E foi justamente aquela calma que um dia começou a ocupar espaços desconhecidos em mim e me revelou uma solidão imensa, só minha: a solidão de mim. Tive medo, muito medo, do silêncio. Era como se de repente não houvesse mais nada além das paredes daquele apartamento.

Ele a abraça. Eles transam. Ela vai embora, levando a imagem dele refletida na vitrine.

Enchi a casa de espelhos, na esperança de que muitos de nós ocupassem espaços nos quais não conseguíamos mais circular. Eu já não conhecia mais os caminhos, não era capaz de me distinguir daqueles reflexos, não sabia mais que direção tomar. Minha vida virou um labirinto povoado de fantasmas de nós dois. Quando os aços dos espelhos passaram a ser minha única realidade, fui embora.

Hoje é segunda-feira de carnaval. Pierrôs, colombinas, melindrosas, pandeiros e cuícas se misturam no Largo dos Guimarães e eu aqui, relatando um fato a fria distância, como se a história nunca tivesse sido minha. Faz tempo que ela foi embora e ainda sinto uma saudade alucinada de nós. Um fantasma vira aquela mesma esquina ali embaixo há meses e quanto mais me escondo atrás das cortinas, quanto mais cigarros acendo tentando moldar com a fumaça uma outra imagem que não a dela, mais me aflijo neste apartamento incompleto. O apartamento está em pedaços. Os espelhos aumentam um vazio que parece não ter fim, perpetuam este espaço no qual me perco e eu aqui, sentado nesta poltrona, desejando vê-la surgir de dentro deles e dizer que tudo não passou de um inocente pavor.

Outro dia, era uma segunda-feira de carnaval, cuícas, pierrôs, pandeiros, colombinas, melindrosas, se misturavam no Largo dos Guimarães. Senti saudades. Às vezes tenho vontade de voltar e explicar o pavor que senti.

 

Ana Claudia Calomeni

 

Retirado de Releituras


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publicado às 21:04

Conto: O passado passa

por Jorge Soares, em 04.12.10

O passado passa

 

Não foi apenas por comodidade que sua historia com H durou tanto tempo. Depois de dez anos casado, e acometido pela doença diagnosticada “síndrome de tristeza pós-separação”, foi H quem apareceu e mereceu toda a atenção. E dedicação. Tão previsível, diriam os adivinhos das relações.

Faca as contas. Ele, com 38 anos. Ela, com 17. Se conheceram num restaurante. Ele era amigo do pai dela, com quem foi jantar. H apareceu na sobremesa, com os olhos mais brilhantes do que as velas das mesas, e a saia mais curta do que o expresso do local.

Ele era mais do que amigo do pai. Trabalharam juntos. Mais que trabalharam. Ele foi o seu primeiro patrão. Não apenas um. Definição: foi o seu mentor. Quem disse, no primeiro dia de trabalho, a frase com a qual ele passou amoldar a sua vida: “Você vai errar, mas, contanto que seja ousado, erre mais.”

Ouse, a regra que tomou para si em todos os trabalhos que realizou. Ouse, o verbo que dita as suas decisões ate hoje.

A pequena H teve apenas um homem-garoto antes dele. Vivia a histeria impregnada numa Lolita: num minuto, o mundo parece perfeito, no outro, uma desgraça; num instante, pensa em se jogar pela janela, no outro, ama tudo e todos a sua volta.

Uma inconstância hormonal que transforma as ninfetas em surpresas fascinantes, intrigantes, excitantes; pequenos furacões que se dissipam e largam para trás o céu claro.

Foi a primeira com quem ele foi para a cama depois de uma década casado e fiel.O cheiro mais doce de todas as mulheres. A inexperiência compensada pelo fogo.Um corpo atrás de aprendizado e consumo. Já escrevi uma vez: “Transar com uma ninfeta e como nadar numa piscina em dia de chuva.”

Ela não sabia nada, mas queria tudo.

Os pais apoiaram a relação incomum, já que ele era uma ancora de confiança para a garota a deriva. A família e amigos dele o condenaram: é uma criança; idade da sua sobrinha; vai fazê-la sofrer; o que você ganha em troca?

Só sexo? Claro que não. H lhe fazia bem.H curava as suas queimaduras.H dormia abraçada. H mostrava novas bandas, baladas, bares.H tinha uma ética e bondade,talvez fruto de uma pureza contaminada pela inocência, que contrastava com o mundo em volta.

Ele a ensinou a dirigir. Ia buscar na faculdade de Belas Artes. Levou aos melhores filmes. Tirou seu passaporte.Foram juntos para Nova York. Comeram nos melhores restaurantes. E ensinou a gozar.

O tempo passou. Um mês. Um semestre. Um ano.

Por vezes, H o envergonhava, especialmente numa roda com os amigos dele, em que ela falava uma bobagem digna da idade, diante de casais que, nos bastidores, desdenhavam a situação.

Suas expressões divertiam todos: “que fofinho”;“que uó”; “tipo assim...”; “sussa”. Suas opiniões eram radicais: ou tudo era lindo ou nojento.

Como uma pequena Maiakovski (“vosso trigésimo século ultrapassara o exame de mil nadas, para que o pai seja pelo menos o Universo, e a mãe pelo menos a Terra”), queria revolucionar o mundo, mas não sabia exatamente como furar o bloqueio da opressão.

Claro que um dia a verdade apareceu. Ele sentiu falta de alguém mais maduro, com as mesmas experiências. Apaixonou-se por uma advogada. E teve de cortar as asas de H. Afirmou, com convicção, que ela era linda e incrível, mas que não daria certo.

“É a diferença de idade?”, ela perguntou. Ele nem precisou responder. “Quem sabe quando você tiver 30 anos, a gente recomeça.”

Ela foi profética: “Você nunca vai encontrar uma mulher que o amou tanto quanto eu.”

Ele se casou coma advogada. Durou quatro anos. Se casou com uma jornalista. Durou dois. Se casou com uma atriz. Durou um. H deu para todos os amigos e os dele, se casou com uma guitarrista de uma banda punk,namorou uma cantora da MPB, se casou com um cocainômano, caiu de bêbada em todos os bares, abriu negócios que faliram, engordou, emagreceu, perdeu o pai, a mãe se mudou para Brasília, viveu com amigas e amigos.

Nunca perderam o contato. Nunca deixou de visitá-la nos aniversários dela. Nunca deixou de dar conselhos e carinho. E sempre se lembravam do pacto rindo. Que se cumpriu 13 anos depois.

Ambos estavam em sintonia; na mesma ressaca de recentes separações. Foi por acaso que ele ligou, e ela propôs: “To com fome de você. Vamos dormir juntos?”

Chegou à casa em que ainda havia objetos de decoração que ela dera no passado. Dormiram na mesma cama em que tantas vezes transaram.

A intimidade daqueles corpos mais gastos era a mesma. E se ela antes tinha dificuldades para gozar, agora dominava o descontrole e controlava seu prazer. Ainda uma ninfeta num corpo moldado pela idade.

Dormiram três noites seguidas. Ela sugeriu receitas para a nova empregada dele na terceira manhã. Perguntou se poderia levar alguns travesseiros, pois aqueles eram “uó”.

Mas nada de final feliz. Ela viajou para Brasília no Dia das Mães. Não ligou quando voltou. Ele esperou uns dias e perguntou, por torpedo, se ela não voltaria nunca. Ela não respondeu. Por que?

Ela não saberia a resposta. Descobriu que o passado passa. E ele aprendeu que é importante que passe, pois também nunca mais a procurou.

 

Marcelo Rubens Paiva

 

Retirado de Trapiche dos outros

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publicado às 21:04

Conto, MARCOLINA CORPO DE SEREIA

por Jorge Soares, em 27.11.10

MARCOLINA-CORPO-DE-SEREIA, de Nilza Amaral
Não serei diferente do que sou, tenho muito prazer
em minha condição. Sempre sou acariciada.
(Uma jovem feiticeira francesa de 1660)

 

Nascera linda. Crescera maravilhosa. Cuidava dos porcos e das galinhas. Chafurdava na lama, calçada com suas botas de borracha preta que resguardavam os membros em mutação, abrigava os cabelos de seda do sol inclemente sob um saco de estopa amarrado à bandeira de rebeldes.

Rebelde não era. Mas a ponta da luxúria já era incipiente. Insidiosa, começava a escalar a árvore do desejo pela raiz. Marcolina colecionava revistas que chegavam à venda na pequena vila de pescadores, um lapso do correio, pois revistas fashion look e vogues estrangeiras, outras do mundo inteiro, até uma nacional com apresentação de modelos com traseiros superdesenvolvidos, misturavam-se às batatas e à ração animal. "Leve, leve, para que me servem", dizia o vendeiro, "E para o que te servem, Marcolina? - Vai mostrar aos porcos, engordar suas vistas?” •

Marcolina-corpo-de-sereia morava junto ao mar, respirava o ar de sal e algas, ouvia cantos ao longe, ninfa ingênua que se transmutava sutilmente à medida que se banhava abaixo da cintura, nas ondas encrespadas do mar, no fundo de seu quintal.

Marcolina-corpo-de-sereia ainda não sabia para o que as tais revistas serviam e carregava todas, tinha a coleção debaixo de sua cama, o lugar ideal para o esconderijo, jamais vasculhado pelas vassouras que passavam ao largo.

Marcolina crescia. Os seios em botão afloravam pontudos na blusa, os pêlos dourados, penugem de seda, cobriam seu corpo alvo, até a cintura. Abaixo desta, a indagação. Marcolina virava sereia e ninguém percebia, nem os porcos satisfeitos com a lavagem diária não queriam saber sobre o sexo ou a imagem de quem os alimentava.

À noite Marcolina sonhava, folheando as revistas e descobrindo mulheres belas, despidas e ousadas, famosas mulheres da cidade. E desejava, ansiava, suspirava.

Um dia foi dar comida aos porcos, nua da cintura para cima. E o tio velho, os pais alienados, até os porcos pararam, o mundo cessou o seu giro, o sol brilhou mais intensamente para Marcolina desfilar. Seios empinados apontando para o céu, nua até onde o corpo de sereia permitia, Marcolina desfilou com o balde da comida dos porcos sobre os ombros ante os olhares tristes de todos: a princesinha transformara-se em rainha, e todos teriam que se conformar. Só não se conformaram os porcos com o atraso da alimentação.

Marcolina decidira. Queria desfilar sobre as calçadas cobertas de ouro, na passarela onde mulheres bonitas tornavam-se rainhas, mostravam o corpo, os seios, a bunda, suas carnes eram admiradas por todos e premiadas pela exposição.

A mãe era ignorante; porém, a ignorância não elimina a inteligência e constatava a mudança no comportamento de Marcolina. Aconselhar a filha? E o que poderia dizer-lhe? Que a verdadeira essência da vida é a simplicidade e que ela deveria conformar-se cuidando da sua vida ali naquela terra junto ao mar, alimentando os porcos, o seu dote para o futuro? Estava preparada para o revoar de sua pombinha.

Num dia da faxina no quarto da filha pronta para o vôo, encontrou as revistas. E perdeu metade do dia maravilhada, até que as devolveu ao esconderijo, saindo do quarto como de um castelo encantado.

Marcolina-corpo-de-sereia não nadou. Viajou. Subiu a colina num trem de segunda categoria, mochila nas costas, longa saia esvoaçante, e desembarcou na cidade que oferecia ouro às mulheres formosas.

Mulher linda e exótica, mesmo com corpo de sereia, sempre acha algum malandro querendo ser encantado pelo seu encanto. Com Marcolina não foi diferente e, ao ouvir aquela voz maviosa perguntando onde estavam as ruas cobertas de ouro, não teve dúvida em afirmar que conhecia o endereço das minas. Marcolina estranhou o ambiente ao sair da estação ferroviária e mergulhar no enxame humano de seres de todos os tipos, de mulatos mequetrefes a banqueiros raquíticos, de garotos de motos com botas de vaqueiro a adolescentes que paravam defronte às vitrines das lojas para ajeitar a roupa barata, os corpetes justos e as calças iguais, fazendo de todas apenas uma. Marcolina-corpo-de-sereia queria saber das calçadas douradas, das mulheres glamourosas, dos homens que sussurravam; seu corpo de sereia doía, sua cabeça latejava, aquele cheiro azedo de gente junta lembrava-lhe os porcos comendo lavagem e começava a impregnar-se da nostalgia da brisa do mar, do cheiro do sal, da lama da pocilga dos porcos.

"Eu me chamo Cobra", falou ele, indicando-lhe a moto escrachada e dizendo "suba aí na garupa que eu vou levar você até as calçadas de ouro". E partiram para a Mansão das Damas, a pensão na casa antiga e velha, ladeada de floreiras com flores de plástico, "veja é aqui que você vai morar, minha rainha, e já vou arranjar ouro para você hoje mesmo. Tome um banho, vista este vestido, jogue fora essa sua saia de cigana", sussurrava ele em seus ouvidos, escorregando a mão pelo seu corpo, enquanto a empurrava para um quarto minúsculo sobre uma cama quebrada, dizendo "o banheiro é no fundo do corredor, eu já volto".

Marcolina afinal tivera os sussurros nos ouvidos. A barra dourada e desbotada de mulheres nuas da pintura barroca na parede do quarto, mais o cansaço da viagem e a excitação da cidade grande a deslumbraram. Deitou, dormiu e sonhou com os seus porcos. Mas antes vestiu a roupa de escamas verdes brilhantes que amoldou o seu corpo de sereia.

A noite chegou e com ela o Cobra mais um fulano de terno e gravata que, sem abrir a boca, mostrou-lhe uma pulseira dourada, dizendo, ofegante, "olha, eu lhe trouxe o ouro", e logo abraçou-a pela cintura, procurando as suas profundezas, fungando e grunhindo, mordendo seus peitos duros, retirando-lhe o ar, na busca pelo imã que atrai todos os homens, e se da cintura para baixo Marcolina era mutante, outros orifícios o satisfizeram. Foi a primeira noite da sereia em terra de bárbaros que em troca do ouro, tão falso quanto a pintura das paredes, lhe extraíram prazeres. Outras noites vieram, novas pulseiras douradas, outros fulanos de terno e gravata irromperam pelo quarto do Cobra. Vamos ficar ricos, menina. Ela não acreditava, pedia as calçadas de ouro, as passarelas brilhantes, os vestidos de rainha. Mas ia ficando no seu vestido de escamas brilhantes, porque percebia que da cintura para baixo já não era mais a mesma. Alguma coisa estranha estava acontecendo — e aconteceu de fato. Examinando-se ao espelho viu suas pernas unindo-se debaixo do vestido de escamas brilhantes e verdes, sua cintura colava-se ao tecido, e ali no espelho a metamorfose mostrava a mais linda sereia do mundo. Cobra não se assustou. Colocou-a de lado na garupa da moto, levou-a até o litoral e despejou-a no mar revolto, resmungando que com cafetão de segunda classe as minas se transformam até em peixes.

Marcolina-corpo-de-sereia vagou pelas ondas, penetrou nas profundas do oceano, distraiu-se atrás dos peixes dourados até que, seguindo o som do canto embriagador, foi dar com os costados na praia de sua casa. Reconheceu o terreno pelo cheiro de lavagem dos porcos e pelo ressoar do cochilo de seu tio velho dormindo na areia.

Emergiu nua, largando as escamas brilhantes na água verde. Membros recompostos conduziram-na até sua casa, os porcos grunhiram satisfeitos, o amanhecer a encontrou folheando as revistas glamourosas, satisfeita de haver conhecido, se não as ruas cobertas de ouro, o outro lado da vida para além do mar. O tio alienado acordou com os grunhidos dos porcos, e Marcolina percebeu que já era hora de calçar as botas de borracha, próprias para chafurdar na lama. As pulseiras douradas brilhavam em seu pulso.

 

Nilza Amaral


 

Retirado de Trapiche dos outros

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publicado às 21:04

Conto: Traindo e retraindo

por Jorge Soares, em 13.11.10

Traindo e retraindo

 

Imagem do Momentos e Olhares

 

Chamou-o para o botequim de sempre, onde ele bebia chope e ela coca-cola. E comiam juntos uma picanha na pedra, quase ao ponto.

Viviam juntos há dezoito anos. Muito amor, sexo e... a empresa. Há algum tempo, no meio deles , rachando a cama em duas, revirando os lençóis, empurrando cada corpo para o máximo de lateral possível: a EMPRESA, porra! Ele na esquerda; ela na direita. E nenhuma partida.

Ela passava a vida no MOTI BANCO. Reunião pra cá, festinha pra lá; livro daqui, cd dali , depois me empresta aquele outro? ; saidinha após o expediente com a turma do uisquinho happy try — e ela não bebia. Mariposa era uma mulher séria, muito. Ele, Pacífico Ouriço, é que deitava e rolava nos vícios: cigarro, bebida . Mulheres não: há dezoito anos só dormia com a Mariposa. Aliás, Pacífico tinha vícios coisíssima nenhuma. Mariposa é que era certinha demais. A mulher não fumava, não bebia, não cheirava... nem fedia, quase não falava, mas comia muito, muitíssimo e — pasmem! — tinha o corpo impecável. Nem um pouquinho de gordura entornando no lugar errado.

Ele sempre confiara nela. Uma mulher daquelas jamais o trairia. Às vezes tinha ciúme, é verdade. Mas se sentia culpado, maldoso até. Ela casara virgem, cara! Sempre dele, só dele. Desconfiar de quê?

Mas voltemos ao botequim. Ela, exatamente agora, está dizendo para  Pacífico:

— Sabe, amorzinho, preciso que você saiba: estou saindo com o Gregório.

— Estão fazendo algum trabalhinho extra?

Parênteses: Gregório era colega de trabalho de Mariposa e amigo do casal. Sua mulher, Hermenilda, era pouco vista.

— Não , Pacífico. Tô dormindo com ele.

— Realmente devem ficar cansados, né amor ? A EMPRESA suga tanto ! Têm mesmo de dar uma descansada para agüentar trabalhar assim das oito da manhã às dez da noite. E quase todo dia!

Pudica (ah!), Mariposa não rasgava o verbo, como se diz vulgarmente. Continuou, discreta como sempre :

— Benzinho, tô dormindo e fazendo tudo o mais.

— Tudo o mais o quê, amor? — perguntou Ouriço.

— Tudo o que homem e mulher costumam fazer na cama — respondeu ela.

Silêncio total. Ele dá uma bicadinha no décimo primeiro chope da noite. Não está bêbado, apenas mais leve, levíssimo. Ultralaite, eu diria. E ela ali, firme na coquinha. E lúcida.E gostosa como sempre. E honesta como sempre. E firme, quase fria, como sempre.

E como sempre — epa! me distraí — come sempre — epa! outra vez me distraí. Escrevendo de novo . Ela comendo sempre — agora sim! acertei no alvo — a picanha com parcimônia, a ponto de deixá-lo envergonhado com sua avidez de glutão incorrigível.

Professor de Filosofia, acostumado a fazer joguinhos intelectivos com seus alunos, Pacífico começa a dizer, sem mais nem pra quê :

— Mariposa, Maposinha, tudo é nada. As b... as pontas se encontram. Por isso o tudo vira nada, que é nada e também tudo. Entendeu?

E, sem esperar resposta, continuou , depois de coçar a testa com   insistência:

— Maposinha, se o nada...

— Pacífico, meu amor, tô ficando cansada. Vamos embora.

Ele, que jamais contrariava a mulher, foi largando o décimo segundo chope sem beber, deixando dinheiro suficiente com gorjeta gorda. Pedir conta vai demorar! Maposinha precisa ir, precisamos ir.

E saíram. Ele passou o braço na cintura dela. Passaram por Gregório, que vinha andando pela rua. Pura coincidência. Respondeu ao boa-noite do colega da mulher. Aliás, responderam. Passaram pelo porteiro do prédio onde moravam. Passaram pela porta do apartamento. Passaram para a cama. Ele passou tudo de novo em sua mente: Mariposa e Gregório transando... uau! Mulher tem cada uma. Pior que criança!

Antes de dormir, ele coçou e coçou a testa. Depois disse, dobrado em posição fetal:

— Cê tem cada uma, mulher!

E dormiram o sono dos justos, justíssimos em seus pijamas de medo.

 

Márcia Carrano

 

Retirado de Releituras

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publicado às 21:03

Conto: Sombra dos olhos

por Jorge Soares, em 06.11.10

Sombra nos olhos

 

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Isso é muito pouco! Ele gritou, tão alto e tão grave que ela sentiu toda a raiva de seus pulmões cansados. Cansados de tudo. Da idade, da fumaça do cigarro, do ar condensado de mágoa, do silêncio, da indiferença, do abandono.

Ao ouvir isso, ela apenas o olhou por entre as sobrancelhas com ar de pena, soltando da boca uma nuvem branca de tédio que subiu até o teto de madeira entalhada em rococó. Perfeito como foi no início.

Contaminado de desgosto, ele contemplou longamente aquela mulher. Vendo seus olhos pintados de sombra cintilante e o cabelo ajeitado num penteado duro como seu olhar, lembrou-se de quando ela lhe disse pela primeira vez que o amava. Em seus olhos não havia sombra. Ao contrário. Brilhando a luz do Sol, as pupilas não eram negras, mas douradas, da cor do compromisso na mão direita.

Os dias se passavam como horas, e cada hora longe um do outro pareciam dias. Sempre juntos, já não se sabiam mais divididos.

Quando veio o outono, o frio chegou cedo demais e atacou a plantação e os negócios da família. E, como não bastasse, ele começou a sentir suas mãos leves demais, tremulando inconstantes feito as folhas secas que via, através do vidro, desprendendo-se dos galhos de salgueiro no jardim. Foi quando ele percebeu que o olhar dela tornara-se opaco. 

Enquanto se perdia de tudo e de si, também a perdia.

Certa manhã, ela sentou-se ao lado dele para o café numa proximidade infinitamente distante. No salto-agulha, os pés dela alfinetavam, assim como os da cadeira, o antigo tapete vermelho, agora desbotado, cor de carne sem sangue. Meia hora em que ela apenas mordia, sorvia e engolia sons. Ao fundo, ele só ouvia a vibração do ar entrando e saindo de seus pulmões, quase sufocado pelo peso dos próprios pensamentos.

Ali, naquele instante, ele notou pela primeira vez aquela sombra pérola nos olhos dela. E ela já não era tão bonita. Estrela apagada, tentava refletir alguma luz no brilho em pó sobre as pálpebras mirradas. No rosto marcado da mulher, ele lia os anos que passaram juntos, como em um álbum de família. Recordava os tempos bons, revivia-os. Escondia-se dela e de si na lembrança.

Naquela noite de inverno, em frente à lareira, sentiu-se asfixiado de um completo vazio. Uma pessoa-copo-plástico, descartável. A sala havia se tornado imensa para conter sua presença esmigalhada, mas minúscula para abrigar os escombros de vida sobre seus ombros.

Ela não estava partindo para economizar os parcos tostões que lhes sobraram, deixando-o mais confortável. Ao contrário, estava deixando-o, confortavelmente, para não precisar mais carregar aquele corpo pesado e doente. Não era nele que ela pensava.

Mas ele sim pensava nela, em tudo o que fez por ela. Construiu forças sobre os entulhos sentimentais e as soprou com todo o ar de seu peito.

Ouvindo aquele grito desesperado e profuso, ela deixou escapar seu último fantasma de fumaça, depositou o resto de cigarro ainda aceso sobre o cinzeiro e, mergulhada em si, levantou-se e saiu.

Enquanto escutava os pequenos passos se afastando, ele permaneceu calado, observando as fracas chamas na lareira. Refletidas pelas gotas de cristal do lustre, elas se espalhavam pela escuridão da sala feito chagas. Olhava, mas não via o fogo que quase se extinguia naquela última lenha velha, queimando o último pedaço, assim como o cigarro no cinzeiro.

 

Michelle Horst

 

Retirado de Releituras

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publicado às 23:28

Conto: Onze homens cercam mulher na madrugada

por Jorge Soares, em 30.10.10

Rosa...

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Foram ao todo onze homens para uma única mulher, numa única madrugada. "Você pensa que essas coisas nunca vão acontecer com você", a frase típica da mentalidade estreita das classes favorecidas, incapazes de entender que a vida são os acidentes, os imprevistos do meio do caminho. Não é necessário muita filosofia. Uma simples frase de letra de música de John Lennon diz: “a vida é o que lhe acontece enquanto você está ocupado fazendo outras coisas”.

 

Foram onze homens ao todo numa única madrugada. O carro pifou de repente, às duas da manhã na rua deserta, do bairro de classe média. A mulher teve um arrepio de horror: é agora que vou ser estuprada. O carro não respondia, acusando o defeito insondável.

São Paulo, gigantesca, ganhava dimensões assustadoras no eco silencioso da madrugada. O carro, pedaços e partes de lata, ferro e fluidos incompreensíveis, não respondeu.

A mulher desceu, só. Nessas horas, dependendo da mulher que se é, não haverá um homem a seu lado. O dela estava longe, no estrangeiro. Isso dava a exata noção de sua pior solidão. Quando olhava ao redor procurando sinal de vida. sentiu um início de desespero.

 

O carro, mudo, tinha virado um poste de concreto, um pedaço de asfalto, matéria inanimada que antes, funcionando, não parecia — o carro antes parecida gente, um homem grande, que a trazia de volta para casa a salvo. Dele dependia sua segurança pessoal, sua integridade física, sua vida. 

Era um desses casos de defeituosa inserção da tecnologia no domínio global da vida: o crescimento das grandes cidades, a escravização do homem pela máquina, a desorganização social. Ela seria estuprada em plena rua na madrugada.

Mas logo reagiu. Afinal, sempre tinha sido assim. Diante dos supostos perigos noturnos ela tinha, desde menina, desenvolvido fortalezas internas. Sua vida real, na época, era tão ruim que ela não temia sombras ocultas no escuro. 

Sempre enfrentou com desassombro os fantasmas que povoavam a infância. Aprendeu cedo a achar aquilo tudo mentira, pura mentira. Aprendeu cedo a achar que nada podia ser pior do que a própria vida real e as próprias pessoas.

Os primeiros homens para quem acenou por ajuda vinham numa motocicleta. Ela não viu que havia um terceiro a segui-los de carro. Pararam, um deles meio bêbado. Tentaram o tranco, sem violência. Os três seguintes estavam juntos num carro de luxo, que ela avistou de longe. Pararam. Um deles até ofereceu o celular, se ela quisesse pedir ajuda.

Os outros três eram feirantes já montando barracas para a feira do dia. Um deles, negro, fingiu-se de aleijado, saltitando numa perna só, ao perceber que ela vinha pedir ajuda. Ela riu. Os três empurraram o carro ao longo do trecho final.

Os últimos foram o porteiro e o zelador, que terminaram de acomodar o carro na garagem. Sentindo-se uma rainha, ela reprimiu o desejo de beijar na boca todos aqueles homens, gentis servos da noite. Afinal, arre! Como dizia um poeta, ela estava farta de semideuses. Havia, enfim, gente nesse mundo até possível.

 

Marilene Felinto

 

Retirado de Releituras

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publicado às 21:04


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