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Conto - O amanhecer em quarto estranho

por Jorge Soares, em 07.06.14
O amanhecer em quarto estranho
Acordei e logo, percebi que meu corpo estava dolorido. Pensei que tinha apanhado. Então abri os olhos. Olhei ao redor e tentei reconhecer onde eu estava. Aquele quarto não me era familiar. Com certeza não era o meu. As estantes brancas, organizadas com livrões e enfeites e alguns bichinhos. Não era de alguém muito próximo. Eu conhecia o quarto das pessoas próximas a mim.
Não caí em desespero. Permaneci calmo. Afinal, não era a primeira vez que acordava em lugar estranho, e tampouco seria a última. Além disso o quarto era limpo e eu estava bem confortável. Uma cama excelente.  Diferente de acordar na rua, com o corpo gelado e sujo.
Fechei os olhos novamente. Esforçava-me para tentar lembrar o que tinha acontecido na noite anterior. Aos poucos algumas imagens surgiam.
Lembro-me que saímos para comer alguma coisa, mas era apenas uma desculpa para bebermos. Assim que chegamos no restaurante, pedimos algumas cervejas. Jantamos e continuamos bebendo. Acho que era próximo da  meia-noite, quando uma das meninas, que nos acompanhava, a mais bonitinha, disse que queria dançar. Eu não queria dançar. Não gosto de dançar. Mas ela era bem bonitinha e eu já tinha bebido algumas, achei que fosse uma boa ideia.
Cara, como ela era bem bonitinha. Bonita mesmo. Seu nome era Amanda. No fundo, eu sabia que não tinha nenhuma chance com ela, mas diabos um trago faz a gente pensar que pode tudo; faz acreditar que sonhos impossíveis são possíveis. Era certo, que em estado sóbrio ela nunca ficaria com um cara tímido e gordo, com uma barba de meses no rosto. Não sou muito propenso a fazer barba. Acho que os pelos em nossos corpos são naturais. Não gosto dessa estética plástica que nos impõem uma limpeza total dos pelos no corpo, com um esforço em tentar esconder a sujeira da humanidade. Às vezes, me pergunto, onde esta a sujeira da humanidade? Também não gosto de textos limpos demais, não me refiro só a linguagem, me refiro àqueles com um mundo cor de rosa, onde tudo se encaixa, tudo é perfeitinho. Menininho se apaixona pela menininha, se casam tem filhos e nunca falta dinheiro ou comida. Sempre estão felizes. Fico pensando que porra é isso!!?? Fico indignado. Talvez, por isso que eu gosto mesmo, é de acordar com do velho Johnnie e um texto do Bukowski.

 

Carlos Carreiro

 

Retirado de Samizdat

publicado às 20:36

Conto - Dona Clara

por Jorge Soares, em 12.05.12

ler faz a solidão ser menos dolorosa e é uma espécie de um não estar sozinho de verdade

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Perco-me entre os títulos de sua biblioteca. Patrick Mercer, Joathan Kellerman, Kerry Jamieson, Patricia Cornwell, Christina Jones e tantos outros outros autores que nunca ouvi falar, que talvez nunca venha a ler. Não gosto muito de leituras, mas gosto de estar na presença de livros, gosto quando ela narra-me as historias. Ela não saia muito de casa, apenas para fazer compras para casa ou ir ao cinema. Conheci Dona Clara em uma segunda-feira cinzenta, ela fazia as compras da semana e um dia pediu ajuda para levá-las para casa. Se Chico chamou-me para ajudá-la. Ajudei-a mais algumas vezes.


Um dia ela ofereceu-me um copo de suco. Eu aceitei. Entrei em sua casa e tudo mudou. Esqueci do trabalho, esqueci dos problemas, dislumbrado com aquela quantidade de livros nas estantes, procurava prolongar ao máximo aquele suco, queria que aquele momento durasse para sempre. Eu queria ficar lá, entre eles, apenas ouvindo seus susurros. Dona Clara percebeu o que eu não havia percebido, percebeu vida onde eu achava que não tinha mais. Mesmo sem os óculos que lhe permitia enxergar, ela viu mais do que eu. Ela viu o brilho nos meus olhos. Mas eu percebi que estava demorando muito e resolvi voltar ao trabalho. 


Toda a semana ela ia ao mercadinho e toda a semana eu me oferecia para ajudá-la, aos poucos, fiquei sabendo que ela era solteira. Nunca fora casada, embora tivera um grande amor na juventude. Por muitos anos lecionou literatura na faculdade, mas um dia ficou cansada e foi viajar, quando voltou lecionou por alguns anos e resolveu se aposentar. De vez em quando ainda ensinava em aulas particulares, inglês, francês ou português, mas tinha perdido a paciência de uma sala de aula. E ela ficou sabendo que eu não tinha nem pai e nem mãe. Quando meus pais morreram fui para a casa da tia Janice, mas ela não gostava de mim e não me tratava bem, então quando consegui um emprego no mercadinho do seu Chico, procurei um lugar para mudar. Foi o seu Chico mesmo que me conseguiu um quarto na pensão da Dona Isolda. Ela, a Dona Clara, também descobriu que eu não tinha completado os estudos, mas que eu sabia ler um pouco. 


Enquanto carregava as compras, Dona Clara contava-me histórias dos livros, historias de dragões, de cavaleiros, de donzelas, de homens valentes, de crimes, de guerras e também historias da sua vida e de suas viagens. Toda a semana era assim: ela contava-me uma historia, e enquanto eu terminava de tomar o suco, ela mostrava-me o livro da história. E ela perguntava se eu gostaria de levá-lo para casa, eu dizia não. Não sei porque, mas não era só não gostar de ler, eu também tinha um pouco de medo. 


Continuamos nessa amizade por mais de um ano. Um dia, ao invés de começar a contar uma das histórias, ela perguntou “Você gosta de ler?”, “Na verdade não, mas gosto de histórias e gosto da companhia dos livros. Acho chato ler”. Disse aquilo com cabeça baixa, esperando um sermão. Mas juro que não falei por mal. Para minha surpresa ela apenas riu e disse “meu pai costumava dizer que ler faz a solidão ser menos dolorosa e é uma espécie de um não estar sozinho de verdade. Eu era muito nova para entender aquilo, mas acabei aprendendo. Aprendi muitas coisas com meu pai, aprendi a gostar de historias por exemplo. Assim como você eu também não gostava de ler, mas então um dia, quando já estava na escola, meu pai faleceu. Eu me senti muito só, fiquei semanas em casa, sem vontade de fazer nada. Ia para o escritório dele, mexia em suas coisas e um dia achei um livro. Era as historias dos Irmãos Grimm. Eu sentei e por alguma razão eu comecei a ler e chorei, chorei e chorei. Percebi que não tinha mais meu pai para contar historias para mim, mas também percebi que ler era como fazer uma oração de agradecimento para ele, por tudo que ele tinha me ensinado. Não sei como aconteceu ao certo, mas desde essa data eu ia todo dia ao escritorio dele e lia alguma coisa. Então chegou um dia que percebi que eu gostava de ler. Estranho como as coisas acontecem com a gente, mesmo morto meu pai me mostrou uma porta para o mundo”. Eu não soube o que dizer e fiquei quieto até chegarmos a sua casa, mas dessa vez eu não aceitei o suco. Não sei porque, mas aquela conversa tinha me deixado desconfortável. Não sei, mas eu não queria ficar mais perto da Dona Clara. Uma dor estranha estava no meu peito, uma espécie de medo, uma sensação ruim. 


Não vi a Dona Clara por semanas e um dia resolvi visitá-la. Eu queria saber como ela estava e porque ela não ia mais fazer compras. Cheguei em sua casa e uma moça abriu a porta. Fiquei meio sem saber o que falar no início então perguntei:
- A Dona Rosa está?
- Não. Ela faleceu faz uma semana. Engolindo o choro, fiquei quieto. E pedi desculpas. Quando estava indo embora, ela perguntou quem eu era. Sou Machado, do mercadinho do seu Chico. Eu gostumava... “Eu sei quem você é. Ela falou de você antes de morrer e pediu que lhe entregasse um pacote.” Ela entrou no apartamento, trouxe-me o pacote e entregou-me. “Obrigado” eu disse e sem saber mais o que dizer, eu falei “sinto muito que ela tenha morrido. Eu gostava de conversar com ela. Desculpe, eu preciso ir. Tchau”, “Tchau”. A porta não fechou, sei que a menina me olhava enquanto eu saia, mas não quis olhar para trás.


Voltei para casa com uma dor que eu não sabia explicar. Entrei em em meu quarto e me tranquei. Eu queria chorar, mas não conseguia. Então lembrei do pacote. Era o livro dos Irmãos Grimm. Nele estava escrito “Machadinho, Espero que esse livro te ajude como um dia ele me ajudou. Nele tem um monte de histórias que eu gostaria de ter te contado. Se quiser descobri-lás, so depende de você. Dona Clara”. As lágrimas rolavam pelo meu rosto, enquanto eu começava a ler a primeira historia.

 

CARLOS CARREIRO

 

Retirado de SAMIZDAT

publicado às 21:19


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