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Conto - A Selva

por Jorge Soares, em 10.11.18

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Há muito que os homens saíram da selva. Não lhes servia tanta incerteza, tanto perigo de vida. Aos poucos, com avanços e recuos, organizaram-se para autodefesa, assistência mútua, caça. Criaram normas de funcionamento coletivo do grupo, muitas vezes tácitas, outras bem expressas. Para evitar aproveitamentos egoístas. Para que o grupo fosse o lar de cada um. E afastaram-se da selva e das suas práticas ferozes.
 
 
Sem que o percebessem, os animais observavam-nos, curiosos, e acabaram por conseguir copiar o Conselho da Tribo. Pelo menos em alguns dos seus aspetos formais. Chamaram-lhe o Conselho da Selva e funciona desde então. Reúne-se uma vez por ano, ou a qualquer momento, em sessão extraordinária, a pedido de algum grupo. Geralmente, é apresentado um problema, levantada uma questão, feita uma queixa ou uma reivindicação. Segue-se alguma troca de ideias, muita algazarra, mas por fim o Conselho costuma concluir com uma declaração por maioria absoluta.
 
 
 
 
Joaquim Bispo
 
*
Imagem: Henri Rousseau (o alfandegário), Cavalo atacado por um jaguar, 1910.
 
Retirado de Samizdat
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publicado às 21:13

Conto - Sombras de Carne

por Jorge Soares, em 27.10.18

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Lola limpou a boca no lençol, pouco se importando com o olhar magoado do rapaz ao seu lado. Aqueles encontros estavam começando a irritá-la. Rodrigo aparecia mais de uma vez por semana no Mercado Municipal, com um jeito desamparado de cachorro com fome, e ela acabava por ser deixar vencer pela piedade. Os olhos... Eram os olhos de Rodrigo que atraíam, prendiam. Não a boca, nem os gestos que não passavam de uma mão trêmula e gelada, e de um único grito abafado na hora do gozo. Seus olhos, no entanto, cuspiam sofrimento, escondiam algum segredo.
 
Havia entre os dois um comércio. Nada mais. Lola não gostava da demora do rapaz, do tempo arrastado que levava para gozar. Uma coisa tão simples essa de trepar, mas Rodrigo insistia em fazer de cada vez um ritual de afeto, como se estivessem num encontro. Ela já estivera com outros da idade dele, outros que se apaixonaram pelos seus seios e pelo seu sexo sem pelos, que a tocaram como gatos nervosos, desajeitados, arranhando, mordendo, se esfregando em sua pele lisa. Mas Rodrigo tinha aqueles olhos, só podia ser isso! E ela acabava por se deitar com ele novamente, rendendo-se a preliminares que não permitia a ninguém mais.
— Por que é que você limpou a boca? — o rapaz quis saber.
 
Sem lhe dar resposta, Lola enfiou o corpo carnudo debaixo do chuveiro. Ela tinha pressa. Sempre tinha. As coisas deveriam estar fervendo no mercado, e Xavier não gostava de ficar sozinho na banca. Reclamava da demora nas entregas e pedia a ela que não se ausentasse por tanto tempo. 
 
Não que desconfiasse dela. Não, isso nunca. Mas ficava desorientado quando a mulher não estava por perto para atender os fregueses. Embrulhava os queijos e as compotas no papel errado, amassava as frutas, e os fregueses só não iam embora por causa da amizade. Ela e Xavier mantinham a banca desde que tinham se casado, 18 anos antes. 
 
Dezoito anos atrás Rodrigo tinha três anos, pensou, se esquecendo do marido e do mercado. Mas logo afastou o pensamento e se concentrou no vaivém da toalha com que enxugava as costas.
 
Desde que Xavier tinha ficado doente, havia algum tempo, nunca mais fora o mesmo. Acabaram-se as brincadeiras prolongadas no colchão, o sexo em pé, atrás da porta, quando a urgência não permitia chegar ao quarto, e as fugas para os fundos da banca, onde se excitavam como adolescentes, escondidos atrás dos caixotes de fruta. Ela se acostumara, ano a ano, a fazer tudo com pressa. Não fosse aceitar aquela rapidez do marido, ficaria sem nada.
 
Traiu Xavier, pela primeira vez, seis anos antes. 
 
Um freguês perguntou se faziam entregas em domicílio e ela mesma se encarregou de ir levar as compras. Preferia que o marido ficasse na banca. Por mais desajeitado que fosse, Xavier era melhor do que ela nas contas, e havia ainda os fornecedores, com quem Lola preferia não ter que lidar. Quando chegou ao apartamento sofisticado, foi o próprio freguês quem lhe abriu a porta. Alto, com a pele clara e os cabelos escuros levemente ondulados, recendia a um perfume discreto, mas insinuante. Lola teve vontade, assim que o viu, de passear os dedos naquele peito largo. Deve ser bom deitar em cima dele depois do sexo, se pegou pensando. Depois, as mãos que se roçaram na entrega das compotas, o pacote que caiu, os dois corpos que se abaixaram juntos na tentativa de pegá-lo, e o perfume que se impregnou nos seus sentidos, roubando-lhe o juízo. Por fim, os olhos se provocaram. E os dois se completaram pela fome. Era assim que Lola gostava de se lembrar das coisas.
 
Fizeram sexo, ela e o homem do perfume suave, por quase um ano. Ele ia até a banca, encomendava os produtos e pedia que fossem entregues em sua casa. E a entrega se fazia no suor dos corpos apressados. Lola lhe fez uma exigência: que comprasse sempre muito. Aplicava, assim, ao amante e a si mesma, um mea culpa. Ambos pagavam, a seu modo, pelo que consumiam. 
 
Quando o amante parou de procurá-la, Lola percebeu que não sentia falta dele, mas das compras que fazia em abundância. E decidiu que era preciso repor o prejuízo. Da banca e do corpo. Um a um, foram surgindo outros fregueses. No princípio, ocasionais, induzidos pela boca pintada de Lola, que parecia a polpa das frutas que vendia. Mas, em poucos meses, o plantel que a solicitava era constante.
 
Assim que Xavier quis contratar um ajudante para ajudá-la com as entregas, ela se opôs: Desse jeito, o lucro vai-se embora!, afirmou. Aos 42 anos, Lola se rendia pela primeira vez em sua vida a um vício. Viciou-se não somente no sexo diversificado, mas na urgência, no desejo pelos corpos que aliviavam os seus tremores. Nenhum dos amantes dava trabalho. Nenhum deles fazia do sexo mais do que o prazer das línguas ansiosas, das penetrações que a invadiam com mais ou menos força. Aceitava o aperto nos seios, as bofetadas ocasionais que levava ou dava, a cavalgada e a posse animal. Recusava-se, apenas, a dentes que lhe marcassem o corpo que Xavier veria, cedo ou tarde; e aos beijos na boca, que se empenhava em reservar para o marido. Negava-se, também, a se deitar com menores, e com mais de um amante ao mesmo tempo. Afora essas rejeições, fazia pouco sexo com mulheres, porque sentia falta da penetração e dos fluidos.
 
O primeiro rapaz com quem fez sexo tinha uns 20 anos. Lembrava-se sempre dele e dos outros, de mesma idade. É impressionante como são desajeitados!, pensava, observando seus gestos durante a trepada. Como muitos deles não tinham dinheiro ou renda, comprometiam-se com a obrigação de levar pais e amigos à banca no mercado. Cumpriam direito o trato, com medo de perder Lola e ter que correr atrás das jovens cheias de espinhas e regras que os afastavam por pudor ou esperteza.
 
Rodrigo tinha ido à banca, pela primeira vez, num dia frio. Primeiro, ficou olhando para o chão, com timidez, mas no momento em que seu olhar cruzou com o dela, Lola percebeu a inquietação que havia naqueles olhos que fugiam de tudo. Chegando ao pequeno apartamento do rapaz para entregar as frutas e os doces, surpreendeu-se com a arrumação e o bom-gosto do lugar. E surpreendeu-se mais ainda quando Rodrigo lhe disse que morava sozinho. Fizeram um sexo ruim sobre a cama macia e larga, mas Lola não estava interessada nas habilidades de Rodrigo. Impressionava-se era com os gestos relutantes e respeitosos do rapaz. 
 
— Primeira vez? — perguntou, curiosa.
— Não, com certeza não. Mas, de uma certa maneira, sim.
 
Apesar de intrigada, Lola decidiu que já tinham conversado demais. Coitado, não bate bem das ideias, pensou enquanto saía do apartamento de Rodrigo, logo depois.
 
Agora, já eram cinco meses que o rapaz a procurava. Procurava sempre, em excesso. E Lola concordava em se deitar com ele por pena, curiosidade, culpa. Sim, era culpa aquele sentimento que sempre a levava a fazer coisas das quais se arrependia depois. Sentia-se culpada por não conseguir dar a Rodrigo o alívio que vira em outros homens, em outros rapazes como ele. Era o mesmo sentimento que a tomava quando percebia os olhares perdidos de Xavier, o cenho franzido, as mãos apertadas como se fossem dar socos no vazio, ou como se pensamentos absurdos lhe passassem pela cabeça.
 
Chega!, pensou contrariada, descendo com barulho as escadas do prédio de Rodrigo. Enquanto caminhava de volta ao mercado, decidiu que se livraria dele. Rodrigo não lhe fazia bem ao corpo nem aos pensamentos, que se aceleravam em hipóteses que ela não conseguia entender. 
 
Que se foda com os seus segredos!, decidiu, pouco antes de chegar à banca. Resolveu que seria aquela noite mesmo que o dispensaria. Xavier estava fora, num dos cursos para comerciantes que vivia fazendo, e ela teria tempo de sair e voltar sem ser vista. O marido não era homem de controlar os seus passos, mas ela preferia não ter que se explicar, para não ter que mentir. Orgulhava-se de pensar que não mentia para Xavier. Eu omito coisas dele, eu o engano, mas não minto para ele, repetia para si mesma quando a consciência teimava em vir à tona.
 
Aprontou-se rapidamente e borrifou nos pulsos e nas orelhas o perfume que usava diariamente. Em vez do táxi que inicialmente pensou em pedir, preferiu caminhar. A distância não era muita. 
 
A noite estava um pouco fria e a falta do agasalho fez com que seus mamilos se avolumassem sob o vestido de malha decotado. Prosseguiu a passo rápido, dando-se conta de onde estava apenas quando começou a ouvir algumas cantadas pesadas e assovios que a incomodaram. O atalho pela praia não tinha sido uma boa escolha. Percebeu, tarde demais, que atravessava uma das zonas de prostituição da cidade. Nos muros, as sombras dos corpos que faziam sexo não a assustavam tanto quanto os corpos que enxergava em carne e osso consumindo-se perto dos barcos, na areia, ou nos carros estacionados ao longo do meio-fio. Correu para afastar-se daquelas Lolas multiplicadas em trepadas rápidas, daqueles espelhos incômodos. Nervosa, se encostou nas grades de uma loja fechada e vomitou.
 
Pouco depois, retomou a caminhada com passos ainda mais rápidos. Virando a última esquina em frente ao porto, suspirou aliviada. Foi quando viu os dois corpos projetados numa parede mais à frente. Pensou em parar, em recuar, mas alguma coisa a atraiu, deixando-a excitada. Com tesão, procurou com pressas os próprios seios, apertando-os com força e sem parar. Devagar, gemendo baixo, aproximou-se mais e mais do muro que se contorcia. Queria ser parte daquele clímax.
 
Então, seus olhos se cruzaram com outros. Nos de Rodrigo, mais nenhum segredo. Nos de Xavier, o fogo que ela tinha perdido para sempre. 
 
Cinthia Kriemler
Retirado de Samizdat
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publicado às 21:13

Conto - As seis notas

por Jorge Soares, em 11.06.16

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Não sabia o que vestir, então deixou que sua mãe a ajudasse. Reviraram as roupas do velho baú até encontrarem algo apropriado para a ocasião daquela tarde: um velho vestido de tafetá, mas de um azul bonito e lustroso.

 

— Teu pai ficava doido quando me via socada nesse aqui. Eu faço um arranjo ligeiro e tu vai entrar nele como se tivesse sido feito pra tu — diz a mãe, visivelmente orgulhosa.

 

— Anda, Veralda, avia! Vai te assear que eu vou dar uns ponto no vestido, depois a gente pinta a tua cara pra te livrar dessa cor de cera, minha filha.

 

Coordena os serviços, a mãe. Tem ela o pé nu e de unhas feias posto sobre o pedal da máquina de costura. Uma mão acaricia o tecido que fede à barata enquanto a outra busca por tesoura e linha.

 

Veralda apressa-se em não decepcioná-la e corre até a cozinha, onde apanha sobre o jirau um pedaço de sabão de coco e uma toalha. Caminha aos pulinhos até o banheiro improvisado com palhas de carnaúba, posto estrategicamente ao lado da cacimba. A água fresca banha seu corpo e Veralda se esquece do calor e das obrigações, pensa nas belas bonecas que ganhará e esfrega a cara com força, como se quisesse se tornar outra. Experimenta o cheiro bom do sabão e lambe sua espuma. Não parece coco.

 

Quer estender o banho, mas seus braços finos não aguentam puxar mais que três baldes. A aspereza da toalha quase fere sua pele marcada pelas surras e quedas do cajueiro.

 

— Mãe, bota mais — suplica Veralda diante do espelho, ao ver seu rosto, pela primeira vez, maquiado. — Eu tô bonita, num tô? — Pergunta a filha.

 

A mãe responde com um muxoxo e se ocupa em desembaraçar os cabelos cheios de piolhos e carrapichos.

 

— Nem teus irmão homem tem uma cabeça sebosa como a tua, cunhã. E para de se bulir senão eu te dou um cascudo, desinfeliz — repreende a mãe.

 

Mas Veralda nada escuta. Mira-se no espelho e sonha em ser a princesa que um dia vira em uma revista que sua irmã mais velha trouxera de Fortaleza. Jamais fora à capital do estado. Nem ela, nem seus pais ou seus outros irmãos. Pareciam todos condenados a morrer ali, entre Brejo Santo e São José do Belmonte. Mas, a sorte de Veralda estava fadada a mudar ainda naquela tarde. Teria um quarto só seu e dois bambolês, um amarelo e outro azul. Seria mais rica que qualquer menina.  

 

— É essa aqui? — pergunta o estranho, de aspecto repugnante.

 

O homem segura a menina por um dos braços e verifica atrás das orelhas, também dentro da pequenina boca. Talvez procure por feridas, como faria o comprador de um animal.

 

— É essa aí sim, é bonita, num é? — cintilam os olhos da mulher, orgulhosa por ser boa parideira.

 

— Essa menina tem mesmo só onze ano? Seu Dosinho só gosta das novinha. A sua cabrocha aqui parece mais velha. — desconfia da mercadoria, o atravessador. Sabia o que lhe aguardava caso pagasse mais caro por algo que não valesse cada centavo.

 

— Tem mais de onze não, Juarez. É que essa aí come demais. Ou me livro dela ou não crio as outras três pra ficarem assim, vistosa que nem ela. E tá aqui a certidão de nascimento — apresenta a mãe o papel carcomido, o que abona sua retidão em transações comerciais. — Se quiser, pode levar pro Seu Dosinho em pessoa conferir o documento.

 

Após guardar o papel no bolso de sua calça brim encardida, o homem retira a carteira — cuidadosamente posta entre o cós da calça e seu púbis — e sorri para Veralda.

 

— O acertado foi seiscentos reais, num foi, Dona Verbênia? Pois tá aqui cada centavo, a senhora já tinha visto uma nota de cem? É bonita, num é?

 

A mulher acaricia cada uma das cédulas, enquanto seu cliente traz para junto de si o resultado de sua compra.

 

— Deseje felicidade pro Seu Dosinho, viu, Juarez. E Diga pro Sargento Cardoso que Valfredo não vai poder ir no sábado porque ainda tá cum dor. Mas mando o Valter no lugar dele e faço um abatimento.

 

A mulher ri satisfeita ao sentir as seis notas de cem reais roçarem-lhe o mamilo rijo. Molha-as de leite.

 

— Mãe, eu não quero ir — diz a menina ao libertar-se das mãos de seu comprador e correr até sua cachorra. Abraça a cadela prenha como quem procura o carinho de uma boa amiga. — Eu quero ver os cachorrinho da Pidoga nascer. Depois que ela parir, a senhora pode me mandar pro Seu Dosinho.

 

Nervosa, a cachorra balança o rabo. Seus olhinhos castanhos molhados pelo choro da menina que ama, ficam apertados. Se soubesse o que se passa, morderia esses dois infelizes que as separarão para sempre, Veralda e ela, e que também se livrarão de seus filhotes antes mesmo que eles desmamem.

 

A mãe, extremamente constrangida, toma a filha para si. Paciente, como só as mães sabem ser, seus olhos reluzem enquanto ela diz:

 

— Deixe de besteira, Veralda. Vá logo com o Juarez. Pra que tu quer ver os filhote da Pidoga? Que serventia tem isso? Se preocupa em fazer logo um teu, pensa direito, ou tu num é minha filha?

 

Muito séria, Veralda para de chorar e entrega sua mão a de Juarez.

 

— Eu preferia ser filha da Pidoga — diz, vingada, antes de partir.

 

 

Emerson Braga

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13

Conto - O reverso da crisálida

por Jorge Soares, em 14.05.16

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E então um dia a Natureza condoeu-se daquela fraca borboleta.

 

De asas mutiladas por homens repletos de altruísmo, resolveu retornar ao purgatório casulo a fim de tornar-se magra, mas tolerável lagarta. Ainda hoje mastiga, autômata, seu insosso maço de folhas secas.

 

 

Odiava o modo como meu pai me olhava. Aquele pestanejar de pálpebras e o quase imperceptível balançar de cabeça ― que oscilava entre a compaixão e o desapontamento ― eram o meu regime. Ele me condenava por eu não ter herdado a macheza atávica que me havia sido destinada. Meus gestos tornavam os corredores de nossa casa escorregadios, pegajosos, imundos. Nada que eu fizesse para agradá-lo surtia efeito. Meus irmãos eram os varões. Eu a varíola.

 

Desdenhosos lacaios da aversão que papai me dirigia, os espelhos condenavam meus olhos, o som de minha voz e os pensamentos que eu havia alcunhado secretamente de sombrios. O eu refletido era de um sarcasmo aterrador, ria de mim com uma paixão violenta. Por ser meu oposto, era o desejado filho, aquele que não possuía pensamentos sombrios.

 

Eu sofria. E minha dor era um minotauro que me perseguia por infinitos corredores de dúvida, culpa e negação. Sempre que eu cedia aos meus proibidos impulsos, mais próxima espreitava a fera mitológica. Seu espectro grotesco afugentava os corpos nus e de masculinidade hiperbólica que vagavam por meus deslizes. Na equivocada matemática de meu corpo, cabeça, tronco e membros resultaram em um somatório obtuso. A aritmética de minha identidade adicionou-me, subtraiu-me, multiplicou-me, dividiu-me, potencializou-me e extraiu minhas raízes. E, no final, resultei em um total estéril.

Descobri ainda em minha juventude que eu não era nada. Por isso meu pai quase não me via, e os espelhos tampouco me enxergavam sem desdém.

 

Leprosos, diabéticos, hemofílicos, todos os mazelados despertavam uma mórbida inveja em mim, o anseio de ser um deles. Eu amava os pontos cardeais esculpidos sobre a topografia da dor. A convalescença contínua permite que os doentes sejam tratados com misericórdia. Mas, ninguém cuidaria de mim. Pessoa alguma se apiedaria das pústulas assintomáticas de minha vergonhosa doença, meu desequilíbrio secreto, meu mal sombrio.

 

Quantas tentativas infelizes, tantas investidas em inúmeras religiões. E nenhuma foi capaz de adormecer minhas madrugadas em claro. Eu era a serpente, carregada de peçonha, que secretava muco diante da serena pureza de meus bons pregadores. As orações misturavam-se ao meu execrável orgasmo, e Deus não permitia que eu pensasse em amor.   

 

Prostrado diante da humilhante condição de ser quem ― contra o meu próprio arbítrio ― eu era, resolvi tornar-me outro. Um outro ao qual a óptica paterna pudesse encarar, sem constrangimentos. Um outro que mimetizasse aquele que vivia no interior do espelho.

 

Arquitetei uma nova identidade. Adquiri o método que, biologicamente, não me havia sido transmitido. Não sei bem se resultei em um ser humano feliz. Mas, ora! De que vale a felicidade quando ela chega dentro de uma garrafa, solta no remoinho? A felicidade é privilégio daqueles que não temem as moléstias da alma. Eu temo.

 

Ajoelhada ao meu lado, diante do altar, exibo a mulher que sitiará meus vícios e me parirá filhos saudáveis. Enquanto meu pai me observa com ares de absolvição, sou acometido por um irrefreável pensamento sombrio. Nego-me a abater-me diante dele. Mas, o que importa agora? O pensamento é uma mácula que os olhos não veem. Venci-me. Derrotei-me. Logo estarei casado.

 

Que moço simpático, que rapaz gostoso é esse padre!

 

Troquem-se as alianças. Amém.

 

Emerson Braga

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:26

Conto - Uma amizade sincera

por Jorge Soares, em 01.08.15

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Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.

 

Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados – mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.

 

Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes.

 

Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.

 

Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto – eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.

 

Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.

 

 

 

Clarice Lispector

Retirado de Conti Outra

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publicado às 21:13

Conto - O Ponto G de Pâmela

por Jorge Soares, em 22.03.14

Ponto G

 

Ao esquecer o Ponto G na pia de um banheiro, numa loja de conveniências, depois de comprar o próprio peso em mercadorias, Pâmela foi para casa e jamais o viu de novo. Era menina de fendas, de roupas jogadas em cores sugestivas, vermelhos, laranjas e amarelos, e era assim de puro calor na idade e nas curvas.

 

Ó Pâmela, magra de alma, que a uma lágrima do fim culparia o marido, culparia os homens de nenhum comover sua carne nos lençóis de uma cama em cor de vinho.

 

Não sabe ela, não sabe ninguém, é que ao deixar o Ponto G ali, ao ir embora, foi ele encontrando por uma senhora, a pequena e barriguda Neide, cujos pêlos copiosos desenhavam uma sinuosa vereda rumo ao meio de suas pernas; funcionária da loja, guardou-o em um bolsinho e levou-o para o lar, sem querer, e, antes do banho nas seis, ao largar calça e camisa para lavar, achou-o ali, envergonhado.

 

Estudou-o a ponto de o levantar entre polegar e indicador, nua na frente do espelho alongado, de mesmo ligar a lâmpada para vê-lo melhor entre os reflexos. Daí curvou-se e numa paixão de querer fincou-o no umbigo, achando dele um piercing.

 

Cabe falar: foi alegre ao caixão, muito depois, a barriga e curta Neide; sempre que alguém passou os dedos em sua barriga, foi ela a mais abençoada mulher no mundo.

 

As de copas

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:14

Conto - O namorado de vivi

por Jorge Soares, em 08.02.14

 

–– ORA, MAS VIVI era praticamente da família! E não me venha com essa história

de que “todo mundo diz isso!”. Vivi era, sim, praticamente da família! 

 

        Lembro-me ainda do dia em que fomos para Lagoa de Itaenga, onde fica a fazenda de vovô e naquele dia ensolarado, debaixo da cachoeira friíssima, conheci a Vivi... Eu tinha escorregado, sabe?, era uma criança, ainda, uma menina de meus lá oito anos, dos quais os oito tinham transcorrido em Recife. A única coisa que eu sabia da vida aventureira de criança era o que me diziam os parques da Jaqueira e o Sítio da Trindade!

 

Não, não mesmo, nunca frequentei o Parque Treze de Maio... Mainha e painho não deixavam, diziam que lá só tinham crianças pobrezinhas e gente se esfregando, uma pouca vergonha! Enfim, tudo o que eu sabia de uma vida aventureira se encontrava naqueles parques que acabo de lhe dizer; Ademais disso, vivia nos Shopping Centers, dentro dos cinemas e Game Stations... Essa era toda minha vida de criança no Recife.

 

Quando encontrei a Vivi na cachoeira lá em Lagoa de Itaenga eu estava numa situação inusitada, ao menos para mim naquela época, sabe? Calma, vou dizer. Aliás, já disse, eu tinha escorregado e me relei todinha nas pedras da cachoeira, se não fosse a Vivi... Ah, meu Deus, Vivi era praticamente da família!

 

Tudo bem, vou contar, ela ali, estava na cachoeira, me olhando de rabo de olho, era que eu, menina da cidade grande, queria não junto de mim os matutos da roça, mas veja, não me leve tão a mal, isso era o que me tinham incutido mainha e painho, eles, grandes médicos, me diziam que as perebas dos ricos e a dos pobres eram diferentes, veja só! Eu só podia crer como verdade... Além do mais, minha própria avó me dizia que quando rico morre, morre diferente de pobre. Confesso que morremos sim, diferentes, nós no luxo, eles na penúria, sofrendo sofrimento horrível... Caixão e vela preta!

 

Não que eu queira dizer que vamos para lugares diferentes..., sim, eu conheço a tal parábola do rico e do pobre... Mas não era pra menos, sendo Jesus filho de carpinteiro, achas mesmo que ele ia colocar o pobre no inferno e o rico no seio de Abraão? Ah, meu filho se toque!

 

Você não acha que estamos fugindo muito do foco? Tenho amigas que vivem me dizendo que gosto tanto de digressões que barro aquele meu velho ex-professor de Ciência Política e Teoria Geral do Estado!

 

O fato é que Vivi veio nova ainda aqui pra casa, todo mundo tinha gostado do que ela tinha feito –– pulou na cachoeira e foi nadando no fito de me socorrer lá em baixo... Pie só, eu estava sendo puxada pelas águas da cachoeira, e mais em baixo tinha outra... Seria mortal. Vivi me salvou.

 

Em troca disso, painho considerou dar-lhe um prêmio: uma oportunidade de viver na capital do Estado. Veja bem, você não acha inusitado, algo bom por demais da conta, para uma pessoa tão pobre e desajustada na vida? Os pais de Vivi cortavam cana, trabalho braçal insuportável naquela usina duns tais Campellos... Sabes qual seria sua maior herdade? Cortar cana como os pais e irmãos...

 

Lembrando disso eu até sinto que painho deve de estar agora no céu ao lado da Virgem ouvindo essa história que estou lhe contando e se arrepiando todo... Deus que lhe ilumine a alma! A caridade que fizemos, ninguém faz hoje em dia... Vivemos tempos de mentes secas, duma seca pior que a do sertão.

 

Daí, Vivi cresceu comigo, estudou numa escola daqui mesmo da capital. Como? Particular? Não, não, mainha colocou ela numa escola pública boa. Isso bastava, não? Considerando que ela não iria sequer estudar em Lagoa de Itaenga!

 

O que ela virou? Ora, claro que Vivi era nossa empregada! Ela foi por nós empregada para poder ter o dinheiro dela, para poder usar como bem lhe apetecesse, para poder ser alguém, entende? Ah, mas se eu ganhava mesada era porque era filha, se Vivi ganhava o dinheiro dela, era porque era trabalhadeira, e isso a ninguém repugna!

 

E daí, com a morte de painho, que Deus o tenha em firmes tronos, mainha já estava bastante velha e eu já casada e morando na mesma casa nossa no Poço das Panelas. Vivi, grande, tornou-se minha ajudante sem igual. Uma ajudante número um, sem falar que ganhou lá uns aumentos salariais... 

 

       Claro que foi por conta do plano real! Mas foram aumentos! Não diga que não foram, que importa o aumento das coisas, Vivi morava comigo, comia do meu pão, bebia do meu vinho, quer dizer, vinho mesmo ela num bebia não, não tinha costume, mas bebia da minha água, nunca precisou de comprar uma bolacha sequer, como disse, era praticamente da família!

 

       Meus filhos nasceram, e tanto eu quanto o Adalberto ficamos felizes da vida, nossa vida seria ainda melhor, e Vivi, ora, Vivi era a única pessoa em quem nós confiávamos para cuidar deles, para gerir seu carinho e cuidado... Vivi foi nossa babá.

 

       Mas veja só como o tempo passou! Estou eu agora com meus quarenta anos e minha filha mais velha com vinte! Vivi? Acho que deve ter minha idade, sempre foi maiorzinha, sabe?, nunca perguntei nem nada! Carteira de trabalho? Ora, já não falei que era quase da família?! Você assinaria a carteira da sua mãe? E não obstante ela sempre trabalhou pra você!

 

       Mas o problema veio quando Vivi arrumou aquele namorado! Quem já se viu, uma mulher de sues quarenta anos arrumando namorado, e foi numa folga que eu dei a ela para ela brincar o São João, ah meu Deus como eu me arrependo disso! Arrumou um traste de um namorado pelos lugares aí em que foi e, o que é pior... Engravidou! Sim, querido, isso mesmo, EN-GRA-VI-DOU!

 

       O que eu poderia fazer, meu Deus!, criar o filho de Vivi? Mas é claro que não! Já criei a própria Vivi, junto com minha mãe, ela era praticamente da família, tinha quarto, tinha cama, mesa e banho, tinha tudo, família e carinho, e jogou tudo por cima da janela como se fosse nada.

 

       Espaço? Mas é claro que minha casa tem espaço, mas a questão não é espaço, meu caro, é de espaço que vem o dinheiro que se gasta com comida, médico, consultas, escola, educação, moral e bons costumes e outras coisas mais que criança precisa? E veja, Vivi não era um bebê, tinha lá seus oito, nove anos, como eu, quando veio... Além do mais, na minha casa mando eu e meu marido, mas quando Adalberto cisma com alguma coisa, só posso fazer meu papel de boa diplomata. Adalberto disse categórico: “Não quero saber de menino chorando por aqui. Meus filhos já criei, essa daí que crie os dela”!

 

       Ora, não recrimine o Adalberto por dizer “essa daí” de Vivi, é que, os homens são mais estourados, não sabe? E ele, como quase um pai que foi pra Vivi, não podia ficar calado... Não, não, Vivi não foi minha madrinha de casamento, pra seu governo tenho grandes amigas, como poderia chamar Vivi?

 

        Falamos pra ela sobre esse problema e ela mesma resolveu voltar pra Lagoa de Itaenga, pra criar o filho lá. Disse ela, dis-se-E-la, que o tal namorado ia ajudar, quero ver como, só pode ser cortando cana!

 

        Não temo ter demitido Vivi, ou melhor, que conste que ela mesma é quem se despediu, só dói aqui no peito, sabe? Vivi era praticamente da família!

 

        Minha filha? Que tem minha filha? Sim, sim, minha filha está grávida do namorado... Mas veja, ele é estudante de direito da Universidade Federal, os pais são advogados e procuradores, tem escritório próprio, etc., boas relações na alta sociedade recifense, o rapaz faz despachos com desembargadores federais e estaduais..., não é a mesma coisa! Minha filha está bem assistida, e fez o que era certo, não foi com um desses quaisquer que ficam dançando forró por aí...

 

        Entenda, a mulher precisa mesmo de quem lhe dê de tudo. Homem sem dinheiro num pode ter mulher. Só tem mulher quem pode.

 

        Além do mais, já disse mil vezes, parece que você ainda não entendeu!, Vivi era pra-ti-ca-men-te, da família... Nunca disse que ela e-ra da família.

 

Mario Filipe Cavalcanti

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publicado às 21:18

Prémio Camões 2013 para Mia Couto

por Jorge Soares, em 27.05.13

Mia Couto

 

Imagem do Público

 

 

Os contos de Mia Couto são presença habitual aqui no blog, principalmente ao Sábado que é dia de Conto, sou um admirador da sua escrita e da sua forma de estar no mundo. Gosto especialmente dos seus livros de contos e dos seus poemas. Este é um prémio mais que mercido, que segundo o Juri foi entregue tendo em conta a “vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade”

 

Podem ler os contos de mia Couto, aqui

 

 

Demoro-me no outro lado de mim
porque me atrai
esse ser impossível
que sou
esse ser que me nega
para que seja ainda eu
Porque desejo esse alguém
que me invade e me ocupa
que me usurpou a palavra e o gesto
me fez estrangeiro do meu corpo
e me deixou mudo, contemplando-me.
Lanço-me na procura da minha pedra
no infindável trabalho
de me reconstruir
recolhendo os sinais do meu desaparecimento
percorrendo o revés da viagem
para regressar a um lugar inabitável.
Todas as vezes que me venci
não me separei do meu sonho derrotado
e, assim, me fiz nuvem
reparti-me em infinitas gotas
para que fosse bebido, vertido, transpirado
e voltasse de novo a ser céu
transparência de azul, harmonia perfeita
e poder regressar ao lugar interior
para me deitar, de novo,
no sangue que me iniciou.

 

Mia Couto 

 

Jorge Soares

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publicado às 22:33

Cordeiro

Imagem minha do Momentos e Olhares


Eu tinha um parente senador que, depois de ter vencido novas eleições, veio passar uns dias em minha casa de Isla Negra. Assim começa a história do cordeiro.

 

Acontece que seus eleitores mais entusiastas vieram para festejar o senador. Na primeira tarde da festa assaram um carneiro à moda do campo do Chile, com uma grande fogueira ao ar livre e o corpo do animal enfiado num assador de madeira. A isto chamam asado al palo, que é celebrado com muito vinho e queixosas guitarras criollas.

 

Outro carneiro ficou para a cerimônia do dia seguinte. Enquanto não chegava a sua hora, amarraram-no junto de minha janela. A noite toda gemeu e chorou, baliu e se queixou de sua solidão. Partia a alma escutar as modulações daquele carneiro, ao ponto que decidi me levantar de madrugada e raptá-lo.

 

Metido num automóvel levei-o a cento e cinqüenta quilômetros dali, à minha casa de Santiago, onde não o alcançassem as facas. Mal entrou, pôs-se a pastar vorazmente no melhor lugar de meu jardim. As tulipas o entusiasmaram e ele não respeitou nenhuma delas. Ainda que por razões espinhosas, não se atreveu com as roseiras. Mas devorou em troca os goiveiros e os lírios com estranho prazer. Não tive remédio senão amarrá-lo outra vez. E de imediato se pôs a balir, tratando visivelmente de me comover como antes. Senti-me desesperado.

 

Nesse ponto se entrecruza a história de Juanito com a história do cordeiro. Acontece que por aquele tempo havia começado uma greve de camponeses no sul. Os latifundiários da região, que pagavam a seus rendeiros não mais de apenas vinte centavos de dólar por dia, terminaram a pauladas e prisões com aquela greve.

 

Um jovem camponês teve tanto medo que subiu num trem em movimento. O rapaz se chamava Juanito, era muito católico e não sabia nada das coisas deste mundo. Quando passou o cobrador do trem examinando as passagens, ele respondeu que não tinha, que se dirigia a Santiago e que pensava que os trens eram para que a gente subisse neles e viajasse quando precisasse. Trataram de desembarcá-lo, naturalmente. Mas os passageiros de terceira classe — gente do povo, sempre generosa — fizeram uma coleta e pagaram a passagem.

 

Por ruas e praças da capital andou Juanito com um embrulho de roupa debaixo do braço. Como não conhecia ninguém, não queria falar com ninguém. No campo dizia-se que em Santiago tinha mais ladrões do que habitantes e ele tinha medo que lhe roubassem a camisa e as alpercatas que levava debaixo do braço, embrulhadas num jornal. Durante o dia perambulava pelas ruas mais freqüentadas, onde as pessoas sempre tinham pressa e afastavam com um empurrão este Gaspar Hauser(*) vindo de outro planeta. De noite buscava também os bairros mais concorridos mas estes eram as avenidas de cabarés e de vida noturna e ali sua presença era mais estranha ainda, pálido pastor perdido entre os pecadores. Como não tinha um só centavo, não podia comer, tanto assim que um dia caiu ao solo sem sentidos.


Uma multidão de curiosos rodeou o homem estendido na rua. A porta defronte da qual caiu correspondia a um pequeno restaurante. Levaram-no para dentro e o deixaram no chão. É o coração, disseram uns. É uma crise hepática, disseram outros. O dono do restaurante se aproximou, olhou-o e disse: "É fome". Mal comeu algumas garfadas aquele cadáver reviveu. O dono o pôs para lavar pratos e se tomou de amores por ele.Tinha razões para isso. Sempre sorridente, o jovem camponês lavava montanhas de pratos. Tudo ia bem. Comia muito mais do que na sua terra.

 

O sortilégio da cidade se teceu de maneira estranha para que se juntassem certa vez, em minha casa, o pastor e o carneiro.

 

Deu vontade no pastor de conhecer a cidade, encaminhando então seus passos um pouco além das montanhas de louça. Tomou com entusiasmo uma rua, atravessou uma praça, e tudo o deslumbrava. Mas, quando quis voltar, já não o podia fazer. Não tinha anotado o endereço porque não sabia escrever, buscando assim em vão a porta hospitaleira que o tinha recebido. Nunca mais a encontrou.

 

Um transeunte, com pena de sua confusão, disse-lhe que devia se dirigir a mim, ao poeta Pablo Neruda. Não sei por que lhe sugeriram esta idéia. Provavelmente porque no Chile se tem por mania me encarregar de quanta coisa estranha passe pela cabeça das pessoas e ao mesmo tempo de me jogar a culpa de tudo o que acontece. São estranhos costumes nacionais.

 

O certo é que o rapaz chegou um dia à minha casa e se encontrou com o bicho preso. Já que eu estava tomando conta daquele carneiro inútil, não me custava também tomar conta deste pastor. Deixei a seu cargo a tarefa de impedir que o carneiro gourmet devorasse exclusivamente minhas flores mas sim que também, de vez em quando, saciasse o apetite com a grama de meu jardim.

 

Compreenderam-se na hora. Nos primeiros dias ele lhe pôs, só para constar, uma cordinha no pescoço com uma fita e com ela o conduzia de um lugar para outro. O carneiro comia incessantemente e o pastor individualista também, transitando ambos por toda a casa, inclusive por dentro de meus aposentos. Era uma união perfeita, conseguida pelo cordão umbilical da mãe terra, pelo autêntico mandato do homem. Assim se passaram muitos meses. Tanto o pastor como o carneiro arredondaram suas formas carnais, especialmente o ruminante que apenas podia seguir seu pastor de tão gordo que ficou. Às vezes entrava parcimoniosamente em meu quarto, olhava-me com indiferença e saía deixando um pequeno rosário de contas escuras no chão.

 

Tudo acabou quando o camponês sentiu a nostalgia do campo e me disse que voltava para sua terra distante. Era uma resolução de última hora. Tinha que pagar uma promessa à Virgem de seu povoado. Não podia levar o carneiro. Despediram-se com ternura. O pastor tomou o trem, desta vez com sua passagem na mão. Foi patética aquela despedida.

 

Em meu jardim não deixou um carneiro mas sim um problema grave, ou melhor, gordo. O que fazer com o ruminante? Quem cuidaria dele agora? Eu tinha preocupações políticas demais. Minha casa andava desordenada depois das perseguições que a minha poesia combativa me trouxe. O carneiro começou de novo a balir suas partituras queixosas.~

 

Fechei os olhos e disse à minha irmã que o levasse. Ai, desta vez eu tinha certeza de que não se livraria do forno!


Pablo Neruda

Retirado de Releituras

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publicado às 21:23

Conto, O ladrão e a Alma

por Jorge Soares, em 30.06.12
O ladrão e a alma
O nome, Francisco de Assis, recebeu em homenagem ao santo. Virou Fininho por acaso, no seu primeiro assalto. Na hora da fuga, como era magro que nem vara, foi o único a escapar, esgueirando-se por entre as barras de uma grade de ferro. Daquele dia em diante, o apelido pegou e o santo ficou enclausurado na certidão de nascimento.

A mãe, Dona Cidinha, cozinheira de grandes prendas, dentro do possível, deu vida boa a Fininho, porque queria que o menino virasse “um homem de bem”. Não virou. Firmou-se na vida como ladrão e especializou-se em furto a residências. 

Fininho adorava a mãe, mas tinha medo dela. Mulher de bondade farta, virava uma fera com os malfeitos que chamava de “coisa do demo”. Quando pegava Fininho chegando muito tarde da farra, ou sentia nele o cheiro de pinga, obrigava o rapaz a ajoelhar-se em frente à imagem de Nossa Senhora das Graças e a rezar duas Ave-Marias em penitência.

Ele protestava, mas ela, irredutível, respondia:
— Reza logo, menino! Uma pelo pecado, outra pelo pecador. 

Dona Cidinha jurava que depois das duas Ave-Marias no capricho a Santinha pedia a Deus para perdoar o delito. Por outro lado, se o pecador não se arrependia, e nem rezava, a Senhora pedia às almas do outro mundo para virem atormentá-lo sem sossego. Fininho rezava pelo pavor às almas.

Então, aconteceu o roubo à casa de dois andares.
CINTHIA KRIEMLER 
Retirado de Samizdat
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publicado às 21:42


Ó pra mim!

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