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Conto - A Selva

por Jorge Soares, em 10.11.18

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Há muito que os homens saíram da selva. Não lhes servia tanta incerteza, tanto perigo de vida. Aos poucos, com avanços e recuos, organizaram-se para autodefesa, assistência mútua, caça. Criaram normas de funcionamento coletivo do grupo, muitas vezes tácitas, outras bem expressas. Para evitar aproveitamentos egoístas. Para que o grupo fosse o lar de cada um. E afastaram-se da selva e das suas práticas ferozes.
 
 
Sem que o percebessem, os animais observavam-nos, curiosos, e acabaram por conseguir copiar o Conselho da Tribo. Pelo menos em alguns dos seus aspetos formais. Chamaram-lhe o Conselho da Selva e funciona desde então. Reúne-se uma vez por ano, ou a qualquer momento, em sessão extraordinária, a pedido de algum grupo. Geralmente, é apresentado um problema, levantada uma questão, feita uma queixa ou uma reivindicação. Segue-se alguma troca de ideias, muita algazarra, mas por fim o Conselho costuma concluir com uma declaração por maioria absoluta.
 
 
 
 
Joaquim Bispo
 
*
Imagem: Henri Rousseau (o alfandegário), Cavalo atacado por um jaguar, 1910.
 
Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13

Conto - viúva

por Jorge Soares, em 18.06.16

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Gertrudes Patrício costuma dizer: enviuvei de dois maridos. Mas ela sabe que, com bênção da igreja, assim mesmo casados, foi apenas com Juvenal, o pai da mais nova.
 
Tinham combinado dar o nó mal terminassem as ceifas, e seria boda com o senhor Prior abençoando e as alianças e o véu rojando a pedra vermelha do chão da capela da Senhora das Dores.
 
Mas o destino tem linhas que a gente treslê e, nesse entretanto, ao rapaz deu-lhe um mal de peito. Uma coisa de repente e ainda assim tão grave, que o médico achou por bem enviá-lo para o sanatório. Que o rapaz se tratasse. Que tomasse os ares da serra e depois de curado voltasse.
 
Ficou Gertrudes Patrício, nem casada, mas presa de um descuido ao despedirem-se. Saber-se-ia prenha, já Matias andava por terras de frios e de gelos, e haviam de casar pelo registo por via de uma procuração que Gertrudes pediu. Cartas demoradas na ida e na vinda, mas ficaram casados.
 
E no entretanto de já serem mulher e marido, vieram, entremeadas, outras cartas. Escrevia-as Matias numa caligrafia perra, que a escola dele tinha sido a cuidar dos rebanhos, e o mais fora o senhor padre Honório aos domingos à tarde, a seguir à catequese.
 
Dizia ele, em caracteres a cheirarem a remédio: isto aqui é o inferno. E pedia, numa letra tremida: manda-me umas meias, pela tua saúde, que por estas bandas faz um frio do demo. Gertrudes Patrício teceu-lhas, no esmero das cinco agulhas, de um fio de lã de ter desfeito um casaco que lhe tinha minguado. Junto, havia de enviar-lhe uns figos secos. Nunca os roeria o pai da criança que lhe crescia no ventre, e nem nunca meteria os pés naquelas meias, que quando chegou a encomenda, já os senhores da secretaria tinham dado ao Senhor Director um papel escrito e que o assinasse. No envelope, que seria lacrado, alguém escreveria o nome da aldeia e o nome dela, e colocaria dentro a carta onde o Senhor Director rabiscasse uma assinatura. A carta que Gertrudes receberia uma semana depois, demorada de vir de lá tão longe.
 
Um envelope a cheirar cheiros que não eram dali e nem dos arredores, percebeu o moço que distribuía o correio, e pasmou-se na porta de Gertrudes Patrício, mas ela demorou a abrir o subscrito, e Felisberto pisgou-se que tinha ainda correio na sacola. Teria andado o que valesse a duas moradias, e já ele ouvia o alarido que era Gertrudes clamando. Tinha decerto rasgado o envelope e lá dentro estariam más notícias. Mas Felisberto apressou o passo a sentir assim uma espécie de culpa e nem sabendo que, num papel muito lisinho e muito bem escrito, Gertrudes Patrício tinha lido: faleceu às presumíveis seis horas e trinta e cinco minutos do dia vinte e cinco de Outubro. E ainda mal ela lia o nome completo de Matias e mais o número de inscrição que lhe tinham atribuído no sanatório, e já aquele urro imenso lhe saía, assim como que num alívio que ela fizesse ao peito que lhe tinha ficado num aperto mal lera o remetente.
 
Não acorreu Felisberto, mas acorreu meio mundo aos gritos de Gertrudes.
 
Pobrezinha! Viúva sem quase ter sido esposa, comentavam, de umas às outras, as mulheres.
 
Mas Gertrudes Patrício, ainda que gritando, nem sentia assim uma tristeza desmedida. O que ela clamava era o receio, aquele como que fosse mal que caísse sobre a menina por ter sido a morte de Matias no preciso dia, e na mesma hora, em que, há uns escassos dias, a clamar mais alto que o latir dos cães, pusera Iracema neste mundo.
 
Coisas do acaso que ela dava como coisas do demónio, e Gertrudes Patrício soluçava disso, muito mais do que ela chorava a morte do Matias.
 
E no entanto, logo na tarde desse dia, carregou-se de um negro completo até no lenço que colocou sobre o castanho claro dos cabelos. Um tecido opaco e liso que lhe descaia sobre a testa e lhe ensombrava o rosto.
 
Tinha dezoito anos e sentia o sangue a pulsar-lhe intenso a cada vinte e quatro dias, o período certo e ela, despudorada daqueles vermelhos que se espalhavam no corpo e a afogueavam, carregava-se do negro das mulheres sem marido.
 
E passou um inverno chuvoso, e veio Abril. E passaria ainda aquele Agosto de inferno e chegaria outro dia vinte e cinco de Outubro. Nesse dia de a sua menina completar um ano, Gertrudes Patrício levou Iracema a baptizar.
 
De uso, Gertrudes usava o cabelo atado numa trança que deixava dependurada sobre a nuca e, a cobria-la, por inteiro, a ponta estiraçada do lenço negro.
 
Mas, naquele domingo, ela mudou-se.
 
E nem o fez no propósito de aliviar o luto.
 
Sentou-se em frente do espelho e apeteceu-lhe.
 
E foi assim, num descuido, que ela prendeu a trança no alto da cabeça como nem era seu costume e, por cima daquele chinó quase loiro de ser o cabelo dela de um castanho tão claro, deitou um véu rendado: um tule negro e muito fino onde resmalhavam, bordadas num tecido aveludado, umas florinhas miúdas, elas também negríssimas. Do transparente do véu, soltava-se o branco muito alvo que era a sua pele no arqueado elegante do pescoço, e desvendavam-se-lhe as orelhas que ela tinha, maneirinhas, um tudo nada salientes; nelas dependurou, vagarosa, umas arrecadas  pequenas em oiro de lei.
 
Gertrudes Patrício, que apenas na alvura da roupa debaixo se livrava do negrume daquele luto de viúva, ia baptizar a sua filha e não sabia que entraria quase nua na igreja.
 
Os homens cumprimentaram-na no adro: muito bom dia Senhora Dona Gertrudes. E descobriam as cabeças do chapéu ou da boina, mas era como a viam: Gertrudes Patrício a entrar descomposta na igreja.
 
Assim a viam eles e assim também a viam as mulheres. As que ficavam ao fundo da Igreja, e as senhoras de lugar cativo na fila da frente. Umas e outras cochichavam entre si disfarçando as falas como se dissessem mais um Padre-Nosso ou uma Ave-Maria: que vergonha! E benziam-se como que a exorcizarem um mal do demo.
 
Gertrudes Patrício despida da sua condição de viúva por via daquele chinó que trazia no alto da cabeça, descobertas as orelhas, desnudado o alvo do pescoço no transparente daquele véu.
 
Assim a terá visto Juvenal a servir-se de água para o sinal da cruz na pia da entrada: Gertrudes Patrício mais nua que vestida. 
 
Ele a poisar os olhos no tom leitoso do seu pescoço e Gertrudes Patrício a rodar o corpo no banco em que se sentava. 
 
Um gesto sem remédio, dirá ela a recordar o cruzar de olhos que fizeram na Igreja onde estava para baptizar Iracema, a filha do Matias.
 
Maria de Fátima Santos
 
Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13

Conto - O Cavalo que queria ser famoso

por Jorge Soares, em 07.05.16

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 Era uma vez um cavalo que vivia em Pádua. Servia como montada de um capitão de soldados do exército de Veneza, porque o que se vai contar passou-se há muitos anos, quando as guerras eram feitas com cavalos e espadas.

 
Certo dia, quando o cavalo estava no tronco para ser ferrado, entrou um ladrão no recinto. O meliante, que vinha armado, levantou um ferro para bater na cabeça do ferrador. O cavalo assustou-se, e, como ainda não estava com as patas presas, pregou um valente coice no assaltante, que foi abater-se contra o muro. O ferrador ficou muito agradecido e disse ao cavalo:
 
— Vou cravar-te, no casco da mão direita, uma ferradura, que me deu um génio, há muitos anos, por serviços prestados. Quando estiveres em perigo, raspa com ela no chão e diz três vezes: Hihihipoho.
 
O cavalo foi-se embora e quase que se esqueceu do assunto, mas um dia, em grande galope numa batalha, tropeçou e estatelou-se com uma pata partida. Lembrou-se logo da ferradura mágica do ferrador; escarvou o chão e disse três vezes “Hihihipoho”. Encontrou-se, de repente, numa clareira duma floresta de carvalhos e viu um génio, que era homem da cintura para cima e cavalo da cintura para baixo, que lhe disse:
 
— Que ajuda precisas, cavalo?
— Parti uma pata e quero que me salves de ser abatido — um cavalo de pata partida já não serve para montada de ninguém.
O génio deu três sacudidelas com a cauda e o cavalo ficou curado.
— Ainda tens dois pedidos — disse o génio esfumando-se. — Usa-os bem!
 
 
 
 
Joaquim Bispo
 
* * *
Imagem: Leonardo da Vinci, Estudo de cavalo, c. 1493–94. Royal Library, Windsor.

 

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:23

Conto - O Primeiro Passo

por Jorge Soares, em 23.04.16

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— Não vês que estás a ir por maus caminhos, meu filho? — O anjo adotava uma postura paternal, a face preocupada, o gesto complacente.
— Eu nem sei se quero ir por bons caminhos! — retorqui, desafiador.
 
Quando ele se materializara no meu quarto de solteiro, com ares de arcanjo Gabriel, passava das três da manhã. Estranhei, mais do que me assustei. Tinha estado na comissão de autogestão da fábrica a tratar de problemas deixados pelo patrão fugido e, proposta puxa discussão, tinha bebido umas três ou quatro cervejas. O verão de 75 ia quente em todos os sentidos, a Revolução avançava com autogestões nas fábricas e nos campos e auto-organização das populações em todos os domínios. Havia um sentimento no ar de que, finalmente, tudo era possível. E tanto que havia para fazer! O mais difícil era a mudança das mentalidades. Todos tínhamos sido condicionados para ser engrenagens de uma sociedade de obedientes, castos e tementes. De repente, tinham-se rompido as comportas que mantiveram a multidão calada e quieta, e esta inalava, impertinente, os primeiros aromas da liberdade.
 
Agora, até de replicar a um anjo eu me sentia capaz:
— E, além do mais, o que é que tens com isso?
— Não penses que podes viver como queres: lascivo, descrente e subversivo. Tudo está determinado e o teu lugar está muito bem definido.
 
— Eu posso fazer o que quiser! Desde que não restrinja a liberdade de ninguém.
— E não achas que roubar a fábrica de alguém é atentar contra a sua liberdade?
— Não é roubar, é pôr ao serviço da comunidade — a começar pelos que lá gastaram o seu esforço, o seu tempo, as suas vidas —, o que alguém explorou e abandonou. Não é a sua fábrica, era a sua máquina privada de sacar mais-valias.
 
— Não vês que tudo isto é apenas um remoinho passageiro!? Não vês qual é a ordem natural das coisas? Quando a poeira assentar, volta tudo ao que era. E então, tu estarás perdido.
— Não me vão prender por tentar ajudar a pôr a fábrica a funcionar outra vez, está descansado!
— Não é dessa perdição que eu estou a falar. — E continuou a pôr água na fervura revolucionária: — Quem me mandou não gosta de rebeldes. Gosta que a hierarquia esteja muito bem definida e que o de baixo não desobedeça ao de cima. Gosta que a moral e a religião sejam o guia das nações e que os seus dirigentes sejam austeros, mas bondosos, como os pais são para os filhos. Agora, tu és um filho pródigo que não respeita o seu pai.
 
 
 
Joaquim Bispo
 
Imagem: “Kouros” de Kroisos, Anavyssos, c. 530 a.C., Museu arqueológico de Atenas.
 

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publicado às 22:33

Conto - O rapto de Hélade

por Jorge Soares, em 09.04.16

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Na pátria dos Aqueus, em tempos de ninfas e faunos, a vida decorria airosa e prazenteira. Vivia-se ao sabor das estações, aproveitando as benesses que a Natureza generosa estendia aos habitantes daquela ampla península sulcada por múltiplas enseadas abertas ao Mar Egeu.
 
Hélade, jovem e bela helena na flor da idade, tinha crescido, muito tempo depois, nesse mesmo benévolo ambiente, e instruíra-se na cultura do seu país, pelo que nenhuma das principais antigas mitologias lhe era estranha. Por isto, estando um dia em folguedos com as amigas, na almargem litoral das terras de seu pai, não estranhou, quando um boi muito branco se separou da manada e se aproximou das donzelas, manso e sedutor. Imediatamente lhe acudiu ao pensamento a história pitoresca da sua antepassada Europa, que, por via da mansidão encantadora de um boi resplandecentemente branco, fora raptada, levada para Creta e seduzida.
 
O relato mitológico não era completamente inquietante, porque o boi que raptara Europa não fora outro senão Zeus disfarçado, querendo aproximar-se da formosa mortal sem suscitar os ciúmes mais do que justificados de sua mulher, Hera, e também porque o desenvolvimento da história não tinha terminado completamente mal: Europa tinha tido três filhos de Zeus, que foram homens importantes do seu tempo. Os chifres do boi que se acercou do grupo de Hélade tinham a mesma forma de duas luas em quarto crescente e, como na lenda, deitou-se aos pés da jovem. Assim, foi quase natural acariciar-lhe o lombo e a cornadura e, pouco depois, enfeitá-la com grinaldas de malmequeres e outras flores silvestres. O pelo macio e resplandecente do boi, a sua mansidão, a euforia juvenil do grupo e ― não o escondamos ― a expectativa ainda que inverosímil de uma grande e excitante aventura levaram a donzela a arriscar subir para o dorso do belo animal. Como ela temia ― ou desejava? ― o boi levantou-se e em passo ligeiro dirigiu-se para a praia, atravessou a areia e entrou no mar, sob os gestos animados e os risos divertidos do grupo de jovens.
 
 
 
 
Joaquim Bispo
* * *
Imagem de Nikolai Burdykin, na net.

 

Retirado de Samizdathttp://www.revistasamizdat.com/2015/07/o-rapto-de-helade.html

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publicado às 20:42

Conto - Podias ser minha vizinha

por Jorge Soares, em 27.02.16

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Não sabias ainda o que ia suceder.

Não podias prever.

Preparavas um caldo de osso de borrego com nabiça e tinhas ouvido a porta de entrada e, já nem davas por isso, tinha-se-te descompassado o modo de sorver o ar que respiravas.

O corpo dele ficou a ocupar a porta que da cozinha levava à salinha de entrada que servia também de sala de jantar e sala de ver televisão, e que era onde deitavas a mais velhinha que, quando tinham alugado o T1, nem tinham pensado em fazer família, que a bem dizer nem tu nem ele nunca tinham pensado coisa nenhuma, apaixonados, doidos de quererem o corpo um do outro, e casaram poucos meses depois da noite em que se tinham visto pela primeira vez e tu nunca tinhas ouvido dizer dele, e havia tantos outros no grupo de colegas de trabalho e amigos, mas ou seria o destino a comandar-te ou terá sido o modo de ele te ter olhado, ou terás sido tu insinuante e ele nem mais te deixou, que assim to repetiria: “essas mamas redondas deram comigo em doido”; e tu embevecida do seu porte atlético, do cabelo já a ficar grisalho nas fontes apesar de tão jovem; ou terá sido o modo como te colocou a mão no ombro a pedir, soprando-te desasossegos em cada sílaba, a boca bem chegada ao lóbulo da tua orelha esquerda: “passas-me esse copo, por favor”. Ficaram nesse transe de estar apaixonados, ainda, e ainda mais, depois de terem passado juntos o início desse dia e o dia inteiro que era um dia de trabalho e ele terá dito: ”que se lixe” e disseste também tu, ou nenhum disse, ficaram sem sequer dar acordo do nascer do sol nem do cair da noite, tu e ele a rebolar desejos no tugúrio que era o quarto onde ele vivia emigrante de uma outra zona do país a fazer um serviço para a empresa onde era soldador.

E depois passaram a encontrar-se, a viver juntos quase sempre, até ao dia em que disseram um ao outro: “e se juntássemos os haveres que não temos?” e a rirem alto para o ar quente dum final de Maio. E tu terás olhado as casas que assomavam na outra margem a esconderem o bairro em que tinhas vivido até seres a namorada dele: tu a querer esquecer, a querer lembrar apenas que agora serias tu a comandar a tua vida.

Casaram sem cerimónia nem padrinhos nem convidados: “apenas eu e tu” tinhas dito, e em casa participaste que não voltavas num bilhete que deixaste na sala, e nenhum deles, mãe e padrasto, terá acreditado, tanto que nunca te procuraram, nem quando deixaste uma mensagem em que dizias: nasceu uma menina, nem quando escreveste num SMS: nasceu outra menina.

 

 

 

Fátima Santos

 

Retirado de Sanizdat

 

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publicado às 21:13

Conto - O tempo dos rebuçados

por Jorge Soares, em 13.02.16

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O primeiro encontro foi como uma caixa de rebuçados. Era o tempo dos rebuçados e dos berlindes. Mas também de uma das primeiras responsabilidades: a escola.
 
Nos dias de primavera, Orlando, de botas com sola de borracha feitas no sapateiro, palmilhava bem cedo os três quilómetros do caminho entre muros que separava a queijeira, onde morava com a avó, da escola da aldeia, cruzando-se com carros de bois, grupos de mulheres a caminho das hortas, um rebanho a atravessar de um terreno para outro. Se estava frio, apressava o passo a contornar uma ou outra poça de água, mala com cadernos a tiracolo, uma mão a aquecer-se no bolso, a outra a pegar no cabazinho da merenda. Daí a pouco, as letras, as contas, as brincadeiras de recreio e o almoço debaixo de uma olaia, com os outros dois miúdos que também vinham dos campos.
 
No regresso, o conforto do calor e da falta de pressa convidavam-no a alongar-se em observações da natureza: o lagarto verde esparramado ao sol que, não conseguindo intimidá-lo abrindo a boca vermelha, se esgueirava para um buraco das paredes; o rendilhado de alguns penedos; as poupas, os cucos, os pintassilgos. E a estranheza do mundo do tic-tic-tic ritmado dos canteiros, alguns bem jovens, em alguma das pedreiras adjacentes ao caminho. Um mundo que não era de rebuçados.
 
Um dia encontrou vinte e cinco tostões no recinto da romaria que o caminho atravessava. Rapidamente se esfumaram em rebuçados embrulhados em estampas de jogadores de futebol.
 
De inverno, a ida para a escola era mais monótona e mais simples. Era só atravessar o casario, desde a casa da avó, na aldeia. No regresso, a brincadeira com a restante criançada nos quintais e nos casarões familiares. Ao domingo, catequese à tarde e talvez apanhar moedas pretas e rebuçados lançados de alguma janela ou varanda no fim de um batizado. Os dias corriam sem preocupações, com pouca relação uns com os outros. E, de repente…
 
O primeiro encontro com ela foi como receber uma caixa de rebuçados. A festa era de carnes, da matança do porco e respetiva comezaina. A família alargada habitual estava reunida em casa de um tio por este motivo. Segurar, matar, limpar e desmanchar um porco exigia o concurso de vários homens. E o trabalho de lavar as tripas, preparar os recheios e encher com eles as farinheiras, as morcelas e as chouriças exigia o concurso de várias mulheres. Para também prepararem o banquete para todos aqueles adultos e respetiva miudagem.
 
 
 

 

Joaquim Bispo

 

Retirado de Samizdat

 

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publicado às 21:13

Conto - O burro e a vaca

por Jorge Soares, em 09.01.16

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Era uma manhã cheia de sol. Uma vaca pastava muito tranquila no prado. Embora ninguém a visse sorrir, estava feliz por saborear as tenras folhas do trevo e as flores e as vagens do tremoço. De repente, a serena manhã da vaca foi agitada por um coelho que passou junto dela, tão veloz como todos os coelhos que fogem aflitos dos cães dos caçadores, e lhe gritou:
 
— Sai da frente, vaca!
 
A felicidade dela desapareceu nesse momento. Estava farta que lhe chamassem vaca. É certo que tinha algum peso a mais, mas estarem sempre a lembrar-lho... Até um insignificante coelho? Estava farta!
 
Nessa tarde já pouco comeu. Nos dias seguintes, só comia os talos mais rijos das ervas que lhe pareciam menos nutritivas. Para tentar emagrecer. Durante muitos dias passou fome, mas obrigou-se a comer só o que não a faria engordar.
 
Na verdade, passadas umas semanas, a vaquinha tão rechonchuda de antes não parecia uma vaca; mais parecia um esqueleto em pé, só pele e cornos.
 
Um dia passou por ali um burro que ficou muito admirado de ver uma vaca tão mirrada. Perguntou-lhe:
 
— Estás doente, vaca?
A vaca começou a choramingar:
— Estou tão infeliz por passar tanta fome e tu ainda me chamas vaca? Eu já não sou vaca; sou até muito elegante!
— O que dizes tu? — admirou-se o burro. — Tu és uma vaca; sempre serás uma vaca, mesmo que não sejas gorda.
— Então, não é a mesma coisa? — ripostou a vaca, muito convicta. — O ordinário de um coelho chamou-me vaca… Tu não achas que ele me chamou… gorda?
— Claro que não! Ele chamou-te… o teu nome, o nome que os homens te deram — explicou o burro, instrutivo. — Comigo aconteceu uma história parecida: vivia muito infeliz, porque me chamavam burro, e julgava que me chamavam estúpido. Só mais tarde percebi que burro é o meu nome, o nome que os homens me deram. A partir daí, nunca mais me importei. Pois, se é o meu nome!
— Ah, então é isso? Faz sentido! — convenceu-se a vaca. — Obrigada, burro! Explicaste-te muito bem. Acho que não és nada “burro”.
— E tu não és nada “vaca”. Estás até muito magra e isso não é nada saudável. Vê se comes melhor, para voltares a ser uma vaca bonita.
 
Quando o burro se afastou, a vaca mastigava um grande ramo de trevos suculentos, mas ainda conseguiu fazer um “muuuu!” de agradecimento e despedida.
 
Joaquim Bispo

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:49

Conto - Em memória

por Jorge Soares, em 19.12.15

Inundação-Foto-Sidnei-Costa.jpg

 

 

Três metros e quarenta centímetros foi o que tu mediste. Palmo a palmo, que tu sabias que eram vinte centímetros certinhos, desde o início do pulso até ao finalzinho do teu dedo médio. Tinhas medido no Natal passado, num brincar com os teus sobrinhos.

 

Trezentos e quarenta centímetros sem luz e sem mais espaço transversal do que o ocupado pelo teu corpo e, ainda assim, tu arrastando-te. Lenta, esforçada, a tentar desenterrar-te, sair dali, perceber o que teria acontecido.

 

O sedoso do teu vestido deslizando-te o corpo ensopado.

 

Que tentasses sair daquele odor a humidade; que te livrasses da terra enlameada a empapar-te o cabelo e o ventre, e sob os pés onde as sandálias deixariam um sulco.

 

Tu deslizando, a cada vez, muito menos do que os vinte centímetros do teu palmo, e ao fundo nem foi luz que visses. Ao fundo, foi o teu braço dependurado sobre um ruido intenso de água em tumulto.

 

Água escarlate que àquela hora todo o mundo via e se espantava e lamentava, cada um no conforto da sua casa, sua rua, sua cidade, sua aldeia; ou a dançar num arraial semelhante àquele para onde te dirigias.

 

Água da cor da terra. Um castanho avermelhado tão da cor do sangue que doía ver assim esmagada a terra e a vida de tantos homens. O horror a entrar pelas casas de todos e lá, abandonado, o teu braço palpando um apoio, o teu braço dependurado de dentro da conduta que te abrigara, solta sabe-se lá de onde, num daqueles acasos perversos que se dão nos destinos das pessoas.

 

Água que tu nunca irias saber de onde e nem como.

 

Tu a tentar rolar-te sobre o ventre, rodar o teu corpo apenas coberto com o vestido branco estampado com ramos verdes; o vestido que tinhas escolhido para ires ao arraial. E tanto que tinhas querido que fosse bem escolhido. O vestido e o lenço que ataste sobre os caracóis, e a pulseira que entretanto perdeste – deixaste de lhe sentir o toque, ias ainda na estrada estreita que vinha lá da encosta, tu conduzindo em segunda que a descida era um nadinha íngreme. Era mesmo muito inclinado esse troço da estrada. E cruzou-se contigo um carro. Ia ao volante um homem jovem, reparaste. E foi logo de seguida. Tão de seguida que tudo se deu.

 

Tinha estado uma tarde límpida, e assim aquela chuva era coisa estranha.

 

E o carro rolando, primeiro em linha recta, e depois aos tombos, e tu jogada sobre o assento a segurar-te, a tentar manter-te fixa, a espantares-te daquela água toda até ser o embate.

 

Nunca irás saber como e nem de onde.

 

Tu a tentar sair do túnel ou o que é que te rodeia e comprime como se fosse tumba. Tu rastejando três metros e quarenta centímetros e a tua mão a tatear apenas espaço vazio.

 

Um dia sairei daqui, dizes-te assim, e não choras, que a ti ensinaram-te que os deuses são justos. Justos e misericordiosos.

 

Eles hão-de salvar-te.

 

Mantém vigília, não soçobres, aconselhas-te, que tu ainda agora não percebes se foi grande chuva, ou se foste tu que fizeste, como fazias tantas vezes, e passaste o paredão a encurtar caminho. Mas não. Hoje, tu tinhas ido pela estrada. Hoje, não foras pelo dique. Não, não tinhas caído lá de cima. Foi outro o modo de ter ficado assim tanta água. E a sorte de estares agora em terra firme, se bem que nem saibas onde e nem te possas sequer voltar sobre a barriga a tentar ver que final é esse que apenas o teu braço detecta.

 

E paras, não te mexes.

 

Se soubesses rezavas, mas tu desaprendeste. Ainda assim, tentas, nem que seja para te manteres desperta: deuses do firmamento acudi-me, suplicas, e o calor da lágrima que se solta, à revelia, aconchega o teu corpo, ali, naquele final dos trezentos e quarenta centimetros bem medidos.

 

Maria de Fátima Santos

 

Retirado de Samizdat

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O segredo do retrato de Mário Soares

por Jorge Soares, em 07.11.15

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O visitante comum que percorra a galeria de retratos do Museu da Presidência encontra o que espera: um enfileiramento de grandes retratos de figuras sisudas, solenes, um pouco ameaçadoras até, dos presidentes da República Portuguesa, durante o século XX. Essa é a formulação a que o visitante está habituado e a que a magnitude do cargo parece exigir.
 
Então, surge-lhe o retrato de Mário Soares, que rompe com a lógica hierática dos retratos e choca violentamente com as representações anteriores. O retratado mostra os dentes, sorri, tem um ar bem disposto e descontraído, parece contar uma anedota, falar para o observador.
 
Muitos visitantes e alguns críticos têm reprovado esta formulação do retrato de alguém que foi Chefe de Estado e, embora reconhecendo a bonomia do retratado, prefeririam um retrato mais austero. No fundo, um Chefe de Estado é mais do que si próprio, é a figura da Nação, e, se um anónimo se pode fazer retratar em pose informal, uma figura que tenha exercido aquela alta responsabilidade deve, a bem da dignidade dos símbolos da pátria — como o hino e a bandeira —, apresentar maior compostura.
 
Embora contrafeito, o visitante comum desculpará a irreverência, que atribuirá a ideias modernistas do retratado. Sobressairá uma imagem de homem portador de uma mentalidade arejada.
 
 
 
 
Joaquim Bispo
 
 
* * *
Imagem:
Júlio Pomar, Presidente Mário Soares, 1992.
Óleo sobre tela, 174 x 140 cm.
Lisboa, Museu da Presidência da República.

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Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13


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