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Porque: "A vida é feita de pequenos nadas" -Sergio Godinho - e "Viver é uma das coisas mais difíceis do mundo, a maioria das pessoas limita-se a existir!"

Uma das coisas mais complicadas que pode haver na educação de uma criança é a alimentação, tive uma colega que chegava sempre irritada de manhã ao emprego. tinha uma luta diária com um diabinho de um ano que não se deixava convencer que devia engolir o pequeno almoço.
Há crianças que simplesmente não comem, vá lá a gente perceber porquê, mas elas não tem apetite..e isso para os pais é o maior dos dramas, vão por mim, sei do que falo.
Quado nos entregaram o N. com um ano de idade, ele era um bebé gorducho e bem alimentado, a vida dele resumia-se a comer e dormir, passava o dia na cama de tal modo que nem tinha cabelo atrás. A informação que nos deram era que era um bebé pachorrento que comia muito bem.... Para nós foi um choque, porque connosco não comia, com um ano não gatinhava, com 14 meses corria....era super mexido e não comia, claro, emagreceu.
Uma criança que não come pode ser, e normalmente é, uma fonte de desestabilização familiar, porque há sempre um pai ou uma mãe mais permissivos e o outro que acha que ele deve comer, connosco era eu que achava que ele devia comer e a P. que era permissiva. Para piorar a situação, a nossa experiência era com uma bebe que comia tudo o que lhe aparecia à frente, tudo mesmo.... a R. sempre comeu bem, de tal modo que com seis meses o médico mandou dar chá em vez de leite e papa... apesar de que agora está a ficar esquisita.
À medida que ele ia crescendo as coisas pioravam, porque não comia e ia inventando estratégias para não o fazer, desde o clássico passar 4 horas na mesa para almoçar, ir acumulando comida na boca até ficar com umas bochechas que nem um esquilo a guardar nozes, esperar que virássemos costas para despejar a comida para dentro do tacho, ou para o caixote do lixo. Uma das vezes encontramos o almoço dentro de um sapato... e outra nas plantas.
Eu sempre achei que era mania, um dia em casa dos meus pais esteve duas horas à mesa sem comer quase nada, de repente alguém falou de ir ao Parque infantil e em menos de dois minutos limpou o prato. É claro que a tensão cá em casa era enorme, acho que nunca na vida estivemos tão perto do divórcio, acreditem, uma criança assim pode dar cabo de qualquer estabilidade.
Com o tempo aprendemos a utilizar estratégias, quando descobrimos que ele adorava meloa, passamos a dar uma garfada de meloa e uma de carne, passamos por aquela de "não sais da mesa até terminares" e por aí fora. Uma que deu resultado por uns dias foi guardar o resto da comida para a refeição seguinte, ele sempre comeu bem ao pequeno almoço, se o deixássemos comia dois ou três pratos de papa... até que a carne que não tinha comido ao jantar lhe começou a aparecer ao pequeno almoço.... primeiro não comeu, mas a fome é sempre boa conselheira.
Um dia, depois de muita conversa e muita discussão, lá arranjamos a solução, que passa por não nos chatearmos, ele só come o que quer, mas a refeição acaba ali, ou seja, não queres a carne? não comes, mas não há sobremesa.... o truque é colocar as sobremesas à vista, e de preferência as preferidas dele... quem não tem fome para a carne, não tem para a sobremesa. E o problema resolveu-se.... bom mais ou menos.. que de vez em quando ele resolve armar-se em esquisito...e continua magro!
Jorge
PS:Imagem retirada da internet

Sheila é uma menina de seis anos que rapta um menino de três, o ata a uma árvore e lhe prende fogo. É praticamente assim que começa o livro, uma criança que comete um acto irracional e que é condenada a ser internada num hospital psiquiátrico, como não há vagas no hospital, é colocada temporariamente numa escola onde há uma turma de crianças especiais.
Nesta turma há uma professora que se interessa realmente pelos seus alunos e que descobre que por detrás de toda a raiva e rebeldia há uma mente brilhante e uma criança como as outras, que simplesmente necessita de carinho e de atenção.
Sheila foi abandonada pela mãe que a atirou de um carro em andamento numa auto-estrada, vive com o pai, um homem alcoólico e toxicodependente mas orgulhoso, num campo miserável e sem condições. Só tem uma muda de roupa que utiliza dia trás dia, mas o pai nega-se a que lhe ofereçam outra, eles não precisam.
Este foi um livro que me tocou, porque fala de abandono, de crianças difíceis e dos desafios que se colocam na educação de crianças que foram abandonadas.
O abandono é algo que marca uma criança para toda a sua vida, e essas marcas vão surgindo nas diversas fases do seu crescimento, eu sei, porque há coisas ali, poucas felizmente, que vi no meu filho.
O livro fala sobre a Sheila, sobre a sua professora, sobre o como ensinar e tratar crianças diferentes, mas fala também sobre o trauma do abandono, sobre as marcas que este deixa nas crianças, sobre as suas fragilidades e sobre como algumas coisas se devem tratar.
Há livros que nos marcam pela história, outros pela forma como estão escritos, outros porque os lemos na altura e circunstancias certas das nossas vidas, este livro marcou-me porque sou pai. Um livro que todos os pais adoptivos ou não deveríamos ler e que todos os professores deveriam ler.
Jorge
PS:imagem retirada da internet

O N. é uma criança que tem um feitio complicado, é teimoso, tenta sempre esticar a corda ao máximo, levar a água ao seu moinho, tem é algum azar, porque tem pais mais teimosos que ele, e que não desistem de tentar manter alguma ordem.
Ontem foi dia de ele se sair com uma das suas reflexões..... a conversa foi com a mãe, eu não assisti, mas vou tentar transmitir.
Ele tem um coleguinha que é levado da breca, um daqueles miúdos mimados e terríveis, inquieto, brincalhão e reguila... tão inquieto que no Sábado ele esteve na festinha de aniversário do N. que foi no ATL. No fim o pai da criancinha foi ter com as responsáveis a ver da possibilidade de ele ir para lá...elas ficaram em pânico.... disseram-nos que até tinham medo que isso acontecesse, porque realmente ele é terrível.
Ontem o N. chegou a casa a contar que esse menino tem uns pais óptimos, porque ele faz as asneiras todas e nunca lhe batem ou dão castigos a sério, ao contrario dele, que passa a vida de castigo e de vez em quando, lá apanha umas palmadas...... a mãe lá lhe explicou que ele tem os pais que tem e que cá em casa há castigos para quem não se porta bem. A conversa passou.... mas pelos vistos ele ficou a matutar no assunto.
Depois, de jantar voltou à carga, mas agora o assunto era mais sério, perguntou porque é que o marido da senhora , donde ele tinha nascido não tinha ficado a cuidar dele, já que ela não podia, porque estava doente.
A mãe lá lhe deu a explicação, de que não sabíamos isso, nem donde estava o marido da senhora..
Não satisfeito, voltou a perguntar se ele não tinha ficado com aquela senhora por ela estar doente. A mãe disse-lhe que achava que esse tinha sido o principal motivo, mas que havia variadíssimos motivos porque as crianças iam para a adopção, ...maus tratos, prisão...e doenças várias tais como o alcoolismo e a toxicodependência. ...
Depois lá disse ..."pois se a senhora não tiver ainda morrido, deve todos os dias chorar muito e pensar em mim e sentir-se muito triste por não saber de mim."
O dialogo continuou com mais explicações...... ser pai é ser pai, não importa se o filho é adoptivo ou não, mas há coisas na adopção que não são fáceis, mesmo quando o tema adopção é recorrente cá em casa e nós tentamos que seja um assunto normal e claro para todos.
Evidentemente a P. ficou preocupada, eu nem tanto, o N. acha que tem uns pais rígidos, que o tentam meter na ordem o melhor que sabem.... e achou que os pais do coleguinha que deixam a criancinha fazer o que quer, são melhores que os dele.....e ficou a pensar como seriam aqueles outros pais....que ele sabe que algures existiram..... algo para o que temos que estar preparados, com calma e sem dramas.
Jorge
PS:imagem retirada da internet
"Adultos maduros para serviço diário permanente, 24 horas por dia, sete dias por semana. Deverá ser paciente, determinado e motivado. Terá que trabalhar com pessoas por vezes totalmente dependentes, exigentes e imoderadas. Os deveres incluem compras, gestão financeira, lida doméstica, aconselhamento, cozinha e primeiros socorros. Deverá providenciar transportes frequentes. Compromisso vitalício, mas sem necessidades de estudos formais. Não é necessaria experiência. Não há retribuição monetária, mas existem beneficios adicionais generosos."
Algum candidato a este emprego?
Como já referi, estou a ler o livro "Como lidar com crianças difíceis", para ser sincero, o livro é feito de lugares comuns, coisas que todos nós sabemos, sentido comum e experiência de vida..... não digo que seja tempo perdido... mas também não aprendemos nada por aí além.
Na verdade, o que é uma criança difícil?, será que eu fui uma criança difícil?, a minha mãe diz que tinha eu uns meses e houve um tremor de terra, ela via as paredes abanar, eu estava a dormir no berço ao lado da cama.... e ela ficou na duvida se me devia acordar ou não...eu era tão mauzinho!.... será que eu era uma criança difícil?
Faço a pergunta porque realmente eu não sei, será que há crianças difíceis ou há pais que não tem tempo para dar a atenção suficiente aos filhos? será que alguns dos comportamentos a que chamamos difíceis não são a maneira que as crianças encontram para chamar a atenção dos pais que não tem tempo para eles?
No outro dia uma terapeuta contou-me que teve uns pais que levaram um miúdo para ser avaliado porque ele no ciclo não tinha só cincos...também tinha alguns quatros... e portanto eles achavam que ele deveria ter alguns problemas...... será que estes pais são normais?.. ou será que queremos os nossos filhos á imagem daquilo que não conseguimos ser?
Hoje tive uma reunião com a professora do meu filho que está na segunda classe, ... a sensação com que fiquei é que ela simplesmente não está para ter o trabalho de dar atenção a uma criança que tem dificuldades.... não se preocupa em criar um elo de ligação com a criança... acha que o facto de ele estar a ter apoio por parte de outra professora deve ser suficiente... é claro que isto são as minhas conclusões...mas o que é que podemos concluir de uma pessoa que diz que não tem que se estar a preocupar de verificar se uma criança de 7 anos copiou os trabalhos de casa ou não?... se ele não copiou é porque não quis!
Hoje tive a queixa mais parva que já ouvi, "temos queixas de que ele anda a apanhar as laranjas da árvore"... desculpem?, tem uma laranjeira no recreio de uma escola primária.... e acham que as crianças não vão mexer nas laranjas?..... mas elas vivem em que mundo?
A minha filha de 8 anos é uma criança que absorve tudo o que lhe passa à frente, é uma leitora excepcional, e é uma excelente aluna, é um bocado despassarada e às vezes parece que anda no mundo da lua..... mas a professora diz que isso não é problema, porque mesmo quando ela anda na lua, consegue responder na hora a qualquer questão que lhe seja colocada... é verdade que tem uma letra horrível e os cadernos são uma lástima. Para esta professora isto não é um problema, com o tempo isso resolvesse, a professora do ano passado achava que isso era um enorme problema e que a deveríamos levar a ser avaliada e tratada!... mas agora qualquer criança que não seja perfeita deve ser avaliada e tratada?.. não será que pais e professores estão simplesmente a fugir às suas responsabilidades e a passar tudo para os especialistas?... será que agora educar é levar a criança a um especialista para depois tratarmos o problema com químicos?
Todos nós fomos crianças, todos nós fizemos asneiras, eu apanhei muitas reguadas, levei muitas tareias.... se calhar deveriam ter-me levado a um especialista...
Com isto, o que é uma criança difícil?, alguém me explica?, donde termina a falta de educação e donde começa o "criança difícil"?
E não será que simplesmente nos estamos a esquecer do que significa ser criança?
Alguém me explica?
Jorge
PS:Imagens retiradas da internet