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Conto, Dessimetrias

por Jorge Soares, em 19.05.12
Dessimetrias


A sala enorme ficava debruçada sobre a rampa, sobre a rua, sobre uma zona ajardinada.


Uma sala com uma parede inteira em vidro transparente.

E, lá muito ao longe, via-se o casario da cidade.

E havia uma persiana.


Pregas esbranquiçadas que rolaram e taparam o vidro, e esconderam a rampa e a rua, e a zona ajardinada e o casario da cidade. Pregas que deslizaram devagarinho, e taparam também o sol intenso se bem que fosse já ao fim da tarde – a hora ela não pode saber ao certo, que nem tinha trazido relógio, e o que havia na sala de espera ficara exangue entre as duas e as três de um outro dia.


Ela não perguntou, e ninguém lhe disse.

Ninguém lhe disse mais que boa tarde e, num imperativo adocicado, que se sentasse:

– ali naquele banquinho.

Um banco em metal brilhante junto ao envidraçado.

Dava-lhe o sol em cheio antes de o homem ter corrido a persiana de alto a baixo.

E o coração dela a bater em descompasso, e Maria Irene a respirar em socalcos.


Estivesse a afogar-se em algum pego – água negra e profunda que nem poço – e não seria diferente aquele ficar-lhe o ar impedido e ela arfando, boca e narinas a latejarem num grito de socorro, e o ar apenas rondando. Tanto ar em volta e ela naquele desassossego. O ar deslizando-lhe para longe como que num jogo de esconde-esconde, e ela sentada muito quieta no tal banco, e os olhos, mais que tudo eram os olhos dela farejando. Maria Irene muda de receio e desconforto.


Ela à espera, e aqueles dois de um lado ao outro. Um homem e uma mulher azafamados:

– só mais um bocadinho dona, só mais um instante.

Na sala o chão era de soalho. Ripas brilhantes. Um espanto que fosse chão desse. Antes deveria ser chão de ladrilhos, tijoleira ou outro de melhor asseio, pensou Maria Irene a disfarçar a aflição que lhe era meter algum ar nos pulmões. E nem que fosse disso a sua queixa, que ela tinha dito ao médico: acho que cresceu. Um caroço de nada sob a pele.


E depois tinha sido o autocarro, e o combóio e ainda o táxi.

O médico apalpou, viu e disse-lhe: tem que fazer esse exame.


Meia dúzia de pelos a nascerem-lhe, muito loiros no local do bigode, e os olhos azuis sem qualquer brilho. O médico insistira numa vozinha turva: tem que fazer esse exame ainda hoje! e tinha-se levantado assim como que a dizer-lhe: não me vai pedir que lhe explique pormenores. Mas não disse. Levantou-se apenas, e fez que ela se erguesse na cadeira forrada em napa cor de vinho. Uma cor a dizer bem com as flores do cortinado na janela do consultório. E o médico desejou-lhe boa tarde a entreabrir a porta, e ela não perguntou o que quer que fosse.


Ainda bebeu um chá gelado na pastelaria que ficava defronte, e depois seria o autocarro e o combóio, e finalmente o táxi, e só então Maria Irene subiria a rampa.


E ainda fazia sol quando se sentou naquele banco.

Seria por volta do meio-dia quando saíu do consultório.

– vamos para ali, disse-lhe o homem a simular o gesto de ampará-la.

O mesmo homem que lhe tinha dito:

– tire tudo e vista isto.

Uma bata de material viscoso, um azul transparente estendido num braço peludo. Para que vestisse. E esse mesmo homem disse-lhe, depois:

– relaxe, dona.

E pegava-lhe num braço, numa perna, no tornozelo, no pescoço.

Pegava-lhe no corpo todo como se fosse coisa.

E finalmente, seco e preciso:

– e agora fique assim quietinha!

E foi só então que ela perguntou, sumida:

– quanto tempo?

Duas horas, tinham-lhe respondido.


E Maria Irene jura que foi nesse preciso instante que a sala enorme ficou reduzida ao tamanho do seu corpo. Nada mais que ela e a janela envidraçada e o cortinado. Tudo concentrado no seu corpo muito quieto por força do exame. E nem que fosse um pego, água negra e funda, nem que fosse isso, seria mais profundo o sorvo que ela desse para inspirar o ar necessário.


E foi nesse instante que Maria Irene jura que no cortinado se abriu uma fresta que se foi alargando. O cortinado a abrir-se lento.

E ela quis gritar que o fechassem.

Ela a respirar em sorvos e um frio de inverno a descer-lhe pelo corpo.

E nem terá gritado.

Maria Irene há-de contar que o sol entrou e encandeou-a. Um sol de meio-dia e era fim de tarde. Ou não seria.


Ela quis correr a persiana, mas o que havia era um cortinado longo, flores cor de sangue ou cor de vinho num pano que corria do lado de fora da porta envidraçada. Nem pensar em chegar-lhe, dirá ela, e dirá que o pano esvoaçava destapando o vidro.


O pano erguido pelas mãos de um e outro que passava.

Que os mandassem embora, queria ela gritar e não podia.

Um desaforo eles ali olhando, uns atrás dos outros a espreitarem debaixo do cortinado.


E Maria Irene há-de jurar que eram muitos olhos espreitando, e que nem havia persiana e sim um pano. E dirá que também os olhos dela andavam a passear lá fora, e ela muito quietinha como tinham mandado:

– não se mexa, dona.

E tinham deixado acesa uma luz vermelha.

Uma única lâmpada do tamanho do dedo grande do pé direito de Maria Irene, que por nascimento é muito maior que o dedo grande do seu pé esquerdo.


MARIA DE FÁTIMA


Retirado de Samizdat

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publicado às 21:40


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