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Alguém conhece uma bruxa de confiança?

por Jorge Soares, em 22.04.14

 

Bruxa

Imagem de aqui

Azar é uma palavra sem sentido,

nada pode acontecer sem uma causa

Voltaire

 

 

Quem me costuma ler sabe que para além de ateu sou um céptico convicto, não há deus, não há destino e sorte e azar são só  palavras que servem para explicar os acasos da vida... desde que tenho uso de razão que vivo de acordo com estes princípios e nunca vi motivos para os trocar por outros.

 

Tudo isto é muito bonito, mas juro que por vezes me pergunto se não estarei completamente errado, principalmente quando os diversos acasos teimam em se juntar todos para o mesmo lado que só por acaso, é o mais chato... o último mês foi claramente uma destas ocasiões e juro que a estas alturas já me pergunto se tanto acaso junto já não será azar. Vejamos:

 

13 de Março - Numa rotunda à saída de Setúbal, um senhor com uma carrinha resolveu cortar a direito e invadiu a faixa de rodagem onde por mero acaso ia a circular a minha meia laranja, o resultado foi chapa batida e um prejuízo evidente no carro, que por acaso até já estava quase vendido.

 

Também por acaso o senhor só parou uns cinquenta metros mais à frente e porque viu que ia a ser seguido, já vamos perceber porquê, e claro, não assumiu responsabilidade nenhuma, só não se foi embora sem sequer esperar a GNR nem agrediu a P. porque foi impedido.

 

Dois ou três dias depois, estava eu a fazer uma receita complicada quando despejei para dentro do copo da Bimby uma boa quantidade de azeite, não reparei que a parte inferior não estava fechada e o azeite foi parar directamente ao motor.. que literalmente se afogou... a reparação ficou em 200 Euros.

 

Na semana a seguir, quando já eu tinha começado as minhas discussões com a companhia de seguros ZURICH, a do senhor que bateu no carro, uma manhã cheguei ao meu carro e reparei que este estava aberto, durante a noite tinham voado o computador portátil e o GPS... 

 

Com isto tudo estávamos no inicio de Abril e não havia maneira de eu saber quando iria ter o carro, que até já estava vendido, reparado, a esta altura do campeonato no call center da Zurich já não me podiam ouvir... mas não me servia de nada, eles estavam a estudar o assunto e eu só tinha que esperar.

 

Entretanto meteram-se as férias da Páscoa e rumamos ao Alentejo.

 

A 13 de Abril, estava eu em Vila Nova de Milfontes, entrei para o meu carro, não reparei que entre o eu entrar e o arrancar, alguém estacionou do outro lado da rua, quando dei por mim já tinha batido, os estragos eram evidentes e de certeza caros.

 

Finalmente durante a semana passada a Zurich tinha uma decisão, como as descrições do acidente não coincidiam e o segurado deles só tinha parado muito longe do local (o crime compensa), não conseguiam atribuir a culpa, eles só assumem 50%... e ainda por cima, enviaram-me uma carta onde dizem que vão pagar o valor... sem o IVA!!!! (viva a fuga aos impostos)

 

Agora digam-me lá, independentemente do que diga o Voltaire, isto é ou não azar a mais para uma pessoa só?

 

Alguém conhece uma bruxa de jeito? (de preferência como a da fotografia) .. es que you no creo em brujas, pero empiezo a pensar que, de que vuelan, vuelan!

 

Jorge Soares

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publicado às 22:08

Somos donos do nosso destino

por Jorge Soares, em 19.08.11

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre

Imagem Minha do Momentos e Olhares

 

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,

E deseja o destino que deseja; 
Nem cumpre o que deseja, 
Nem deseja o que cumpre. 
Como as pedras na orla dos canteiros 
O Fado nos dispõe, e ali ficamos; 
Que a Sorte nos fez postos 
Onde houvemos de sê-lo. 
Não tenhamos melhor conhecimento 
Do que nos coube que de que nos coube. 
Cumpramos o que somos. 
Nada mais nos é dado. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Somos o que vivemos...

 

Algures numa praia de Portugal

Outubro de 2010

Jorge Soares

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publicado às 12:32

Destino

por Jorge Soares, em 16.02.11

 

Detalhes

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Profecia

 

Nem me disseram ainda 
para o que vim. 
Se logro ou verdade, 
se filho amado ou rejeitado. 
Mas sei 
que quando cheguei 
os meus olhos viram tudo 
e tontos de gula ou espanto 
renegaram tudo 
— e no meu sangue veias se abriram 
noutro sangue... 
A ele obedeço, 
sempre, 
a esse incitamento mudo. 
Também sei 
que hei-de perecer, exangue, 
de excesso de desejar; 
mas sinto, 
sempre, 
que não posso recuar. 

Hei-de ir contigo 
bebendo fel, sorvendo pragas, 
ultrajado e temido, 
abandonado aos corvos, 
com o pus dos bolores 
e o fogo das lavas. 
Hei-de assustar os rebanhos dos montes 
ser bandoleiro de estradas. 
— Negro fado, feia sina, 
mas não sei trocar a minha sorte! 

Não venham dizer-me 
com frases adocicadas 
(não venham que os não oiço) 
que levo caminho errado, 
que tenho os caminhos cerrados 
à minha febre! 
Hei-de gritar, 
cair, sofrer 
— eu sei. 
Mas não quero ter outra lei, 
outro fado, outro viver. 
Não importa lá chegar... 
O que eu quero é ir em frente 
sem loas, ópios ou afagos 
dos lábios que mentem. 

É esta, não é outra, a minha crença. 
Raios vos partam, vós que duvidais, 
raios vos partam, cegos de nascença! 

Fernando Namora, in "Relevos"

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publicado às 23:15

Destinos

por Jorge Soares, em 09.05.09

Destinos, Miguel Torga

 

Foram uns amores singulares, aqueles. No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos. Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.

 

- Não dás um ramo, ó Coiso? - perguntou do caminho a rapariga.

 

- Dou, dou! Anda cá buscá-lo. Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.

 

- Não estás de caçoada? - Falo a sério!

 

Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.

 

- Olha que aceito! - E eu que estimo... Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.

 

- Não teimes muito...

 

- Valha-me Deus!... A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha,

 

- Segura lá na abada... Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.

 

Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.

 

- Terão bicho?

 

- Têm agora bicho! Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!

 

Sem querer,, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.

 

- Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei... À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.

 

- Segura lá esta pinhoca... Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.

 

- Que lindo! - É para que saibas... Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.

 

- Cautela!

 

- Não há perigo. No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.

 

- Queres mais? - Não, bem hajas... Pôs-se logo a descer, um pouco atarantado por lhe faltarem já as palavras que lhe havia de dizer cá na terra. Ela é que entretanto se escapulira. .- Adeus!...

 

O namoro, contudo, tinha começado. Sem nunca falarem daquela tarde, sabiam ambos que se amavam e que fora a velha cerdeira bical que lhes aproximara os corações. Pena elo ser o que era: uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim.

 

Falavam ao cair da tarde, quando a fresca do anoitecer aligeirava o cansaço das cavas, sem que ninguém reparasse, pois a povoação aceitara já aquela união como um facto natural e acertado - e o rapaz ainda a meio do caminho, atarantado e reticente.

 

- Que diz vossemecê? - perguntava ele à mãe, à pobre Teodósia, que não via outra coisa na vida senão a felicidade do filho.

 

- A mim agrada-me... É boa rapariga, e limpa, é jeitosa... - Lá isso... Dizia, e ficava-se calado, indeciso entre o sonho e a realidade.

 

- Fala à gente! Era sempre a Natália a começar, como no dia das cerejas. Por mais que fizesse, nunca ele se atreveria a dar o primeiro passo. Só quando a rapariga quebrava a distância é que o coitado se abria num contentamento sem medida., tonto e novo como um cabrito. Mas nunca passava de coisas vagas e enternecidas. As palavras concretas magoavam-lhe a boca.

 

- Ainda não lhe falaste em nada? - Indagava a Teodósia, insárida.

 

- Não. Mas amanhã... - Ou quererás tu antes que eu lhe diga... ? - Melhor fora! Valha-a Deus! Isso até era uma vergonha!

 

Lá conhecer os pontos de honra de um homem, conhecia-os ele. A coragem é que não chegava à altura do entendimento.

 

Infelizmente, a vida não podia parar naquela lírica indecisão. Os meses passavam, as folhas caíam, e outros renovos vinham povoar a terra.

 

- O João Neca esperou-me ontem à entrada do povo... - começou a Natália, à saída da missa.

 

- Ah, sim? E depois? - perguntou ele, a sentir o sangue subir-lhe à cara.

 

- Pediu-me namoro... - deixou ela cair com melancolia.

 

Era justamente altura de lhe dizer tudo, que a não podia tirar do pensamento, que só quando a levasse ao altar teria paz, que não seria nada no mundo sem os seus olhos verdes ao lado. Mas ainda desta vez o ânimo lhe faltou.

 

- Bem, tu é que vês... Ele não é mau rapaz... Rasgava-lhe conscientemente o coração com semelhante aquiescência, porque tinha a certeza que desde a primeira hora o amava também. A coragem é que não era capaz doutra coisa.

 

- Eu queria lá um farçola daqueles! Estou muito bem assim...

 

Puras palavras de desespero. Tanto ela, que despeitada as dizia, como ele, que culpado as provocara, sabiam que eram o fruto de uma revolta impotente e destinada a morrer.

 

A pobre Teodósia é que lutava às claras. E dias depois já estava a picar o filho:

 

- Sabes o que me disseram hoje na fonte? - Que a Natália tem namoro com o João Neca... - respondeu, vencido.

 

- Nem mais. - Pois tem...

 

- Já sabias?! Então... e tu? Não a queres? Ou foi ela que te deixou ?

 

- Eu sei lá o que foi... Dali em diante parecia viver de alma viúva. E a alegria do rosto da rapariga cobriu-se também de um negro véu de desilusão. Passavam um pelo outro e comiam-se com os olhos. Mas nem ele lhe falava no seu amor, nem ela rasgava já a frágil teia de separação.

 

- Casam-se para a semana... - ia esclarecendo a Teodósia, como um remorso.

 

- Já sei. - O padre leu hoje os banhos... - Pois leu... Era uma resignação que quebrava a gente, e desarmava. E a velha não encontrava outro alivio senão chorar.

 

- Morria por ti! - disse-lhe numa manhã, que podia ser de felicidade para os três., e se transformara num pesadelo.

 

Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado, e só naquela casa a tristeza se aninhava sombria e desamparada a um canto.

 

- Também eu gostava dela... Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha.

 

 

Miguel Torga, Novos Contos da Montanha

 

Retirado de :Contos de aula

 

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publicado às 21:31


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