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O que significa o cravo vermelho?

por Jorge Soares, em 26.04.15

cavaco.jpg

 

Imagem do Público

 

Reza a história que no dia 25 de Abril de 1974 a revolução estragou o negócio à vendedora de cravos do Rossio, esta vendo que estes iam murchar, decidiu oferecer um a cada militar dos que estavam a fazer a revolução e que por ali passavam... e foi assim que o 25 de Abril ficou conhecido para o mundo como a revolução dos cravos.

 

Na sexta ao almoço chamou-me a atenção ver que Cavaco Silva fazia o seu último discurso como presidente da república nas cerimónias do 25 de Abril sem  um cravo na lapela e comentei o facto com a família.

 

Fiquei mais ou  menos chocado quando a R. que ainda por cima adora história e tira sempre excelentes notas nessa disciplina me perguntou:

 

-O que é que significa o cravo vermelho?

 

Considero o gesto de Cavaco Silva quase uma afronta, não só a quem fez a revolução que nos devolveu a todos a liberdade de pensar e de termos opinião, como a todo o povo português. Mas confesso que me assusta mais a forma como nos últimos 40 anos temos tratado o assunto.

 

É verdade que o facto de a minha filha não saber identificar o símbolo da revolução, também é culpa minha, é em casa que devemos transmitir os princípios, mas este não deveria ser um assunto que se dá na escola? Ela teve história até ao nono ano,  sempre foi uma excelente aluna nessa disciplina e a verdade é que esse capítulo tão importante da nossa história, quase lhe passou ao lado, porque raramente falaram disso nas aulas e quando o fizeram foi sempre ao de leve.

 

A mim o gesto de Cavaco Silva não me estranha, sempre olhei para ele como o menos democrático de todos os políticos que nos governaram nos últimos 40 anos, por ele e por mais alguns como ele, essa parte da nossa história era simplesmente apagada... assim como o tem sido nas aulas de história que foram dadas aos nossos filhos nos últimos 40 anos.

 

O cravo é o símbolo de uma revolução pacífica que devolveu a democracia ao país após muitos anos de fascismo e de falta de liberdade, não deveria ser um símbolo político, devia ser transversal e servir para que no futuro ninguém esqueça porque é que essa revolução foi feita... há quem queira que essa parte da nossa história seja esquecida....  talvez porque um povo ignorante da sua história é mais fácil de subjugar e de enganar.

 

Jorge soares

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publicado às 22:41

O 25 de Abril é nosso, não é dos políticos.

por Jorge Soares, em 10.04.14

25 de Abril

 

Imagem de aqui

 

 

"Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República,

aqui representado hoje,

que este país não é seu,

nem do governo do seu partido"

 

Alexandra Lucas Coelho

 

 

Foi ontem que partilhei as palavras da Alexandra Lucas Coelho, num brilhante discurso em que a escritora colocou por palavras dela o que nos vai na alma a tantos e tantos portugueses.

 

Hoje foi noticia o diferendo entre os membros da associação 25 de Abril, a que pertencem os militares que fizeram  a revolução,  e a presidente da assembleia da república Assunção Esteves, a propósito da presença ou não desta associação nas comemorações do 25 de Abril. Quando se festejam os 40 anos da revolução, os militares sentem-se com direito a falar e pelos vistos quem agora mais goza dos privilégios que se conquistaram naquele dia, não acha que isso possa ser possível.

 

De que será que têm medo os deputados e os partidos? De uma nova revolução não será de certeza, é fácil perceber, a senhora presidente da assembleia da República e os deputados tem medo das palavras, não é difícil perceber por onde iria o discurso de quem fez a revolução e dia a dia vai vendo como cada vez estamos mais longe dos ideais de Abril.

 

Ante a perspectiva de um novo discurso como o da Alexandra Lucas Coelho é mais fácil cortar o mal pela raiz e manter tudo controlado com os mesmos discursos de sempre e as mesmas conversas da treta.

 

É fácil mandar a polícia evacuar as galerias cada vez que o povo protesta por mais uma decisão ou uma lei que o irá prejudicar, mas de certeza que não seria fácil mandar calar um capitão de Abril a meio de um discurso, os deputados terão pensado que para grandes males grandes remédios.

 

Senhores políticos o 25 de Abril não é vosso, o 25 de Abril é de quem o fez e é sobretudo do povo... 

 

Jorge Soares

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publicado às 23:12

O País da Alexandra é o nosso país!

por Jorge Soares, em 09.04.14

Alexandra Lucas Coelho

 Imagem do Público

 

"Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.

 

Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.

 

Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.

 

Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.

 

Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual presidente da República.

 

E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dividas à segurança social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.

 

Não devo nada ao governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.

 

Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

 

Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos, Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes."

 

Alexandra Lucas Coelho

 

Discurso proferido na entrega do prémio APE pelo romance E a Noite Roda

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publicado às 21:15


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