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Porque: "A vida é feita de pequenos nadas" -Sergio Godinho - e "Viver é uma das coisas mais difíceis do mundo, a maioria das pessoas limita-se a existir!"
Ninguém me segura, meu bem. Acordei com a disposição de um atleta paraolímpico. Corri descalço e sem roupa por todo o apartamento, as janelas da sala escancaradas. Um paraíso envidraçado, nosso oásis ergonômico, lembra? Decoramos tudo sozinhos. Com rigor, sem excessos, de acordo com a tua vontade. Perdi, sim, a batalha da cozinha. Os tijolos de vidro, admito, foram uma ótima escolha. A parede invisível, aquela luz de geleira. Você está de parabéns. Ficou mesmo lindo.
Também adoro nossa cafeteira italiana. Tão charmosa. A cara da dona, eu diria, se fosse um ignorante. Você acertou na compra: ela sempre nos foi muito útil. E vai durar mais dez, doze anos, aproveite. Eu aproveitei. Tanto que, hoje cedo, ao ligar a maquininha, já me senti um pouco nostálgico, saudoso de tudo.
Difícil me ver assim, sentimental. Ainda mais com a fome que sempre sinto quando acordo. Fome negra. Até matei aquele salame polonês que você trouxe da feira das nações. Comi tudo, ao som da água fervendo, do café pingando na jarra suada. Adoro o vapor. Adoro o chiado dos eletrodomésticos. Adoro embutidos. São coisas boas que a vida nos oferece. A vida em si é boa, ninguém precisa me convencer disso. Meu problema é outro. É nosso. Nada relacionado com comida, meu doce.
Mas comi bem, como sempre comi. Mastiguei de boca aberta, sim, daquele jeito que você sempre critica. Eu estava distraído. Me olhando na porta espelhada da geladeira. Meu reflexo seminu parecia o de um macaco espantoso, esguio. E aquilo me chateou um pouco. O Narciso sinuoso ali, brilhando. Eu, metálico e barbudo, descabelado, mas ainda apresentável. Me desperdicei, não nego. Nos desperdicei, você vai enfatizar. É o que vai dizer aos outros no futuro ― amanhã mesmo, aposto.
Engraçado. Até parece que faz dias que não nos falamos.
Luis Henrique Pellanda
Retirado de Digestivo Cultural