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O segredo do retrato de Mário Soares

por Jorge Soares, em 07.11.15

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O visitante comum que percorra a galeria de retratos do Museu da Presidência encontra o que espera: um enfileiramento de grandes retratos de figuras sisudas, solenes, um pouco ameaçadoras até, dos presidentes da República Portuguesa, durante o século XX. Essa é a formulação a que o visitante está habituado e a que a magnitude do cargo parece exigir.
 
Então, surge-lhe o retrato de Mário Soares, que rompe com a lógica hierática dos retratos e choca violentamente com as representações anteriores. O retratado mostra os dentes, sorri, tem um ar bem disposto e descontraído, parece contar uma anedota, falar para o observador.
 
Muitos visitantes e alguns críticos têm reprovado esta formulação do retrato de alguém que foi Chefe de Estado e, embora reconhecendo a bonomia do retratado, prefeririam um retrato mais austero. No fundo, um Chefe de Estado é mais do que si próprio, é a figura da Nação, e, se um anónimo se pode fazer retratar em pose informal, uma figura que tenha exercido aquela alta responsabilidade deve, a bem da dignidade dos símbolos da pátria — como o hino e a bandeira —, apresentar maior compostura.
 
Embora contrafeito, o visitante comum desculpará a irreverência, que atribuirá a ideias modernistas do retratado. Sobressairá uma imagem de homem portador de uma mentalidade arejada.
 
 
 
 
Joaquim Bispo
 
 
* * *
Imagem:
Júlio Pomar, Presidente Mário Soares, 1992.
Óleo sobre tela, 174 x 140 cm.
Lisboa, Museu da Presidência da República.

-

Retirado de Samizdat

publicado às 21:13


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