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Conto, Feitiço e utopia

por Jorge Soares, em 05.01.13

elevador

Imagem de aqui


Ela é linda. E charmosa. E cheirosa. E bem vestida. E elegante. E bem tratada.


Cara de menina rica, jeito de musa carioca. Tanta boniteza pra quê? 


Metida a besta que só ela. Há mais de ano, todo santo dia útil saio para o escritório às 8h:40 min. Desço no elevador que para invariavelmente no andar onde ela mora. Sozinha. Eu sei que ela mora sozinha. Nunca a vi com ninguém, nem aos sábados, domingos ou feriados, o porteiro diz que nesses dias ela viaja.  


Esbaforida e rebolativa, puxando mala cachorrinho, pega um taxi e some. Volta domingo depois do Fantástico. O porteiro é linguarudo.  

 

Mas deixa estar: de segunda a sexta, o encontro comigo é religioso.  Sempre às 08h40min. Faço o que me ensinaram meus pais, meus avós,  irmã mais velha, tias, padrinho, madrinha, professoras, padres, bedéis,  primos metidos, vizinhas faladeiras, chefes no trabalho, conselheiros de boas maneiras,  arautos da civilidade, consultores de RH: abro um sorriso, olhos nos olhos e digo "Bom dia!".


E ela, nada. Não pronuncia palavra alguma. Cara de entojo,  revoa os cabelos castanhos claros ainda molhados, espargindo um leve perfume de xampu de maçã. E me dá as costas arrebitada. Seus dedos bem feitos sem alianças reveladoras remexem a bolsa de grife, coloca os óculos escuros da mesma grife e fixa o olhar carrancudo na porta  pantográfica - prédio velho no Posto Seis tem dessas coisas. A eternidade é o tempo em que contemplo a deusa até chegar ao térreo, enquanto converso com o diabo. Altos desvarios. 


Começo louvando a natureza que esculpiu seu corpo, depois vou aos detalhes. 


Saia justa – a dona não repete roupa - uma blusinha chique, às vezes de manga, às vezes sem manga, camisetas cavadas com discretas rendas, às vezes um  casaquinho leve nas costas, às vezes um jeans bem cortado e colado nas  suas curvas generosas. Quando chove, capa cinza claro, echarpe e guarda chuva All Burberry, e botas poderosas. Alternam-se também leggings apertadinhos sobrepostos por blusas e batas de fino desenho, calças largas e coloridas,  saias longas estampadas, vestidões esvoaçantes -  nesses dias penso que o chão do elevador deveria ser aquele bueiro da Marylin Monroe. 


Sempre reparo seu braço. Não o que segura a bolsa de grife, que também nunca vi repetir, mas o braço que dá para enxergar uma discreta relva dourada sobre a pele bronzeada, caminho que hipnotiza e me faz galopar roupa adentro, e imiscuir meus pensamentos entre o decote maldoso e o sutiã meia-taça, porta jóia de um mamilo róseo de biquinho empinado.


Ninguém me tira da cabeça que seja assim, como também  ninguém  me tira da cabeça que ao descer os olhos vislumbro uma calcinha micra engolida  pela fresta entre seus glúteos rijos e de perfeitas dimensões, que protege no triângulo frontal uma pelúcia rente e macia, densa e bem contornada - não admito depilações radicais nem nos meus delírios.


O elevador é uma lesma. Ainda bem. Meu olhar abaixa às suas tenras panturrilhas  cor de caramelo e praia, que emanam convites velados para apalpar e morder  de olhos fechados. Num dos tornozelos mora um infinito tatuado, como um recado de que minha viagem pela moça não tem fim.


E chego aos calçados. Também nunca vi repetir.  Às vezes sapatilhas, às vezes rasteirinhas, às vezes um salto fatal, firme. Quando aparece de sandália alta, de tiras delicadas envolventes, meu baticum acelera. Hoje, por exemplo: a dona está mais uma vez como todo santo dia útil estonteante e desdenhosa. É devidamente fotografada da cabeça aos pés, por fora, de lado, de frente, por dentro, visão raio X que mira sua alma turva, seus sentimentos opacos, e só encontra o mistério que derrama impiedosa. 

 

Chegamos ao térreo. Gentil contumaz, sem jamais passar lhe à frente, me desdobro em abrir a porta e a deixo escapar para o dia lá fora. Nem um sorriso, nem um agradecimento.


Já estou acostumado. Nariz em pé, segue esbanjando antipatia entre transeuntes e figurantes da sua vida, deixando um rastro de repulsa ao mundo. Seus passos decididos sobre os saltos me enfeitiçam. Um dia, quem sabe, um dia, bebo da poção de coragem destinada aos pusilânimes,  aos insignificantes, aos ruins de chinfra, aos sonhadores que não têm nada a perder, e juro que declaro minha paixão. E os deuses haverão de me atender. 


Nua sob meu corpo franzino e desprovido, ofereço meus dotes secretos e descortino sua ternura, descerro sua meiguice, decifro sua volúpia enrustida. 


E ela me devora: nos braços do vizinho outrora invisível e agora inusitado, explode todo seu encubado desejo por mim, travestido há tempos  de uma antipatia impostora e estratégica. Não, não carece gemer desenfreada, minha querida, nem balbuciar sôfregos "Delícia! Delícia! Delícia!", "Homem gostoso da minha vida!", "Me invade que esse planeta é todo seu!".


Nada disso. Só quero que na hora agá, quando os fogos do amor pipocam, encoste seus lábios trémulos no meu ouvido e me diga finalmente e baixinho: "Bom dia".


JOSÉ GUILHERME VEREZA


Retirado de Samizdat

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publicado às 21:24


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