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Conto - A cigarra e as duas formigas

por Jorge Soares, em 27.06.15

a-cigarra-e-a-formiga.jpg

 

Imagem de aqui

 

A cigarra e a formiga boa

Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas. Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas. A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu - tique, tique, tique... Aparece uma formiga, friorenta, embrulhada num xalinho de paina.


- Que quer? - perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
- Venho em busca de um agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo.
- E o que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois de um acesso de tosse:
- Eu cantava, bem sabe...
- Ah! ... exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
- Isso mesmo, era eu...
- Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.


A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.

A cigarra e a formiga má

Já houve entretanto, uma formiga má que não soube compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta. Foi isso na Europa, em pleno inverno, quando a neve recobria o mundo com o seu cruel manto de gelo. A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro, e o inverno veio encontrá-la desprovida de tudo, sem casa onde abrigar-se, nem folhinhas que comesse. Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou - emprestado, notem! - uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o permitisse. Mas a formiga era uma usuária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres.


- Que fazia você durante o bom tempo?
- Eu... eu cantava!...
- Cantava? Pois dance agora... - e fechou-lhe a porta no nariz.


Resultado: a cigarra ali morreu estanguidinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. Ë que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?


Os artistas - poetas, pintores e músicos - são as cigarras da humanidade.

 

Henry Bugalho

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:13

Morrerias por uma ideia?

por Jorge Soares, em 10.01.15

liberdade.jpg

 

Há uma linha invisível entre heroísmo e estupidez...

Dizem que foram os gregos que, pela primeira vez na história do Ocidente, defenderam com unhas e dentes a liberdade contra a servidão.


As cidades-estados gregas, entre elas Esparta e Atenas, chocaram-se contra o monstruoso exército persa, liderado primeiro por Dario e, posteriormente, por Xerxes.


Conta a história (de Heródoto) que a liberdade venceu: ideologicamente, com a morte suicida dos trezentos bravos espartanos e de seus aliados na Batalha de Termópilas, e militarmente, com a engenhosa estratégia naval dos atenienses em Salamina.


Os homens livres preservaram sua liberdade, e o seu direito de terem escravos - pois sim!, os homens livres da Grécia tinham seus escravos, com os mais ricos dos atenienses possuindo até 50 servos.

E na História Ocidental esta dinâmica foi preservada durante muitos séculos. Ainda hoje muitos de nós são escravos: do dinheiro, da comodidade, do luxo, da ostentação, das corporações, do trabalho, inclusive escravos até de princípios que pouco correspondem à realidade.

Pensa-se no Ocidente como livre, democrático, justo e tolerante. É a mentira que repetimos dia após dia para convencermos a nós mesmos.


O problema fica realmente evidente quando tentamos definir o que cada uma destas qualidades realmente quer dizer e, para isto, centenas de tratados já foram escritos. São alguns dos principais temas que ocuparam as mentes dos filósofos de todos os tempos, mas particularmente da Modernidade em diante.



O que é liberdade? O que é justiça? É possível uma sociedade verdadeiramente democrática?



O Iluminismo francês forneceu as bases teóricas para algumas das maiores transformações sociais dos últimos séculos, da Revolução Americana, passando pela própria Revolução Francesa, e por todos os movimentos independentistas da América Latina. A revolução burguesa serviu até como referência para a revolução do proletariado, à qual esta se opunha.



As ideias que movem o mundo. As ideias que transformam a sociedade. As ideias que às vezes até nos impedem de ver as coisas como elas realmente são.

Eu acreditava que a era digital, com tamanha informação disponível, com comunicação sem fronteiras, inevitavelmente nos tornaria mais tolerantes, muito mais aptos a compreender e aceitar a diversidade.


Pelo contrário...


Entramos com os dois pés numa nova era de intolerância e ódio, e tudo que se diz, escreve-se, publica-se, canta-se e mostra-se é recebido com ira e palavras ásperas.


Todos têm opiniões sobre tudo, mas as opiniões alheias estão sempre equivocadas. E, para isto, não basta apenas discordar, é necessário defender até a morte a "verdade".


É preciso tornar-se um mártir da verdade e do que é correto.



Mas este é um segundo problema insolúvel. O que é afinal a verdade?


Ela está aqui, ali ou algures? Quem tem acesso a ela? Existe uma única verdade inequívoca, ou teria ela mil facetas fragmentadas e contraditórias?



Onde você vê liberdade, eu vejo servidão.


Onde você vê tolerância, percebo cada vez mais o discurso de ódio que de tempos em tempos ressurge.


Onde você vê uma imprensa livre, eu me assusto como a manipulação da mídia.


Onde você vê a verdade, eu postulo questão infinitas e insolúveis.



Eu não morreria por ideia alguma, pois elas são tão efêmeras e impalpáveis e indefiníveis quanto as ideias contrárias.


Morrerei apenas porque é inevitável, do modo como for.

 

Henry Bugalho

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 20:02

Conto - A mãe que você será

por Jorge Soares, em 10.05.14

A mãe que você será

 

Para Denise, esta amada mãe moderna


Um filho sempre foi uma abstração em nossas vidas. Jamais um plano real, jamais esteve nos projetos futuros.


Era somente uma hipótese, um "e se...?"

Isto até você me dizer que estava pronta, que havia chegado a hora, que devíamos tentar.


Primeiro, pensei que fosse brincadeira, depois fiquei um pouco intimidado.


Uma criança em nossa vida completamente desregrada, sem rumo, sem paradeiro, sem rotina? Daria certo isto?


Mas como todas nossas demais decisões loucas, topei e nove meses depois estávamos com o nosso bebezinho nos braços.


E agora?

Somos só eu e você. Somente eu e você. Todos nossos parentes e amigos de verdade estão a milhares de quilômetros daqui, portanto, todas as responsabilidades estão sobre as nossas costas. Sem ninguém para nos dar uma forcinha, sem tréguas, sem apoio.


Mais do que exceção, penso que o nosso tipo de família está virando uma regra.


O nossa maior conselheira?


A internet.


"Como os pais viviam antigamente sem internet?", você me perguntou, uma vez.


Viviam das tradições, dos rituais que mães passavam para filhas, de crendices como "congestão", "não comer olhando no espelho" ou "não lavar o cabelo na quarentena". Aliás, muita gente ainda vive assim.


Você se tornou uma mãe moderna, que pesquisa cada escolha para nosso filho, que conscientemente planeja o que pensa ser o melhor para ele. Isto mesmo antes de ele nascer, quando estudou sobre os tipos de partos, hospitais e exigiu nada mais do que o melhor que houvesse disponível. E depois veio a luta para prosseguir na amamentação, os sacrifícios que você fez para o melhor do nosso bebê.


Também pesquisou sobre os alimentos e sobre os métodos para estimular melhor a criança, e apesar de ainda ter um tempo pela frente, já está também lendo sobre qual será a melhor educação para ele.


Compartilhamos das mesmas ideias radicais (ou revolucionárias!), então não sabemos se isto será bom ou ruim. Já nos mudamos para outro país e voltamos com o nosso bebê ainda de meses. Já viajamos com ele. Viajaremos muitas vezes mais. Não mudamos tanto a nossa rotina.


Esta é a mãe que você se tornou.


E talvez seja uma pequena amostra da mãe que se tornará.


Uma mãe que deseja que seu filho seja livre, ou melhor, que seja o que é.


E não é este o maior ato de amor possível, que o nosso filho cresça para se tornar o que tem de ser, e não apenas um espelho (ou uma frustração) do que nós somos?

Percebo que sua maior preocupação é a de criar nosso filho para o mundo, de que ele seja uma pessoa digna, que esteja preparado para esta selva que há aí fora.


Queremos fazer tantas coisas diferentes dos nossos pais e, justamente por isto, cometeremos outros erros. Que solução nos resta além de tentar e correr estes riscos? Optar pelo óbvio, pelo mais simples, pelo que todos fazem?


Mas aí não seria você. Não seria esta mãe moderna, que está sempre olhando para a frente, rumo ao futuro.


Você não é igual a mais ninguém, como esperar que fosse uma mãe igual às outras?

Só conheceremos o resultado de nossos atos daqui a muitos anos. Todavia, assim como na música que sempre a faz chorar, "o acaso vai nos proteger, enquanto eu andar distraído".


O acaso, este nosso imprevisível companheiro, continuará nos protegendo. E ele a protegerá sempre.

Nosso bebê ainda é muito pequeno para expressar gratidão, por isto, agradeço por ele. Sei que um dia ele saberá que teve a melhor mãe do mundo 

 

Henry Bugalho

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:10


Ó pra mim!

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