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Conto - Ao seu dispor

por Jorge Soares, em 03.05.14

Quarto

 

 

Encontrar um hotel daqueles justamente quando estavam perdidos havia sido um golpe de sorte. As recusas dele em pedir informações fizeram com que eles saíssem da estrada principal. E ali, no meio do nada, depois de pegarem uma estradinha de terra, acidentada, e de uma chuva torrencial que dificultara ainda mais as coisas, surgia, como um oásis, aquele hotelzinho aconchegante.

 

Nem parecia que estavam em lua-de-mel. Não que não fossem apaixonados, mas a sucessão de episódios ruins desde que saíram do trajeto original os havia estressado a tal ponto que ambos só desejavam agora um local decente para tomar um banho e dormir. Ela, pateticamente trajando um vestido de noiva, queria manter a tradição e ser carregada no colo pelo noivo, o que agora, com o coque desfeito e o vestido amarrotado, parecia totalmente ridículo.

 

Ângela foi a primeira a entrar. Tocou insistentemente a campainha em cima do balcão, mas ninguém apareceu. Carlos entrou em seguida, carregando as malas e depositando-as no hall de entrada.

 

– Olha só que gracinha de hotel! – ela parecia deslumbrada.

 

– Estou tão cansado que dormiria até neste sofá – ele declarou, desanimado, indicando, com os olhos, um sofá no outro canto do saguão.

 

– Acho que não tem ninguém aqui. O que a gente faz agora?

 

– Se ninguém aparecer, pegamos uma chave, e...

 

– O quarto oito é perfeito para vocês – Carlos foi interrompido.

 

Ambos olharam para o ponto de onde viera a voz. Um homem de meia-idade, levemente antipático, surgira na recepção.

 

– São recém-casados. – afirmou, tentando parecer simpático, enquanto olhava o vestido dela. – Que ótimo! Sempre temos o que o cliente deseja. A suíte oito é uma das mais procuradas, e passou por uma reforma recentemente – dizendo isso, o homem pegou as malas e começou a carregá-las em direção ao quarto.

 

Carlos e Ângela entreolharam-se.

 

– Espere. Nem preenchemos a ficha ainda.

 

– Não faltará tempo. Agora podem subir – o funcionário respondeu secamente.

 

O quarto era de fato belíssimo. Quem visse o hotel pelo lado de fora não poderia imaginar uma decoração tão esmerada. Era simples, mas possuía um inegável toque de classe. Uma decoração em tons florais conferia um ar romântico ao cômodo.

 

– Não é exatamente o resort para onde iríamos, mas até que é simpático, não é? – ele perguntou, passando os braços em torno dela. A tensão dissipara-se.

 

– Você está brincando? Isso aqui é maravilhoso! Eu poderia passar o resto da minha vida aqui – disse Ângela, com os olhos brilhando.

 

– Acho que desconhecem o conceito de serviço de quarto por aqui – a voz dela denotou impaciência ao perceber que o telefone estava mudo.

 

– Vou descer e tentar conseguir algo para comer.

 

– Devíamos ter trazido um pedaço do bolo. Dizem que os noivos nunca aproveitam a festa.

 

Ela entrou no banheiro e despiu o vestido de noiva, ligando a água da banheira. Um relaxante banho era tudo de que precisavam. Se a comida fosse ruim, partiriam de manhã rumo ao hotel reservado.

 

Os minutos se passavam e Carlos não retornava. Vestindo-se novamente, ela desceu as escadas, procurando algum sinal de vida. Nem o rabugento homem da recepção estava mais ali.

 

Todos os quartos, à exceção da suíte em que estavam alojados, pareciam vazios e trancados. A cozinha, modesta porém ampla, estava igualmente vazia. Lançou mão de uma garrafa e saiu rapidamente, percorrendo toda a ala daquele andar. Aturdida, correu até o lugar onde haviam estacionado o carro, e constatou que ele permanecia no mesmo lugar, e era o único ali.

 

Amedrontada, começou a chamar pelo marido, sem resposta. Sua voz, que ficava um tanto esganiçada quando ela ficava nervosa, estava agora irreconhecível. Percorrendo toda a extensão do hotel, gritava, agora realmente desesperada.

 

Após refazer o percurso, certificando-se de que não se esquecera de nada, esquadrinhou novamente o hall e o saguão, que lhe pareceram um tanto diferentes.

 

Exausta, retornou ao quarto, munida de uma bebida forte que encontrara na cozinha. Soluçando, encolheu-se ao pé da cama, quase em posição fetal. Os longos cabelos negros estavam agora totalmente desgrenhados, e a maquiagem borrara-se por completo. Nesse momento, a porta abriu-se e o antipático funcionário sorriu-lhe.

 

– Onde está meu marido? O que fizeram com ele? – o tom histérico em sua voz não pareceu perturbar o homem, que se limitou a estender-lhe a mão.

 

– Cuidado com o que deseja, minha cara.

 

...

 

Uma semana depois, um homem encontrava um hotel que não constava do mapa. Perfeito para sumir por uns dias, até que ninguém o pudesse ligar ao roubo do dinheiro do cofre. O hotel era pequeno, rústico, e, o melhor de tudo: discreto. Parecia quase invisível aos olhos de quem passasse por aquela estradinha pouco usada.

 

Ao entrar, foi atendido por uma simpática jovem, de longos cabelos negros. Seu olhar avivou-se quando ele perguntou se havia algum quarto disponível.

 

– Eu preciso de um lugar sossegado, pois não quero ser importunado. O lugar aqui é tranquilo?

 

– Temos exatamente aquilo que o senhor quer – respondeu ela, com um sorriso. – Sempre temos o que os clientes desejam.

 

Tatiana

 

Retirado de Samizdat

 

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publicado às 21:34

Dia de casamento.. ou, O homem dos cabides!

por Jorge Soares, em 26.05.09

Casamento molhado.....

 

Hoje recebi mais um mail do História Devida da Antena 1... mas já falarei disso, entretanto estive a ouvir o programa onde leram a minha historia do menino valente e lembrei-me que deixei a meio a saga do meu casamento, que tinha começado naquele post que falava de pedidos de casamento.

 

Naquela altura a igreja cá do sitio era num pavilhão pré-fabricado, que para além de igreja servia de sala de catequese e de salão paroquial, na parede havia desenhos feitos pelas crianças. É claro que quando lá fomos dizer que nos queríamos casar, e que nos queríamos casar ali, receberam-nos de braços abertos, em todos os anos de vida da igreja tinha sido  celebrado um casamento antes do nosso.  As pessoas querem-se casar no que eles acham que é uma igreja a sério, não num salão pré-fabricado a servir de casa do senhor. Não houve problemas de datas nem exigências de nenhum tipo, foi entregar os documentos obrigatórios e escolher a data, 16 de Dezembro.

 

Nunca existiu um noivo mais descontraído que eu, levantei-me, fui buscar o bolo e levar ao restaurante,  passei o resto da manhã por ali. O dia era de chuva. A igreja era ao virar da esquina, à hora marcada lá estávamos, eu e os poucos convidados: pais, irmãos,  padrinhos e um ou dois amigos, que nem eu nem a P. gostamos de confusões.

 

Passado meia hora eu continuava descontraído e na conversa, o padre é que já deitava fumo com o atraso da noiva, lá fora chovia, muito. Ela  terminou por chegar com quase uma hora de atraso, mas chegou. Lá começou a cerimonia, a meio a chuva era tanta no telhado de lusolite, que mal se ouvia o que o padre dizia, casamento molhado casamento abençoado, não é o que costumam dizer?... o nosso foi bem molhado.

 

Depois lá fomos para o restaurante, lá chegados, mais uma originalidade, éramos poucos, duas mesas corridas, uma para os pais... outra para os noivos, os padrinhos e os irmãos.

 

A meio da tarde lá parou de chover e até deu para o meu irmão nos tirar umas fotografias.

 

Tínhamos a viagem de lua de mel marcada para o dia seguinte a meio da manhã, decidimos ir passar a noite de núpcias na Ericeira, naquele hotel que está mesmo junto ao mar. Estava uma noite de nevoeiro.. bem romântica, chegamos cedo, jantamos e fomos para o Hotel.

 

É difícil explicar o que senti quando nos mostraram o quarto, era algo de outros tempos... não, não era no bom sentido, parece que tudo aquilo tinha sido retirado directamente dos anos 40, o quarto estava limpo, mas o resto do hotel era algo indescritível, acreditem ou não, conseguíamos ver as nossas pegadas no pó da alcatifa do corredor... estou a falar a sério.

 

Passados 5 minutos já nós nos interrogávamos porque é que não tínhamos ficado em casa, bem mais quente e aconchegante que aquele quarto sórdido. Mas já lá estávamos, restava aguentar.

 

Lá nos deitamos, afinal era a nossa primeira noite de casados, por volta das 11 da noite o insólito aconteceu, pareceu-nos que alguém batia à porta

 

- Jorge, estão a bater à porta.

-Não estão nada.

...

 

Passados uns momentos voltaram a bater.... levantei-me, vesti qualquer coisa e fui abrir a porta, era um dos empregados (???) do hotel.

 

-Desculpe, vim entregar os cabides!

 

Jorge Soares

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publicado às 22:16


Ó pra mim!

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