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Dúvidas

 

Afinal, e ao contrário das nossas piores previsões e até das dos funcionários do registo central, o processo de nacionalização e registo da D. demorou pouco mais de um mês. Cumpridas e aprovadas as burocracias fez-se um cartão de cidadão. Para meu espanto, com o número do cartão do cidadão veio um novo número de contribuinte e um novo número da segurança social. O número da segurança social não é grande problema, mas o novo número de contribuinte deixou-me pensativo.

 

Nas declarações do IRS dos anos anteriores ela consta como dependente com o número antigo, já temos uma série de facturas do colégio e outras coisas com o número antigo do contribuinte e daqui para a frente irão de certeza aparecer outras com o número de contribuinte novo. Já me estou a ver com uma dor de cabeça enorme quando for para preencher o iRS de 2014, tenho três filhos e 4 números de contribuinte.... 

 

Decidimos que o melhor era desde já colocar a questão aos senhores das finanças, a minha meia laranja enviou o seguinte mail para a DSCAC (Informações e Apoio ao Contribuinte)

 

"Eu e o meu marido adoptamos uma criança. Nos últimos 3 anos, fomos tutores dela e esta tinha um NIF, fazendo a criança parte do nosso agregado familiar e da nossa declaração de IRS. Na conclusão do processo de adopção e com emissão de um cartão de cidadão, foi emitido um novo nif. A criança é a mesma, mas a seu nome e o seu nif são distintos. Tal faz com que durante o ano de 2014 eu tenha parte das facturas passadas num nif e outras noutro. Como devo proceder?"

 

Apesar do mail ter ido das finanças para os registos centrais, e de a resposta ter seguido o caminho inverso, eles foram rápidos a responder... e responderam o seguinte:

 

Exmo(a) Senhor(a)
 Agradecemos o seu contacto e em resposta ao solicitado informa-se o seguinte:
Não tereá problema

 

 

Assim, sem mais nada....

 

Não tereá(SIC) problema?... essa é a resposta a "Como devo proceder?"

 

Poupadinhos estes senhores, pelos menos nas palavras poupam que se farta.... pena que não poupem assim nas despesas do estado.... e que não esclareçam nada.

 

Não faço ideia do que querem eles dizer com não tereá problemas, à primeira vista o que me parece é que de repente vou passar de três para quatro filhos.... e com isso vou aumentar em um quarto as deduções ao IRS... é que não me parece que me aceitem as facturas com um nome e um número de contribuinte diferente..... Se depois alguém me perguntar, eu respondo-lhes que não era suposto eu ter problemas....

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:18

Conto - Autodeclaração

por Jorge Soares, em 08.03.14

Pardos

 

Imagem de aqui 

 

 

Mal ou bem, já nos acostumamos. Cada vez que se tenta entrar numa rede social na internet é necessário prestar contas, minimamente, sobre quem se é. É o nome, o sobrenome, o jeito como deseja ser chamado, a data de nascimento, o trabalho ou a ocupação, interesses, preferências, restrições, e e-mails: o principal, o alternativo, o de segurança, etc. Depois de completar campos marcados com asteriscos e ficar em dúvida se gasta tempo ou não com os opcionais, a pessoa precisa ainda digitar como vê uma sequência de letras, números e outros símbolos misturados dentro de um retângulo editável. Para provar que não é um robô. Está assim de gente recorrendo a terapias para curar a crise existencial que momentos decisivos como esse disparam. Se na rotina virtual é dessa maneira, imagina na vida, ordinária, nessa, de todo dia?

 

Valéria vivia passando recibo a respeito de si, mas nem percebia de tão envolvida que sempre esteve com o futuro. Tudo nela parecia acusar, revelar, apresentar, dizer. Em parte. Em uma parte visível e fácil de lidar. Queria ser médica e andar pelo mundo tratando de doenças em regiões de onde normalmente tinha notícia somente pela televisão. Era cabeça, tronco, membros, pele, órgãos, células, sangue, oxigênio, bisturi, medicamentos, livros e mais livros sobre saúde e sobre como funcionam os corpos humanos, um interesse sem fim e o mesmo assunto compulsivamente, feito vinil arranhado, repetindo e repetindo e repetindo o mesmo trecho. Além da que tinha na escola, sabia o rumo das bibliotecas da cidade e da universidade e fazia desses lugares pontos estratégicos de concentração. Falta pouco para os exames de admissão e preciso estar pronta, dizia para dentro pelo menos uma dúzia de vezes, diariamente, como uma reza, um mantra particular, enquanto cumpria à risca seu plano de estudos. 

 

Prestaria provas em oito instituições de ensino superior, todas com seus calhamaços de exigências e formulários, curiosidades estapafúrdias - ô palavrinha que gostava de pronunciar: es-ta-pa-fúr-dia e suas variações – e prazos de inscrições abertos. Cheia de esperanças, juntou documentos e começou a preencher os requisitos da primeira. Com os novos rearranjos do governo para o ingresso nas universidades, as combinações poderiam ou não dar certo para Valéria. Andava sobre a linha que separa ou amarra esforço e sorte quando percebeu que, na verdade, não entendia o jogo. Havia estudado mais do que bastante, mas nem chegara perto do todo, do infinito.

 

Autodeclarar-se isto ou aquilo não era problema, o caso é que realmente não sabia. As certezas resvalando pelas teclas do computador. Olhou para as mãos abertas, correu os olhos pelos braços e. Não era preta, nem branca, nem amarela, que raio significava o termo “pardo”? Só lembrava do rolo de papel que na escola usavam para fazer cartazes. E sexo? Nunca tinha feito. Nasceu com vagina, mas não tinha tempo para desejar ninguém, podia muito bem gostar de mulheres e/ou de homens, tinha um apreço tão grande por gente, em especial por crianças e velhos. E que diferença fazia contar do salário da mãe e do pai, um morto outro sumido, se era ela e não eles quem auscultaria peitos e diagnosticaria dores dali para frente? Seria indígena? Compartilhava de cabelos lisos e negros e selvagens e de uma vontade inexplicável de verde com povos distantes. Por que não? Na dúvida, Valéria rasurou os espaços em branco e escreveu “sou um robô” em letras bem maiúsculas no espaço “observações”. Confusa, vestiu o cansaço, suspirou intenção e dúvida, e guardou a médica no bolso.

 

Andreia Pires

Retirado de Samizdat

publicado às 21:37


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