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Conto - A moça que errou na porta

por Jorge Soares, em 02.05.15

Mudanças são detestáveis. Em menos de 4 anos, por três ocasiões, Alexandrino praguejou o destino e a má vontade geral dos senhorios, atravancado entre caixas e mais caixas por todos os cantos do quarto e sala recém empossado. Xingou também os indolentes da empresa de mudanças, sujeitos infernais, despejam móveis, tralhas, bugigangas, livros, trecos e vinis, e o cliente que se foda para arrumar tudo.

Alexandrino passou a esmiuçar seus pertences inúteis, produtos de neuróticos apegos sem mais nem por quê, coçando o cocuruto, aquele gesto clichê de quem não sabe por onde começar qualquer coisa. Precisava encontrar seu companheiro de solidão na multidão de quinquilharias, o que o fez com alguma sofreguidão, já que não se lembrava onde teria despachado o amigo de observação e delírios.


Lembrava apenas que tinha usado meias e cuecas para proteger a peça de solavancos e mãos pouco cuidadosas, mas horas depois, teve a surpresa de achá-lo no meio de utensílios de cozinha, dentro de uma peneira, com duas colheres de pau amarradas em xis. Não pergunte a razão de estranha proteção. O importante é que já poderia dar vazão à sua ansiedade. Enfim, o binóculo.

Apesar de enfurnado no meio de uma reserva de Mata Atlântica, o novo apartamento de Alexandrino oferecia algumas tentações à curiosidade obsessiva.

O jardim nos fundos de um sanatório à esquerda da varanda foi logo batizado de “Recanto dos Pulmões”, onde novos vizinhos despertavam com uma orquestra de tosses e pigarros, pela qual executavam a sinfonia também batizada de “O alvorecer dos tísicos”.

Em frente à varanda, árvores de copas frondosas, quando agitadas pelo vento, descortinavam o azul de uma piscina aparentemente em forma de feijãozinho. Dependendo da fúria da natureza, a piscina aparecia com menos ou mais pudores. Disse o corretor que uma madame costumava tomar sol de peitos de fora em dia de calor forte, ousando tirar a parte debaixo quando se sentia observada por olhos babões. Prato cheio para Alexandrino.

Ligeiramente à direita, estava uma das curvas da ladeira de paralelepípedo que ligava o edifício à parte mais urbana do bairro, com um ponto de ônibus, um jornaleiro e um quitandeiro ambulante, todos cobertos pela luz tênue de um poste solitário ao chegar do anoitecer. Um pouco mais à direita ainda, lado oposto ao sanatório, um edifício de quatro andares e janelões deixaram Alexandrino saltitando guloso, passando a língua pelos lábios. Alguns nus ligeiros, toalhas descortinadas, muitas indiscrições.

Mas nada tão atraente quanto à varanda debaixo, à direita ao seu apartamento. Dava medo de olhar. E assim, Alexandrino nem percebeu que bem nas barbas do seu voyeurismo, na primeira tarde-noite do primeiro sábado, uma festa estava se organizando. Ouvia sem atenção o tilintar dos copos, pratos e talheres, o burburinho apressado de palavras indecifráveis, mas certamente cheias de frisson e gargalhadas - e a vitrola que já arrastava uma Bossa Nova, algo diferente das canções que se acostumou ouvir. Alexandrino remexia caixas e mais caixas, empilhava livros,
guardava roupas, já estava exausto. Mal percebeu a campainha.

- Oi, desculpe, acho que errei de porta.
- Acho que sim. E infelizmente. A festa é no andar de baixo.
- Desculpe mais uma vez. Não quis atrapalhar o senhor.
- Não se preocupe.  E não repare a bagunça. Acabei de me mudar. E não me chama de senhor.
- Então... 
- Então??
- Até ... boa noite
- Pra você também. E erre sempre...

Alexandrino fechou a porta e os olhos.  Reviu uma mulher de vinte e tantos anos, moreninha do sol carioca, vestido tubinho lilás pastel, joelhos à mostra, cabelos curtos roçando os maxilares e um sorriso devastador. Trazia na mão direita um presente e na esquerda algo como uma garrafa embrulhada em papel celofane. Falava olhos nos olhos. Tinha a firmeza da sinceridade e a fragilidade de quem acabou de cometer uma gafe.

Alexandrino não estava acostumado com isso. Nunca o destino tinha entregue em seu domicilio uma inspiração tão violenta. Chegou à taquicardia.

Apesar de seus quase 38 anos, tinha um medo de mulher que se pelava. Mulher, não: amor. Sempre dispôs de belas amantes à sua volta e na sua vida, mas nada de amadoras, fabricantes contumazes de desgostos, segundo o que dizia a partir de alguns traumas inesquecíveis. Preferia as profissionais, a quem reservava uma boa parte do seu orçamento mensal e nenhum pedaço do seu coração. Volta e meia acordava com uma contratada, e diante do corpo ao seu lado, pedia que se vestisse e tomasse o rumo da vida. Sem constrangimentos de parte a parte. A hora de ir embora, sempre calada, era expressa através de um gentil canudinho de notas colocado entre um seio e outro, preso ao sutiã. Às vezes, instalava o mimo pela da frente da calcinha, numa alusão à qualidade do serviço.

E assim partia cada um para o seu canto. As moças cambaleavam seus saltos porta afora e Alexandrino virava-se para um último cochilo, justo e saciado. Desse jeito Alexandrino seguia a vida, protegendo-se de tremores como o que acabara de sentir com a moça equivocada, que mesmo errando a porta, acertara em cheio seus medos mais tenebrosos, sentimentos nada paralisantes, muito pelo contrário: empurrado por uma força incomum rastejou até a varanda, onde ficou como um pracinha na trincheira, binóculo na mão, olhos fixos nos movimentos que vinham do apartamento debaixo. Era um olhar de viés, numa posição de cima para baixo, onde só se alcançava, na maior parte, chão e assoalho, mas o bastante para descobrir a dona das pernas bem torneadas que escapavam do tubinho lilás.

Era ela. Que gingava no ritmo de algo parecido com “Era uma vez um Lobo Mau...”. 

Que encontrara o caminho da festa e destilava seu charme venenoso deixando escapar ao binóculo potente coxas morenas de pelinhos dourados.

Que por inocência ou maldade exibia seu balanço cada vez mais próximo do ponto onde a varanda pertencia aos abelhudos. E depois do Lobo Mau, vieram Bolinha de Sabão, 

Diz que Fui por Aí, toda sorte de sucessos emergentes, até que Alexandrino sucumbiu. Perdeu as forças na lajota fria, deixando o tempo para trás.

Voltou aos sentidos no primeiro raio de sol, e percebeu que o sonho era persistente: a moça permanecia no mesmo lugar, no seu balanço estonteante, agora, embalado de um Rock and Roll pélvico, coxas mais à mostra do que nunca e, a mais cruel das tentações: descalça. Completamente descalça, expondo a nudez mal intencionada de pezinhos esculpidos pelos deuses em dia de diabo.

O que se via naquele momento emanava cheiro de festa e desejo. Cerveja fermentada, cigarro, uísque, rum, Coca-Cola, vitrola, palmas, risos, gritinhos. Em pouco tempo, o vozerio já não era tão intenso, tudo foi se dissipando. Mas a moça ainda resolveu cometer o último ato de perversidade: como certa de que havia testemunha do seu gingado, chegou o mais que pode no parapeito da varanda. Olhou para cima à esquerda e fulminou com um sorriso afiado um Alexandrino encabulado, indisfarçável, pego em flagrante, atrás de seu binóculo. E ainda teve a impiedade de levantar um copo e lhe mandar entre os lábios um “Já acordou ou nem dormiu? ” 

É possível que Alexandrino tenha respondido. Mas ele não se lembraria.

Estava por demais perturbado para se lembrar de qualquer outra coisa naquela noite, naquela madrugada, naquele dia que raiava.

Já passava de duas da tarde. Sobre o colchão malvestido de lençóis, ninho improvisado direto no taco do quarto desajeitado, Alexandrino acordou lentamente ao lado de uma moreninha nua que ressonava sem pudores nas profundezas a que foi atirada por tantos êxtases e prazeres diversos e recorrentes.

Alexandrino reparou seu rosto escondido entre os cabelos pretos e um travesseiro sem fronha. Conferiu orgulhoso o dourado dos pelinhos das coxas por onde se lambuzara minutos atrás. Fitou sua estatura na medida da sua fantasia, seus pés maldosos semi envoltos num edredom amassado, sua pélvis posta em sossego, tal como seu triângulo bem aparado repousando feliz, depois de tanta atenção e carinhos a ele dedicados horas a fio.

Embeveceu-se, enterneceu-se, estranhou-se. E olhou em volta: o tubinho lilás pastel, a calcinha, o sutiã, as sandálias de salto alto, cada pedaço atirado a léguas um do outro. As caixas, os livros, os vinis, os trecos, tudo que se via pela porta entreaberta do quarto bagunçado ao caos da sala, tudo fora do lugar.

Voltou os olhos a ela. Como era mesmo seu nome? Sônia, acho que ela disse em algum momento, um momento qualquer sem ponteiro e sem relógio, que se eternizava a cada instante silencioso e contemplativo. Sônia. Que sorria como se sonhasse, que sonhava como se sorrisse. Será que ela gostaria de um café na cama? Onde está o pó de café? Tem manteiga? Pão de forma? Geléia? Queijo fresco? Uma flor na bandeja? Em que caixa de papelão ficou a torradeira?

Uma semana depois o apartamento estava arrumado.

Com capricho, toques de vida e traços de civilização amorosa.

E lá nos cafundós da entrada de serviço, dois serventes do prédio, que ainda recolhiam os restos da mudança, quebravam a cabeça para consertar um binóculo partido.

 

José Guilherme Vereza

Retirado de Samizdat

 

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publicado às 22:31

Conto - Por um instante

por Jorge Soares, em 29.06.13

Por um instante

Imagem de aqui


Marlene entrou pela porta dos fundos do apartamento carregada de sacolas de supermercado. Ligada no piloto automático, perguntou a Nilcimar, sem olhar para a empregada.


- Alguém ligou, Nil?

- Ligou, sim senhora. Adriane da Sex Shop.


Por um instante, Marlene não entendeu. Olhou fixo para Nilcimar.


- É isso mesmo, Dona Marlene. Adriane da Sex Shop ligou para o Dr. Ricardo.


Por um instante, Marlene desconversou.


- Me ajuda arrumar as compras, Nil. Estou muito cansada. Essa lombar está me matando.


Marlene entrou no quarto e se jogou na cama. Sandálias foram arremessadas à distância. Pernas sobre o travesseiro latejavam. Por um instante, quis matar Ricardo. Como pode?


Ele estaria aprontando com uma vendedora de Sex Shop. Patife. É por isso que não procurava mais a mulher. É por isso que andava caladão, pelos cantos. Casamento ramerrame, marido que vira irmão. Tudo muito companheiro, tudo muito previsível, tudo muito sem graça.


Por um instante, Marlene teve um raio de imaginação. Amanhã seria seu aniversário de casamento. Claro. Ricardo estaria inventando uma surpresa. Por um instante, Marlene se viu dentro de uma lingerie de enfermeira. Calcinha cavada, triângulo minimalista na frente, fio imperceptível atrás, seios exibidos por uma transparência branca, uma cinta liga sobre os joelhos com uma rosa vermelha costurada em cetim, um termômetro preso entre os dentes de uma boca semiaberta pelos lábios carnudos e carmins.


Por um instante, Marlene vislumbrou Ricardo vestido de bombeiro. Quase nu. Mangueira pulsante na mão, machadinha entre os dentes. Cueca viril, de volumoso conteúdo. Cáqui e vermelha. No ponto mais proeminente da sunga libidinosa, um brasão de tochas cruzadas alimentando uma chama única, ereta em direção aos céus.


Por um instante, Marlene sentiu a chama percorrendo as pernas desejosas até o encontro das coxas, a esta altura, já com a ponta da calcinha à mostra, saia levantada, pensamento às alturas.


Por um instante, lembrou das amigas dizendo maravilhas do admirável mundo das sex shops, com seus rabbits autossuficientes, brinquedinhos amorosos, chicotes, gargantilhas tacheadas e algemas de falsas peles de onça, morangos de mentirinha para serem chupados a dois, colares de pompoarismo, anéis para potências eternas, géis de menta, fluidos lubrificantes de hortelã.

 

Por um instante, amou Ricardo como há muito não amava. Sentiu um homem inteiro e amoroso, criativo e surpreendente, meigo e feroz. E ainda por cima, romântico como nunca foi, capaz de celebrar em grande estilo a esquecida data do aniversário de casamento.


Por um instante, Marlene quase chegou lá.


- Dona Marlene!


Interrompida pela falta de traquejo de Nil, deu um pulo da cama, recompôs-se de imediato e viu-se de pé, ofegante, com as mãos úmidas enfregando dedos viscosos na barra da saia, que indisfarçava a calcinha enrolada nas coxas bambas. Tudo ainda latejava gostoso no momento da aparição súbita e indiscreta da empregada na porta entreaberta.


- Dona Marlene, é a moça da Sex Shop no telefone. Dessa vez quer falar com a senhora.

 

Por um instante, Marlene pensou em não atender. Fosse o que fosse, não queria estragar a surpresa de Ricardo. Muito menos saber que não era nada do que imaginava e que ele estaria de fato comprando produtos bizarros para relacionamentos além lar.

 

Por um instante, Marlene tomou coragem. E atendeu ao telefone.

 

- Dona Marlene, aqui é da Flex Shop.

- Flex Shop?

- É sim. Flex Shop Eletrodomésticos. Seu marido, Dr. Ricardo, comprou uma máquina de lavar roupa e mandou perguntar à senhora a que horas nosso técnico pode fazer a instalação.

 

Por um instante, Marlene quis bater em Nil.

E no instante seguinte, Marlene voltou a ser Marlene.

 

José Guilherme Vereza

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:03

Conto - O Acaso é passageiro

por Jorge Soares, em 13.04.13



Sou um esbaforido crônico. Amarrotado, mal ajambrado, três envelopes pardos embolados entre jornais dobrados debaixo do braço, corro pela rua. Nos dedos, um saco politicamente incorreto de padaria com suco de mamão com laranja, sem açúcar, por favor, tomara que a garçonete cara de entojo tenha fechado o copo direito. Na mesma mão, uma sacola de papelão.


Tênis, meião, short, camiseta amarfanhada. Fazendo do mindinho um gancho, enrosco um laço delicado de um pacotinho mimoso estampado de rosas sobre um fundo lilás. Acordei tarde, não posso perder a hora, o minuto, o instante.  Nesta condição infame e atabalhoada, mergulho num taxi que, talvez por piedade, para ao meu aflito e troncho sinal: a mão que sobra, segurando dois livros que leio simultaneamente, acena como um náufrago ao escaler.


E me jogo ao banco de trás do carro, agradecendo à inventiva humana pelo ar condicionado, relegando a segundo plano a penicilina, o astrolábio, o caminho marítimo para as Índias, o inconsciente, o quanta, os óculos, a camisinha, a vacina Sabin - agora peguei pesado - , o vinho, a combinação mágica e inebriante das sete notas musicais, a fita crepe, a roda, o cortador de unha, a anestesia, sim, nada criado pelo homem pode ser mais importante que a brisa gélida que me acolhe agora.

 

É o analgésico dos males do bafo de Lúcifer, vulgarmente chamado pelos otimistas que ostentam corpos dourados de verão carioca. E suspiro.


Digo para onde quero ir e me deparo com uma voz suave e delicada. Mais pausa para respiração. Trata-se de uma motorista, mulher com todas as letras e charmes, uma chauffeuse, como dizia minha avó, empinando as narinas, embicando os lábios prenunciando o botox, espargindo perdigotos. Minha adrenalina se curva à circunstância.


Ajeito as tralhas cuidadosamente no banco e me estico ao lado oposto para contemplar Sonia, como diz o crachá colado ao para brisa. Tudo se acalma. Gosto de mulheres me conduzindo. E que mulher bonita. E que sorriso bonito. E que gestos bonitos ao passar a marcha e comandar o volante.


Tentamos um diálogo minimalista. O trânsito. O calor. A cidade. A selvageria dos ônibus. O abuso dos motoqueiros. A fragilidade ousada dos ciclistas. A indolência dos guardas municipais. Imagina na Copa. Não dá para contemplar a dona totalmente de frente, mas seu sorriso de perfil e seus olhos no retrovisor me bastam. Acho que estou carente.  Acho, não: estou. O diagnóstico é óbvio. Um amálgama de melancolia, autoestima no pé, chifres na cabeça. Mas do resíduo que sou, faço o adubo da minha coragem. Tão pensando o quê? Vou jogar tudo pro alto, vou mudar o destino da vida e deste taxi. Por favor, Sonia, vamos pela praia e dê uma paradinha para uma água de coco. Quero conhecer essa mulher em pé, andando a esmo pelo calçadão de Ipanema, as pernas que vislumbro intuem um caminhar gostoso, num doce balanço, o balanço do mar, que alguém á decantou diante daquele mesmo céu, dessa gente feliz. Sou piegas, sou clichê, e daí? Ela merece.


Ela não é nenhuma garotote, nem carcomida pela vida. Travessa, esbanja veneno. Madura, focada, conversa de olho no carro da frente sorrindo para mim, eu sei que é para mim. Suas unhas são bem feitas, suas mãos decididas. Não usa aliança, não tem retratinho de criança no painel. Mas, o que importa? Neste exato momento na rua que não anda, ando eu com meus pensamentos incandescentes. E puxo assunto. Fecham os cruzamentos, gente mal educada e sem respeito. Tudo está parado. Só a conversa acelera. Cidadania, trabalho, passageiros, saúde, solteirice, homens canalhas, mulheres desfrutáveis, vida a dois, traição, Martinha me largou, sabia? Edvaldo aprontou comigo também, aquele patife! Sexo sem compromisso, não precisa mandar flores, ah, eu gosto de mandar flores, dia seguinte é tudo. Como pode? Num engarrafamento de hora e vinte e cinco com uma chauffese encantadora pode tudo. Um sonho, um desejo, uma viagem de estourar o taxímetro.


Pena que chegamos.


Aqui está, Sonia, pode ficar com o troco, digo eu. Divertido, gentil, muito gente boa, diz ela.


Foi um prazer, abro um sorriso, olhos nos olhos. Aqui está o cartão da cooperativa, me entrega, devolvendo a flechada com o olhar. Quando precisar, é só ligar. E se não precisar? Arrisco timidamente. Ah... liga assim mesmo, responde dengosa. Bingo. Não saio do carro. Espreguiço em direção à calçada. Ainda dá tempo para um cretino e derradeiro provérbio que invento na hora, atribuído a um sábio qualquer do Nepal: que os deuses do acaso lhe aprontem surpresas felizes.


Ela sorri, piscando os olhos lentamente. Acertei fundo, penso eu. Ela não dá partida no taxi.


Acertei fundo, tenho certeza. Ela acompanha meu caminhar atolado de tralhas até o entra e sai do edifício majestoso de vidro fumée e entrada de aço escovado. Não entro. Vigio a sua saída, demorada, involuntária. O trânsito buzina insensível, impaciente, invejoso. Trocamos palavras mudas de rabo de olho. E segue a vida.


Subo as escadas como um Fred Astaire, canto como a Noviça Rebelde. Em três andares repasso a minha existência. Lépido, zombo das desditas.


Tantas e tantas nesses 46 anos de carne, osso e algum espírito. Morro de rir da desgraça mais fresca: Martinha me trocando pelo psicanalista do gato, de nome Escaldado, bicho esquisito temente à própria sombra, sempre apavorado com Dr. Raphael De Pomposo Sobre Nome De Encher a Boca Neto, acho que com razão e perspicácia, já que o doutor em behaviorismo de felinos e outros pets acabou por roubar minha mulher. Diabo de gato visionário. Sempre me olhou como se eu fosse um idiota, o adjetivo que mais ouvi de Martinha, entre os tantos que ela me desfiou com sua voz anasalada salpicados de palavras da língua inglesa, para justificar com seu estilo sua saída de banda: seu tijucano mal ajambrado, seu troncho, seu gauche, seu asshole, seu good for nothing, seu metido a intelectual de boteco, seu chicken, seu traste, seu fucker looser, seu isso, seu aquilo. Ouvi tudo calado, chorei baixinho e agora acho a maior graça.


Ah, Martinha, você é uma dondoca vagabunda. Vagabunda, dondoca, besta e burra. Muito da burra.


Tem gente com alma de gente, jeito de gente, sorriso de gente, que acha que eu sou gente. Sou gentil, divertido e gente boa, não foi isso que a Sonia disse? Ah, Martinha, a vida é um moinho -  de novo o clichê, a ausência de originalidade, a pieguice rasteira. Dane-se. Agora é cada um na sua. Você com seu Freud de bichano cuidando da sua patricice e eu com minha taxista tesuda, charmosa, simples, guerreira, me levando aos píncaros dos paraísos. E com essas palavras no coração e cara de freira possuída, chego secretamente feliz ao meu destino.


A sala está cheia. A recepcionista vem ao meu encontro, apontando para o relógio. Em cima da hora, diz ela. Peguei um belo trânsito, digo eu. E que trânsito, que trânsito, que trânsito, repito, repito, repito sorridente, sentando na cadeira em frente à escrivaninha. Começa o confere. Trouxe roupa apropriada para o teste ergométrico? Claro. Os resultados das radiografias anteriores? Tudo aqui. Jejum de 12 horas? Sim, sim. Ela baixa o tom de voz: ejaculação nas últimas 48 horas? Nem por conta própria, minha filha. Ela ruboriza, se apruma e vai: medicamentos frequentes? Poucos: controle de pressão, colesterol, gastrite, vitaminas C e E. Coleta para o exame parasitário? Como? Arregalo os óculos. Ela, discreta, cochicha professoral ao meu ouvido: as-fe-zes-no-po-ti-nho. Pronto. Todas as tralhas desabam no chão da ante sala do laboratório. Sinto que as pessoas param de ler Caras, Capricho, futucar celular, tablets, essas coisas.  Respiro fundo, tranco os olhos e vejo o pacotinho mimoso estampado de rosas sobre lilás, tão disfarçadamente embrulhado, solitário e delicado, repousando prosaico no banco traseiro do taxi de Sonia.


Virei estátua. Martinha é sábia. Escaldado, o gato visionário. Só me restam um silêncio infinito e um olhar profundo para o nada.  Minha mão sai do controle. Mato mil moscas na minha testa, pulo súbito sobre a escrivaninha. Quero fazer harakiri com uma caneta Bic.


José Guilherme Vereza


Retirado de Samizdat

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publicado às 21:16

Conto - Na Fila

por Jorge Soares, em 26.01.13

Na fila

Imagem de aqui


Encontraram-se no aeroporto.

- Você por aqui?
- Coincidência boa.
- Semana passada, fila do consulado americano, certo?
- Era eu mesma, atrás de você. Muito prazer: Rosana.
- Muito prazer: Leo. Conseguiu o visto?
- Consegui. Na verdade, não estava ali por causa de visto.
- Como assim? Você é como eu? Gosta de filas?
- Sou antropóloga. Estudo o comportamento das pessoas em filas. A passividade, a indiferença, a ansiedade, o respeito, o desrespeito, fila tem de tudo.


- Também sou um observador do ser humano. Escrevo livros de bolso ordinários. Olho para as pessoas e fico imaginando um monte de histórias.
- Sabia que até as Olimpíadas de Pequim não existia fila na China?
- Li sobre isso. Imagina. Uma muvuca de chineses querendo entrar no coletivo de uma vez só.
- E você? Vai viajar para onde? Leonardo, não?
- Infelizmente o Leo é de Leovaldo, mas deixa pra lá. Vou viajar para lugar nenhum. Vou até o check-in e volto.
- Eu também tenho essa mania. Achei que era a única doida no mundo. Encontrei minha alma gêmea.
- Olha aquele executivo apressadinho. Vai comer o celular.
- E aquela ali, com cara de artista plástica deprimida. Que tal?
- Aquele tem cara de mágico de festa de criança.
- Onde?
- Atrás do baixinho, tipo corretor de seguros e bandeirinha nas horas vagas. Está de óculos escuros porque levou um soco do atacante. Impedimento mal marcado.
- Ih …aquela acabou de botar botox.
- É, Rosana, a boquinha arreganhada não nega.
- Ali. A mulher riponga com criança no colo querendo furar fila. É mole?
- Não vai colar. O menino deve ter uns dez anos. A Janis Joplin esperta vai voltar pro fim da fila.
- Ôpa! Chegou a nossa vez. Meia volta!
- Sai você na frente, Rosana, por favor.
- Obrigada pela gentileza. E agora, vai para onde?
- Banco e você?
- Previdência.
- Essa é das boas. Ótima fila.
- São pessoas idosas, curvadas e humildes, carcomidas pela vida, sem esperança, sem futuro, só passado. Me sinto bem quando estou perto delas.
- O que você faz, distribui sanduíches?
- Converso. Aliás, ouço mais do que falo. O que essas pessoas querem é atenção, falar com alguém, reclamar, resmungar, contar suas vidas.
- Boa menina. Invejo seu espírito generoso. Mudando rumo da prosa, topa um cinema à noite? Tem um novo do Woody Allen.
- O filme é bom, já vi. Mas a fila é ótima.
- Combinado.

Rosana chega esbaforida.

- Desculpe a demora, Leo. Passei em uma noite de autógrafos. Fila com vinho branco vagabundo.
- Relaxa. A lotação está esgotada. Só na última sessão.
- Maravilha. Temos fila de sobra.
- E depois, boa menina?
- Fila de restaurante!
- Topo! Tem um japa que inaugurou ali na praça. Restaurante da moda. Vive cheio.
- É esse.

Leo consegue falar com a recepcionista com cara de gueixa.

- Mesa para dois, por favor.
- Cinquenta minutos de espera, senhor.
- Sem problema. Pode colocar meu nome no fim da fila.

Rosana está embevecida.

- Você é o máximo, Leo.
- Temos todo tempo do mundo.
- Coitado daquele sujeito sozinho. Sabe, tenho uma dó danada de quem numa sexta-feira sai para jantar sem ninguém.
- Que nada, Rosana, ele vai encher a carranca de saquê e mexer com a garçonete nissei. O sushiman, que tem caso com a garçonete, vai passar a faca na orelha dele. E servir com shoyo no papel laminado.
- Você é mau, Leo. Me mata de rir.
- Olha o casal ali. Ela impaciente, ele com cara de saco cheio. Não trocam uma palavra.
- Por que se arrumam e saem para jantar com essas caras amarradas? Casamento arrastado. Não tem mais assunto. Nem para brigar.
- Mas jantar fora sexta-feira é sagrado.
- Pois é, amigo. Tem louco para tudo.
- Ao contrário dos entediados, aquele casalzinho não para de se beijar.
- Também reparei, Leo. Beijos demorados, intensos. Só de olhar, fico excitada. Por que não vão direto para um motel?
- O que você disse, boa menina?
- Sei lá…beijos intensos… excitada… motel… sei lá.
- Você me deu ideia. Depois de uma barca de afrodisíacos japoneses…
- Assim, sem mais nem menos?
- Por que não? Sexta-feira os motéis estão cheios. Fila automotiva que não acaba mais. Dá tempo de sobra pra gente se conhecer.
- Você e seus argumentos. Temos muita fila para pensar no seu caso.

O carro para. Os dois recostam o banco e se viram um para o outro.
Ela tira a sandália, dobra as pernas, subindo acidentalmente a saia.

- Pronto. Quarenta minutos até pegar a chave da suíte.
- Melhor impossível, Leo.
- Acho engraçado ver os carros saindo.
- Reparou? Saiu um casal de óculos escuros. Uma hora da manhã. Pode?
- Lá vem mais um. Ó, é a mulher quem dirige.
- Vai ver que ela é quem paga o motel. Safado.
- Olha no retrovisor, Rosana. O casal de trás não para de gesticular. Estão brigando?
- Nada mais reconciliador que um motel.
- Ou não. Vão entrar e brigar até ela enfiar o garfo na jugular dele. Ela vai esconder o corpo no porta mala e sair sozinha cantando pneu.
- Olha lá. O carro da frente. O cara também está sozinho. Cadê a mulher?
- A mulher está com a cabeça abaixada, Rosana. Não dá pra ver. Repara como o braço dele sobe e desce.
- Meu Deus, como sou tolinha!
- Tolinha… tolinha… que nada! Você deve ter uma fila de caras rastejantes, um atrás do outro, esperando a vez.
- Eu, hein? Acho que você nem tem fila. Tem uma muvuca igual na China, só de fêmea sedenta se estapeando, se pisoteando, para ver quem chega primeiro.
- Fêmea sedenta é bom. Gosto disso.
- Precisa falar assim? Tão pertinho da minha boca?
- Pre-ciiiii-sa, vem cá, fê-me-a se-den-ta.

Enfim.
Foi Rosana quem retomou a palavra. Aos suspiros, ao pé do ouvido.

- Hummmm beijo gostoso, abraço gostoso, mão gostosa, gosto gostoso.
- Desconfiava disso desde a fila do consulado, boa menina.
- A fila andou.
- A minha ou a sua?
- A nossa! Olha pra frente, Leo! Não tem ninguém. O cara de trás está piscando farol.
- Inveja.
- Stress.
- Gente maluca.
- Não sabem aproveitar a vida.

E ali mesmo, na cancela do motel, encostaram o carro no recuo da calçada à meia luz, deixando passar uma fila imensa de casais convencionais
e apressados. Nem se perturbaram com os olhares curiosos.


José Guilherme Vereza


Retirado de Samizdat

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publicado às 21:35

Conto, Feitiço e utopia

por Jorge Soares, em 05.01.13

elevador

Imagem de aqui


Ela é linda. E charmosa. E cheirosa. E bem vestida. E elegante. E bem tratada.


Cara de menina rica, jeito de musa carioca. Tanta boniteza pra quê? 


Metida a besta que só ela. Há mais de ano, todo santo dia útil saio para o escritório às 8h:40 min. Desço no elevador que para invariavelmente no andar onde ela mora. Sozinha. Eu sei que ela mora sozinha. Nunca a vi com ninguém, nem aos sábados, domingos ou feriados, o porteiro diz que nesses dias ela viaja.  


Esbaforida e rebolativa, puxando mala cachorrinho, pega um taxi e some. Volta domingo depois do Fantástico. O porteiro é linguarudo.  

 

Mas deixa estar: de segunda a sexta, o encontro comigo é religioso.  Sempre às 08h40min. Faço o que me ensinaram meus pais, meus avós,  irmã mais velha, tias, padrinho, madrinha, professoras, padres, bedéis,  primos metidos, vizinhas faladeiras, chefes no trabalho, conselheiros de boas maneiras,  arautos da civilidade, consultores de RH: abro um sorriso, olhos nos olhos e digo "Bom dia!".


E ela, nada. Não pronuncia palavra alguma. Cara de entojo,  revoa os cabelos castanhos claros ainda molhados, espargindo um leve perfume de xampu de maçã. E me dá as costas arrebitada. Seus dedos bem feitos sem alianças reveladoras remexem a bolsa de grife, coloca os óculos escuros da mesma grife e fixa o olhar carrancudo na porta  pantográfica - prédio velho no Posto Seis tem dessas coisas. A eternidade é o tempo em que contemplo a deusa até chegar ao térreo, enquanto converso com o diabo. Altos desvarios. 


Começo louvando a natureza que esculpiu seu corpo, depois vou aos detalhes. 


Saia justa – a dona não repete roupa - uma blusinha chique, às vezes de manga, às vezes sem manga, camisetas cavadas com discretas rendas, às vezes um  casaquinho leve nas costas, às vezes um jeans bem cortado e colado nas  suas curvas generosas. Quando chove, capa cinza claro, echarpe e guarda chuva All Burberry, e botas poderosas. Alternam-se também leggings apertadinhos sobrepostos por blusas e batas de fino desenho, calças largas e coloridas,  saias longas estampadas, vestidões esvoaçantes -  nesses dias penso que o chão do elevador deveria ser aquele bueiro da Marylin Monroe. 


Sempre reparo seu braço. Não o que segura a bolsa de grife, que também nunca vi repetir, mas o braço que dá para enxergar uma discreta relva dourada sobre a pele bronzeada, caminho que hipnotiza e me faz galopar roupa adentro, e imiscuir meus pensamentos entre o decote maldoso e o sutiã meia-taça, porta jóia de um mamilo róseo de biquinho empinado.


Ninguém me tira da cabeça que seja assim, como também  ninguém  me tira da cabeça que ao descer os olhos vislumbro uma calcinha micra engolida  pela fresta entre seus glúteos rijos e de perfeitas dimensões, que protege no triângulo frontal uma pelúcia rente e macia, densa e bem contornada - não admito depilações radicais nem nos meus delírios.


O elevador é uma lesma. Ainda bem. Meu olhar abaixa às suas tenras panturrilhas  cor de caramelo e praia, que emanam convites velados para apalpar e morder  de olhos fechados. Num dos tornozelos mora um infinito tatuado, como um recado de que minha viagem pela moça não tem fim.


E chego aos calçados. Também nunca vi repetir.  Às vezes sapatilhas, às vezes rasteirinhas, às vezes um salto fatal, firme. Quando aparece de sandália alta, de tiras delicadas envolventes, meu baticum acelera. Hoje, por exemplo: a dona está mais uma vez como todo santo dia útil estonteante e desdenhosa. É devidamente fotografada da cabeça aos pés, por fora, de lado, de frente, por dentro, visão raio X que mira sua alma turva, seus sentimentos opacos, e só encontra o mistério que derrama impiedosa. 

 

Chegamos ao térreo. Gentil contumaz, sem jamais passar lhe à frente, me desdobro em abrir a porta e a deixo escapar para o dia lá fora. Nem um sorriso, nem um agradecimento.


Já estou acostumado. Nariz em pé, segue esbanjando antipatia entre transeuntes e figurantes da sua vida, deixando um rastro de repulsa ao mundo. Seus passos decididos sobre os saltos me enfeitiçam. Um dia, quem sabe, um dia, bebo da poção de coragem destinada aos pusilânimes,  aos insignificantes, aos ruins de chinfra, aos sonhadores que não têm nada a perder, e juro que declaro minha paixão. E os deuses haverão de me atender. 


Nua sob meu corpo franzino e desprovido, ofereço meus dotes secretos e descortino sua ternura, descerro sua meiguice, decifro sua volúpia enrustida. 


E ela me devora: nos braços do vizinho outrora invisível e agora inusitado, explode todo seu encubado desejo por mim, travestido há tempos  de uma antipatia impostora e estratégica. Não, não carece gemer desenfreada, minha querida, nem balbuciar sôfregos "Delícia! Delícia! Delícia!", "Homem gostoso da minha vida!", "Me invade que esse planeta é todo seu!".


Nada disso. Só quero que na hora agá, quando os fogos do amor pipocam, encoste seus lábios trémulos no meu ouvido e me diga finalmente e baixinho: "Bom dia".


JOSÉ GUILHERME VEREZA


Retirado de Samizdat

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publicado às 21:24


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