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Conto, Leide DaNight e o marceneiro

por Jorge Soares, em 05.02.11

Conto, Leide DaNight e o marceneiro

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Leide DaNight esperou em seu quarto pequeno e fedido que o próximo cliente viesse.


O próximo cliente estava a 3 quarteirões dali e nem sabia que seria o próximo cliente.


Ele tomava mais uma dosezinha de cachaça, no bar da esquina, antes de voltar à marcenaria onde fazia uns bicos, assim, fim de ano, pra ajudar em casa. A mãe já velha, a irmã com 3 filhos e marido desempregado e ele separado há 3 meses, pagando pensão, quando podia.


A cachaça não era sozinha, os amigos sempre estavam juntos, descalços, sem blusa, desgrenhados e sujos. O dia era sempre massacrante e pesava mais nos bolsos do que os trocados que recebiam ao fim do expediente. Seu manoel deixava, quase sempre, a conta da cachaça pro fim do mês e assim, eles iam acumulando as doses. Brincavam que assim bebiam menos. Se comprassem um litro beberiam tudo aquela tarde mesmo e nem voltariam ao trabalho. Todos os dias e aos poucos eles bebiam um tantinho "só para fazer a manutenção", brincava Ernesto Sarapira, um dos amigos.


Voltaram à marcenaria, cair da tarde e aspiraram mais uma vez o pó da madeira. Há tantos anos eles faziam isso que já sabiam o nome da madeira pelo cheiro. Era quase uma brincadeira de veteranos. Coisa que os mais novos no ramo, ainda não pegaram.


Naquele fim de dia, Leide, cansada de esperar pelo próximo cliente, vestiu-se com certo esmero, à moda que os trapos permetiam e desceu os 3 lances de escada. Queria brincar de madama e colocou a caldeira na calçada. Algumas outras vizinhas tiveram a mesma idéia e aportaram por lá desde cedo.


Àquele momento os amigos preparavam-se para deixar o serviço. Um banho rápido, a roupa reservada desde a manhã, juntar os trocados e:
- rapaz, hoje é sexta. vamos voltar pro seu manoel e continuar a manutenção.
- rapaz, vc tá certo. 
Encaminharam-se para o Seu Manoel.


Antes o cliente, ainda desconhecido de Leide, andou até o calçadão dos churrascos comprou 3 espetinhos, na esperança que esses silenciassem seu estômago e dos companheiros de pendura. Comprou-os, e antes que pudesse recebê-los foi atingido pelo disparo de um marido desvairado e sem atenção que, na tentativa de matar a esposa ou algo que o valha, atingiu o marceneiro. Ele caiu ali, aos pés de Leide DaNight.


- eita Leide, tá com sorte, hein? que hoje os homens tão caindo aos teus pés! gritou de lá do outro lado uma travesti, ex-amiga de Leide.


Um pouco desencantada e cansada Leide se levantou e, com a ajuda de alguns transeuntes conhecidos, levou o rapaz para o seu quarto pequeno, depois de averiguado que não era grave a condição do ferimento. Por sorte o marido era mesmo desatento e nem queria matar a esposa.


O marceneiro ficou desacordado por uns 40 minutos. Tempo para que Leide, no conhecimento de sua profissão, o lavasse e ao ferimento. Fez tudo com muito cuidado ao perceber a beleza desenhada do desconhecido, e caso ele acordasse tanto melhor. Ela queria mesmo era vê-lo de olhos abertos. Continuou com os cuidados até que o rapaz acordou, atônito e chamando por Ernesto Sarapira. Leide calou-se e esperou que ele recobrasse as forças e a razão. Ele abriu ligeiramente os olhos e encarou Leide.


Ela explicou o ocorrido e ele, nu, muito embora o ferimento tenha sido no braço, Sentiu-se constrangido e sem fala. Levantou-se, levou a mão à cabeça e depois ao braço machucado. Agradeceu, atravessou a porta e se foi.


Leide olhou o espelho e por sobre o seu reflexo a frase que copiara de um livreto. Lia e relia ao ver os seus homens que nem eram seus, irem-se. Leu em voz alta pela centésima vez, se é que é possível se contar as dores:
- eu sou mulher-cais com homens-navios que atracam e se vão. eu sou mulher-cais com homens-navios que atracam e se vão. repetiu pra se convencer.


No dia seguinte, sábado, dia de trabalho duro pra Leide, ela recebeu seu próximo cliente sem a cara de paisagem de sempre. Ao abrir a porta deu de cara com o marceneiro segurando flores falsas e sentimentos de verdade.


- é brega, eu sei. ele riu.
- ela disse - é nada! nunca recebi flores antes. Nem de plástico. Então, já gostei. Obrigada. Entre.


Enquanto ele escolhia um lugar pra caber, ela correu até o espelho e deu uma boa de uma cuspida nele. 
Apagou de vez aquela frase do seu reflexo.

 

Ayla Andrade

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publicado às 21:04


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