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 António Lobo Antunes,  a história do hidroavião

 

Era uma vez um homem sentado diante de casa. a olhar para o rio. Casa é maneira de falar por­que não se pode chamar casa a uma barraca de tábuas costuradas com arame e reforçadas de pla­cas de cartão, com um pedaço de zinco a servir de telhado. Mas nessa parte da cidade, ern Cabo Ruivo, ao pé dos fumos da Siderurgia, quem tinha chegado de África, como o homem, sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um baralho de cartas, era dessa forma que se go­vernava. O Boeing de Angola desembarcava em Lisboa as pessoas fugidas à guerra, e no dia seguinte lá andavam elas, truca truca, a martelar cabanas num baldio de ervas frente aos vapores do Tejo. en­tre armazéns ao abandono e um hidroavião que era um esqueleto de morcego, com a peie de lona a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas.

Barracas assim contavam-se para cima de três dúzias, umas mais perto outras mais longe da água, feitas com os desperdícios de uma obra (tijolos, pranchas, areia, ruínas de andaime) que não se com­pletara sabe Deus porquê, deixando ferramentas oxidadas, buracos de cabouco e sacos de cimento, de que as pessoas se serviam para inventar moradias. Passeava-se por ali corno num acampamento de pobres, numa aldeia de miséria: havia quem secasse camisas numa corda entre dois paus, quem soprasse o lume de uma panela de esmalte, agachado para urn borralho de cinzas, havia cães arre­dios, medrosos de pedras, a farejarem canecos, havia crianças mulatas a brincarem com bocaditos de canas, havia a cidade que parecia um grande pulmão de chaminés e janelas a respirar nas costas do homem, e havia sobretudo o rio, que para aquelas bandas, a bem dizer, nem rio era: um pân­tano cinzento, horizontal até aos morros de Alcochete, ou do que, para viajantes de Angola, se cal­culava que fosse Alcochete, a brilhar, à noite, lantejoulas de leque sevilhano.

Ao homem sentado diante de casa tanto se lhe dava que se tratasse de Alcochete, Nova Iorque ou Paris: tinha um rectângulo de cortiça nos joelhos, para a paciência de cartas, e ao levantar os olhos do baralho, com a cabeça ainda em Luanda, não era o Tejo que via: era urna ilha de palmeiras, uma concha de arcadas com aves pernaltas nas empenas, e fragatas a gasóleo largando para a pesca, num rastro de motores e batucada.

O homem morou quarenta e sete anos em África, a trabalhar de motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes, e custava-lhe habituar-se a uma terra de frio onde ninguém o co­nhecia, tirando os vizinhos da desgraça que dividiam com ele uma língua de lama e alforrecas, fur­tada aos desenfades do rio, E mesmo assim: calado como era. as poucas frases que dizia reservava--as para os azares do baralho, valete de ouros sobre a dama de paus, cinco de copas sobre seis de espadas, urn duque desesperado a acenar asas de mocho, sem terno preto onde ancorar.

De forrna que estava o homem diante de casa, às voltas com ases e manilhas, e sentado ao lado dele, num balde ao contrário, um cego de óculos de mica. Muito direito, atento com os ouvidos que é como os cegos vêem, a enrolar uma mortaíha com deditos de croché, e mal os sons rareavam, si­nal de que o homem hesitava a pensar, o cego perguntava logo, inquieto;

— Como é Lisboa, Artur?

E, ao fim de um silêncio comprido, o homem, a desfazer a paciência com a mão aberta e a olhar para Alcochete:

— Lisboa?

 

António Lobo Antunes, A História do Hidroavião


Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:04

Como agua para chocolate

Como a tantos outros blogs, não me lembro como cheguei ao Há vida em Marta, mas depois dessa primeira vez, tornou-se visita obrigatória. Estes dias e a propósito de este post e de um dos seus comentários, fiquei a pensar em como por vezes pode ser errada a imagem que temos de nós como país.

 

O comentário dizia o seguinte:

"A ideia de associar a culinária à literatura - ideia que eu penso terá começado com um livreco de Laura Esquível - é uma moda que resulta comercialmente, mas de resultados literários inevitavelmente abaixo de medíocres. No limite dos limites, sairá algo digno de Bulhão Pato. Olvidável, portanto."

 

Não me lembro quando li o Como Agua Para chocolate a primeira vez, devia ter uns 16 ou 17 anos, mas sei que depois de ver o filme  já o voltei a ler, e mal termine um dos 3 que estou a ler, vai de certeza ser o seguinte. É claro que não o acho um livreco, longe disso e deixei o meu comentário a expressar isso mesmo... e obtive a seguinte resposta:

 

".... 99,99% do que se publica são livrecos. Não é um fenómeno recente. Foi sempre assim. No séc. XIX, por exemplo, há milhares de tipos a escreverem romances. Quem sobreviveu? Eça, Camilo, Antero de Júlio Diniz, Almeida Garrett, Herculano e pouco mais.

E, no entanto, quem na época dissesse, por exemplo, que Pinheiro Chagas era um autor de livrecos seria atirado às feras. Afinal, não ganhou ele o grande prémio nacional de literatura a Eça de Queirós?

Acreditem: daqui a 100 anos, tirando um outro estudioso de bizarrias literárias do fim do séc. XX, ninguém fará ideia nenhuma de quem foi Laura Esquível e qual a sua obra. E não por uma injustiça que depois se reparará. Apenas porque a sua obra é olvidável.

Comprometamo-nos os três (eu, a Marta e o Jorge Freitas Soares) a passar por aqui daqui a 100 ou 200 anos e veremos se tenho ou não razão."

 

Os maias

Podem pensar o que quiserem, mas eu acho o Eça de Queirós um chato de primeira,  no liceu eu li Cem anos de solidão do Garcia Marquez, Dona Barbara de Romulo Gallegos e a cidade e os cachorros do Vargas LLosa, quando vim para Portugal para a universidade ouvia os meus colegas falar do sacrifício que tinha sido ler um resumo de Os Maias, fiquei curioso, arranjei o livro e li de seguida numa tarde..ok, achei razoável, depois disso li de seguida mais dois ou 3 do Eça... e terminei por me chatear, depois de ler o segundo ficou tudo previsível, eu conseguia saber o que ia acontecer nas paginas seguintes, porque os livros são todos iguais.

Eça de Queiroz é muito conhecido em Portugal, eu estudei na Venezuela, sempre fui um leitor inverterado, li dezenas de livro na adolescencia.... antes de chegar a Portugal, nunca tinha ouvido falar do Eça, aposto que se formos ao México ninguém nunca ouviu falar dele.

Daqui a 100 anos no México e na América latina continuará assim, ninguém terá ouvido falar dele, nem de outros autores portugueses.. excepção para o irreverente Saramago, não é em vão que se ganha um Nóbel da literatura, mas aposto que todos recordarão a Laura Esquivel.

Não sou nada de denegrir o que é nosso, mas é preciso ter consciência da realidade da nossa pequenês... e eu considero a maioria dos livros do Eça.. uns livrecos... mas a minha opinião não interessa para nada....e gostos, não se discutem.

 

Jorge Soares

PS:imagens da internet

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publicado às 21:57


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