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Conto, A dama de espadas

por Jorge Soares, em 26.03.11

A dama de espadas

Imagem de Sombras Azuis

 

Nunca antes havia observado a cidade por este ângulo. A torre do velho relógio parece que vai desprender-se da terra e ganhar os céus em queda livre. A lua, pendurada na ponta de um prédio, sai do meu campo de visão como se o cabo que a sustenta estivesse cedendo.

 

Não fosse esta uma posição tão desconfortável esperaria pelo nascer do sol. Visto desta forma deve ser ainda mais belo. Eu que nunca achei que estas coisas merecessem atenção, me via contemplando-as com estranha nostalgia.

 

Lá se vão minhas moedas! As chaves e os cigarros já haviam despencado antes. Observo-as em seu leve percurso até desaparecerem entre as árvores. Se eu precisar tomar um táxi, terei de encontrá-las mais tarde.

 

O ar gelado da noite começa a fazer os seus estragos; activa minha alergia e tenho dificuldades para respirar. A pulsação, mais forte a cada segundo, parece toda concentrada em minha cabeça.

 

Percebo, então, que meu sapato está frouxo e sinto que estou em apuros. Por isso que não gosto de usar meias finas, fazem o pé deslizar em contacto com o couro tornando fácil o descalçar. Quando os amarrei pela manhã, jamais imaginei uma situação como esta, senão teria dado um nó mais apertado, mas fico feliz por não ter escolhido o mocassin.

 

Os homens do Serginho-Boca-de-Grade, o Boca, estão lá em baixo garantindo o cumprimento da minha penitência. Sigo as ordens que me deram até que receba o sinal de que estou livre. O acordo não foi difícil, reconheci o meu erro e prometi afastar-me de Lola, definitivamente. Em troca, Serginho me pouparia desta vez, desde que eu permanecesse por um tempo reflectindo sobre meu erro. Exactamente o que eu fazia neste momento. Concentrei-me na minha sentença para não pensar nos sapatos.

 

“Ah, que mulher maravilhosa era aquela! Loira de pele clara e lábios grandes. Um par de seios que me fez perder muitas apostas na noite em que ela se aproximou da mesa de póquer. Se ela não fosse mulher do Serginho… Mas valeu a pena. Lola é dessas mulheres pelas quais se arrisca tudo, apenas por uma noite de amor. E eu sou do tipo que aposta a própria vida pelo calor de uma bela dama. ‘Além do mais, o Serginho já estava com outra’ foi o que me disseram.”

 

Em contraponto, lembro dos conselhos de Valmor, prevenindo-me dos riscos que eu correria, fraquejando ante os encantos de Lola: “Passarinho que anda com morcego acorda de cabeça para baixo” dizia ele em tom de profecia. Não imaginava, no entanto, que a metáfora ganharia sentido tão literal.Para meu alívio, a turma que me vigiava lá de baixo, entrou num Opala preto que foi embora soltando fumaça.

 

Bem, este era o meu indulto. Com muito cuidado, alcancei uma das hastes que um dia suportaram o letreiro do antigo hotel e onde meus tornozelos estavam presos por uma alça de couro, libertando-me da incómoda posição. Quando colocava meus pés em base firme meu sapato esquerdo escapou de vez seguindo o mesmo caminho dos meus outros pertences. Não sei precisar quanto tempo passei ali, mas já era hora de ir para casa.

 

  ¨ § © ª

 

Fiquei alguns dias sem aparecer no casino, esperando a poeira baixar. Não era do meu feitio ficar escondido feito caranguejo. Todos me respeitavam por isso. Inclusive o Boca, que já apagou gente por muito menos. Eu também tinha um certo cartel na mesa de póquer. O meu talento com as cartas já havia me livrado de muitas situações complicadas.  

          

Aqui estou eu novamente. A mesa iluminada por uma lâmpada que pende do teto e fica a pouco mais de um palmo da altura de nossas cabeças e que torna a periferia obscura. A fumaça suspensa e a música executada pelo incansável pianista definem o ambiente. Da minha esquerda para direita, além do homem que controla a banca, estão: Ernesto, um jovem aventureiro, que esbanja dinheiro com sua pouca astúcia para o jogo; um gordo barbudo, que nunca vi antes, à minha frente; e o velho Nestor, que sempre encontra espaço nas mesas por trazer consigo belas acompanhantes mas que nem sempre voltam com ele para casa, especialmente nos dias em que ele tem uma má jornada.

 

Estou pronto pra limpar mais uma turma de otários quando vejo Lola pedir um Campari com gelo no balcão. Tenho em minhas mãos um horizonte aberto. O trio de damas pode me levar à Quadra ou ao Full House. A aposta inicial é alta e provocante. Enquanto analiso as reacções de meus oponentes, observo a minha fêmea, insinuante, acabar com seu drink e retirar-se pela porta dos fundos. Um jogador experiente como eu sempre deve saber onde estão todas as saídas de um clube clandestino. Em situações de emergência este recurso pode ser muito útil. A polícia já sabe que se vier, pegará somente os novatos. Em caso de confusão dentro do estabelecimento, conhecer o caminho mais rápido para a rua, também pode salvar a sua pele.  

 

Recuo na aposta, passo a minha vez e peço licença para me retirar do jogo. Saio pelo andar de cima, sabendo exactamente onde encontrá-la. Um beijo ardente, e de táxi saímos pela avenida principal. A moça ordena ao motorista que rume em direcção à saída da cidade.

 

            –         Para onde vamos? – Perguntei eu.

            –         Para longe.

            –         Preciso pegar algumas coisas…

            –         Já estão no porta-malas.

            –         E o Boca?

            –         Está bem! – limitou-se a responder. 

 

Bem morto! Vim a saber no dia seguinte. Com o punhal que ele usava para abrir suas correspondências enterrado em seu peito, jazia sobre a cama que um dia dividira com minha mulher. “Suspeita-se de assalto, pois, segundo informou seu contador, uma grande soma em dinheiro havia sumido de sua residência” estava nos jornais.

 

Leonardo Colucci

 

Retirado de No Porta-malas do meu Galaxie


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publicado às 23:30

Conto: Cama e mesa

por Jorge Soares, em 19.03.11

 

Cama e mesa

 

 

Maria Alice tinha uma maneira muito peculiar de escolher os seus homens. Acreditava que através da observação de como eles se portavam à mesa seria possível identificar os traços mais fortes de suas personalidades.

 
Assim, depois de alguns relacionamentos desfeitos por absoluta incompatibilidade, ela decidiu que seria mais criteriosa na escolha de seu próximo parceiro, mesmo que isso significasse um longo período de solidão. Aprenderia a ficar só.

Fiel a seus propósitos, não aceitava convites para sair que não incluíssem almoço ou jantar. Assim, já havia descartado vários pretendentes. Aqueles que tinham a inspiração de convidá-la para ir a um restaurante, eram contemplados com sua companhia. Vários encontros se sucederam, mas o processo de seleção era rigoroso:

Joel, por exemplo, era muito educado e respeitoso, porém não se demonstrava seguro na hora de escolher o restaurante, nem sequer o prato que pediria no menu. Típico homem que não tem firmeza nas decisões. Foi, então, reprovado nos quesitos segurança e autoconfiança.

Sandro, ao contrário, era extremamente decidido. Servia-se rapidamente e da mesma forma devorava sua refeição. Não se importava com sobras ou qualidade, queria mesmo era acabar logo com aquilo. Típico comportamento egocêntrico. Devia ser essa a maneira que se relacionava com os outros: descartáveis. Este foi descartado por egoísmo e falta de sensibilidade.

Marcos levou-a ao melhor restaurante da cidade, pediu os pratos mais caros e exóticos, reservou a melhor mesa e pediu o vinho mais fino. Veredicto: exibicionista.

Samuel parecia perfeito. Atencioso, havia esperado que ela se servisse, prestou atenção na sua conversa, comeu pouco e não misturou o arroz com o molho ou o purê. Seria o eleito, não fosse ele o marido de Sandra, que se servia sempre antes e invariavelmente ainda pegava o último pedaço de carne da mesa. “Ele não merece a mulher que tem”, concluiu em seus apontamentos.

Jean, vegetariano, foi dispensado sem comentários na porta do restaurante.

Muitos foram os candidatos e os perfis se repetiram. Poucos homens causaram boa impressão, raros foram os que tiveram uma segunda chance, mas nenhum até aquele momento a havia surpreendido.

Até que um dia, num restaurante qualquer, em um almoço qualquer, sentado à mesa ao lado, estava Jacques. Ela ainda não podia ver o seu rosto, da posição em que estava, mas apaixonou-se pelo modo como ele cortava a carne. Seu prato era limpo e organizado, e não havia pressa alguma em seus movimentos. Nada desviava a sua atenção.

Maria Alice, não resistiu e, levantando-se de seu lugar, pediu permissão para sentar-se junto a ele e fazer-lhe companhia durante o almoço. Nesse momento foi que percebeu quão belo ele era.

Jacques, então, colocou-se de pé, e apresentou-se enquanto gentilmente oferecia a cadeira para que a jovem se acomodasse.

Durante a conversa, ele revelou-se encantador e Maria Alice já não continha sua excitação. Estava deslumbrada com aquele homem e a maestria com a qual ele partia seu filé. A precisão dos cortes e o prazer que demonstrava a cada mordida eram fascinantes.

Alguns jantares se seguiram e ela já estava convencida de que finalmente encontrara seu par. Envolvida, a moça entregou-se tão rapidamente a sua paixão que não percebeu ser apenas mais uma conquista, apenas mais uma vitima de sua insanidade. E foi assim que acabou Maria Alice: esquartejada pelo seu amante.

 

Leonardo Colucci

 

Retirado de Recanto das Letras

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publicado às 21:04


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