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Livro - Isabel Allende, o Jogo de Ripper

por Jorge Soares, em 27.10.14

o jogo de ripper.jpg

 

 

Isabel Allende é de longe minha escritora favorita, cresci a ler Gabriel Garcia Marquez, Rómulo Gallegos, Vargas Llosa.. entre outros autores do Realismo Mágico, uma corrente literária nascida na América latina que nos seus romances mistura de uma forma quase perfeita  o realismo do dia a dia com a vivências religiosas, as crenças que vieram de África  com os escravos e o modo de vida dos aborígenes.

 

Isabel Allende será talvez a última grande escritora desta corrente de escrita que podemos encontrar em cada um dos seus livros.

 

O Jogo de Ripper é um livro diferente que quando foi publicado nos estados Unidos chegou a causar alguma polémica. Começou por ser catalogado como um Thriller da literatura policial, até que a autora apareceu em público a esclarecer que não gostava especialmente do tema, que o achava pesado e não conseguia escrever assim, por isso decidiu escrever algo que seguisse os mesmos moldes mas que tivesse alguma ironia  ao colocar a investigação nas mãos de uma adolescente de 16 anos.

 

O livro que é pautado pelo ritmo dos assassinatos que vão acontecendo e que são investigados à distancia por Amanda, a jovem de 16 anos, pelo seu avô e por o grupo que esta comanda, pessoas que não se conhecem pessoalmente mas que através da internet utilizam a sua intuição e conhecimentos para ir descobrindo os detalhes que unem cada um dos crimes.

 

Paralelamente a tudo isto vamos descobrindo o mundo que rodeia Amanda, a sua vida, a da sua mãe Indiana, a de Ryan Miller um ex Seal militar americano que guarda no corpo e principalmente na alma, as marcas da sua passagem por várias missões de guerra. Pedro Alarcón, ex guerrilheiro uruguaio, a bela ex prostituata que se casa com o rico de alta sociedade só pelo seu dinheiro, o rico de alta sociedade, o amigo gay pobre e drogado, o brasileiro sedutor, pintor de quadros, também pobre… e alguns mais.

 

No meio, como em todos os livros de Isabel Allende, vamos descobrindo as histórias de amor, já sejam as que levaram à história do livro ou os que se desenvolvem com ela e nos fazem seguir o fio à meada.

 

Em suma, O Jogo de Ripper é um Thriller sem ser um Thriller, é um livro diferente, muito bem escrito como não podia deixar de ser por esta autora, com várias histórias muito bem conseguidas que vão correndo em simultâneo mas em paralelo até que no fim tudo faz sentido.

 

Um excelente livro para quem gosta de policiais e para quem gosta do género da autora.

 

Sinopse:

 

Indiana e Amanda Jackson sempre se apoiaram uma à outra. No entanto, mãe e filha não poderiam ser mais diferentes. Indiana, uma bela terapeuta holística, valoriza a bondade e a liberdade de espírito. Há muito divorciada do pai de Amanda, resiste a comprometer-se em definitivo com qualquer um dos homens que a deseja: Alan, membro de uma família da elite de São Francisco, e Ryan, um enigmático ex-navy seal marcado pelos horrores da guerra. Enquanto a mãe vê sempre o melhor nas pessoas, Amanda sente-se fascinada pelo lado obscuro da natureza humana. Brilhante e introvertida, a jovem é uma investigadora nata, viciada em livros policiais e em Ripper, um jogo de mistério online em que ela participa com outros adolescentes espalhados pelo mundo e com o avô, com quem mantém uma relação de estreita cumplicidade. Quando uma série de crimes ocorre em São Francisco, os membros de Ripper encontram terreno para saírem das investigações virtuais, descobrindo, bem antes da polícia, a existência de uma ligação entre os crimes. No momento em que Indiana desaparece, o caso torna-se pessoal, e Amanda tentará deslindar o mistério antes que seja demasiado tarde.

 

Jorge Soares

 

 

publicado às 23:39

Gabriel Garcia Marquez

 

 

Tudo começou com "O rastro do teu sangue na neve", um conto que encontrei nas páginas centrais do Diário de Caracas, eu teria 13 ou 14 anos e aquelas duas ou três páginas magistralmente escritas deixaram-me para além de uma enorme angustia pelo desenrolar da história, uma curiosidade ainda maior sobre o autor.

 

Seguiu-se La Hojarasca (a revoada) e a seguir Cem anos de solidão e depois muitos outros, não tenho a certeza mas acho que li todos os livros publicados por ele, incluindo alguns de contos de que não tinha ouvido falar e que encontrei nas prateleiras da biblioteca da Universidade central da Venezuela.

 

Morreu um enorme escritor, o expoente máximo do Realismo Mágico, um género literário que caracterizou a literatura da América latina do último quarto do século XX e que levou ao mundo uma visão muito própria do povo e da cultura dos países da América central e do Sul.

 

Garcia Marquez era um escritor extremamente descritivo que nos conseguia levar até dentro dos seus livros de uma forma em que quase conseguíamos sentir os cheiros e as cores. 

 

Vencedor do prémio Nobel em 1982, morreu hoje na cidade do México aos 87 anos, o mundo em geral e a literatura em particular ficaram hoje muito mais pobres.

 

Jorge Soares

publicado às 23:13

Livro - Comer orar e amar

por Jorge Soares, em 10.12.13

 

Quantas vezes já nos apeteceu deitar tudo para trás das costas e simplesmente partir? Aos 30 anos, Elizabeth Gilbert tinha tudo o que uma mulher ocidental formada e ambiciosa podia querer, tinha a vida que muita gente ambiciona e nunca consegue, o marido dos seus sonhos, a casa com que a maioria pode sonhar e uma carreira de sucesso.


Aos 34 deu por si a olhar à volta e a sentir que não era dali e resolveu simplesmente deixar tudo para trás, começar a sonhar de novo e partir à aventura, à procura de experiências de vida e de novos sonhos.


A primeira escala é em Itália, e esta é para mim a melhor parte do livro, em poucas páginas podemos encontrar toda a magia e romantismo com que tantas vezes imaginamos  tanto Roma como o resto da Itália. Esta é a parte do comer e tudo o que se come nesta parte do livro é simplesmente sublime, quase que conseguimos sentir o sabor e os aromas da Itália mais tradicional... tudo envolto numa enorme aura de romantismo e beleza... não fosse eu já ter estado na Itália e juro que me candidatava ....


A segunda escala é na India, é a parte do Orar, foi a parte que gostei menos do livro, para mim a descrição da oração, do yoga e da concentração são levados a um extremo que por vezes torna a escrita enfadonha... mas imagino que faça parte... é claro que de novo as descrições são sublimes. 


A terceira parte é a de amar e passa-se em Bali.. aprendeu a equilibrar o prazer sensual e a transcendência divina. Tornou-se aluna de um feiticeiro nonagenário e apaixonou-se da melhor maneira possível - inesperadamente.


Eu vi o filme antes de ler o livro e recomendo os dois, este é um livro sobre muitas coisas, sobre os sonhos e a forma como estes vão mudando ao longo da nossa vida, sobre os prazeres da vida e sobre como muitas vezes temos que fazer enormes sacrifícios em troca de pequenas coisas que pouco a pouco e no seu todo nos vão preenchendo... mas é sobretudo um livro sobre o recomeçar. Quantas vezes já abdicámos de sonhos achando que tínhamos a relação ideal e o emprego de sonho, e chegamos à conclusão que às vezes temos de recomeçar do zero?... há quem consiga e se dê bem... pelo menos nos filmes.





Jorge Soares

publicado às 22:40

Livro - Regressar a casa, de Rose Tremain

por Jorge Soares, em 31.10.13
Regressar a casa
Confesso, nunca tinha ouvido falar desta autora inglesa, é mais um dos livros que estava no monte da R. e que me veio parar às mãos por sugestão da minha filha... a miúda tem mesmo bom gosto e uma capacidade de leitura que só é comparável com a minha na idade dela... com um bocado mais de sorte, que naquela altura o dinheiro para livros era escasso.

Talvez desde a  "Sombra do vento" que um livro não captava a minha atenção desta forma, fiquei preso na leitura desde a primeira página e não consegui desprender-me até à última. Não é um livro de altos e baixos, apesar de que a história que se conta é de altos e baixos, o nível da narrativa é linear e continuo da primeira à última linha...
A história em si é comovente, como milhares de pessoas no mundo inteiro, a meio da sua vida Lev descobre que não há nada para si na sua terra, à morte da sua mulher segue-se o encerramento do seu local de trabalho e não há forma de garantir o seu futuro e o da sua filha.
O livro começa com a Longa viagem de autocarro desde o Leste da Europa até Londres, onde Lev chega como tantos milhares de emigrantes à procura de uma nova oportunidade para si e para os seus.
Em Londres LEV para além de um emprego, encontra uma enorme solidão da que nunca se conseguirá separar, novos sonhos, novos amigos, o amor, a desilusão, o fracasso e o recomeço.
No fim, após alguns altos e baixos, quedas e recomeços,  LEV consegue realizar os seus sonhos e como diz o titulo do Livro, regressar a casa, com uma nova vida e um novo futuro para si e os seus amigos, mas nunca se conseguirá separar da recordação das mulheres do seu passado.

Em suma, um excelente livro que aconselho vivamente... curiosamente só há bocado quando andava à procura da imagem para o post,  reparei que é escrito por uma mulher.. é estranho, porque consegue descrever os sentimentos do Lev de tal forma que seria capaz de jurar que tinha sido escrito por um homem... já ando à procura de mais livros da mesma autora, fiquei fan.

Sinopse:
Lev, um homem ferido pela vida, parte da Europa de Leste para a Grã-Bretanha, à procura de um recomeço para si e para a sua família.

Perseguem-no as memórias dolorosas da mulher falecida, da filha de cinco anos e do extravagante amigo Rudi, que sobrevive, sonhando com o Ocidente.

Em Londres, vagueando pelas ruas hostis e pelos pubs tribais daquela estranha cidade, encontra a promessa de amizade, amor, dinheiro e uma nova carreira.

Mas a voz da filha habita o coração e a mente de Lev, e fá-lo duvidar se conseguirá realmente pertencer a algum lugar.

Tenho medo, Papá. Quando voltas para casa? Quando?

Jorge Soares

publicado às 20:55

Livro - Maligna de Joanne Harris

por Jorge Soares, em 07.10.13

Maligna

Imagem de aqui 

 

Já aqui falei de 4 livros de Joanne Harris, já li outros para além desses 4, é a autora de um dos melhores livros que já li, Chocolate, que por sua vez deu origem a um excelente filme que também vi e até já revi com um enorme prazer. Os seus llivros não tem a magia do realismo mágico latino de que tanto gosto, mas tem uma magia diferente, talvez seja a influência do romance suave e subtil de chocolate, mas enquanto os leio  termino sempre por pensar em grandes histórias de paixão  nas margens de algum rio francês.

 

Como tem acontecido últimamente, foi a R. que o escolheu para mim, isto de que uma miúda de 14 anos me escolha os livros falará muito bem ou muito mal de mim? Foi um dos que levei para as férias... curiosamente umas férias em que a paisagem me recordou muito do que já li desta autora que nos consegue transportar para a França rural.. que descobri agora, existe mesmo como é retratada em Chocolate.

 

Maligna é o primeiro livro de Joanne Harris, talvez por isso tem pouco a ver com tudo o que ela escreveu depois, mas não deixa de ser um livro que nos prende da primeira à última página.

 

A história é narrada a duas vozes, por  Rosemary e por Daniel Holmes que através dos diversos capítulos nos levam  às vidas  de Alice, Ginny e Joe.


Daniel é um jovem com 25 anos, intelectual e pacífico que vê a sua vida mudar no dia em que, de forma heróica, salva Rosemary de uma morte certa no rio. Rosemary é uma rapariga estranha, aparentemente frágil e vulnerável, é dona de uma beleza etérea, que deixa Daniel completamente apaixonado. Provoca no jovem uma impressão tal que Daniel nunca mais será o mesmo.


Cerca de 50 anos depois de Daniel ter salvo a vida de Rosemary, é-nos apresentada Alice, uma artista e pintora promissora que perdeu a capacidade de ser feliz no dia em que o namorado Joe, a abandonou. Quando este lhe liga, passados três anos sem dar notícias, para lhe pedir um favor que envolve Ginny, a sua nova namorada, Alice não lhe sabe dizer que não e acaba por ser arrastada para o meio de uma história de terror, com personagens sinistras e assustadoras.


O livro conta-nos uma história de vampiros, sem que, como nos conta a própria Joanne no prefácio, estes sejam alguma vez nomeados, é uma história que envolve sangue, mortes e investigações policiais, mas que apesar da crueza de alguma descrições, não deixa de ser de leitura fácil e agradável até para quem não aprecia este género de coisas.


É sem dúvida um excelente livro que recomendo.

 

Sinopse:

 

Algo dentro de mim recorda e não esquecerá...

 

Alice e Joe têm em comum a paixão pela arte - ela é pintora e ele é músico - e, em tempos, estiveram também unidos pelo amor que sentiam um pelo outro. As suas vidas seguiram diferentes rumos, mas o reencontro é inevitável. Joe tem agora uma nova namorada, Ginny, que provoca em Alice uma intensa perturbação. A beleza etérea e singular de Ginny repele-a, e o seu sinistro grupo de amigos atemoriza-a. Os hábitos estranhos da jovem deixam Alice suficientemente inquieta para levar a cabo uma investigação por conta própria. E o que descobre vai mudar tudo. Ginny tem em seu poder um velho diário que conta a trágica história de amor de Daniel Holmes e Rosemary Virginia Ashley, cujo poder de sedução não conhece limites. Só que Rosemary morreu há meio século... mas o seu magnetismo não está certamente extinto. À medida que as histórias se entrelaçam, passado e presente fundem-se; Alice apercebe-se de que o seu ódio instintivo em relação à nova namorada de Joe pode não se dever apenas ao ciúme, já que algo em Ginny a arrasta irremediavelmente para um universo de insondável obsessão, vingança, sedução e sangue...


Jorge Soares

publicado às 22:51

Livro - A Alma do Mundo de Susanna Tamaro

por Jorge Soares, em 03.06.13

A alma do Mundo

 

Não me lembro de ter lido antes algum livro de Susanna Tamaro, este estava no monte dos lidos pela R.,  um monte que não para de crescer, com coisas dos mais variados estilos e para todos os gostos. Peguei nele só porque era o que estava por cima.

 

Se tivesse que descrever o tema eu diria que, este é um livro que fala de solidão, é a história de alguém que nasce, cresce, se torna homem e vive na mais absoluta solidão, não porque viva só, mas porque apesar de viver e interagir com muitas pessoas ao longo da sua vida, não consegue deixar mais que uma ténue marca no mundo que o rodeia.

 

Walter é filho único e mantém uma relação distante com o seu pai, um homem marcado pela segunda guerra mundial. Um dia com 16 anos após mais uma discussão decide partir e correr mundo, termina viciado em álcool e internado numa clínica de reabilitação. Ali conhece Andrea, a única pessoa em toda a sua vida com quem consegue ter algum tipo de ligação.

 

Todo o resto do livro não é mais que uma enorme colecção de metáforas e analogias sobre o percurso dos seres humanos. Walter passa por diversos estados de espírito mas por mais que tente não consegue sair do buraco escuro onde a sua solidão teima em o encerrar. Tudo se lhe escapa entre as mãos: o sucesso como escritor, os empregos, o amor, as amizades, a família... e à sua volta só cresce o silêncio e a solidão.

 

No fim, quando pensamos que finalmente encontrou um objectivo e um caminho, resulta que este só o leva ao encontro de mais vazio e mais solidão.

 

Em resumo, é um bom livro, bem escrito, mas não deixa de ser um livro triste e até deprimente... mas esta é só a minha opinião, leiam a sinopse...

 

Sinopse:

 

Alma do mundo é um best-seller nos Estados Unidos e em todos os países da Europa em que foi lançado. Susanna Tamaro é fenómeno de vendas sem nenhuma fórmula de sucesso. O título já diz tudo: Anima Mundi, na filosofia de Platão, significa a divindade que unifica o que é diferente e o que é similar para criar a alma do mundo. É um livro sobre compaixão, erros, amor e amizade, partilhado entre dois jovens em busca, por trilhas diferentes, de seus caminhos, seus ideais.


Susanna Tamaro utiliza os elementos – Fogo, Terra e Vento – que coincidem com três períodos distintos na vida de seu protagonista, Walter. É através dele, a voz da consciência, que é narrado o tortuoso caminho de sua estrada e também a não menos penosa de seu amigo Andrea.


O romance é dividido em três partes. Na primeira, Fogo, a autora mostra a relação passional (e celibata) entre os dois jovens. Andrea, um rapaz experiente e de personalidade agressiva, contrasta com Walter, figura doce e sensível. Juntos eles escapam do hospital psiquiátrico em que se conheceram. Na fuga, planejam seu futuro. Andrea quer ser um justiceiro e Walter quer ter uma vida comum, casar e ter filhos. Andrea demove-o dessa idéia e o convence a ser um artista, um poeta e que esse é o seu destino.


Na segunda parte, Terra, Andrea desaparece do cotidiano de Walter, mas é sempre citado em suas lembranças como ponto de referência de seus actos. Walter vai para Roma, vira escritor, conhece o sexo, o amor, mas é infeliz. Percebe que as metas traçadas por Andrea estão muito difíceis de ser alcançadas.


Um dia ele recebe uma carta de Andrea, pedindo ao amigo que vá ao seu encontro. Aí começa a terceira parte do livro – Vento. Walter não vai de imediato. Ele não se sente preparado para revelar que falhou como um grande artista. Então, volta para casa. Lá encontra uma outra carta de Andrea, que nunca havia chegado às suas mãos. Walter sai em busca de Andrea, mas encontra uma freira. Neste encontro acontece a grande reviravolta do livro.


Jorge Soares

publicado às 21:45

Prémio Camões 2013 para Mia Couto

por Jorge Soares, em 27.05.13

Mia Couto

 

Imagem do Público

 

 

Os contos de Mia Couto são presença habitual aqui no blog, principalmente ao Sábado que é dia de Conto, sou um admirador da sua escrita e da sua forma de estar no mundo. Gosto especialmente dos seus livros de contos e dos seus poemas. Este é um prémio mais que mercido, que segundo o Juri foi entregue tendo em conta a “vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade”

 

Podem ler os contos de mia Couto, aqui

 

 

Demoro-me no outro lado de mim
porque me atrai
esse ser impossível
que sou
esse ser que me nega
para que seja ainda eu
Porque desejo esse alguém
que me invade e me ocupa
que me usurpou a palavra e o gesto
me fez estrangeiro do meu corpo
e me deixou mudo, contemplando-me.
Lanço-me na procura da minha pedra
no infindável trabalho
de me reconstruir
recolhendo os sinais do meu desaparecimento
percorrendo o revés da viagem
para regressar a um lugar inabitável.
Todas as vezes que me venci
não me separei do meu sonho derrotado
e, assim, me fiz nuvem
reparti-me em infinitas gotas
para que fosse bebido, vertido, transpirado
e voltasse de novo a ser céu
transparência de azul, harmonia perfeita
e poder regressar ao lugar interior
para me deitar, de novo,
no sangue que me iniciou.

 

Mia Couto 

 

Jorge Soares

publicado às 22:33

Conto - Mistinguett vai casar, de Jean Manzon

por Jorge Soares, em 02.03.13
Mistinguett

No meu terceiro dia em Paris resolvi fazer algumas coisas que nunca fizera antes: visitar os lugares tão falados no estrangeiro e tão desconhecidos dos próprios parisienses. Fui à Torre Eiffel, entrei em Notre Dame, demorei-me no Louvre e, por fim, depois de carregar minha máquina fotográfica, tomei o rumo do apartamento de Mistinguette. Preciso dizer quem é Mistinguette? Aos leitores adolescentes, talvez. A mais famosa vedeta do século, a dona das mais belas pernas do mundo, a que deixou corações em petição de miséria, cuja beleza iluminou os cabarés de Paris desde antes da primeira grande guerra, está agora do outro lado da porta. Insisto na campainha. A cara de um porteiro engalanado aparece, misteriosamente:

 

- Com quem deseja falar, monsieur?
- Mistinguette.
- Madame não recebe.
Era um porteiro negro do Senegal.
Como dera ali, não posso dizer. Já ia fechando a porta, quando a travei com o pé.
- Diga-lhe que venho do Brasil.
- Não recebe.
- Recebo sim! - gritou lá do fundo a própria Mistinguette. - Do Brasil, recebo, sim!

 

Veio, toda num sorriso, explicando que seu tempo era todo tomado pelos compromissos artísticos, mas que do Brasil vinha a mensagem saudosa de um filho que ela possui em terras da América.

 

Logo que Mistinguette transpôs a fronteira de sombra e luz que existe em seu luxuosíssimo apartamento, compreendi a grande tragédia dessa incomparável e alegre mulher. Nunca a velhice poderia ser mais dramática, nunca um corpo lutou tanto contra o poder arrasador dos anos. A marcha do tempo em cada ruga, em cada pedaço, na cor artificial dos cabelos, e na agonia lenta, inexorável, impiedosa daquelas pernas que por triz não foram cantadas pela musa de Alfred Musset.

 

Enfrentando a velhice, Mistinguette o faz com uma triste dignidade, tornando mais heroica a jornada de volta, pelo outro lado da colina. Nascida em 1870, ela conheceu a glória antes de chegar ao fim do século. Quando o Brasil proclamou sua República, Mistinguette, linda aos 19 anos, arrebatava Paris, “- Mulher assim não é humana”, diziam os críticos teatrais. - “É um anjo”, gritavam os espectadores. Victor Hugo a admirava? A História não diz. D. Pedro II viu Mistinguette dançar? Não posso responder. Cinquenta milhões de pessoas, cinquenta milhões de olhos sedentos passaram pelas bilheterias em busca de Mistinguette, a quase divina Mistinguette. Por seu amor, reis dariam tronos, plebeus dariam a vida. Ela foi a inspiração de poetas, a paixão de humildes operários, a alucinação de honrados burgueses de Paris e além de suas fronteiras.

 

Ei-la agora, diante de mim. Aos 76 anos, Mistinguette é um prodígio de bom humor, de bondade, de ternura para com o gênero humano, que tão bem soube tratá-la em toda sua longa e prodigiosa existência. Sente-se que ela procura se agarrar à vida que lhe foge pelos dedos, hoje encurvados e secos, pela pele macilenta. Agarra-se à vida no amor de um jovem, o italiano Cozenso, que com ela se casou ou vai se casar. Ele está no apartamento de Mistinguette neste instante.

 

- Conhaque? Gin? Rum?
Prefiro um brandi, enquanto o rapaz, com uma cara melancólica, vai para o piano e se arrasta num dolente blue.
Mistinguette me diz:
- Todos pensam que esse rapaz se casará comigo pelo dinheiro que possuo. Não é verdade.
Numa longa baforada, explica:
- Nunca lhe dei um franco.
- Ele a ama?
- Não.
- Então...

- Sei o que estás pensando, amigo. Sou velha e sem atrativos e um jovem como êsse vil Cosenzo não poderia apaixonar-se por mim. Não é isso? Negas? Sei que é a verdade. Tantos anos de experiência ajudaram-me a conhecer profundamente o coração dos homens.

 

Mistinguette troca o cigarro por um copo de leite.


- Leite?
- É o segredo da longa vida.

 

Sorve o líquido branco e, colocando a taça sobre a mesa, recomeça:

 

- Se Cozenso não me ama, se não leva meu dinheiro, por que está aqui? Por um motivo simples: o homem quer cartaz. Aliás, todos os homens querem cartaz. Avalie quanto vale para Cozenso a publicidade gratuita: “- Fulano de tal vai se casar com Mistinguette”. Ele é um compositor de músicas populares. Está ouvindo esse fox horrível? É dele. Depois que se espalhou a notícia, os diretores aceitam suas drogas e ele é um camarada feliz. Apenas tem por obrigação portar-se condignamente para não manchar minha reputação nem lançar-me ao ridículo.

 

- Um bom moço, ele deve ser.
- Precisamente.

Mistinguette levanta os olhos e fita Cozenso, que está embebido numa passagem de sua própria melodia.

- Pobrezinho, eu poderia ser sua avó.
Volta-se para mim e pede:
-Diga que tenho 38 anos...

 

Velha e querida Mistinguette, alma e temperamento de minha cidade, sempre jovem, sempre eterna: eu desejaria que você não morresse nunca. Isto é supérfluo, Mistinguette, porque realmente você não morrerá nunca, enquanto existir Paris, enquanto houver música nos cabarés, enquanto pernas lindas deslocarem nossos olhos. Mistinguette, você é um bairro de Paris.

(Ilustração: cartaz Mistinguett - la revue de Paris)
Retirado de Trapiche dos outros

publicado às 20:46

Livro - Isabel Allende, O Caderno de Maya

por Jorge Soares, em 06.02.13
O Caderno de Maya

Andei muito tempo longe dos livros, no natal ofereceram este à R., como ela já o tinha lido na biblioteca da escola, esteve prestes a ser devolvido, eu não deixei... em boa hora.

 

Nada como a Isabel Allende para nos voltar a prender à leitura e este livro é daqueles que nos prende mesmo, é uma história fluida que nos vai contando as venturas e desventuras de uma jovem protagonista que após ter descido até ao fundo do poço em que se converteu a sua vida, se refugia numa aldeia numa ilha remota do Chile onde é acolhida por um homem que podia ser seu avô.  Desde ali, um lugar que para além da distância física, está nas antípodas do que até então foi a sua vida e a sua forma de viver.

 

Maya é a filha típica da cultura americana, fruto de uma relação fugaz entre uma hospedeira Norueguesa e um piloto Americano de origem Chilena, é deixada à nascença para ser criada pela sua avó paterna. Cresce num ambiente descontraído com um avô professor Universitário que a adora e mima e uma avó hippie que divide a sua atenção entre a criança e as causas sociais que lhe vão aparecendo.

 

Quando chega à adolescência Maya torna-se numa jovem rebelde e independente, não descansa enquanto não passa por todas as experiências boas ou más da vida e torna a sua vida num caminho quase sem retorno até um abismo de onde dificilmente consegue fugir.

 

Este é um livro que  sem fugir  aos livros históricos, de época e quase mágicos a que nos acostumou a escritora, nos fala da sociedade e culturas americanas da actualidade,  com tudo o que de pior esta pode ter, ao mesmo tempo que nos mostra um pouco da história ainda recente do Chile da ditadura de Pinochet e das marcas que esta deixou e que ainda subsistem nas pessoas e na cultura chilenas.

 

Tudo junto resulta num excelente livro que se pudéssemos líamos de um só fôlego.

 

Sipnose

 

"Sou Maya Vidal, dezanove anos, sexo feminino, sem namorado por falta de oportunidade e não por esquisitice, nascida em Berkeley, Califórnia, com passaporte americano, temporariamente refugiada numa ilha no sul do mundo.

 

Chamaram-me Maya porque a minha Nini adora a Índia e não ocorreu outro nome aos meus pais, embora tenham tido nove meses para pensar no assunto. Em hindi, Maya significa «Feitiço, ilusão, sonho», o que não tem nada a ver com o meu carácter. Átila teria sido mais apropriado, pois onde o ponho o pé a erva não volta a crescer."

 

Jorge Soares

publicado às 21:41

Olhos de cão azul

 

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Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: "Isso. Já não o esqueceremos nunca". Saiu da órbita suspirando: "Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”. 

Vi-a caminhar em direção à cômoda. Vi-a aparecer na lua circular do espelho, olhando-me agora no final duma ida e volta de luz matemática. Vi-a continuar me olhando com seus grandes olhos de cinza acesa: olhando-me enquanto abria uma caixinha revestida de nácar rosado. Vi-a passar pó-de-arroz no nariz. Quando acabou de fazer isso, fechou a caixinha e voltou a ficar em pé e andou novamente em direção ao abajur, dizendo: "Temo que alguém sonhe com este quarto e mexa nas minhas coisas"; e estendeu sobre a chama a mão comprida e trêmula, a mesma que estivera esquentando antes de sentar-se em frente ao espelho. E me disse: "Você não sente o frio". E eu lhe disse: "Às vezes". E ela me disse: "Você deve senti-lo agora". E então compreendi por que não tinha podido ficar sozinho na cadeira. Era o frio o que me dava certeza da minha solidão. "Agora o sinto", disse. "E é raro, porque a noite está quieta. Talvez o lençol tenha rodado". Ela não respondeu. Começou a se mexer em direção ao espelho e voltei a girar sobre a cadeira para ficar de costas para ela. Embora sem vê-Ia, sabia o que estava fazendo. Sabia que estava outra vez sentada diante do espelho, vendo minhas costas, que haviam tido tempo para chegar até o fundo do espelho, e serem encontradas pelo seu olhar, que também havia tido o tempo justo para chegar até o fundo e regressar antes que a mão tivesse tempo de iniciar a segunda virada — até os lábios que estavam agora pintados de carmim, da primeira virada da mão em frente ao espelho. Eu via, à minha frente, a parede lisa, que era como outro espelho cego, onde eu não a via sentada às minhas costas, mas imaginando onde estaria, se no lugar da parede tivesse sido colocado um espelho. "Estou vendo você", disse-lhe. E vi, na parede, como se ela tivesse levantado os olhos e me visto de costas na cadeira, ao fundo do espelho, com o rosto voltado para a parede. Depois vi-a abaixar as pálpebras, outra vez, e ficar com os olhos quietos no seu sutiã, sem falar. E voltei a lhe dizer: "Estou vendo você." E ela voltou a levantar os olhos do sutiã. "É impossível", disse. Eu perguntei por quê. E ela, com os olhos outra vez quietos no sutiã: "Porque você tem o rosto voltado para a parede". Então eu fiz girar a cadeira. Tinha o cigarro apertado na boca. Quando fiquei de frente para o espelho, ela estava outra vez junto do abajur. Agora tinha as mãos abertas sobre a chama, como duas asas abertas de galinha, sendo assada, e com o rosto sombreado pelos próprios dedos. "Acho que vou me resfriar", disse. "Esta deve ser uma cidade gelada”. Voltou o rosto de perfil e sua pele de cobre vermelho se tornou repentinamente triste. "Faça alguma coisa contra isso", disse. E ela começou a tirar a roupa, peça por peça, começando por cima; pelo sutiã. Disse-lhe: "Vou me virar para a parede". Ela disse: "Não. De todas as maneiras você vai me ver, como me viu quando estava de costas". Mal tinha acabado de dizer isso e já estava despida quase por completo, com a chama lambendo-lhe a comprida pele de cobre. "Sempre tinha querido ver você assim, com o couro da barriga cheio de buracos fundos, como se houvessem feito você a pauladas". E antes que eu me desse conta de que minhas palavras se tinham tornado torpes diante da sua nudez, ela ficou imóvel, esquentando-se na órbita do abajur, e disse: "Às vezes creio que sou metálica". Manteve o silêncio por um instante. A posição das mãos sobre a chama mudou levemente. Eu disse: "Às vezes, em outros sonhos, pensei que você é apenas uma estatueta de bronze num canto de algum museu. Talvez por isso sinta frio". E ela disse: "Às vezes, quando durmo sobre o coração, sinto que o corpo fica como um ovo, e a pele como uma lâmina. Então, quando o sangue me bate por dentro, é como se alguém me estivesse chamando com os nós dos dedos na barriga, e sinto meu próprio som de cobre na cama. É como se fosse assim como você diz: de metal laminado". Aproximou-se mais do abajur. "Teria gostado de ouvir você", disse. E ela disse: "Se alguma vez nos encontrarmos ponha o ouvido nas minhas costelas, quando eu dormir sobre o lado esquerdo, e me ouvirá ressonar. Sempre desejei que você alguma vez fizesse isso”. Ouvi-a respirar fundo enquanto falava. E disse que durante anos não tinha feito nada diferente disso. Sua vida estava dedicada a me encontrar na realidade, por meio dessa frase identificadora. "Olhos de cão azul." E na rua ia dizendo em voz alta, que era uma maneira de dizer à única pessoa que teria podido compreendê-la:

 

Gabriel Garcia Marquez

Retirado de Releituras

publicado às 21:15


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