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Salgueiro Maia

Já deixei aqui a minha opinião sobre o facto de Amália estar no panteão nacional e sobre a forma rápida e até atabalhoada se decidiu que Eusébio para lá irá. 

 

Salgueiro Maia foi um dos exemplos que utilizei na resposta a alguns dos comentários do post sobre o Eusébio, como sendo uma das personalidades que eu entendia que juntamente com Saramago ou Fernando Pessoa, teriam lá lugar antes de jogadores de futebol ou cantantes de fado. Ontem quando ouvi Manuel Alegre sugerir que este fosse para lá trasladado fiquei curioso sobre qual seria a reacção do mesmo parlamento que há tão pouco tempo decidiu de forma consensual a entrada de Eusébio.

 

Por muito importantes que fado e futebol tenham sido para o país e para os sonhos e ilusões de muita gente, acho que a democracia é de certeza muito mais importante e quem sabe como a ela teríamos chegado sem a acção forte e decidida de Salgueiro Maia no dia 25 de Abril de 1974.

 

Para mim o consenso gerado no parlamento à volta de Eusébio tem mais a ver com o Benfica e com oportunismo político que com o verdadeiro sentimento dos deputados ou mesmo do país.

 

Curiosamente os mesmos senhores deputados que tão rapidamente decidiram há uns dias, agora já tem dúvidas e até acham que não se pode banalizar a coisa, segundo o líder parlamentário do PSD deve ser criado "um procedimento que não faça desenvolver no país uma tentação de poder agora a cada semana ou a cada mês haver uma proposta para uma trasladação para o panteão nacionall".

 

Será que os senhores deputados não percebem que foram eles que abriram a porta da banalização do Panteão nacional ao aceitarem a entrada de Amália e Eusébio?

 

Para muita gente Amália e Eusébio são símbolos imortais do país, pelos vistos Salgueiro Maia é só mais um português banal. O que podemos pensar de um país que eleva à tribuna de heróis a jogadores de futebol e fadistas, mas deixa morrer no esquecimento a quem se dispôs a dar a vida pela democracia e a liberdade de todos.

 

Concordo plenamente que o Panteão não pode ser um passeio da fama, mas para mim isso aplica-se a Eusébio e Amália, nunca a Salgueiro Maia.

 

Sempre achei que o país foi de uma enorme ingratidão com um homem que teve um papel fulcral no 25 de Abril, ingratidão que começou em vida e que pelos vistos se mantém após a sua morte.

 

De resto faz-me uma enorme confusão que Eusébio gere consenso entre os partidos e Salgueiro Maia não, há de certeza algo de errado na forma como lidamos com a nossa história contemporânea.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:31

Conto - A Senhora do Retrato

por Jorge Soares, em 07.01.12
a senhora do retrato
Imagem de Ao Pé da Raia

 

Os retratos a óleo fascinam-me. E ao mesmo tempo assustam-me. Sempre tive medo que as pessoas saíssem das molduras e começassem a passear pela casa. Para falar verdade, estou convencido que isso aconteceu algumas vezes. Em certas noites, quando eu era pequeno, ouvia passos abafados e tinha a sensação de que a casa ficava subitamente cheia de presenças. Ainda hoje não gosto de atravessar os longos corredores das velhas casas com grandes retratos pendurados nas paredes. Há olhos que nos seguem do alto e nunca se sabe o que de repente pode acontecer.

 

Havia na casa da tia Hermengarda um quadro deslumbrante. Ficava ao cimo das escadas, à entrada do corredor que dava para os quartos de dormir. Mesmo assim, rodeado de sombras, irradiava uma luz que só podia vir de dentro da dama do retrato. Não sei se da blusa muito branca, se dos olhos, às vezes verdes, às vezes cinzentos. Não sei se do sorriso, às vezes alegre, às vezes triste. Eu parava muitas vezes em frente do retrato. Era talvez o único que não me assustava. Creio até que dele se desprendia uma luz benfazeja, que de certo modo me protegia.

Mas havia um mistério. Ninguém me dizia quem era a senhora do retrato. Arminda, a criada velha, benzia-se quando passava diante do quadro. Às vezes fazia figas e estranhos sinais de esconjuração. A prima Luísa passava sem olhar.

 

- Essa pergunta não se faz - disse-me um dia em que lhe perguntei quem era aquela senhora.

 

Percebi que não gostava dela e que era um assunto proibido. Até a minha mãe me ralhou e me pediu para nunca mais fazer tal pergunta. Mas eu não resistia. Por vezes descaía-me e dava comigo a perguntar quem era a senhora dos olhos verdes, quase cinzentos, que me sorria de dentro do retrato.

 

Com a minha tia-avó, eu tinha uma relação especial. Ela lia-me histórias e poemas inquietantes. Creio que troçava das convenções, talvez das próprias pessoas. Por vezes era difícil saber quando estava a sério ou a brincar. Apesar de já ser muito velha, tinha um sentido agudo do ridículo. Foi a primeira pessoa verdadeiramente subversiva que conheci. Era óbvio que tinha um fraco por mim. Pelo menos era o único membro da família a quem ela tratava como um igual. Dormia no andar de baixo e nunca subia as escadas. Talvez por isso eu nunca lhe tinha perguntado quem era a senhora do retrato.

 

Um dia, farto já de tanto mistério e ralhete e, sobretudo, das gaifonas da Arminda e do ar empertigado da prima Luísa, não me contive e perguntei-lhe. A minha tia sorriu. Depois levantou-se, pegou no molho de chaves que trazia preso à cintura, abriu uma gaveta da escrevaninha e tirou um álbum muito antigo. Voltou a sentar-se e lentamente começou a mostrar-me as fotografias. Eram quase todas da senhora do retrato e do meu primo Bernardo, que há muito tinha partido para a África do Sul.

 

Apareciam juntos a cavalo e de bicicleta. E também de fato de banho, na praia da Costa Nova. Havia alguns em que o meu primo estava de smoking e ela de vestido de noite. Via-se também a tia Hermengarda, mais nova, por vezes os meus pais, gente que eu não conhecia. Até que chegámos à senhora do retrato já de branco vestida.

 

- Natacha - murmurou a minha tia, com uma névoa nos olhos.

 

E depois de um silêncio:

 

- Ela chama-se Natália, mas eu gosto mais de Natacha, sempre a tratei assim. É preciso dizer que a tia Hermengarda tinha vivido em Moscovo no início da carreira diplomática do marido e era uma apaixonada dos autores russos, Pushkine, Dostoievski, principalmente Tolstoi, que visitou algumas vezes em Isnaia Poliana. Identificava-se com as personagens de Guerra e Paz. Creio que amava secretamente o príncipe André e gostava de ter sido Natacha. Falava muito da alma russa. Era uma propensão do seu espírito.

 

- Tu também tens alma russa - dizia-me. E era como se me tivesse armado cavaleiro.

 

Manuel Alegre, O Homem do País Azul, 1989

 

Retirado de Ao Pé da Raia

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publicado às 21:01

Conto: Uma estrela

por Jorge Soares, em 17.12.11

Uma estrela, Manuel Alegre, Conto de natal

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

"Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava em Dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um bolo, era bom sentir as grandes fatias despegarem-se da areia, dos muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da ameixieira. Enchia-se a canastra devagar, enquanto a avó ia montando o que se chamaria hoje as estruturas, ou mesmo infraestruturas, junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. Eram caixotes, caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso, tábuas, que pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo, ao mesmo tempo que fazia carreiros e caminhos com areia e areão. Mais tarde os rios e os lagos, com bocados de espelhos antigos, de vidros ou mesmo de travessas cheias de água. Até que todos os caixotes, caixas e tábuas desapareciam. Ficavam montanhas, planícies, rios, lagos. Era uma nova criação do mundo. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com suas cabras. E todos os caminhos iam para Belém. 


Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo pronto, mesmo antes de o Menino nascer. A cabana, a vaca, o burro, os três reis do Oriente. Maria, José, Jesus deitado nas palhinhas. Via-se logo que era a fingir. Não o da avó, que era mais do que um presépio, era uma peregrinação, uma jornada mágica ou, se quiserem, um milagre. Nós estávamos ali e não estávamos ali. De repente era a Judeia, passeávamos nas margens do Tiberíades, andávamos pelo Velho Testamento, João Baptista baptizava nas águas do Jordão e aquele monte, ao longe, podia ser o Sinai ou talvez o último lugar de onde Moisés, sem lá entrar, viu finalmente a terra onde corria o leite e o mel. Mas agora era o Novo Testamento. A avó ia buscar as figuras ao sótão, eram bonecos de barro comprados nas feiras, alguns mais antigos, de porcelana inglesa, como aquele caçador que a avó colocava à frente dizendo: Este é o pai. Seguia-se a mãe, de vestido comprido, dir-se-ia que ia para o baile, mas não, saía de cima de uma mesinha da sala de visitas e agora estava ao lado do pai, olhando levemente para trás onde, entretanto, a avó já tinha colocado figuras mais toscas, eu, a minha irmã, os primos, alguns amigos, todos a caminho de Belém. 


- E a avó?, perguntava eu. 
- Eu já estou velha para essas andanças. 


De dia para dia mudávamos de lugar. E todas as manhãs deparávamos com novas casas, mais rebanhos, pastores, gente que descia das serras, atravessava os rios e os lagos. Os caminhos ficavam cada vez mais cheios. E todos iam para Belém. À noite tremulavam luzes. Acendiam e apagavam. Mas ainda não se via a cabana, nem Maria, nem José. 


Então uma noite, entre as estrelas do céu, aparecia uma que brilhava mais que todas. 


- Esta é a estrela, dizia a avó. 


E era uma estrela que nos guiava. Na manhã seguinte lá estavam eles, os três reis do Oriente, Magos, explicava o pai, que também não dizia Pai Natal, dizia S. Nicolau, talvez por influência de uma misse de origem russa que em pequeno lhe falava de renas e trenós e de S. Nicolau atravessando as estepes. 


Cheirava a musgo na sala de jantar. Cheirava a musgo e a lenha molhada que secava em frente do fogão. E os Magos lá vinham, a pé, de burro, de camelo. Traziam o oiro, o incenso, a mirra. Às vezes nós, os mais pequenos, juntávamo-nos e cantávamos: “Os três reis do Oriente / Já chegaram a Belém.” 


- Não chegaram nada, atalhava a avó, ainda não. 


Estávamos cada vez mais perto. E também nervosos. Confesso que às vezes fazia batota. Empurrava-nos um pouco mais para a frente, para mais perto de Belém e do lugar onde eu sabia que mais tarde ou mais cedo a avó ia pôr a cabana. Mas ela descobria. 

 

 

 

 

 

Manuel Alegre

Retirado de aqui

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publicado às 21:17

Neste país é complicado ser votante!

por Jorge Soares, em 07.01.11

Cavaco Não, vote noutro qualquer

 

É por demais evidente que eu não gosto do Cavaco, não é de agora, acho que por trás de toda aquela arrogância e aqueles ares de superioridade moral, há um politico medíocre, um governante trapalhão e depois de toda esta trapalhada das acções compradas a preço da uva mijona e vendidas a preço de ouro, nem a suposta seriedade escapa. A forma como ele decide que está acima de todos nós e por isso não tem que dar cavaco a ninguém sobre as suas acções não é de alguém sério, é sim a fuga para a frente.... E acho incrível como apesar de tudo isto, da trapalhada das escutas a Belém, das explicações idiotas sobre a lei do casamento homossexual e de tudo o resto, as pessoas continuam a olhar para ele como se de uma vaca sagrada se tratasse.

 

O Fernando Nobre é um pára-quedista que acha que para se ser governante basta ter-se um passado de bom samaritano, se dúvidas havia sobre a sua capacidade politica e a sua suposta diferença, basta ver o que aconteceu comigo e com a minha fotografia, para se perceber que de diferente nada, pura arrogância, para a politica fazem falta pessoas com bagagem politica, pára-quedistas já basta os que vieram do futebol.

 

Sobre Francisco Lopes não tenho muito a dizer, não o conhecia e para ser sincero, o que se viu até agora foi muito pouco, de Defensor Moura, idem idem, aspas aspas.

 

Depois há aquele senhor da Madeira e uns quantos mais de que pouco se houve falar... e há Manuel Alegre, um homem de esquerda, um homem com um passado politico, mas será um homem de estado? Com todo o respeito pelo senhor e pelo seu passado de luta contra a ditadura, eu não acho, e também não gostei lá muito de como se desenvencilhou da história da publicidade do BPP. Para ser sincero, eu acredito que ele tenha sido enganado por quem lhe pediu o texto, mas a forma como primeiro disse que devolveu o cheque, que depois afinal foi recebido e depositado e devolvido com outro que não se sabe bem se foi levantado ou não... foi mau, muito mau.  Talvez de todos seja o menos mau... mas que raio de país é este em que para eleger um Presidente da República temos que votar no menos mau?

 

Faltam 15 dias para as eleições, até agora de campanha politica zero, só ataques e contra-ataques, de ideias para o país, de formas de tornar o país mais governável, de formas de ajudar o governo a sair desta crise, zero. Esperemos que até ao dia 23 as coisas melhorem porque como estão as coisas, votar no menos mau ou só para que como diz a imagem, votar para que vá para lá outro qualquer... é mau, muito mau.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:23

O Poema que não há

por Jorge Soares, em 25.08.10

Balada do poema que não há, rosa

 

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Balada do Poema que não há

 

Quero escrever um poema 
Um poema não sei de quê 
Que venha todo vermelho 
Que venha todo de negro 
Às de copas às de espadas 
Quero escrever um poema 
Como de sortes cruzadas 

Quero escrever um poema 
Como quem escreve o momento 
Cheiro de terra molhada 
Abril com chuva por dentro 
E este ramo de alfazema 
Por sobre a tua almofada 
Quero escrever um poema 
Que seja de tudo ou nada 

Um poema não sei de quê 
Que traga a notícia louca 
Da história que ninguém crê 
Ou esta afta na boca 
Esta noite sem sentido 
Coisa pouca coisa pouca 
Tão aquém do pressentido 
Que me dói não sei porquê 

Quero um poema ao contrário 
Deste estado que padeço 
Meu cavalo solitário 
A cavalgar no avesso 
De um verso que não conheço

 

Manuel Alegre

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publicado às 20:13

Quinto Poema do pescador

por Jorge Soares, em 21.08.09

Monumento aos pescadores, Setúbal 

 

Fotografia minha de Momentos e olhares

 

Quinto Poema do pescador

 

Eu não sei de oração senão perguntas 

ou silêncios ou gestos de ficar 

de noite frente ao mar não de mãos juntas 

mas a pescar. 

Não pesco só nas águas mas nos céus 

e a minha pesca é quase uma oração 

porque dou graças sem saber se Deus 

é sim ou não. 

 

 

Manuel Alegre 

 

Fim de tarde em Setúbal

Monumento ao Pescador, Setúbal

Março de 2009

 

 

Mar 22, 2009. Câmara: SONY.  Modelo: DSLR-A350. ISO: 100. Exposição: 1/125 seg. Abertura: 9.0. Extensão focal: 55mm. Flash utilizado: Não

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publicado às 15:50


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