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Conto, Cedo ou tarde…

por Jorge Soares, em 21.01.12

Cedo Ou Tarde

 

Os três pediram café; um curto, um carioca e um descafeinado. Rodrigo, homem de poucas e sábias palavras, manteve-se calado a maior parte, enquanto os outros dois…


“Quem é o seu melhor amigo?”, Marcos perguntou.
“Você?”
“Quem livra a sua cara de situações embaraçosas, resgata à meia-noite quando o carro pifa, dorme com você em hospitais, paga a sua fiança, se for necessário, vira o seu fiador, seu guarda-costas, seu pára-raio.”
“Você, você, você.”
“Me conhece, quem é o seu amigo mais fiel?”, insistia Marcos.
“Você.”
“O mais contraditório?”
“Você”
“O mais doido, insatisfeito, incoerente?”
“Você”
“E o mais sedutor?”
“Você. Disparado.”

 

Chega o café e a conta. Marcos oferece pagar. E narra: “Não sou sedutor ortodoxo convicto, nem tenho o dogma como ideal de vida. Passei a praticar depois que a ex me largou. É um comportamento dúbio: querer me vingar, sair com o maior número de mulheres, e ao mesmo tempo sofrer de escassez amorosa. Nasceram rancores, depois de eu ter sido largado por duas mulheres que eu amo. Amava. Aquelas… Agora, procuro em cada mulher um novo atalho, que me tire desse estado.”
“Que estado?”
“De carência induzida. Procuro uma mulher que me faça esquecer. Como não encontro, testo, e me comparam a um galinha. Só existe uma pessoa que pode me salvar.”
“Quem?”
“A tua mulher.”
“A Lúcia? O que tem a Lúcia?”
“Tudo.”
“Tudo o quê?”
“Tenho pensado nela. Eu queria ter algo com ela.”
“Com a Lúcia?!”
“Você é meu amigo, não fique ofendido.”
“Ter o quê?”
“Uma relação.”
“De amor?”
“Sexual. Eu queria ter um caso com a sua mulher.”
Olharam o garçom passar o cartão e retirar o boleto. Olharam a fumaça do café. Como se nela, um futuro possível.
“Eu queria ir pra cama com…”
“Tá, tá, não precisa repetir. E será a única pessoa que pode te tirar do estado de carência?”
“Ah, você concorda com ele”, disse então Rodrigo.
“Cala a boca! Estou chocado.”
“Comigo?”, perguntou Marcos.
“Com a Lúcia. Não imaginava que ela tinha este poder.”
“De despertar desejos? De curar? Não me leve a mal.”
Ele olhou para Rodrigo, que bebericava o seu carioca.
“O que foi?”, perguntou Rodrigo.
“Você ouviu o que ouvi?”
“Lógico.”
“E você não vai falar nada?”
“O que eu posso fazer?”
“Me ajude a esganá-lo!”
“Mas é o seu melhor amigo. Se não rolar sinceridade entre amigos, não é amizade. E, ora, a Lúcia é um mulherão. Dos três, você é o mais sortudo”, disse Rodrigo.

Era o pacto. Dos três, ele era o único casado. E vivia desdenhando a mulher, Lúcia. Reclamava do seu temperamento, seus temperos, suas tendências, suas crenças. Os amigos Marcos e Rodrigo chegaram antes e combinaram. Porque são os seus melhores amigos. Resolveram provocar e demonstrar interesse em Lúcia, para que o amigo parasse de invejar aquela vida de solitários desquitados quarentões amargurados que, acredita, é mais inspiradora do que a sua de casado.
Rodrigo retomou: “Lúcia sempre foi a melhor e é ainda a mulher mais deslumbrante da cidade. Você não sabe o que ela provoca com aquele sorriso? Ela é interessada em tudo, conversa, faz perguntas, fala de assuntos sem o menor constrangimento, tem humor, uns dentes lindos, sabe se vestir com discrição, sabe como andar, os olhos mel que, quando bate sol, ficam verdes, fora aqueles braços com pelinhos loiros, ela é maluquinha…”

 

“Tá, tá, tá!”
“É uma coisa, mesmo!”, concluiu Marcos.
“Não fala assim!
“Melhores amigos falam tudo.”
Ele se levantou tonto. Nunca imaginara que Marcos comunicasse uma declaração com proposta tão indecente.
“Nem por um milhão de dólares!”, ele disse e saiu fora.
Os amigos enfim riram da provocação:
“Também, não é a Dennie Moore”.
“Nem você o Robert Redford”.

Ele dirigiu a noite toda pela cidade. O celular tocava, ele via, era Lúcia, não atendia. Guiou por todas as ruas da infância e adolescência. Depois, cruzou viadutos com nomes de militares. Passou por floriculturas e joalherias. Até voltar tarde para casa. Bem tarde. De mãos vazias. Entrou na ponta dos pés, como se um ladrão invadisse uma casa desconhecida.
Lúcia dormia. Que lindo. Olhou para a mulher. Encanto. Ela é deslumbrante mesmo. Lembrou-se das afinidades. Tomou um banho sorrindo. Uma coisa. E se enfiou na cama sem acordá-la.

 

Então, ao invés de abraçá-la com toda a força, virou-se para o lado e começou a tremer de medo. Pânico. Uma mulher daquela, ele não conseguirá segurar, logo o primeiro que usar as palavras certas a levará, os amigos, o chefe, o professor de meditação, um garçom do Ritz, do Spot, do Habib’s, um cineasta pernambucano, o Rodrigo Santoro, o Tato Malzoni, o Quincy Jones! Eu sou um nada e me casei com a mulher mais charmosa, atraente e discreta da cidade, e nem reparava mais em tanto brilho no olhar, nem nos pelinhos loiros, nem no humor, nos dentes, ela se tornara comum, Lúcia, a patroa, a rotina, o estorvo, o entrave de uma vida sexual variada e dinâmica, e não a divindade que inspira poesia em todos os cantos.
Ele se levantou da cama. Olhou para os lados. O pânico se tornou incontrolável, terror. Suava. Falta de ar. Você não a ama mais. E ela o largará logo, porque é muita areia para o seu… Sem acordá-la, abriu as gavetas e começou a fazer as malas. Deixarei o caminho livre, musa! Quando escutou a voz meiga de Lúcia.
“Môr? Que tá fazendo?”
“Desculpe. É inevitável. Não adianta me impedir. Cedo ou tarde…”

 

Marcelo Rubens Paiva

 

retirado de Pequenas neuroses contemporâneas

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publicado às 18:45

Conto, "Dar: o dilema"

por Jorge Soares, em 14.01.12
Dar: O dilema, Marcelo Rubens Paiva

Peço desculpas ao leitor. Pensei muitas vezes no verbo a ser utilizado no relato abaixo. "Ceder" seria menos ofensivo. Mas "dar" foi exaustivamente utilizado pelas personagens em questão. É com ele que elas costumam pontuar suas aventuras e seus segredos.

 

Numa mesa de bar com três mulheres: uma carioca, uma mineira e uma paulista. Na faixa dos 30 anos. Profissionais liberais, que moram sozinhas, donas de si. Rodadas. Com alguns matrimônios interrompidos nas costas.

 

A mineira teorizou. Se você sai com um carinha três vezes, terá que dar na quarta. Seria uma afronta às regras da corte. Afinal, há uma ética no jogo da sedução.

 

Ela aprendeu com a mãe que é sempre vantajoso para o espelho ter uma legião de admiradores. Mulheres adoram ser paparicadas, lembrou. Se rolar a quarta vez, seu papel de diva a obrigará a ceder aos óbvios interesses masculinos. Se não, perde-se o trono. E, para o horror das mulheres, a maior heresia: será malvista.

 

A paulista contou. Que no começo do ano saiu com um cara, mas não ficou tão a fim. Não rolou nada. Ele insistiu para que houvesse um outro encontro. Ela dispensou com carinho e educação. Porque sabia que, se desse, ele poderia se apaixonar, e ela não conseguiria encarar tamanho paradoxo. Então, quebrou o encanto já na raiz.

 

A carioca contou. Que tem filhos, ex-maridos, dois empregos, o que filtra consideravelmente o assédio, para o bem. Se depois de todas as informações, o carinha continua a saga da conquista e ultrapassa as etapas da prova, ela dá. Afinal, um cara como esse merece consideração.

 

 

Marcelo Rubens Paiva
Retirado de Blog Do Cappacete

 

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publicado às 21:16

Conto: O passado passa

por Jorge Soares, em 04.12.10

O passado passa

 

Não foi apenas por comodidade que sua historia com H durou tanto tempo. Depois de dez anos casado, e acometido pela doença diagnosticada “síndrome de tristeza pós-separação”, foi H quem apareceu e mereceu toda a atenção. E dedicação. Tão previsível, diriam os adivinhos das relações.

Faca as contas. Ele, com 38 anos. Ela, com 17. Se conheceram num restaurante. Ele era amigo do pai dela, com quem foi jantar. H apareceu na sobremesa, com os olhos mais brilhantes do que as velas das mesas, e a saia mais curta do que o expresso do local.

Ele era mais do que amigo do pai. Trabalharam juntos. Mais que trabalharam. Ele foi o seu primeiro patrão. Não apenas um. Definição: foi o seu mentor. Quem disse, no primeiro dia de trabalho, a frase com a qual ele passou amoldar a sua vida: “Você vai errar, mas, contanto que seja ousado, erre mais.”

Ouse, a regra que tomou para si em todos os trabalhos que realizou. Ouse, o verbo que dita as suas decisões ate hoje.

A pequena H teve apenas um homem-garoto antes dele. Vivia a histeria impregnada numa Lolita: num minuto, o mundo parece perfeito, no outro, uma desgraça; num instante, pensa em se jogar pela janela, no outro, ama tudo e todos a sua volta.

Uma inconstância hormonal que transforma as ninfetas em surpresas fascinantes, intrigantes, excitantes; pequenos furacões que se dissipam e largam para trás o céu claro.

Foi a primeira com quem ele foi para a cama depois de uma década casado e fiel.O cheiro mais doce de todas as mulheres. A inexperiência compensada pelo fogo.Um corpo atrás de aprendizado e consumo. Já escrevi uma vez: “Transar com uma ninfeta e como nadar numa piscina em dia de chuva.”

Ela não sabia nada, mas queria tudo.

Os pais apoiaram a relação incomum, já que ele era uma ancora de confiança para a garota a deriva. A família e amigos dele o condenaram: é uma criança; idade da sua sobrinha; vai fazê-la sofrer; o que você ganha em troca?

Só sexo? Claro que não. H lhe fazia bem.H curava as suas queimaduras.H dormia abraçada. H mostrava novas bandas, baladas, bares.H tinha uma ética e bondade,talvez fruto de uma pureza contaminada pela inocência, que contrastava com o mundo em volta.

Ele a ensinou a dirigir. Ia buscar na faculdade de Belas Artes. Levou aos melhores filmes. Tirou seu passaporte.Foram juntos para Nova York. Comeram nos melhores restaurantes. E ensinou a gozar.

O tempo passou. Um mês. Um semestre. Um ano.

Por vezes, H o envergonhava, especialmente numa roda com os amigos dele, em que ela falava uma bobagem digna da idade, diante de casais que, nos bastidores, desdenhavam a situação.

Suas expressões divertiam todos: “que fofinho”;“que uó”; “tipo assim...”; “sussa”. Suas opiniões eram radicais: ou tudo era lindo ou nojento.

Como uma pequena Maiakovski (“vosso trigésimo século ultrapassara o exame de mil nadas, para que o pai seja pelo menos o Universo, e a mãe pelo menos a Terra”), queria revolucionar o mundo, mas não sabia exatamente como furar o bloqueio da opressão.

Claro que um dia a verdade apareceu. Ele sentiu falta de alguém mais maduro, com as mesmas experiências. Apaixonou-se por uma advogada. E teve de cortar as asas de H. Afirmou, com convicção, que ela era linda e incrível, mas que não daria certo.

“É a diferença de idade?”, ela perguntou. Ele nem precisou responder. “Quem sabe quando você tiver 30 anos, a gente recomeça.”

Ela foi profética: “Você nunca vai encontrar uma mulher que o amou tanto quanto eu.”

Ele se casou coma advogada. Durou quatro anos. Se casou com uma jornalista. Durou dois. Se casou com uma atriz. Durou um. H deu para todos os amigos e os dele, se casou com uma guitarrista de uma banda punk,namorou uma cantora da MPB, se casou com um cocainômano, caiu de bêbada em todos os bares, abriu negócios que faliram, engordou, emagreceu, perdeu o pai, a mãe se mudou para Brasília, viveu com amigas e amigos.

Nunca perderam o contato. Nunca deixou de visitá-la nos aniversários dela. Nunca deixou de dar conselhos e carinho. E sempre se lembravam do pacto rindo. Que se cumpriu 13 anos depois.

Ambos estavam em sintonia; na mesma ressaca de recentes separações. Foi por acaso que ele ligou, e ela propôs: “To com fome de você. Vamos dormir juntos?”

Chegou à casa em que ainda havia objetos de decoração que ela dera no passado. Dormiram na mesma cama em que tantas vezes transaram.

A intimidade daqueles corpos mais gastos era a mesma. E se ela antes tinha dificuldades para gozar, agora dominava o descontrole e controlava seu prazer. Ainda uma ninfeta num corpo moldado pela idade.

Dormiram três noites seguidas. Ela sugeriu receitas para a nova empregada dele na terceira manhã. Perguntou se poderia levar alguns travesseiros, pois aqueles eram “uó”.

Mas nada de final feliz. Ela viajou para Brasília no Dia das Mães. Não ligou quando voltou. Ele esperou uns dias e perguntou, por torpedo, se ela não voltaria nunca. Ela não respondeu. Por que?

Ela não saberia a resposta. Descobriu que o passado passa. E ele aprendeu que é importante que passe, pois também nunca mais a procurou.

 

Marcelo Rubens Paiva

 

Retirado de Trapiche dos outros

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publicado às 21:04


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