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Conto - Herança

por Jorge Soares, em 11.07.15

Era bonita a comoção do pai antes da última frase do diálogo: “O importante é você ser feliz”. Ele pronunciava “filiz” lenta e enfaticamente — o que deixava o momento mais carinhoso e intenso.


Maria presenciou aquilo várias vezes. O homem sempre rijo, respeitado e poderoso desabava em sentimento ao lidar com as delicadezas existenciais da filha. Ao orador nato, prolixo e convincente, por vezes faltaram palavras diante dos pleitos da moça.

Quando ela contou sobre o primeiro amor, a situação foi decerto tensa. Seu Oliveira não esperava a notícia. Foi surpreendido pelo desejo de namorar de sua menina. A fala saiu meio atropelada, discurso improvisado de susto, rigor, tristeza, preocupação: “Não pense que vai ficar saindo com esse garoto toda noite. Moça de família não chega tarde nem fica na casa de namorado. Não se iluda muito. Você é romântica, inocente; ele poderá magoá-la. Não seja tão transparente nem se deixe levar por conversinha mole”. Ao final do sermão, ele soltou o que a menina, aos 15 para 16 anos, queria ouvir: “Vocês podem namorar, mas sem excessos. O importante é você ser filiz”.

O pai tinha razão nas admoestações prévias. O namorico durou quatro meses, e a paixão dela pelo frangote continuou por mais dois ou três invernos: ela implorando para reatarem, recusando relacionamento com outros rapazes, negando beijo, escrevendo cartinhas lacrimosas e se humilhando, como se o primeiro rabicho merecesse crédito ou padecimento.

Quando, aos 21 anos, Maria se formou na faculdade e foi comunicar ao pai que logo ficaria noiva do namorado gente boa — porque, afinal, ambos já tinham concluído o curso superior e estavam empregados —, Seu Oliveira demonstrou preocupação: “Você vai casar só por isso? Só por terem terminado o ensino superior e por trabalharem fora? O motivo é fraco. Não justifica. Você só deve casar pra ser filiz”.

Ela entendeu o recado. Tão simples! Faltava amor. Pelo menos para assumir um matrimônio. Ela não precisava se casar ainda. Não amava o suficiente. O namoro já durava três anos, era legalzinho, mas aquele bom moço não cabia no plano da felicidade... Necessário esperar a paixão ardida que transbordaria e exigiria presença, cumplicidade, drama, comédia, suspense, entrega, desassossego, desejo de eternidade. Maria deveria se espelhar na história de seus pais, lealmente unidos há décadas, convictos da escolha acertada.

Antes de adentrar a igreja com a filha, Seu Oliveira teve a chance de repetir que aquele seria um dos passos mais importantes da vida dela, senão o mais decisivo: “Ainda dá tempo de você recuar, se quiser. Você só deve ir adiante se o principal objetivo for a legitimação da sua felicidade”. Quando Maria reafirmou que aquele era mesmo seu desejo, que o noivo no altar era quem ela desejava para a vida toda, o pai abriu um sorrisão emocionado, deu o braço para a filha e deixou o cerimonialista abrir a porta do santuário.

Enquanto viveu, acompanhou grande parte dos arbítrios da filha — nos estudos, carreira e vida pessoal. Seu Oliveira tentou agir de forma equilibrada — ora com tom professoral, ora brincalhão, às vezes autoritário, às vezes condescendente, ora superprotegendo, ora incentivando a criatividade e a independência dela no enfrentamento à vida. Claro que houve excessos e negligências; afinal, a educação dos filhos é um constante avançar rumo à tradição e um volver à vanguarda, num processo sempre desregrado e sem mensuração de eficácia. E quem canta a felicidade não consegue ser comedido no amor!

Talvez mesmo por isso, a grande máxima de Seu Oliveira não há de perder jamais a magnitude e ternura. Vai resistir pra além da história de Maria, de seus filhos e netos. A voz embargada de saudade vai pra sempre ressoar aquele lento e enfático “O importante é você ser filiz”. 

 

Maria Amélia Elói

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:18

Conto - Liberdade

por Jorge Soares, em 06.06.15

mulher.jpg

 

Imagem de aqui

 

Numa visita íntima em presídio — nem privativa nem romântica, rápida e explícita, indigna do amor, imprópria para o prazer —, pegou menino. Fez um barrigão redondo e brilhante, lindo de se ver. Era a segunda criança dela concebida em contexto francamente infecundo.

Quando lhe perguntavam sobre o marido, ela baixava os olhos:

— Tá lá ainda.

— Sai quando?

— Depende do juiz.

 

Carlos assazonara Renilda fora da estação, na despedida da infância dela, quando o alto-relevo dos verdes seios começava a despontar sob a malha fina do uniforme do colégio.

 

A menina adolesceu mulher incompleta, com sabor prejudicado. Granulou à força, aguada, acuada. O sexo virou costume antes do encanto das mãos dadas, antes do olhar que precede o beijo. E por não saber sequer sonhar, a menina não teve escolha nem fez objeção: cedeu ao absurdo.

 

Quando aliciou a menina, ele tinha 26. Era homem arrematado, mais vício que virtude, mais rudeza que cortesia. Renilda foi aceitando a relação por medo, inocência, conformismo, falta de escolha (?) e tomou dó de si mesma. Fazia parte do imaginário coletivo: toda mulher estaria segura ao lado de um homem.

 

Renilda atendia o marido porque ele assim exigia e porque ela não queria culpa. Levava frutas, biscoitos, sabonete e também o próprio corpo — em caso de permissão oficial para as intimidades. Raramente carregava a filha, com receio de que aquela imundície pudesse contaminar a pequena de alguma forma.

 

Não sei com quem Renilda aprendeu tanto carinho, tanto zelo. Era uma mulher pobre, órfã, condenada a um homem preso, grávida do cafajeste pela segunda vez. Por que tão apta para o amor?

 

O marido desconfiava dela e lhe cobrava fidelidade, como se Renilda fosse capaz do contrário. E lhe ordenava presença, sem aceitar desculpa. Outro dia, mesmo com o bebê ameaçando romper prematuro, ela foi ao encontro do maldito.

 

Cada visita à penitenciária significava falta ao trabalho. Prejuízo também para a patroa de Renilda, que dependia de seus serviços domésticos. — Largue esse homem, menina. Traficante não vale nada. Dê-se ao respeito — dizia a chefa. A empregada pedia perdão, compensava as horas não cumpridas e repetia a transgressão trabalhista.

 

E nasceu Carlos Júnior. Saudável, calminho, fofo da Silva Santos. Renilda sentiu aquela paixão ardida de novo. Um bebê em casa! Mais gastos, mais cansaço, mais problemas, mais pobreza, muito mais amor. O sentimento pela primogênita também ganhou amplitude: a mãe de 24 anos e a filha de 9 passaram a compartilhar a maternidade de Juninho. Cumplicidade que dava gosto! O lar agora estava completo.

 

Só que a pena foi integralmente cumprida. Carlos voltou a casa para degradar a harmonia da rotina. Não sabia nada de equilíbrio nem de paz familiar. Nem parecia interessado em aprender.

 

O trabalho aumentou sobremaneira com a chegada do ex-detento. Era mais roupa pra lavar, mais vasilha suja, mais humilhação. E a mulher tinha de se deitar com ele. O tormento das visitas íntimas era revivido cada vez que ele a tocava. Por mais que Carlos se lavasse, mais cheiro xadrez aquele corpo exalava.

 

O homem retomou rapidinho o serviço. O comércio de drogas continuou descarado, dentro de casa mesmo. Várias vezes, ela viu o marido molestar mulheres viciadas: as coitadas pagavam a droga como podiam. Ela consentia tudo, em silêncio. Não haveria redenção? Pingou mais dinheiro para o mercado, mas Renilda vivia apavorada, com presságio de morte. Foi demitida do emprego. O temperamento de Júnior mudou rapidinho. O anjo tornou-se agressivo e chorão. Acordava à noite gritando, denso de sonhos ruins e xixi. As notas de Tatiana baixaram por causa de desconcentração e tristeza.

 

Cinco meses de inferno nível máximo! Saudade de ser mãe solteira. Vontade de ser viúva. Mas a mulher resistia com paciência e serenidade, rezando por possível recondução do marido ao presídio. Faltava só coragem para denunciá-lo à polícia.

 

Foi quando ela viu, pela fresta da porta, a intensão do olhar de Carlos sobre Tatiana. Nojenta e insuportável intenção! Com saliva de lobo, ele observava a tenra ovelhinha. “Vai violar a filha em breve” — apavorou-se Renilda.

 

Escondida no banheiro, a mulher chorou. Doeu-lhe a infância arruinada, a frustração da espera, a verdade da própria história e o futuro dos filhos. Pesou-lhe toneladamente o desespero da desgraça.

 

E assim, mais desprotegida que nunca, apoderou-se de súbita esperança. Que ninguém contradiga a teimosia da vida! Sem que o diabo notasse, aprontou a mala, abriu a cela e partiu com os filhos.

 

Maria Amélia Elói

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:13

Conto - Sem cabimento

por Jorge Soares, em 07.03.15

Imagem minha do Momentos e olhares

Era um amor que ofendia.

Incomum, genuíno, esdrúxulo, amoroso demais. Insultava porque ninguém, até então, pudera vivenciá-lo. Nem houvera quem sonhasse experimentar algo assim.

Quem acreditaria num amor daquele jeito, que aceitava carinho amizade conversa carícia atenção cumplicidade respeito amor bem-querer harmonia alegria esperança, sem traição, ruptura, nem desejo de fim? Quem creria naquele absurdo de amor?

Só podia ser farsa! Tal espécie de sentimento — se existisse mesmo — não moraria naquelas redondezas. Não ali, bairro de desamados, órfãos, viúvos, analfabetos desmatriculados na escola do gostar. Não ali, onde os pares não combinavam. Não ali, onde namoro, noivado, casamento e divórcio eram desencanto e só tendiam a ofensa, miséria, negligência, fracasso, desgraça. Não ali, onde as famílias se desmanchavam num estalo, sem nunca haverem de fato se constituído. Não ali, onde as mulheres apanhavam dia a dia, às claras, e sempre serviam aos homens; e esses machos, também mal-amados, alimentavam-se de seu próprio prazer egoísta que nunca saciava. Não ali, onde as crianças nasciam da violação e, sobreviventes, iam se nutrindo da falta de zelo, dos maus-tratos humanos e da misericórdia divina.

Mas era um amor que teimava.

João, 32, e Aline, 34, simplesmente decidiram apostar na loucura. Um homem e uma mulher que resolveram se despojar da realidade que conheciam para fundar um amor destemido, sem cobrança de resultados. Caminheiros de mãos embaraçadas, comparsas nas tarefas domésticas, beijavam-se nas despedidas e reencontros diários, olhavam-se, reparavam um no outro, abraçavam-se em público, namoravam com profundidade.

João aceitou o enteado como filho e lhe dedicou caridade. Perdoou Aline pelo passado infeliz do qual ela fora vítima. Afastou-se das mulheres todas com quem se deitara, até mesmo das ex-esposas. Aline acolheu sogra e marido da sogra, ajudou no tratamento da esclerose e do Alzheimer senis, suportou a falta de dinheiro, o lazer quase nulo, o transporte coletivo de cada dia, confiou na palavra de João.


Foram solidários nos desempregos e abortos espontâneos, nos despejos residenciais, nas derrotas esportivas, enchentes, incêndios, batidas policiais, falta d’água, apagões e silêncios. Juntos, livraram-se da cana e da coca. Esforçaram-se pelo interesse mútuo, pelo diálogo e harmonia familiar. Ajoelharam várias vezes, em oração contrita. Adotaram três crianças e se empenharam em educá-las com atenção e amor. Formaram um lar em que eram felizes, em que a individualidade era estimada, assim como o bem comum. E não deixaram vizinhança nem familiares interferirem na engrenagem de seu amor. Usaram até mesmo o tempo em seu benefício. Envelheceram juntos e — mais que fiéis — leais à história que construíram. Inauguraram uma nova era, vencendo o desamor que imperava. Sem humilhações nem lisonjas.

Tendo assombrado no começo, aquele amor — estranho, de tão verdadeiro — passou a contagiar. Ano a ano, década a década, foi inspirando vários relacionamentos. Pretendentes a namorados se propunham, esperançosos: “Vamos amar como João e Aline?”. Muitos ousaram acreditar e fazer bonito em suas relações sentimentais.

Era um amor que arrastava.

Quando João se foi, de infarto, neste fevereiro, aos 73 anos, a comunidade se uniu para chorar com Aline. Ninguém acreditava que um amor assim, tão poderosamente revolucionário e transformador, pudesse chegar ao fim.

Mas é um amor que não morre.

No velório, Aline acarinhou o rosto do companheiro como sempre fizera e segurou as mãos dele com a mesma certeza de que se reencontrariam em breve. Guardou seu próximo beijo para a eternidade.

Maria Amélia Elói 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:24

Conto - É assim que se ama

por Jorge Soares, em 03.01.15

 

É tanto caso de amor carecendo de estudo e compreensão, precisando de um fim! É tanta gente por aí que merece análise, hospício e piedade — porque não sabe gostar direito, porque só sabe adorar de um jeito! E a cura não vem: continua esse negócio de amar varejando a humanidade por atacado.

 

Por exemplo, conheci um homem que só se relacionava com mulheres de um metro e cinquenta e dois. Passasse ou faltasse um centímetro, não servia. Claudionor não era baixote, não: contava com vinte e cinco centímetros excedentes (pra cima, pros lados e pra frente, às vezes). Chegou a tentar namoro com uma bonitona de um metro e sessenta — mulher correta, pra noivado e casamento —; mas, na primeira investida íntima, broxou feio. “Só me encaixo bem com as de um ponto cinquenta e dois” — argumentou. E nunca mais aceitou lidar com outra estatura, nem na cama nem nos bailes da cidade. E tinha muita grandona suspirando por ele, viu? Claudionor quase se casou com uma amiga minha que estava dentro dos padrões, mas um probleminha de cifose curvou a coitada em dois centímetros, e o matrimônio foi cancelado. Marcília chegou a fazer sessões de Reeducação Postural Global (RPG) pra voltar ao prumo e reconquistar o noivo. Mas ficou mais ereta que deveria, e Claudionor não perdoou a esticadela exagerada.

 

Já uma amiga de infância se perdia toda era com os homens acneicos. Os garotos de pele lisa não a atraíam, mas quando ela avistava um belo rosto erodido em espinhas maduras ou então bíceps estrelados de cravinhos negros, Magdinha perdia a paz, endoidava. O conselho da mãe e das irmãs mais velhas era que ela não se desse por completo no primeiro nem no quinto encontro; só depois de um mês, por aí. Mas Magdinha não se continha. A expectativa de um pós-sexo com direito à espremeção exaustiva de cravos robustos (que saíam redondos com o forçar de suas unhas finas e deixavam buraquinhos limpos prontos a se encher de nova massinha extirpável) era mais forte que tudo. Ela se sujeitava a beijos, esfregas e a qualquer tormento venéreo para poder, enfim, satisfazer-se na limpeza de pele. O problema é que homem é bicho mole e odeia beliscos e apertos. Nenhum suporta ser espremido sem reclamar, sem se escafeder pra todo o sempre. E a solidão espinhenta se repete sempre na vida de Magdinha.

 

Os casos são absurdos e disparam. Sem muito esforço, eu contaria centenas — na vizinhança, na família, nos amiguinhos do facebook, dentro de casa! Um conterrâneo só namora mulher de nome esdrúxulo. Seu coração bate forte quando conhece uma garota que certamente sofreu bullying durante a chamada diária da escola. Já pegou a Maligna do Céu Eterno, a Betoneira do São Cimento, a Desbotada Coradina e até a Adenoide da Amídala Alérgica! Talvez por se chamar João Sá — e só —, necessite dessas ousadias pra se preencher. Mas se recusa a ser fiel, porque os cartórios são fortes em registrar criatividades.

 

Você também deve conhecer uma garçonete que só beije piloto de avião, um maratonista afegão apaixonado por cabeleireiros chineses, um engenheiro que só caia de amores por mulheres fora do esquadro, uma cantora com mais de trinta que só embarrigue de malandro menor de idade ou de gagá playboy...

 

Eu, por exemplo, figura sem doce nem história, pessoa sem encanto ou serventia, me apaixono por todo leitor que elogie a minha escrita, por qualquer um que ao menos suporte me ler. Só de imaginar essa atenção e carinho vasculhando-me as sandices, já estou cá morrendo de prazer, ávida por me deitar em novas páginas. É só deste jeito que sei amar: em leito de palavra faísca.

 

Nenhum amor é ordinário. Basta calhar pra se tornar extraordinário! -

 

Maria Amélia Elói

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:47

Conto - Recruta

por Jorge Soares, em 28.06.14

sedutora

 

Não estava em seus planos apaixonar-se. Desde a separação, há oito anos, só pensava em cuidar dos filhos e honrar o estável cargo público. Tudo caminhava bem, sem rebolados, desvios ou cambalhotas. Nunca mais dera gargalhada. Um sorriso magro era suficiente. Nunca mais saíra dos trilhos. Descarrilar era para cambetas. Bastava ir naquela direção, firme e sempre — para esquivar-se de eventuais escorregos e desastres.

 

Margarete era assessora de imprensa. Preparava clippings, contextualizava para a chefia os fatos mais pertinentes, agendava entrevistas, escrevia releases. Bem informada, a criatura. Lidava com gente de todo o naipe, peneirava declarações, sintetizava casos emblemáticos. 

 

Conhecia bastante da vida alheia, mas procurava reservar-se. Gostava de novidade, mas não queria virar notícia. No gabinete, pouco falava de sua vida pessoal.

 

Seu lema era manter a objetividade jornalística e a discrição pessoal.  O casamento aconteceu de forma planejada, com um namorado da faculdade. Durou até bastante: doze anos. E acabou sem grandes sofrimentos, amor já mirrado. Desde então, optou por não mais se iludir com promessas de afeto. 

 

Era comum nutrir admiração por homens com quem convivia. Porém, quando ela sentia a iminência de uma paixão, tratava de podar o sentimento logo na cepa para que a decepção não frutificasse.

 

Margarete só não contava com um novo estágio em sua vida. Naquele bendito agosto, foi contratado pela assessoria de imprensa do tribunal o jovem Márcio, que cursava o penúltimo período de jornalismo na Universidade de Brasília. A vaga foi concorrida: oito estudantes pleiteavam o emprego. Márcio desbancou os concorrentes pela escrita clara e desenvoltura. Redigiu, à queima-roupa, um texto interessante sobre a crise dos Três Poderes no Brasil. Além de cultura, o rapaz demonstrou disposição, simpatia e a maior das virtudes: uma boniteza linda de arder.

 

Contratado com louvor, o candidato perfeito passou a cumprir vinte horas semanais de estágio remunerado. Enquanto aprendia jornalismo, Márcio cativava, seduzia, enlouquecia Margarete, num vertiginoso crescendo. 

 

Os colegas notaram a diferença: a mulher renovou, perfumou-se, desembestou a rir alto, passou a falar de si como que a exigir elogios. Estava timbrado em sua testa: APAIXONADA. 

 

A diferença de idade seria relevante para o belo foca? A incerteza atormentava a chefa. Queria se declarar logo para o moço e confessar que ele lhe trouxera novas cores e que aquela paixão fulminante não cessava e que aquilo estava muito errado, mas que ela não podia perder a chance da grã-felicidade. 

 

Enlouquecida pelo estagiário! Poderia haver situação mais ridícula para uma respeitável servidora pública? Só crescia o medo de ser enjeitada pelo jovem atlético, espetacular. Ao mesmo tempo, o desejo de conquistar o estagiário movia e dava sentido a cada respiração de Margarete — uma mulher de 44 anos completos e não privada de beleza.

 

Foi num final de expediente, em sexta-feira de entrevista coletiva, que Margarete cercou Márcio. A repartição já estava vazia, e ela considerou o momento inadiável:

 

— Você é o melhor estagiário que já tive.

— Bom saber. Eu me esforço bastante.

— Tenho sonhado com você, Márcio.

— Espero que não seja pesadelo

— brinca, mostrando aquele sorriso.

— Você me acha velha?

— Claro que não. 

— Feia?

— Nada disso. Você é muito bonita, chefa. E inteligente.

— Topa sair comigo agora?

— Opa. Demorou.

 

Márcio encarou a situação com naturalidade e acompanhou Margarete. Ela dirigia o carro tremendo — de febre, comichão... “Será que devo avançar?” Durante o caminho até o Parque da Cidade, a mulher emudeceu. Pensou em retroagir. Não sabia se o encontro resultaria em graça ou desgraça. “E se Márcio for virgem?” — pensava, em estado de choque. “E se zombar de mim?”.

 

Ela parou num dos estacionamentos do parque, debaixo de uma árvore frondosa. Tentava manter a calma; mas estava pálida, doente de angústia. Perguntou se ele gostava de verde, se amava Brasília, se queria mesmo trabalhar como jornalista. Ele respondeu positivamente, com uma doçura inacreditável, a boca rogando um beijo imediato.

 

Se Márcio a repeliu? Não, muito pelo contrário. Agarrou Margarete como ela assim desejava: demorado, quente, com conhecimento de causa e sem pudor. “Como pode um garoto de 20 anos com uma pegada dessas?” — suspirou, boba de tão feliz. 

 

Vendo os olhinhos virados da chefa, Márcio ousou mais, com brincadeiras de amor criativas e carícias pontuais. A assessora de imprensa se desmanchou, permitindo tudo, sem hesitar. Cheia de esperança, paixão, encantamento, completamente desbussolada, Margarete deixou-se amalgamar ao corpo hercúleo de seu jovem aprendiz.

 

Ele se comportou de forma gentil e delicada. Não delatou o ataque nem menosprezou o sentimento da patroa. Propôs a Margarete — por que não? — um encontro por semana, em sigilo, onde ela desejasse. 

 

“Será que é verdade?” — delirava a quarentona, sentindo-se desmerecedora de tão insólito e apetitoso enredo.

 

A jornalista bem que tentou, mas não conseguiu disfarçar a doentia preferência pelo discípulo. Percebeu um ou outro olhar de repreensão e despeito de alguns colegas. Mas e daí? Quem nunca se apaixonou e, por conta disso, deu bandeira, vacilou? 

 

A relação acabou abrupta, com o fim do estágio profissional de seu amado. Foi um adeus embargado, dolorosamente necessário. Margarete abateu-se, mas sem desespero ou desejo de morte. Aprendeu muito com a história vivida. Aulas práticas de vaidade, confiança, autoestima, superação, feminilidade, prazer... A mulher desprezível ficou pra trás e deu lugar a uma criatura em constante descarrilamento. 

 

No seguinte processo seletivo de estagiários, o escolhido foi Raul. Não tão belo, não tão jovem quanto Márcio; mas também interessante e vigoroso. 

 

Desta vez, a iniciativa não foi da chefa; mas do novato, que, em menos de um mês de trabalho, já a convidava para um programa romântico na Ponte JK. Ela bem que achou graça daquele assédio ao contrário.

 

À saída de um motel, no Núcleo Bandeirante, os dois foram surpreendidos por um assaltante de capuz encardido e arma brilhante graúda. O delinquente entrou no carro como demônio.  Ainda haveria muitos deliciosos estágios a viver, mas a bela assessora de imprensa foi friamente abatida nos braços de Raul. 

 

No exato momento do tiro, o celular de Margarete assobiou: era Márcio disparando pra ex-chefinha um recado carinhoso pelo WhatsApp: “Saudade”.

 

Maria Amélia Elói.

 

Retirado de Samizdat

 

 

publicado às 21:20


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