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Conto - A surpresa

por Jorge Soares, em 17.01.15

asurpresa.jpg

 

 

    – Deixa a ponta solta.

 

Deixa essa ponta solta, repetiu a mulher vestida com panos escuros.

 

A ela tinham-na vestido com tecidos garridos, as mesmas mulheres que lhe tinham dito que amanhã iria ao mercado da aldeia.

 

Uma delas veio compor a fita, e a ponta ficou pendendo disfarçada numa dobra do tecido. Era um pedaço de cabedal ou imitando, do que teria sido um cinto. A mulher vestida de negro aquiesceu:

– Isso. Deixa-a, assim, solta.

 

E aproximou-se como se fosse contar-lhe um segredo.

 

Fátima sentiu-lhe até o bafo.

Sentiu-lhe os lábios grossos, muito grossos e encarnados, quase a roçarem-lhe o lóbulo da orelha que sobrava por debaixo do lenço.

A mulher apertou-lhe a mão por cima do pano colorido.

Um pano com manchas vermelhas e azuis e com bolas em amarelo canário, entremeando.

A mulher agarrava-lhe a mão e deslizava-a por baixo do tecido, e assim, pretendia mostrar que, com a ponta solta, bastavam dois dedos.

 

As mulheres tinham-lhe dito: vais levar uma surpresa ao teu tio Pedro.

Levas a surpresa bem presa no teu corpo, tinham elas acrescido.

 

E que puxasse a fita apenas quando chegasse junto da bancada, tinham repetido, isso, uma vez e outra. E no entanto, a falar baixíssimo, os lábios gotejando humidades sobre o lóbulo da orelha que assomava debaixo do lenço colorido, a mulher vestida de negro ainda indagou, apenas como se afirmasse certezas desejadas:

 

– Sabes como fazes, não sabes?

Mas nem esperou resposta.

 

Na sala diminuta estavam a mulher de negro, e a mulher que tratou de fazer com que a ponta ficasse solta, e duas outras mulheres acocoradas como rolos de tecidos por ali jogados; e, além delas, dois homens permaneciam hirtos, de pé, junto à única porta.

 

As mulheres tinham dito: eles depois levam-te.

Fátima percebeu que seriam aqueles.

Fátima vestida com panos de cores garridas como nos dias em que ia ao mercado da aldeia com a mãe e as tias e os primos e primas.

 

 

***

 

 Ela não tinha respondido, mas sabia muito bem como devia.

 

 As mulheres tinham-lhe dito. Tinham-lhe explicado e repetido enquanto a vestiam com panos garridos e juravam que sim, que ela comeria frutos. Mangas e papaia. Talvez tâmaras se já as houvesse.

 

Vais fazer uma surpresa ao teu tio Pedro, tinham-lhe elas explicado.

E Fátima foi com os homens por caminhos e estradas.

Aos balanços do carro, a prenda do tio incomodava-a. Magoava-lhe o corpo sobretudo do lado direito onde tinham deixado uma ponta solta.

Ela sabia que só devia puxar quando estivesse na bancada de frutas. Lá, onde deixaria a surpresa que levava agarrada ao corpo.

As mulheres tinham-lhe dito. Elas tinham-lhe dito e repetido.

 

Mas ainda assim, ela deve ter percebido mal.

Ou percebeu, mas atrapalhou-se.

 

Quando chegou, já o tio Pedro estava colocando frutas na bancada. Para que ele não a visse, para ser mesmo surpresa como as mulheres lhe tinham ensinado, escondeu-se por detrás de uma resma de cestas que estavam, por ali, empilhadas. 

 

Só então estendeu a mão e tocou a ponta solta. Tocou apenas e esperou um pouco como se estivesse ouvindo a voz das mulheres: pegas com força e puxas para baixo. Elas tinham insistido. 

 

Só depois puxou.

Mas qualquer coisa deve ter corrido mal.

Aquela dor que vinha sentido, do lado direito, mais ainda que do outro lado, tornou-se muito intensa e espalhou-se pelo corpo todo. E terá sido porque ela segurou demasiado levezinho. Ou porque terá puxado para o lado em vez de puxar para baixo. Ou ela teria até, desgovernada, puxado para cima.

 

O que quer que tenha sido, saiu errado, e o seu grito ressoou, e era como se todos no mercado estivessem gritando. Ou estariam. Ou era ela apenas.

 

Fátima não percebia senão que tinha sido um verdadeiro horror depois que puxou a ponta que as mulheres tinham deixado solta por baixo dos panos. 

 

Desfeita em cacos a surpresa que trazia para o seu tio. 

E no mercado um sururu ensurdecedor como se tudo se tivesse revirado debaixo dum céu toldado de vermelho e negro a fazer lembrar os dias em que os vizinhos e os pais faziam queimadas nos terrenos antes da próxima sementeira. Então, era um calor imenso, e nem assim tão grande como aconteceu mal ela puxou a ponta para que se desprendesse a surpresa que trazia para o tio. 

 

No tempo das queimadas, os meninos da aldeia ajudavam a manter o fogo longe das casas. Iam todos, ela e os irmãos e os primos, a bater a terra com vassouras feitas de ramos verdes. Tinha sido assim, antes de os terem levado. Dois camiões carregados com crianças raptadas da aldeia. Fátima ia com eles. Tinha sido muito antes de ter menstruado. Nem por isso criara corpo. Miudinha, sangrara uma vez apenas. O sangue a sair-lhe do corpo, e o seu nem era um sangue assim quase negro como aquele que agora se espalhava pelo chão do mercado.

 

Ou ela delira. 

 

Ou será a dor imensa que ela sente que a faz parecer que o mercado, todo ele, arde como era lá na aldeia em dias de queimada; que, como ela, tantos no mercado estão empapados no seu próprio sangue. 

 

Estará ela confundindo e nem o seu corpo estará a desmembrar-se, um braço e uma perna para cada lado como se dava com as lagartixas: cada pedaço do bicho ainda remexendo, cada bocado com a consciência que Deus lhe deu, dizia assim o Damião que era o sábio lá da aldeia.

 

Fátima que não percebe e nem consegue explicar o que fez errado.

Sabe que estragou a surpresa que trazia para o tio. Isso ela sabe, e está muito triste.

 

Maria de Fátima

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:25

Conto - Schadenfreude

por Jorge Soares, em 15.11.14

pernas.jpg

 

 

– Óptimo, óptimo …  

 

As palavras enrolam-se-lhe, pastosas, sob o efeito do antidepressivo que tomou empurrado por um gole de vodka com sumo de laranja.

 

– Óptimo! – ainda repete.

Maria Teresa tinha acabado de dizer-lhe, e ele tem necessidade de expfressar contentamento mesmo sabendo que mente, mesmo perante ela que sabe. Ainda assim, afirma, a compor melhor o quadro:

 

– Estou tão contente, tão feliz por eles.

E despede-se.

 

Frederico Esteves a baloiçar o corpo magro de um lado ao outro da sala imensa que é o estúdio onde vive. O meu tugúrio, como diz, por graça.

 

Maria Teresa tinha sido directa. Nem boa tarde, nem olá xuxu como ela gosta de tratá-lo. Atirou certeira: é apenas para te dizer que acabei de casá-los. Assim, sem mais delongas, e ele naquele: óptimo, óptimo, tão amaricado que, mesmo pela voz, mesmo ao telefone, se juraria dos seus gostos em matéria de género. E no entanto, ele diz de si mesmo num maneirismo repleto de trejeitos: eu não me assumo bicha, que querem... E jura que gosta é de mulheres. E a dizer assim, ri como só ele sabe, a cabeça ligeiramente descaída para trás sobre o ombro esquerdo, e a mão do mesmo lado a tapar-lhe a boca que propositadamente escancara em demasia.

 

Com que então, José Pedro tinha mesmo casado.

 

Frederico Esteves a remoer no que acaba de saber, senta-se no sofá, as pernas esticadas em cima da caixa que um dia encontrou num contentor de lixo. Trouxe-a para casa numa noite de copos. Recuperou-a ele mesmo. Nela guarda as bebidas além do stock da dispensa. Hoje, faltou suco de laranja, mas é raro, e Frederico Esteves despeja no copo o que resta na garrafa.

 

– Pois que sejam felizes – diz assim em voz que outros ouviriam se ali estivessem, e simula um brinde erguendo o copo no braço esticado para o ar da sala.

 

Que aquele consórcio lhe seja fonte de penas sem medida, pensa Frederico Esteves, como praga que rogasse, mas afasta de si esse sentimento, e emborca o copo de um só gole, e volta a enchê-lo com Vodka ardente.

 

 ***

 

Maria Teresa fez o que ele tinha pedido: quando os casares, por favor, avisa-me. E ela telefonou-lhe.

 

Tinha sido numa outra noite, e tinham jantado. Frederico Esteves chorara-lhe as mágoas daquela paixão, e ela tinha-o aconselhado. Que não dramatizasse, dissera-lhe a notária do alto de uns sapatos muito altos e muito encarnados. Era o seu aniversário e, não estando reduzida à amizade de Frederico Esteves, não lhe tinha apetecido senão ele para comemorar. Gostava daquele seu modo de ser abichanado. Dava-lhe gozo percebe-lo sofrendo pelo lado errado. E com ela Frederico Esteves sofria todo o seu sofrimento sem ensaios nem segredos, que Maria Teresa tinha aquele modo especial de o fazer ficar cada vez mais sofrido, cada vez mais um homem sem rumo e sem sentido, pequenino, perdido de si mesmo, angustiado, e ela deleitava-se a ouvi-lo, e consolava-o exacerbando-lhe os desgostos.

 

Tinham-lhe dito que era sadismo, mas ela achava que era mais a raiva de não ter o pénis dele, de não poder usá-lo. E detestava-o. Que ele sofresse fazia-a sentir-se num quase orgasmo.

 

Fora assim na noite dos seus quarenta e cinco anos. Frederico Esteves sofrendo pelo amor imenso que José Pedro nutria por aquela criatura esquelética e inculta, assim dizia ele da que seria muito em breve a esposa do seu idolatrado. Maria Teresa apressara-se a dizer-lhe: vai casar, está confirmado. E ele chorara de baba e de ranho.

 

Maria Teresa apressara-se a contar-lhe, como se apressou, ainda há nada, a dizer-lhe que os tinha casado.

 

****

 

– Nunca perceberei tanto gastar de tinta, tanta discussão a interpretar o que só poderia ter sido de um modo.

 

É Frederico Esteves remoendo o artigo que acaba de ler numa página do jornal que tem desdobrado sobre a mesa.

 

Está sentado na esplanada do cafezinho onde, por um costume de anos, passa as manhãs de domingo. Uma esplanada arrumadinha que se debruça, lá de cima, sobre o rio. Frederico Esteves gosta de gracejar dizendo que fica ali na hora em que os amigos, os de infância e muitos dos que ainda lhe restam, ouvem missa em alguma igreja. E acrescenta, impertinente: eu faço a minha consagração com um café bem quente e torradas que lambuzo em doce de cereja. Mas não diz que esse é o seu local de leitura dos jornais semanais, que ele não lê outros, e quase só lê a secção literária. No resto, passa os olhos nos títulos, ou saltita-os pelas linhas de uma notícia ou outra.

 

– Mais um a insistir na versão do Bentinho traído – tartamudeia Frederico Esteves olhando o rio que o sol pintalga de reflexos inquietos.

 

Os articulistas e os estudiosos da obra de Machado, preferem que a culpa tenha sido de Capitolina. Preferem isso, a darem um sentido novo à trama urdida pelo matreirice de mestre Assis.

 

Frederico Esteves sorri-se a imaginar como poderia ter sido com Bentinho e Escobar, e vem-lhe à memória a notícia que Maria Teresa lhe deu nem há dois dias. E nisto vai virando as páginas dos jornais, a ler apenas as mais gordas.

 

E surgem-lhe letras diferentes. Cegam-no, aquelas letras enormes, muito negras. Saltam da folha a dizerem-lhe: acidente mata jornalista e sua jovem esposa. E os olhos de Frederico Esteves cegam-se de lágrimas que eles já se desviaram para a linha debaixo onde as letras gritam acima do ensurdecer que é o silêncio da esplanada: José Pedro Reis e sua esposa mortos num brutal acidente.

 

Frederico Esteves não lê os detalhes ou as pequeninas lhe diriam que o casal ia em viagem de núpcias.

 

Morto seu amantíssimo José Pedro, e no entanto, não é um soluço, e nem um  choro o que lhe está acontecendo. É sim um riso, uma gargalhada sem pejo e sem remorso. Um rir genuíno que condiz com um imenso bem estar, enquanto as lágrimas lhe correm cara abaixo.

 

Morreram os dois.

 

Não lhe resta a quem tenha que dizer, insincero e cínico: que sejam felizes, e aquele ardor no peito, e aquele despeito, e aquele horror de não ter sido com ele.

 

Gargalhadas sonoras tremeluzem-lhe o peito e a garganta, saem-lhe pela boca, e o senhor da mesa ao fundo volta-se perturbado e curioso do rapaz tão despudoradamente hilariante.

– Boas notícias?! – atira-lhe o homenzinho a tentar apaziguar tanta euforia.

 

Frederico Esteves pede desculpas embrulhadas em gestos mudos, e decide ir embora. Afasta a cadeira evitando o ruído que seria o metal a rojar na tijoleira da esplanada: quadrados verdes e brancos, nota ele a arrumar os pertences que tem espalhados pela mesa. Ri ainda, mas apenas no silêncio prudente do modo como coloca os olhos e a boca, e no modo como se desloca, que parece ele que nem sente os pés fazendo pressão para que ande, primeiro na esplanada que atravessa de uma ponta à outra, e alguns olham, de dentro da sua pasmaceira de domingo, aquele homem tão contente: terá tido uma boa notícia, parece que pensam. 


Frederico Esteves a tentar desfazer o desarranjo que possa ter causado na quietude que é suposta numa esplanada debruçada sobre o rio numa manhã de domingo. Atravessa o salão diminuto que é o cafezinho, e sai para a rua, os pés sempre naquele desatino de o fazerem ir voando, e o peito num indecoroso sentir-se com o coração leve.

 

Frederico Esteves num bem-estar que não podia ter previsto ao ler a notícia da morte de José Pedro. E aceita aquele sentimento como dádiva de algum céu que ele nem sequer venera. Nunca mais ter que os ver. Nunca mais ter que os cumprimentar. Não ter que repetir o ardor imenso do ciúme, ou a dor incisiva da inveja que o sufocava de cada vez que os via, de cada vez que os visse: José Pedro e a esposa no restaurante, no cinema, em casa dos amigos que ambos frequentariam.

 

 

E liga para Maria Teresa.

Palavras de desgosto, é o que dizem um ao outro, e que Maria Teresa lhe encomende uma coroa linda, pede Frederico Esteves. Que está destroçado, ia dizer-lhe, mas contem-se, e ela jura que serão as flores mais bonitas no cemitério, e que não desespere, que se precisar dela, a chame em qualquer momento.

 

Maria de Fátima

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:38

Conto - Tinha uma pedra

por Jorge Soares, em 23.11.13

A Pedra

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Foi nos instantes imediatamente antes e durante de Feliciana se sentar na pedra.

 

Era um calhau igual a tantos que havia pela praia, não fosse destoar das restantes por ser tão lisa. E seria de ser batida pela água e pelo sol, sovada pelas ventanias que levantavam areias. Fosse de que fosse, era um pedregulho liso o que a acolheu como se de um verdadeiro assento se tratasse.

 

Uma poltrona rija e desconfortável, mas uma poltrona.

 

Estava o Outono quase a despontar e nem vivalma  pelo areal. Feliciana tinha por costume vir, assim, ao clarear do dia. Vinha em passeio, respirar o ar salgado, caminhar um pouco, tomar um banho se desse. Ficar tão só magicando a enterrar na areia morna os pés descalços.

 

Feliciana respirou fundo a sentir o perfume intenso do iodo. E, como tinha por costume, entreteve-se a apanhar cascas de búzios, conchas, pequeninos calhaus, pedrinhas soltas.

 

Enchia com essa tranquitana as algibeiras do vestido que trouxesse ou levava-as embrulhadas no regaço.

 

Feliciana que sempre achara curioso que tanto nesta vida fossem pedrinhas, umas mais soltas do que outras.

 

Pensara isso num dia em que descobriu, na estante, meio esquecida entre pastas e livros, a lousa preta onde aprendera a desenhar as primeiras letras, a mesma onde jogou  tanto ao jogo da forca.

 

Ontem a neta pedira-lhe: avó empresta-me a tua pedra, que era como Feliciana chamava à lousa, aquele rectângulo de xisto negro debruado a madeira.

 

E terá sido disso que naquela manhã Feliciana vinha cismando a andar na areia.

 

Cismava em como tanto de cada um de nós se produz em torno de pedras: ou que seja o material de que é feito o balcão onde fazemos as refeições, ou o tanque onde esfregamos a roupa – já não se usa, mas era dantes e ainda é assim em muito recanto do planeta e haja água e que nunca a energia se esgote ou teremos que tornar aos métodos das  nossas avós.

 

Feliciana cismando em torno das pedras da vida da gente que poderá ser a, assim designada, pedra nos rins ou na vesícula. Ou a alguém, por sina ou destino, cai-lhe uma pedra em cima. Ou subimos àquela pedra mais alta a escalar um monte. Ou fitamos o fim do horizonte numa falésia a pique sobre o mar.

 

E é também uma pedra a enfeitar o anel do bispo e o anel de fim de curso ou o anel de noivado.

Pedras no nosso caminho a cada instante, é uma realidade.

 

E Feliciana sorriu-se do que ia magicando, e lembrou-se do pedacinho de xisto torneado em redondo que em dias muito idos lhe servia de lápis: ela muito menina e agora o neto a imitá-la.

 

E, nessa sucessão de pensamento, Feliciana evocou as pedrinhas que compõem os mistérios de um terço.

 

Tantas pedras na vida da gente! balbuciou Feliciana e sorriu um sorriso triste, que ela já pensava em outras pedras que são metáforas que fazemos. Verdadeiros pedregulhos, essas.

 

E  indo nisso, caiu-lhe para o ombro a alça do vestido.  Aquele vermelho já coçado do uso. Feliciana gostava dele: a saia a roçar o tornozelo e as alças finas a segurarem um decote que quase lhe descobria os seios.

 

Ajeitou o pedaço de tecido e foi disso que a mão sentiu o montinho sob a pele. Foi no mesmo instante em que Feliciana descobriu a pedra lisa, quase cor de rosa, ou seria branca, ou seria de um tom claro de castanho. Uma pedra enorme que era quase um cadeirão a convidar que ela se sentasse.

 

E Feliciana sentou-se.

E a sentar-se, ela vinha já debruçada sobre o próprio corpo, quase a fazer uma argola na tentativa de ver o que seria aquele sentir estranho por debaixo dos dedos.

 

Apalpou e era como se fosse uma pedrinha mais saliente no meio das pedrinhas que lhe rolavam debaixo dos pés.

 

E levantou-se. E andou os passos, poucos, que a separavam da água deslizada sobre outras, muitas pedras. Pedras revestidas do verde e negro dos limos. Pedras a fazerem covinhas, a aninharem água transparente e a refractarem, enormes, delicados bichos multicores. E Feliciana foi saltitando os pés descalços sobre as rochas naquela maré vaza muito escoada e, nem que não quisesse, as lágrimas rolaram-lhe pelo rosto.

Ou nem terá sido mais do que a maresia a depositar-se na perle dela, igualmente pedrinhas infinitamente pequenas de sal dissolvido em água.

Feliciana acabada de perceber aquele duro no seu corpo, lembrou-se do poema.

 

Letra a letra, foi balbuciando cada verso.

 

No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

 

Depois, caiu-lhe um a um o cabelo, que nem ela o cortou, antes, e teria evitado que tivesse ficado aquele desastre. À pedrada, como a mãe dizia dos cabelos mal cortados. Se bem que nunca tenha percebido, porque chamavam assim ao cabelo muito curto, desarrumado na franja e no pescoço. Mas Feliciana percebeu que o dela foi ficando assim, tal e qual.

 

E colocou boinas ou um lenço. Ou nada, simplesmente.

 

E não fosse o sorriso dele a sorrir-lhe. Não fosse a voz com que lhe dizia, sucessivo, generoso: obrigada! pelo que quer que fosse ou sem ser por nada. Não fosse o rolar das pedrinhas do terço entre os seus dedos: uma conta e depois a outra, mesmo quando Feliciana balbuciava apenas palavras inventadas em vez das orações.

 

Não fossem as pedrinhas que trazia da praia embrulhadas na roda do vestido ou a encher algibeiras.

 

Não fossem os desenhos: isto é um cão, isto é uma flor, dizia ela ao neto.

 

Não fossem as pedrinhas, que era o que semelhavam ser os olhos dele. Os olhos dele tal e qual os olhos do neto que lhe pedia: avó desenha outro.

 

Não fossem os versos do poeta a lembrar-lhe: no meio do caminho tinha uma pedra, e a repetirem em outro verso, trocando apenas o local onde estava escrito o predicado.

 

Não fossem, esses e outros a taparem aquela pedra do seu caminho como se fossem flores, e Feliciana não teria ido.

 

Não fosse o veio branco sobre o negro do xisto, e o sem cor teria invadido a sua vida.

 

Não fosse, e ela não teria ficado manhãs inteiras longe da chuva que caía, ou do sol radioso, o líquido a escorrer lento, demasiado lento tantas vezes.

 

Feliciana, horas, dias, meses, a encarar o pedregulho.

Feliciana a balbuciar baixinho:

 

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho.

 

Maria de Fátima

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 20:46

Conto - Chapéu verde

por Jorge Soares, em 28.09.13

Chapéu verde

Imagem de aqui


..nem estava despida nem com roupas que se pudesse dizer a noite passada passou-a numa cama, ali dentro, dormida entre pacientes, entre aparelhos com sinais de luzes a dizerem se as tripas funcionam a preceito, se tem açucares e oxigénio em doses justas e os colestróis em níveis decentes.


    Ela vestia calças de ganga muito justas - azuis- e uma camisola verde a marcar-lhe as mamas, e tinha um blusão em cabedal castanho que descaía no braço da cadeira: coisa de corte duvidoso tal como as botas com tacão do tamanho do meu palmo bem esticado, num castanho semelhante ao blusão, que era mais um amarelo caca. 

 

   Dormitava quando me sentei. Eu a sentar-me a seu lado na cadeira que sobrava. Eu a medo: com licença. Eu com todo o cuidado e ela a remexer o corpo magro. Senti-lhe o cheiro que era um perfumezito sem destino em prateleiras que não fossem as de um qualquer supermercado.


   A mulher que tinha rimel nas pestanas e batom a cobrir-lhe os lábios - encarnado - não estaria ainda na casa dos quarenta, teria até muito menos, não fosse aquele leve traço - reparei que tinha um de cada lado dos lábios - e um plissado, ainda que suave, no canto dos olhos que ela manteve fechados apesar do ruído que troava no corredor feito sala de espera. Um corredor apinhado: doentes recebendo líquidos vertidos de saquinhos transparentes, caras de estar fartos, caras de estar doente, e havia-as, também, de quem está velho. 


    Os médicos esgravatavam por ali e os técnicos e os enfermeiros.


   Um relógio especado na parede assinalava, mudo, a passagem lenta, imensamente demorada, do tempo que pesava como se fosse um suor de trabalhos forçados, e seria dele que o ar semelhava pejado de maus gases - como custava respirar.

 

   Ela remexeu uma mão sem anéis nem pintura nas unhas e eu vi-lhe o relógio, uma coisa enorme com ponteiros a navegarem entre números escritos a vermelho sobre fundo azul. Estava parado nas duas de um qualquer outro dia que não este, que era meio dia e treze no relógio da parede.

 

   Natércia Pimentel, chamou a enfermeira e ela endireitou-se, abriu os olhos que eram enormes e de um azul de céu ensolarado, e ficou a agarrar a napa preta do cadeirão como se fosse a amurada de um navio de onde olhasse, incrédula, que a chamavam do cais.


   A enfermeira era tão bonita e tão menina, a olhar a mulher e a dizer: venha comigo.

 

   Eu sorri e ela piscou-me os olhos como a responder, e sorriu também, a afastar-se. Só então lhe vi o chapéu de feltro. Verde. Igual ao tom da camisola. Um chapéu que ela tinha enterrado quase até aos olhos.  Um chapéu a não deixar desvendar a cabeleira, a tapar, diria eu, um cabelo que seria em cachos de vermelho, ou em doirados, ou negro atado em duas tranças. 

 

   Assim pensei eu a olhar o chapéu da mulher colocado como se quisesse esconder.

 

Maria de Fátima

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:57

Conto, A visita da minha avó violante

por Jorge Soares, em 20.07.13

a minha avó violante

 

Eu que fui gerada depois da rádio, vi a televisão dar os primeiros passos, e uso com relativa desenvoltura este colosso da moderna comunicação que é a internet. Eu recebi a visita da minha avó Violante.

 

Podia ter sido assim, mas não foi.

 

Eu apenas imagino.  

 

Se não fosse minha avó Violante ter morrido nos seus frescos vinte e sete anos, seria hoje uma madura senhora de cento e muitos anos, e eu ponho-me a imaginar como seria se ela me visitasse um destes dias e pedisse, assim como se despercebendo de como o mundo tinha mudado:

 

– Pões-me água ao lume para um banho, minha filha?

 

Isto, se ela viesse passar comigo uma tarde, uns poucos de dias.

 

Imagino e falo-lhe, e imagino de novo como seria.

 

Para que ela fosse entendendo, ou porque, tanto quanto ela, eu estaria temerosa do que via através de seus olhos, dir-lhe-ia:

 

– Somos os filhos dos seus filhos e os netos de seus netos. Somos, como a Senhora, minha avó, descendentes daquele que ousou o sonho sentado nas galeras, preso nas grilhetas ou escrevendo com penas de bichos em praias ignotas. O que desvendou esse mistério que é o céu não ter presas em si estrelas como se fora bordado, mas ser afinal um vazio imenso onde as estrelas estão dependuradas a par de planetas e buracos negros e galáxias.

 

Um imenso campo de forças é onde nos somos uns e outros, havia de afirmar-lhe a provocar-lhe o espanto.

 

A minha avó Violante como seria outro que viesse com o conhecimento com que um dia se tivesse ido de doença, do coice de um cavalo, de um disparo ou de um mau parto; ou apenas pela degradação que é concomitante com o passar do tempo.

 

Como a minha avó, cada um deles ficaria pasmado e temeroso de ver gentes falando sem interlocutor, uns fones dependurados no ouvido, ou nem isso, que mesmo eu ainda os cuido de loucos falando sozinhos por todo o lado. E eu dir-lhes-ia, como me imagino a dizer a minha avó Violante:

 

– Avó, eles falam ao telemóvel.

 

E ela nem perguntaria: que é isso, filha?! que já minha avó se espantaria que eu tomasse para mim o dinheiro em notas, outras que não aquelas com que tinha comprado aquele tecido, o vestido verde que ela mesma costurou para levar ao baile. A minha avó a olhar as notas a saírem em buracos na parede. Seria legítimo o seu alvoroço e o seu espanto, e seria igual se fosse outro que tivesse vindo dos primórdios da revolução do carvão e dos barcos movidos a vapor, que já era espanto que chegasse esse fazer-se o ar quente em vez de braços de escravo ou alimária.

 

Tivesse minha avó vindo do tempo de onde veio, ou tivesse ela vindo do fulgor das campanhas de Bonaparte, e eu lhe diria de igual modo:

 

– Não digais de loucos aos que vieram depois que vós vos fostes, que cada uma dessas incomensuráveis, inimagináveis descobertas que fazeis e que tanto transtornam vosso sentir de outros tempos, estava já inscrita em cada um dos vossos sonhos.

 

E estou certa que ela me havia de sorrir e aquiescer que sim senhora.

 

Mas ainda assim lhe seria estranho, e mereceria crítica severa, o ruído e o movimento, e os carros, e as luzes que a deixariam tonta. E seria com mal-estar que veria frutas fora de época. E muito a desgostaria que fosse Verão em meses de ser o pico do Inverno, que se dessem por desapreciadas as estações do ano e desreguladas as colheitas.

 

Mas creio que, logo que lhe fosse dado esconjurar o medo, ela acometeria na rádio, na televisão e no telefone, seu humor de antanho como o faria na internet. E para isso, a levaria eu, de manso, passo a passo, a ver de cada um o encanto, mais que o susto que sempre se gera no homem face ao desconhecido.

 

Ela estranharia tanta novidade. É evidente que ficaria em desassossego, mas, sobretudo, lhe seria incongruente a pressa, a correria de vida, de cada ser humano. E sei que a veria a implorar aos céus que acalmasse os seus descendentes acometidos do pecado de querer controlar o tempo.

Sabedora do silêncio e da serenidade, sei que minha avó havia de pedir ao deus a quem tantas vezes implorou uma graça, que a salvasse desta grande provação que era ver o homem alienado numa corrida insana contra o tempo.

 

Minha avó Violante habituada à calma e ao raciocínio lento, como reagiria ela no mundo do telemóvel e do GPS, ela cujos olhos se teriam habituado à incomensurabilidade do Universo, deixaria que, curiosos, eles se passeassem pelas telas de um monitor ou de um tablet, e perguntaria, incrédula: que é issoe aquilo para que serve?

 

A minha avó Violante como se fora criança.

 

Sentar-nos-íamos numa sombra e, juntas, havíamos de recordar que estrelas e planetas e sóis e estrelas se regem de igual modo que a bola que cada um de nós, criança, atirou ao vidro da janela. E eu falar-lhe-ia de átomos e electrões, e da física quântica, e sei que a faria chorar quando dissesse que o homem que busca o como e onde do início dos mundos, também arrasa cidades com a cisão do átomo.

 

E, para sossega-la, iria passear com ela na margem de um rio, e falaríamos com gentes da poesia e da arte. E havíamos de escutar canções que ela acharia em tudo semelhantes às que um dia terá cantado. E, depois que tivéssemos percorrido a cidade grande, depois de cada novidade lhe ser apresentada, ou nem todas, mas as suficientes para que sentisse o temor e a grandeza, e a pequenez do homem a querer ser deus. Depois que ela me dissesse, e eu me espantasse disso, que tudo é relativo, tudo depende do ponto de vista. Depois que ela se apercebesse o que foi o futuro, com o cuidado que lhe viria de ter vivido cada um dos minutos de cozer o pão ou esperar um filho. Depois, ela havia de dizer-me do cuidado para que do sonho não resulte pesadelo. E eu havia de escutá-la.

 

A minha avó habituada a que lhe preparassem um banho morno numa banheira com pés em forma das patas de um bicho grande. Ou numa celha de madeira e lata situada, uma ou outra, mesmo no meio de uma sala.

 

Ela beberricando um chá de menta ficaria espantada que eu lhe tivesse o banho pronto no justo momento em que mo pedia, ou quase. E os olhos que, sei, seriam de um azul violeta quando os abria de espanto, ela os volveria para mim perguntando:

 

– Filha, a menina acha que vou meter-me aí dentro sujeitando-me a que reverbere mais água da parede e eu me afogue e queime?!

 

A minha avó Violante com o corpo ossudo coberto com uma capa de burel bordado com um largo capuz, havia de obrigar-me:

 

– Ora acabe com isso e vá buscar água ao poço e depois aqueça-a no lume. Faça como lhe peço, minha filha.

 

E eu havia de rir-me e ficaria agradecida que alguém me obrigasse a rolar o tempo a um ritmo tão lasso.

 

Se a minha avó Violante me visitasse.

 

Maria de Fátima

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:39

Conto, Margarida (ou seria Helena ou Graça )

por Jorge Soares, em 07.07.12

http://www.revistasamizdat.com/2009/09/margarida-ou-seria-helena-ou-graca.html

 

Imagem de aqui 

 

Dez horas


Fim de tarde


Chuvisco de começo de Outubro
Um ventinho quase frio e ela sem nem um casaco que lhe cubra o decote em bico que deixa ver os seios bronzeados, presos num sutiã de algodão com flores
Espera pelo autocarro – o doze que a deixará, como costume, em frente da pastelaria Pingo de Mel
Daí até ao apartamento, onde vive sozinha, são duzentos metros por um passeio de paralelepípedos cinzentos
Depois é a subida no elevador pachorrento: quatro pisos
Margarida (ou seria Helena ou Graça) mora no quinto andar de um prédio de renda económica nos arrabaldes da cidade
O prédio é pintado de verde alface e tem bandas rosa choque em cada um dos andares – catorze, ao todo
Margarida (ou seria Helena ou Graça) olha mais uma vez a rua no sentido que é suposto que surja o transporte, e encalha com os olhos de um rapaz, assim mais ou menos para sua idade, que cora e se apressa a poisar os olhos na pasta de couro preta que tem a tiracolo - um computador portátil, parece-lhe, e ela pensa: deve ser estudante de belas artes - e isso porque há uma escola, ali, depois do cruzamento; e, enquanto cogita sobre a mala, admira o ar frágil e doce do corpo do moço que veste um casaco de malha, o que ela inveja pois sente o ar fresquinho arrepiar-lhe os pelos dos braços e das pernas que traz destapados num vestido leve


Chega o autocarro
Sobem, uma a uma, as dez pessoas que estão na fila, em que ela é segunda, e o rapaz vai no fim, a seguir a uma mulher que leva ao colo um gato e não sobe porque, deve ser o que lhe diz o motorista debruçado para a porta, é proibido transportar animais sem que seja em gaiola; e a mulher aconchega o animal e desvia-se para deixar passar o ultimo da fila – o rapaz da mala de couro
Dentro do autocarro, Margarida (ou seria Helena ou Graça) vai sentada junto a uma janela ao lado de uma senhora idosa a quem disse: desculpe, antes de se sentar
O rapaz, com a pasta a encalhar em uns e outros, fica de pé junto ao banco onde está sentada Margarida (ou seria Helena ou Graça), que entretanto já fechou os olhos - ela nunca o quer, mas como de costume, vai adormecer
São muitas paragens, cerca de três quartos de hora de viagem

Três horas da madrugada
Ouve-se o barulho da chuva a bater no vidro da janela
Margarida (ou seria Helena ou Graça) acorda deitada numa cama

Não é o quarto dela - constata pelo cheiro e pela posição em que ouve o ruido da água: que grande carga de água, pensa ela, tentando ver, mas está demasiado escuro
Sente a seu lado um corpo que lhe toca o braço esquerdo com uma pele morna e lisa
Margarida (ou seria Helena ou Graça), totalmente nua, tenta recordar-se
Mas ela só se lembra de ter entrado no doze e ter fechado os olhos - terá adormecido, como era seu costume: e depois? que foi que aconteceu hoje?!
Ah!
Lembra-se do moço que entrou por último no autocarro - o mesmo que corara na paragem e trazia a tiracolo uma pasta de couro
Não tem mais nada em memória
O corpo mexe-se - a cama balança com o que será uma pessoa sentando-se na beirinha
Uma voz roufenha brama entre dentes
-Porra! Adormeci

É voz de homem - terá pensado ela ou nem teria tido duvida

Quem o sabe
Margarida (ou seria Helena ou Graça) percebe que, quem quer que seja, se veste, aos pés da cama

Faz um esforço para se mexer, para dizer alguma coisa - nem uma fímbria do seu corpo obedece

Adapta os olhos ao escuro, e percebe a pasta entreaberta
Diz de si para consigo: afinal não é um computador o que tem dentro


Mas não se irá aperceber, que o moço sai correndo pela escada com a pasta a tiracolo

Não saberá que ele leva na pasta um frasco transparente

Nem haverá quem lhe conte que, aconchegado como o gato que não seguiu no doze, embebido em conservantes, vai descer os cinco andares, apartar-se para longe, o coração, ainda pulsante, de Margarida ou seria Helena ou Graça

(ou Josefina ou Engrácia, Fielpina, Beatriz, Dolores ou Maria das Dores)

 

Maria de Fátima

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:24

Conto, Horizontes

por Jorge Soares, em 23.06.12
Horizontes

Imagem minha do Momentos e Olhares


Xavier Demóstenes deixa a avenida e percorre uma rua transversal

no passeio podem ver-se meia duzia de mulheres em passos de quem espera cliente: as meretrizes


é assim que Beatriz Cachola, a esposa de Xavier Demóstenes, se lhes refere sempre que o marido sai mais tarde do escritório: já vens das meretrizes, grita-lhe

e nem é verdade

mas Beatriz Cachola arregalando os olhos um nadinha vesgos, diz isso muitas vezes

Xavier Demóstenes está habituado

habituado, e farto


por ironia dos deuses, da janela onde passa horas da sua vida parda, Xavier Demóstenes tem como horizonte, não o cume da serra, mas a janela do quarto que partilha com Beatriz Cachola vai para mais de duas dezenas de anos: muito lá ao fundo, muito longe, mas ainda assim a limitar-lhe o alcance dos olhos, de cada vez que Xavier Demóstenes levanta a vista da secretária, de cada vez que abre ou cerra o cortinado para que a luz, por defeito ou por excesso, não o incomode na escrita das cartas que tem sempre em atraso, é esse o horizonte que lobriga do seu lugar de escrivão de terceira na repartição de finanças da cidadezinha de provincia entalada entre duas serras e um ribeiro parco de águas


um lugar conseguido por concurso público


um olhar em linha recta, e lá está a janela do quarto como que a vigiá-lo

hoje, Xavier Demóstenes prometeu: vou ver como é, e só regresso a casa pela madrugada

a noite está fresca e nem uma nuvem a toldar um céu que se tornou da cor do negrume mal terminou a luz do sol de inverno, inclinada em demasia






Maria de Fátima

Retirado de Samizdat

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publicado às 21:41


Ó pra mim!

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