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Dia de casamento.. ou, O homem dos cabides!

por Jorge Soares, em 26.05.09

Casamento molhado.....

 

Hoje recebi mais um mail do História Devida da Antena 1... mas já falarei disso, entretanto estive a ouvir o programa onde leram a minha historia do menino valente e lembrei-me que deixei a meio a saga do meu casamento, que tinha começado naquele post que falava de pedidos de casamento.

 

Naquela altura a igreja cá do sitio era num pavilhão pré-fabricado, que para além de igreja servia de sala de catequese e de salão paroquial, na parede havia desenhos feitos pelas crianças. É claro que quando lá fomos dizer que nos queríamos casar, e que nos queríamos casar ali, receberam-nos de braços abertos, em todos os anos de vida da igreja tinha sido  celebrado um casamento antes do nosso.  As pessoas querem-se casar no que eles acham que é uma igreja a sério, não num salão pré-fabricado a servir de casa do senhor. Não houve problemas de datas nem exigências de nenhum tipo, foi entregar os documentos obrigatórios e escolher a data, 16 de Dezembro.

 

Nunca existiu um noivo mais descontraído que eu, levantei-me, fui buscar o bolo e levar ao restaurante,  passei o resto da manhã por ali. O dia era de chuva. A igreja era ao virar da esquina, à hora marcada lá estávamos, eu e os poucos convidados: pais, irmãos,  padrinhos e um ou dois amigos, que nem eu nem a P. gostamos de confusões.

 

Passado meia hora eu continuava descontraído e na conversa, o padre é que já deitava fumo com o atraso da noiva, lá fora chovia, muito. Ela  terminou por chegar com quase uma hora de atraso, mas chegou. Lá começou a cerimonia, a meio a chuva era tanta no telhado de lusolite, que mal se ouvia o que o padre dizia, casamento molhado casamento abençoado, não é o que costumam dizer?... o nosso foi bem molhado.

 

Depois lá fomos para o restaurante, lá chegados, mais uma originalidade, éramos poucos, duas mesas corridas, uma para os pais... outra para os noivos, os padrinhos e os irmãos.

 

A meio da tarde lá parou de chover e até deu para o meu irmão nos tirar umas fotografias.

 

Tínhamos a viagem de lua de mel marcada para o dia seguinte a meio da manhã, decidimos ir passar a noite de núpcias na Ericeira, naquele hotel que está mesmo junto ao mar. Estava uma noite de nevoeiro.. bem romântica, chegamos cedo, jantamos e fomos para o Hotel.

 

É difícil explicar o que senti quando nos mostraram o quarto, era algo de outros tempos... não, não era no bom sentido, parece que tudo aquilo tinha sido retirado directamente dos anos 40, o quarto estava limpo, mas o resto do hotel era algo indescritível, acreditem ou não, conseguíamos ver as nossas pegadas no pó da alcatifa do corredor... estou a falar a sério.

 

Passados 5 minutos já nós nos interrogávamos porque é que não tínhamos ficado em casa, bem mais quente e aconchegante que aquele quarto sórdido. Mas já lá estávamos, restava aguentar.

 

Lá nos deitamos, afinal era a nossa primeira noite de casados, por volta das 11 da noite o insólito aconteceu, pareceu-nos que alguém batia à porta

 

- Jorge, estão a bater à porta.

-Não estão nada.

...

 

Passados uns momentos voltaram a bater.... levantei-me, vesti qualquer coisa e fui abrir a porta, era um dos empregados (???) do hotel.

 

-Desculpe, vim entregar os cabides!

 

Jorge Soares

publicado às 22:16

Preservativos nas escolas?, porque não?

 

As noticias sobre a discussão que está a acontecer na assembleia da republica sobre se devem ou não distribuir preservativos na escola fez acordar as minhas memórias.

 

Eu fiz a escola secundária na Venezuela, um país muito mais latino que o nosso, com uma cultura muito mais religiosa e em torno da família que a nossa, mas que em muitas coisas está a milhas... prá frente, é claro.

 

Andava eu no 9 ano, algures a meio da década de 80 do século passado, e tinha uma disciplina que se chamava Puericultura. Era nesta disciplina que se falava de educação sexual. Lembro-me que tivemos que fazer um trabalho de grupo que terminava com uma apresentação à turma sobre métodos anticonceptivos, já não me lembro qual nos calhou, mas sei que andamos pelos centros de saúde e  os hospitais a falar com os médicos e a recolher informações.  No fim, ficamos todos especialistas pelo menos num dos métodos e a grande maioria ficou a perceber muito bem as vantagens e perigos de cada um deles. E diga-se de passagem que esses conhecimentos me fizeram brilhar mais que uma vez, quando já regressado a Portugal e já na universidade, constatei que a maioria dos meus colegas mal sabia como é que funcionava o preservativo, quanto mais os outros métodos.

 

A educação sexual faz parte da educação, o sexo é um tema como outro qualquer, faz parte da vida e da cultura, e como tudo o resto na vida e na cultura, deve ser tratado em casa e na escola e não percebo porque é que há tanta gente que vê problemas nisso. Haveria que perguntar a quem é contra, se alguma vez abordou o tema com os seus filhos, e se o fez, como é que o fez...se calhar íamos logo perceber muitas coisas.

 

Ontem estava a ler o DN de Sábado e no caderno gente encontrei um artigo de Fernanda Câncio  onde se falava da distribuição de preservativos na escola. O artigo fala de pelo menos 3 escolas onde  desde há vários anos que há um gabinete de entendimento onde se respondem a dúvidas colocadas pelos alunos e se distribuem preservativos, isto porque desde há 10 anos que  a lei 120/99  o permite...e quanto a mim, muito bem.

 

Todas as pessoas envolvidas nos projectos das escolas retratadas falam do sucesso da iniciativa e da forma positiva como pais e alunos aderiram. Fiquei contente, porque uma das escolas é a Escola do Viso aqui em Setúbal, a escola secundária da minha área de residência.

 

Depois de ler isto fiquei a pensar, a assembleia da republica está a discutir uma coisa que já é permitida e legal há 10 anos, será que os senhores deputados não terão coisas mais importantes para discutir?, alguém me explica o que é que tem de mal a distribuição de preservativos nas escolas? alguém me explica o que é que tem de mal que se fale de sexo na escola? ou será que os pais preferem mesmo que os seus filhos aprendam por si e da pior maneira?

 

Jorge

publicado às 22:20

Eu no Historia Devida V :-)

por Jorge Soares, em 07.05.09

Historia Devida

 

Depois de O Quebra cabeças de arame, de O perfume daquela rosa, de A carta, e de  O Caminho dos Medronhos agora foi a vez de O menino Valente 

 

Recebi o seguinte mail da Antena 1:

 

"Caro Jorge Soares:

Queria avisá-lo de que, no próximo Domingo, dia 10, vamos ler a história que nos enviou, «O menino valente», numa emissão que tem como convidado o jornalista Pedro Pinto.

Pode ouvi-la na Antena 1, a partir das 13h.


Para se manter actualizado em relação ao programa, consulte o nosso blogue: 
ahistoriadevida.blogs.sapo.pt"

 

Cumprimentos, e boas histórias,
Inês Fonseca Santos.

 

Eu tento manter o blog activo e vivo, por vezes é difícil pensar num tema, ou ter vontade de escrever.... por vezes, como ontem, nem vontade nem escrita... há dias assim, em que saem umas coisas que são uma espécie de posts...  mas há dias em que a inspiração aparece mesmo e saem umas coisas de jeito...  hoje estou modesto.

 

Este é o quinto texto que escrevi para o blog e que enviei para a RDP que é escolhido para ser lido no programa... é motivo para estar assim um bocadinho orgulhoso.. até porque os textos fazem parte das minhas memórias e são um bocadinho de mim.

 

O menino Valente

 

 

As couves para o jantar do natal são plantadas mais ou menos pelo São Martinho, a minha mãe semeava o leirão no fim de Setembro, se o ano fosse bom e a geada não as queimasse, para o São Martinho estavam em condições de serem colhidas e plantadas na horta. Ela semeava sempre um leirão  a mais com a ideia de as ir vender.

 

De Alviães a Telhadela é mais ou menos uma hora de caminho a pé, por entre pinheiros e eucaliptos, o velho caminho de terra segue a encosta do rio Caima até que já à vista das primeiras casas o atravessa pela  velha ponte.

 

Eu devia ter uns 5 anos, a minha mãe acordou-me de madrugada, muito antes do sol nascer, o velho cesto com as couves arrancadas à terra na tarde anterior estava pronto. Um pouco de agua para que arrebitassem, cesto à cabeça, e fizemos-nos ao caminho. Noite escura como breu por entre os montes, sem luz nem lanterna,  lá fomos andando, sem medos que eram outros tempos. 

 

O menino valente

A seguir à ponte e antes das primeiras casas havia um bosque de castanheiros, estávamos quase a chegar, de repente por entre o mato ouvimos um ruído, o meu coração acelerou mas não dei parte de fraco:

 

-Mãe, não tenhas medo, eu estou aqui contigo!

 

Chegamos às primeiras casas com a aurora, em menos de nada todas as couves estavam vendidas e um punhado de escudos estava bem guardado, quando voltamos a passar pelos castanheiros já o sol se levantara e as castanhas eram visíveis dentro dos ouriços. Nessa altura o cesto que havia sido das couves molhadas, passou a ser das castanhas para o magusto.

 

Agora ninguém vai a Telhadela a pé, imagino que o caminho terá sido invadido pelas silvas e o mato, já ninguém vende couves num cesto à cabeça e já não restam meninos valentes.

 

Jorge Soares

PS:Imagens retiradas da internet

 

publicado às 21:29

Veneza

 

Ando há uns tempos a pensar escrever um post sobre o meu casamento, aliás, acho que dava para vários posts...., não, não houve mortos, descansem..... mas fica para outro dia.... mas é de casamentos que vou falar hoje.

 

Uma das coisas que mais gosto do blog, é que vou conhecendo pessoas fantásticas, pessoas com histórias de vida ricas e recheadas e que à medida que eu vou deixando bocadinhos de mim, me vão retribuindo com bocadinhos delas..... e no meio disto tudo, há momentos mágicos, senão vejamos. Em resposta ao meu post sobre as viagens de sonho...  disse  a dona Flor o seguinte:

 

  • "Levem-me para qualquer lugar e digam-me na hora para onde vou, isso é que era um lugar e uma viagem de sonho!!!
    Beijinho e que os teus sonhos sejam concretizados."

 

Ora lá está, uma resposta 5 estrelas de uma pessoa prática.... Hoje a meio da tarde, a Eugénia  em resposta a este comentário, deixou esta pérola:

 

  • Já me aconteceu!!!!!
    Quando soube que estáva grávida, o meu marido (na altura namorado(????))ficou maluco!!! No dia seguinte(numa 3ª feira) telefonou-me e perguntou-me se eu poderia no fds seguinte tirar mais uns dias para irmos "dar uma volta". No sábado "obrigou-me" a levantar cedíssimo e estranhei quando telefonou a pedir um táxi... aeroporto... Fila de check-in...Roma (só soube ali!!!). Dois dias em Roma e depois... Veneza. Fui pedida em casamento numa noite numa esplanada na Praça de S. Marcos, ao som de uma pequena orquestra de violinos, com o meu marido de joelhos com um cartaz na mão "CASA COMIGO" e com um lindo anel de noivado...
    Digam lá que não foi bonito????? Mesmo á filme!
  • Ah e depois de me ter conseguido convencer (não foi fácil!!!) fomos passear de gôndola...

 

Ora lá está, desafio qualquer um a dizer que conseguia imaginar um pedido de casamento mais incrivel e bem preparado que este!....  Vá digam lá que não foi bonito? Minhas senhoras.... roam-se de inveja... que já não fazem homens assim! ...e contra mim falo.... que nem me lembro de ter feito o pedido!

 

Alguém tem um pedido mais romântico e original que este?

 

Jorge

PS:Eugénia, desculpa... mas não resisti :-)

 

 

publicado às 21:44

O gato

por Jorge Soares, em 03.03.09

O gato

 

Hoje a meio da tarde, já nem sei a propósito de quê, lembrei-me do gato....e deste texto que escrevi já lá vão uns tempos...

 

Tinham passado uns meses desde que tínhamos mudado daquela casa quando passei na rua em frente ao edifício, de repente ele saltou do jardim, estava mais gordo... chamei, bichinho, bichinho, parou e olhou para mim, hesitou um momento e voltou a andar, voltei a chamar, bichinho! Olhou para trás e parou, acerquei-me, ia fazer-lhe um carinho na espalda.... afastou-se... saltou o muro e não o voltei a ver. Não sei se os gatos tem memória curta ou se estava chateado comigo, certo é que não quis confianças.

 
Nós morávamos no rés do chão,   o edifício tinha um enorme pátio a toda a volta, um dia ele apareceu por ali e foi ficando, comia restos, durante o dia dormia em qualquer lado dentro ou fora da casa, durante a noite dormia no velho maple que tínhamos no alpendre. Como todos os gatos tinha uma especial afeição por mim, até ao ponto que podia estar a dormir em qualquer parte da casa, bastava  eu colocar a chave na porta de entrada do edifício que ele acordava e corria para a porta da casa a esperar a minha entrada, como me reconhecia, ou porque o fazia? era um mistério para todo o mundo, mas ele era assim.
 
Lembro-me do dia em que apareceu com uma enorme ferida aberta na barriga, da forma como o tratamos, esteve dias deitado no maple, sem comer, pouco a pouco foi melhorando, voltou a comer e a ser o mesmo. Se eu estava em casa ele estava aos meus pés, ou sentado no meu colo, era o meu gato.
 
Chegou o dia em que mudamos de casa, íamos viver para um apartamento num edifício em que havia um cão no pátio, com muita pena minha, mas não era o sitio certo para um gato, e menos para um gato como aquele, habituado a ir e vir, a andar livre no pátio do nosso edifício e nos das casas vizinhas.
 
Eu gosto de gatos, e pelos vistos os gatos gostam de mim, a qualquer sitio que eu chegue se houver um gato, é certo e sabido que mal dê por mim o bicho andará a roçar as minhas pernas, mesmo os mais ariscos que não dão confiança a visitas.
 
Não sei o porquê de tudo isto, mas imagino que deve ser genético, lembro-me de a minha avó me contar que era o meu pai adolescente e havia lá em casa uma gata que não o largava, todos os dias se colocava a umas centenas de metros da casa a esperar o seu regresso a casa do emprego. Dormia no fundo da cama e a primeira ninhada de crias nasceu nessa cama.
 
Estava eu no liceu, devia estar no 9 ou 10 ano, um dia apareceu um gatinho, era minúsculo, uma das minha colegas tinha-o nas mãos, de repente gritou:
 
-Tem os olhos dele!
-....... desculpa?
-Sim, tem os olhos iguais aos teus, tu tens olhos de gato!
 
O gato tinha os olhos verdes.... como os meus, e durante uns tempos, eu era o Português dos olhos de gato!
 
Jorge
 
PS:Imagem minha.... para quem como eu gosta de gatos,  aqui há uma colecção deles.. é só carregar no link:http://picasaweb.google.com/jfreitas.soares/Gatos#
 

publicado às 22:19

Lisboa

 

Depois do incêndio da terça de Carnaval de que falei aqui, as coisas acalmaram por uns tempos.

 

Entretanto uma das irmãs da dona da casa que era criada de servir algures num casarão em Lisboa, decidiu reformar-se e foi viver para o quarto em frente ao meu... na verdade não me consigo lembrar muito bem como, mas sei que passado algum tempo a senhora morreu, não tenho bem a certeza, mas deve ter sido em época de férias, porque não guardo especiais memórias desta morte ... que se bem se lembram os que leram este post, era já a 4ª no prédio desde que eu fui para lá morar.  

 

Depois de umas férias de verão passadas na terra, quando voltava para o ultimo ano do curso, fui recebido com uma surpresa, agradável para os restantes moradores da casa.... nem tanto para mim.

 

Depois de anos de chuva e reclamações, o senhorio lá se tinha decidido a fazer as mais que necessárias obras no telhado...a parte chata é que como o meu quarto era uma das poucas divisões da casa que não seria afectada, era necessário para os donos da casa... e lá tive que sair. Com a promessa de que as obras durariam dois ou três meses e eu poderia voltar. Na verdade as obras duraram 3 ou 4 anos e evidentemente eu não voltei.

 

Arranjei um quarto bem perto da Faculdade, do outro lado da Alameda por cima da Fonte Luminosa. Era um quarto agradável, a senhoria era uma senhora muito simpática e os meus passeios a pé de e para o IST passaram a ser bem mais curtos.

 

Estava no ultimo ano do curso, entre as aulas e o trabalho final, mal ia dormir ao quarto, saia de manhã cedo e voltava quase sempre tarde, motivo pelo que mal via os restantes habitantes da casa, a simpática senhora e o seu neto..  que não me lembro de ter conhecido... até aquele dia.

 

Estava ali à dois ou 3 meses, um dia voltei cedo para casa e quando entrei deparei-me com um casalinho que romanticamente jantava na mesa da sala. Dei as boas noites e fui para o quarto... passado um ou dois minutos, alguém me bateu à porta. 

 

O rapaz vinha-me informar que a sua avó tinha falecido na semana anterior, ele agora era o dono da casa e claro, eu tinha que me mudar!  Não queiram imaginar o meu ar de parvo a olhar para ele... é que nem consegui dizer nada de jeito.....

 

Passado uns dias lá arranjei outro quarto.... e fui viver ali paredes meias com o Elefante Branco na Rua Luciano Cordeiro... foram só uns meses..mas que eu saiba.. ninguém por lá morreu!

 

Jorge

PS:Imagem minha, as cores de Lisboa, retirada de:Momentos e olhares

 

publicado às 21:56

Pornografia ou arte?

Imagem retirada do Publico

 

Há muito que não ouvia tantas vezes a palavra censura em tão pouco tempo, primeiro foi o caso do Magalhães no carnaval de Torres Vedras de que falei neste post, agora foi o caso do livro com capa de Fotografia Pornográfica que afinal era obra de arte pendurada em Paris.

 

Para além da pretensa censura rapidamente corrigida, há em ambos os casos algo em comum, uma denuncia de cidadãos anónimos que ficaram escandalizados com o que viam. 

 

Tudo isto fez-me voltar muito tempo atrás, estávamos em 1991, e na RTP passou o filme O Império dos sentidos. Na altura o filme caiu como uma bomba  na pacata sociedade Portuguesa. Durante semanas não se falou de outra coisa, lembro-me de um exemplar da revista do Expresso em que vinha uma reportagem sobre o assunto. Entrevistaram um casal que tinha dois filhos com idades por volta dos 10 anos que viram o filme. Evidentemente os  pais estavam escandalizados com o facto de a RTP ter passado o filme.. Porque deixaram os filhos ver?... eles tentaram que as crianças não vissem, mas não os tinham conseguido impedir. Toda a reportagem era assim..de morrer a rir... ou a chorar.

O Império dos sentidos

No meio de todo o barulho que se gerou a seguir, o que mais chamou a atenção foi a frase do arcebispo de Braga... que viu o filme sim senhor e que disse:

 

"Aprendi mais em 10 minutos que na vida inteira" 

 

Coincidência ou não, é de Braga que se fala hoje

 

Mas tudo isto  foi em 1991, já nessa altura eu, recém chegado a Portugal, achei toda a conversa ridícula, e indiciadora de um falso moralismo de bradar aos céus... entretanto passaram 18 anos..... e parece que muito pouco se alterou neste país.  Alguém passa por um carro alegórico com umas fotografias minúsculas e acha que podem ofender as criancinhas, alguém passa por uma feira do livro, olha para a capa de um livro e acha que as criancinhas podem ficar escandalizadas com a  fotografia....Depois a explicação da policia é ainda mais caricata, levaram os livros porque temiam que as coisas fossem a mais.... temiam o quê? que alguém queimasse os livros ou que os pais não conseguissem explicar aos filhos o que era aquilo?

 

Desengane-se quem acha que isto é censura ou o regresso da PIDE... isto é a falsa moral e os famosos bons costumes a vir ao de cima... como dizia a Nave nos comentários ao outro post, somos um país de cromos ignorantes...e tudo isto só pode ser para rir... 

 

Por certo, o Império dos Sentidos é uma seca do principio ao fim... mas se estiverem interessados, podem dar uma olhadela aqui:http://www.youtube.com/watch?v=bk_aOjfkCrY

 

Jorge

PS:Com tudo isto espero que não me censurem o blog

publicado às 21:45

Rua do Poço dos Negros:Os Mortos

por Jorge Soares, em 17.02.09

Lisboa, São Bento

 

Vou voltar às minhas memórias dos tempos em que vivi na Rua do Poço dos Negros, e hoje vou falar dos mortos... 

 

Um dia cheguei ao prédio e deparei-me com a porta do apartamento do primeiro andar com umas traves de madeira pregadas de lado a lado... já ali morava há uns dois anos e nunca tinha visto alguém entrar ou sair, nem sabia se vivia lá alguém ... Por norma, o corrupio de gente era mesmo no segundo e terceiro andares com as  visitas ao mercado de substancias ilícitas e às "meninas" respectivamente. Lá me informaram que a senhora que morava no primeiro andar tinha falecido, vivia sozinha há muitos anos...e agora o senhorio tinha selado a casa, não fosse a pensão do segundo andar alastrar. 

 

Passados um ou dois meses,  já perto da meia noite, o pessoal do segundo andar resolveu fazer mais um daqueles escândalos mesmo a sério, como já estava habituado, nem liguei, mais prato ou menos prato a voar, mais grito ou menos grito.. a malta habitua-se... e no dia a seguir era dia de aulas.. como todos os dias.

 

Por volta das sete da manhã, toca-me a Dona Maria à porta do quarto.

 

-Jorge,  ó Jorge! ...está acordado?

 

.. não estava... bom, agora já estava!

 

- Diga dona Maria!

- Vinha-lhe dizer que o melhor é não sair cedo.

-Então porquê dona Maria?

-É que está um homem enforcado nas escadas!

-Como?

-Está um homem morto, pendurado com uma corda pelo pescoço, nas escadas... já chamaram a policia, mas o melhor é não sair.

 

Ora... lá se foi a aula das 8, virei-me para o outro lado... e dormi! Está visto que a mim os mortos não me impressionam nada.

 

Acordei por volta das 9:30, arranjei-me e saí.... o Homem já não estava pendurado nas escadas, estava deitado no chão da entrada do prédio, sozinho, morto .... e algemado. Ainda hoje estou para perceber para que raio algemaram o homem, se ele já estava morto.. estavam com medo que ressuscitasse e atacasse alguém?. Saí para a rua, cá fora estavam dois policias a conversar dentro de um carro patrulha, olharam para mim, eu fui para as aulas e eles continuaram a conversar.

 

Passada uma semana, a judiciária esvaziou a pensão do segundo andar....e o senhorio selou mais um apartamento.... passada mais uma semana.. foi o incêndio.... mas disso falarei outro dia... 

 

No quarto em frente ao meu, dormia uma das irmãs da dona da casa, uma senhora baixinha e muito simpática. Um dia cheguei a casa depois de jantar e estranhamente não havia vivalma.. fui para o meu quarto e passados uns minutos tocou o telefone. Dada a minha condição momentânea de dono da casa, decidi atender o velho aparelho de outros tempos.

 

-Estou?

-Quem fala?

-O Jorge.

-Olá Jorge, sou a sobrinha da Dona Maria, ela não está?

-Não, não está ninguém em casa.

.... - silêncio do outro lado.

-Quer deixar algum recado?

-Não, eu volto a ligar.

 

Desliguei e voltei ao meu livro... passado um ou dois minutos volta a tocar o telefone.... e lá fui eu outra vez.

 

-Estou!

-Jorge, você não sabe?

-Não sei o quê?

-Não sabe o que aconteceu?

-Não, eu saí cedo e cheguei há bocado.. e estranhei não que está ninguém em casa.

-É que a minha tia, a irmã da dona Maria, faleceu durante a noite!

 

Vocês não estão bem a ver a minha cara de parvo a olhar para o telefone.....é que já são mortos a mais para um só prédio!

 

Mas este não foi o ultimo.... mas disso falo outro dia.

Jorge

 PS:Imagem minha, escadinhas em São Bento, retirada do Momentos e Olhares

publicado às 21:53

Eu no História Devida IV :-)

por Jorge Soares, em 28.01.09

 

Depois de O Quebra cabeças de arame, de O perfume daquela rosa e de A carta, agora foi a vez de O Caminho dos Medronhos.

 

Recebi o seguinte email da RDP:

 

Caro Jorge Soares:

Queria avisá-lo de que, no próximo Domingo, dia 1, vamos ler a história que nos enviou, «O caminho dos medronhos», numa emissão que terá como convidada a guionista e autora Maria João Cruz.
Pode ouvi-la na Antena 1, a partir das 13h.

Para se manter actualizado em relação ao programa, consulte o nosso blogue:
ahistoriadevida.blogs.sapo.pt

Cumprimentos, e boas histórias,
Inês Fonseca Santos.

 

Os 4 textos foram escritos aqui no blog, todos fazem parte das minhas memórias de vida, são histórias reais que por um ou outro motivo me vieram àe  memória e que decidi partilhar com vocês, as pessoas que dão vida  a este blog.  

 

Obrigado a todos os que dedicam uns segundos da vossa vida a ler o que eu escrevo e obrigado à RDP pela enorme honra de seleccionar os meus humildes textos para partilhar com os seus ouvintes.

 

O Texto a ler no próximo Domingo dia 1 de Fevereiro, é este:

 

O caminho dos medronhos... ou a bebedeira!

 

 

MedronosNasci num aldeia do distrito de Aveiro, num tempo em que se nascia em casa com uma parteira por obstetra, noutro tempo... agora muito distante. 

 

A minha casa era num lugar donde a escola ficava a Quilometro e meio, mais coisa menos coisa, e desde os seis anos, lá ia eu, a pé para a escola, todos os dias. Acompanhado pela chuva do

 

Outono, a geada do Inverno ou o calor do verão, uma parte pela estrada, outra pelos atalhos que cruzavam pinhais e campos numa vã tentativa de encurtar caminhos.

 

Um dia, andaria eu na terceira classe, eu e o Quim Faianca, meu colega de caminho, descobrimos um novo atalho, que passando por entre campos de milho e batatais, encurtava duas ou três curvas ao caminho. A meio, na separação de dois terrenos, havia um medronheiro, naquele dia coberto de flores brancas. Na altura nem reparamos, mas de vez em quando lá passávamos, e pouco a pouco as flores foram passando a pequenas bolinhas verdes, que com o tempo passariam a bolas amarelas já rosáceas a meio da primavera, que mais tarde passariam a um vermelho vivo no inicio do verão e por fim a vermelho escuro, quase cor de vinho... quando as aulas estavam prestes a terminar.

 

Nós íamos passando por lá, um dia sim outro não, até que um dia reparamos que os melros e os pardais começavam a assentar arraiais na árvore em busca de um festim de frutos doces. Nesse dia, decidimos que estava na altura e na volta para casa... paramos lá.

 

O Quim, muito mais afoito a essas coisas que eu, subiu à pequena árvore, eu fiquei cá em baixo, comi todos os que estavam ao alcance da minha mão..e depois,  ele ia atirando dos que estavam lá em cima. Há medida que íamos comendo, íamos ficando mais barulhentos, mais faladores, até que de repente, num movimento mal calculado a um caxo de medronhosMedronhos mais distante, o Faianca estatelou-se no chão...e eu, após uns segundos de silêncio, desatei ás gargalhadas...... Ri feito doido, sem conseguir parar e a olhar para ele. Ele olhou para mim, levantou-se e riu comigo.

 

Depois disto, não consigo recordar muito mais, sei que fizemos o restante caminho até casa entre sorrisos e tropeções..e que cheguei a casa e a sentia às voltas, em lugar de ir almoçar, fui directo à casa de banho..... e despejei o estômago até à bilis... E consigo recordar uma enorme dor de cabeça que me acompanhou o resto do dia..e de que só passados quase 20 anos desenjoei dos medronhos e pude voltar a comer um!

 

Jorge

PS:Imagens retiradas da internet

 

 

publicado às 22:04

A Bola de Berlim

por Jorge Soares, em 04.01.09

Bola de Berlim

 

No outro dia em Oliveira de Azeméis numa das muitas pastelarias que por lá há, observávamos a quantidade e variedade de bolos que enchiam as montras  e em jeito de provocação eu  insistia com a R. para que escolhesse um. A minha filha não gosta de bolos, coisas doces e/ou com creme não são com ela. Na montra havia um tabuleiro cheio de bolas de Berlim, enormes, frescas e com aspecto delicioso, com montes de creme. É claro que ela não quis.... mas a conversa fez-me avivar as minhas memórias, e retroceder até ao dia em que vi pela primeira vez uma bola de Berlim.

 

Tinha eu 9 anos quando fui para o ciclo, naquela altura o ciclo estava dividido por dois locais, o segundo ano era no edifício da escola e o primeiro era num velho casarão, as salas estavam divididas pelos diversos andares do velho edifício e por um anexo pré-fabricado que ficava no antigo quintal da mansão. Eu tinha aulas numa das salas do pré-fabricado e lembro-me de um dia em que a chuva e a saraiva eram tantas, que não nos conseguíamos ouvir dentro da sala.

 

O bar da escola era num pequeno vão de escada no 3º andar do casarão, quem tinha aulas nos anexos raramente entrava no edifício, o recreio era já ali. Demorei muito tempo a descobrir que havia um sitio onde comprar coisas, a primeira vez que lá fui foi a acompanhar alguém que ia comprar um pacote de batatas fritas para o lanche.  Em quanto o meu colega comprava as batatas fritas, fiquei a olhar para umas enormes bolas castanhas cobertas com açúcar branco. Lembro-me de perguntar o que era aquilo, e de alguém dizer:

 

-É uma bola!

-Uma bola?

-Sim, uma bola, é doce e tem creme!

-E quanto custa?

-5 escudos, queres uma?

-Não!

 

5 Escudos era muito dinheiro, para mim que não tinha nenhum era muitíssimo dinheiro, e estava fora de questão eu os obter para comprar um doce. Um dia, já os meus pais tinham emigrado e eu fora viver em casa da minha tia, descobri que não era preciso ter dinheiro. Além de bolos e batatas fritas, vendiam-se outras coisas, lápis, folhas, material escolar, coisas que de vez em quando eram necessárias, a senhora que geria o bar tinha um caderno onde anotava as coisas que cada um levava e no fim do mês enviava a conta. Descobri isso quando precisei de umas folhas para um teste e evidentemente não tinha dinheiro, alguém me explicou como funcionava, e lá se abriu a folha com o meu nome.

 

Não me lembro bem se foi no primeiro dia ou no dia a seguir, mas é evidente que a coisa seguinte que ficou anotada no livro foi:

 

-Bola - 5 escudos.

 

Ainda hoje consigo recordar o sabor daquela bola com creme. Os tempos mudam, tinha eu 9 anos quando vi pela primeira vez uma bola de Berlim, de certeza que se eu perguntar, nenhum dos meus filhos se lembra da primeira vez que as viu, no imaginário deles elas sempre existiram, junto com muitas outras coisas a que eu só tive acesso muito mais tarde.

 

A R. nem gosta de doces, eu também não gostava... porque nem sabia que eles existiam.

 

Jorge

 PS:Imagem retirdada da internet

 

 

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