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Conto - Reflexão junto ao menino Jesus

por Jorge Soares, em 21.12.13

REFLEXÃO JUNTO AO MENINO JESUS

Menino Jesus, está chegando a data em que, simbolicamente, comemoramos o seu nascimento, e se tem uma coisa que gosto nesta época é de montar o presépio. Adoro fazer isto. Desde criança. E é com aquele mesmo prazer infantil que faço o meu presépio. Ponho você deitado na sua caminha de palha, com José e Maria, um de cada lado. Com a minha fértil imaginação, transformo o terreno árido onde você nasceu em campinas verdes e montanhas e vou colocando os pastores, os carneirinhos, a fazendeira que joga milho para as galinhas. Até rio tem no meu presépio, Menino Jesus. No meu tempo de infância, imitávamos a água com espelho. Hoje, veja, faço um riacho de verdade com água corrente passando por debaixo da ponte, com aquele barulhinho que adoro até a primeira meia hora, mas só até a primeira meia hora. Às margens do rio ficam os patinhos e sapinhos. Ponho os três Reis Magos com seus camelos vindo lá de longe, do leste, e a cada dia vou aproximando-os do estábulo. Ah, o estábulo! É aí que eu capricho mesmo. Meu estábulo fica lindo com suas vaquinhas, burrinhos, o pastor que carrega um carneiro em seus ombros, outro que toca uma flauta e lá na cumeeira o anjo, o maravilhoso anjo que estende uma faixa anunciando sua chegada. E faço o céu também, pois não faço? Um céu noturno cheio de estrelinhas e, claro, a estrela maior de todas que uns chamam d’Alva, outros de Vênus, outros ainda de Sirius. A brilhante estrela que os Reis seguiram para presenciar o seu nascimento, levando ouro, incenso e mirra. E fica lindo o meu presépio, principalmente no escuro, quando acendo as luzinhas e ele fica todo iluminado.

Bem, Menino Jesus, você deve estar se perguntando como é que eu consigo conciliar o dia e a noite ao mesmo tempo. O fato é que consigo e não é tão difícil assim, já que esta incoerência é fruto da própria incoerência de que sou feita. Sim, porque sou feita de luzes e de sombras. Agora, por exemplo, enquanto olho para sua figurinha fofa, linda, sou toda amor e adoração, cheia de boas intenções. Mas se meu vizinho jogar novamente cigarro aceso no meu jardim, sei que vou mandá-lo à merda, não sei antes levantar o dedo médio para ele.  Sou capaz de morrer pelos que amo da mesma forma que seria capaz de fuzilar sem piedade, se a lei o permitisse, todo político corrupto. Choro quando vejo imagens de crianças deformadas pela fome, mas tenho vontade de surrar os pivetes descalços que andam pelas ruas do meu bairro assustando as pessoas. Menino Jesus, sou capaz de desfiar milhares de exemplos da minha dualidade, dualidade de que não só eu sou feita, mas de que é feita toda a humanidade, toda a natureza, seja ela viva ou morta. Aliás, dualidade existente até em você, Menino Jesus. Veja se não tenho razão.  Você nos ensina a amar nossos inimigos, mas roga praga numa pobre figueira, fazendo-a secar, só porque a coitada não deu frutos. Você nos ensina a perdoar, mas se transgredimos você nos ameaça com a tortura do inferno, castigo tão cruel quanto inútil já que eterno e, se eterno, qual a sua finalidade?

Menino Jesus, não fique ressabiado comigo, mas preciso confessar que não é sempre que acredito na sua história. Às vezes, assim como este meu presépio, acho tudo meio fantasioso e incoerente. Mas, fantasioso ou não, incoerente ou não, o que interessa de verdade é a simbologia disso tudo, o que você, Menino Jesus, representa. Aliás, não só você, mas tantos outros que tantas outras religiões dizem existir. Para mim, vocês representam a força espiritual que nos criou, que nos sustenta e que nos leva quando chega a hora. E nesta força, que por falta de outra palavra chamo de Deus, eu acredito, como acredito! Acredito neste Deus todo poderoso tanto para o bem como para o mal. Acredito neste Deus, também Ele feito de luzes e sombras, afinal não fomos feitos à sua imagem e semelhança?

Acredito na face iluminada de Deus quando percebo o milagre da vida e a perfeição do universo. Quando ouço uma sinfonia de Beethoven. Quando ouço a voz de Callas interpretando Verdi, ou mesmo quando ouço um samba de Noel. Quando leio um poema de Fernando Pessoa ou um texto de Clarice. Quando ouço a chuva cair alimentando a terra seca. Quando vejo um jardim cheio de flores das mais variadas formas e cores ou o sol se por num belo horizonte, iluminando as montanhas que o confrontam. Quando ouço o canto dos diversos tipos de pássaros que voltam em bando na primavera e vejo a perfeição dos ninhos que constroem. Acredito na face iluminada de Deus quando percebo a solidariedade do ser humano nas tragédias, a sua generosidade quando ajuda um amigo ou mesmo um desconhecido. Quando vejo o suor no rosto do homem que ergue a obra de um artista. Quando vejo o sorriso de uma criança ou quando me derreto ao ouvir os netos me chamando de vovó. Vejo a face iluminada de Deus na risada de um amigo, na emoção de uma torcida quando seu time é campeão, no balanço do meu peito quando recebo mensagens do homem que amo, na felicidade estampada no rosto de quem realiza um sonho.  São muitas as manifestações da face iluminada de Deus, assim como são muitas as manifestações da sua face sombria. A miséria, a fome de milhões de crianças, a fúria da natureza quando destrói e mata, a carnificina das guerras por motivos tão fúteis e tão estúpidos, o sofrimento de um amigo querido destroçado pela doença, o preconceito, a corrupção dos governantes, a inveja, a cobiça, o egoísmo e aqueles tantos outros pecados capitais dos quais somos vítimas. Sim, Menino Jesus, somos vítimas já que os pecados fazem parte da nossa natureza. Fomos criados assim e não temos culpa se Deus, nesta parte, errou o alvo. Errar o alvo é a origem da palavra pecado, né não? Soube que vem lá do grego (hamartia).

Se culpa temos é a de não fazer prevalecer o bem nessa eterna luta contra o mal. É o que deveríamos tentar diariamente.

Então, eu vou me ajoelhar diante de você, Menino Jesus, representante de Deus escolhido por mim, e que repousa tão lindo, tão terno no meu presépio. Não para lhe pedir paz, saúde, prosperidade e abundância como é costume nesta época. Tudo isso eu já peço e desejo para os meus amigos e parentes adorados, sempre e todos os dias. Este ano, nesta época, o meu pedido é outro: que saibamos entender esta dualidade, com ela conviver e dela fazer uso. Assim, nos tempos sombrios, quando as trevas dominam, saibamos olhar para o céu e apreciar as estrelas. Já, quando o tempo é de claridade, tanta que nos cega, saibamos meditar às sombras das árvores. Peço, ainda, Menino Jesus, que, no combate contínuo travado entre o bem e o mal, seja sempre a nossa face luminosa, a luz que existe em nós, a se sobrepor, triunfante e soberana, às trevas que nos habitam.

É o que desejo, do fundo do meu coração, para mim e para todos vocês.

Cecília Maria De Luca

 

Retirado de Samizdat

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publicado às 20:42

O que se celebra no nosso natal?

por Jorge Soares, em 15.12.09

O meu presépio.. o meun natal

 

 

 

Faz hoje exactamente um ano, falavamos aqui do natal do menino Jesus ou Do pai natal, para nós, os mais cotas, ainda é o natal do menino Jesus, para os mais novos, já é o natal do pai natal. Para todos ainda é a festa da família e uma enorme celebração do consumismo, mas eu achava que para além de tudo isto, ainda restavam as crianças, sendo a nossa uma cultura católica e até certo ponto tradicional, eu achava que pelo menos para as crianças o natal continuava a significar mais que outra coisa, o nascimento de um menino. 

 

Estes dois ultimos dias deitaram completamente por terra esta minha ideia, a Sonia Morais Santos tem um programa na Antena 1 que se chama Portugal dos Pequeninos, passa todos os dias pouco antes das 18 horas, como é a altura em que estou nos meus 45 minutos de introspecção, eu o transito e o radio, costumo ouvir. A Sónia costuma escolher um tema e vai perguntando a crianças entre os  4 e os 12 anos o que elas pensam do assunto, nos dois últimos dias o tema era o natal.

 

Uma a uma foram passando as crianças e a questão era mais ou menos a mesma, "O que é para ti o natal?" as respostas não variavam muito: as prendas, o fim do ano, as festas, num ou outro caso a família, os amigos, o inverno, os doces, o Pai natal.... A  Sónia bem se esforçava, mas quanto ao que se celebra no natal, o verdadeiro significado do natal, nada. 

 

No final do segundo dia e depois de a Sónia se esforçar muito, a ultima criança foi capaz de associar o natal ao nascimento de um menino, houve até quem associa-se o natal à morte de Jesus, mas sobre um menino que nasceu em Belém numa manjedoura, nada.

 

Está à vista que o velho das barbas destronou definitivamente o menino jesus, cá em casa o presépio com o menino, a vaquinha e os 3 reis magos, é obrigatorio em cada natal, mas imagino que nas casas destas crianças, tudo isto terá sido substituido por um pai natal a escalar a varanda.... não há menino Jesus para ninguém.

 

Ora, eu até sou ateu, mas até para mim é triste ver como não somos capazes de preservar as nossas tradições e as vamos substituindo por tudo o que vem da televisão... velhos gordos vestidos de vermelho incluidos.

 

Podem ouvi o podcast do programa aqui

 

Jorge Soares

Ps:Imagem minha

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publicado às 22:00

Pai natal ou menino Jesus?

por Jorge Soares, em 15.12.08

Guarda chuva  de Chocolate

 

Eu não tenho grandes memórias do natal, até aos meus 10 anos, lembro-me deste dia e pouco mais, mas consigo recordar que nos deitávamos cedo e que deixávamos os sapatos em ordenada parada frente à lareira. Não me consigo lembrar de nenhuma prenda em especial, não sei se elas caberiam ou não dentro do meu pequeno sapato, mas imagino que sim.. que a época não era de grandes prendas.. Consigo recordar que havia algo que nunca falhava, era a prenda certa, um chapéu de chuva de chocolate. Outra coisa que recordo claramente, é que quem trazia as prendas era o menino Jesus. Na minha terra não havia pai natal.

 
Fui para a Venezuela com 11 anos em 1979, e consigo recordar perfeitamente a primeira vez que vi aquela figura vermelha e com barbas, lembro-me de perguntar à minha mãe o que era aquilo, e de ela me ter dito que era  San Nicolás, é claro que fiquei na mesma, mas ela lá me explicou que era aquele senhor que levava as prendas no natal. Na altura fiquei a pensar como é que eles achavam que o velhote descia pela chaminé,..depois lembrei-me que lá não havia chaminés... logo o problema não se colocava.
 
O pai natal foi desenhado pela primeira vez com as vestes vermelhas e as barbas brancas em 1860 num jornal americano, mas tenho a certeza absoluta que até 1979 não tinha chegado à minha aldeia, lá quem deixava os presentes dentro do sapatinho era o menino Jesus. Isto não deixa de ter a sua lógica, se o que se celebra é o nascimento do menino,  porque é que tem de ser um velhote que vem da Lapónia e ainda por cima num trenó preparado para a neve, quem distribui os presentes?
 
Por certo, o pai natal foi desenhado a primeira vez com aquela roupa num jornal americano em 1860 e evidentemente não tem nada a ver com a lapónia nem com trenós, e muito menos com a Coca Cola, como se pretende fazer crer em alguns sítios.
 
Jorge
PS:Imagem retirada da internet

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publicado às 22:04


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