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Adopção

 

Cada certo tempo recebo um destes mails, normalmente de alguém de um dos programas da manhã ou da tarde, de inicio ainda respondia, pedia desculpa mas não tenho feitio para algumas coisas, ultimamente  na maior parte das vezes já nem respondo, cansa ver os temas sempre apresentados e tratados da mesma forma e quase sempre da forma errada.

 

Hoje chegou mais um desses mails, chamou-me a atenção o seguinte:

 

"Naturalmente, e sabendo um pouco as dificuldades que existem em todo o processo de adopção, gostaria de saber se conhece alguém que esteja, neste momento, à espera de adoptar e que o processo parece não avançar. 

 

A nossa intenção é demonstrar a dificuldade e as burocracias por que passam as famílias que gostariam de adoptar e a força que têm para lutar por algo que, em última instância, estará a ser benéfico para uma criança que vive institucionalizada . Naturalmente, e dada a natureza do referido tema, seria pertinente termos testemunhos de "pais" que estejam, de facto, à espera há muito tempo (mais de um/dois anos)." 

 

Notem o detalhe do "pais" entre aspas. Não resisti e respondi o seguinte:

 

Já passei por dois processos de adopção e a verdade é que há muito pouca burocracia num processo de adopção, um questionário, duas entrevistas e uma visita domiciliária não são muita burocracia. Estamos a falar  da vida de crianças e isso não pode ser visto de animo leve, as avaliações devem ser o mais exaustivas e rigorosas possíveis, aliás, a julgar por alguns casos que vamos conhecendo de vez em quando, se calhar não são o suficientemente rigorosas e exaustivas.

O que faz com que os processos sejam demorados não é a burocracia ou o mau desempenho da segurança social, o problema é que em Portugal há muitos mais candidatos a adoptar, quase 4 mil, do que crianças cujo projecto de vida seja a adopção. A verdade é que em Portugal, feliz ou infelizmente, não há crianças para adoptar.

Há sim em Portugal  muitas crianças institucionalizadas, mais de oito mil, o problema é que 95% destas crianças estão entregues à guarda do estado mas não estão nem nunca estarão para adopção. Aquela ideia de que há muitas crianças à espera de uma família é um mito, uma mentira que é muitas vezes alimentada de forma errada pelas pessoas e pela comunicação social.

Destas crianças todas há algumas, perto de 500 que estão à espera sim, mas são aquelas que não são desejadas por ninguém, aquelas que não estão nos ideais nem nos sonhos dos mais 4000 candidatos de que falei acima. Crianças com mais de 10 anos, crianças com doenças crónicas, crianças deficientes, fratrias de irmãos, crianças de cor, crianças ciganas, etc. Crianças como a do caso de que falei aqui, que apesar de eu ter publicado a carta duas vezes e de esta ter chegado a dezenas de blogs e milhares de pessoas, por aquilo que sei, continua à espera de alguém disposto a amar.

Querem fazer um programa interessante? e desde já disponibilizo-me para participar, façam um em que se dê a voz a estas crianças, um programa em que se confrontem os candidatos que dizem que o processo é moroso e burocrático, com estas crianças e com a sua espera, afinal qualquer uma delas pode fazer com que o processo em lugar de durar anos ou meses, dure dias.

Desculpem o desabafo

 

Jorge Soares

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publicado às 23:16

O mito da crise da Islândia

por Jorge Soares, em 21.10.12

Na Islândia

 

Ando há meses a ouvir falar da Islândia, segundo a crença popular, quando deram pela crise os Islandeses mandaram os políticos para a prisão, fizeram um referendo onde decidiram que não iam pagar as dividas dos bancos e com isto deram a volta por cima e agora são um país próspero.

 

Como não acredito em milagres, dei-me ao trabalho de investigar e é claro que o que descobri é que o único de verdade no que as pessoas dizem é o facto de realmente eles terem dado a volta à crise, o resto são mitos.

 

Vejamos, a Islândia é um pequeno país, tem 320 mil habitantes, até 2008 tinha uma economia próspera, todo o mundo tinha um nível de vida muito elevado e uma enorme facilidade de chegar ao crédito. Com muito dinheiro disponível, os bancos investiram no imobiliário americano e na divida de países terceiros. Com a crise americana de 2008, os bancos foram ao fundo e com eles a economia do país.

 

Aqui está a primeira diferença com a nossa crise, a da Islândia é puramente financeira, os bancos tem problemas mas o estado é sólido, a nossa crise é basicamente ao contrário, exceptuando o BPN, os nossos bancos são mais ou menos sólidos, ao contrario do estado que tem graves problemas estruturais.

 

O que fez a Islândia para atacar a crise? Nacionalizou os bancos e pediu dinheiro ao FMI e à China para os refinanciar. Depois desvalorizou a moeda em 50%. É claro que uma desvalorização da moeda levou a que muita gente tivesse problemas para pagar os créditos, as prestações duplicaram e os bens aumentaram 50%, mas como o nível de vida era muito elevado, as pessoas passaram a ter menos dinheiro, mas continuaram a conseguir pagar e continuar a comprar as coisas, o que fez com que a economia continuasse a funcionar e até a crescer.

 

Por cá também se nacionalizou um banco, mas acho que todos estamos de acordo em que em lugar de resolver o que quer que fosse, isso contribuiu e muito para aumentar o buraco nas contas do estado.

 

A nossa crise é completamente estrutural, não tem nada a ver com a crise da Islândia, e não há receitas iguais para crises diferentes, aliás, nem para crises iguais. Além disso, é muito diferente tratar das contas de um país de 320 mil habitantes ou de um de 10 milhões... 

 

Por fim, é verdade que na Islândia levaram o ex primeiro ministro ao banco dos réus, mas o que não se diz por cá é que  este foi ilibado de todas as acusações. Também é verdade que fizeram um referendo sobre pagarem ou não algumas dívidas dos bancos... mas ninguém tem dúvidas que o dinheiro que a China e o FMI injectaram nos bancos nacionalizados é para se pagar.

 

Há quem ache que uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade, mas comparar a crise da Islândia e o que por lá se passou com o que se passa por cá é ou ignorância ou pura demagogia.

 

Na passada sexta na RTP o programa Sexta às 9 falaram do milagre Islandês.. podem ver o vídeo aqui:

 

 
Jorge Soares

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publicado às 22:06

Adopção:Desfazendo mitos 2

por Jorge Soares, em 31.10.08

 

cRIANÇA
 
Uma das questões que me colocam muitas vezes, e que já vi colocada por alguém que já tinha sido aprovado para adopção, é a questão da entrega da criança. A maioria das pessoas acha que um processo de adopção é muito demorado devido às burocracias, na verdade actualmente a maioria dos processos fica concluído dentro do prazo legal de seis meses.  Como já disse aqui, o que faz demorar os processos de adopção é o facto de haver muito mais candidatos para adoptar que crianças em condição de ser adoptadas.
 
Muita gente tem a imagem das crianças que estão num centro de acolhimento, o mito dos coitadinhos sem família, à espera que chegue alguém e os escolha, na realidade isso não acontece, ninguém vai escolher uma criança, as crianças não são mercadorias que estão em exposição.  
 
Quando nos candidatamos colocamos alguns limites: sexo, idade, raça, doenças, quando aparece uma criança que está dentro destes limites, a segurança social fala dessa criança aos candidatos e estes só a conhecem fisicamente após a terem aceite. A forma como é feita a entrega varia de caso para caso, em alguns casos existe um período de alguns dias até que a criança vai viver definitivamente com os pais, noutros nem isso.
 
No nosso primeiro processo ligaram-nos numa terça feira a dizer que queriam falar connosco, vieram cá a casa, falaram do N., após dizermos que sim que o aceitávamos, mostraram-nos uma fotografia e perguntaram se o podiam ir buscar, sem preparação, sem nada, se quiséssemos ficava já connosco.  
 
Como vêem, não há escolhas, estamos a falar de crianças, não de carros, de roupa ou de algo que esteja em exposição,
 
Esta semana soube que entregaram uma criança que estava há três anos à espera de uns pais a uma família que estava há quase três anos à espera de um filho, há algo de muito errado nisto tudo, porquê é que a criança teve que esperar 3 anos se aqueles pais já lá estavam? E como aqueles muitos outros. Para que serve uma base de dados nacional? ela existe mesmo?
 
Jorge
PS:imagem retirada da internet

 

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publicado às 21:36

Adopção:Desfazendo mitos I

por Jorge Soares, em 19.10.08

Adopção de crianças

 

Existem em Portugal uma serie de mitos relacionados com a adopção, sinto isso cada vez que falo com alguém sobre o assunto, cada vez que recebo um mail de alguém e mesmo de muitos dos comentários que me deixam aqui ou no nos adoptamos, o mais incrível é que mesmo muitas das pessoas que passam pelo processo de avaliação continuam a acreditar nesses mitos.... e a alimentá-los.

 

No outro dia recebi um mail de uns alunos de uma escola secundária do Porto a pedir ajuda para um trabalho sobre adopção, após uma troca de mails sobre a minha disponibilidade para os ajudar, enviaram-me uma serie de perguntas que eu tentei responder o melhor que sabia. A maior parte dessas perguntas reflecte isso mesmo, os mitos, aquilo que as pessoas acham sobre a adopção e os processos de adopção e que não tem nada a ver com a realidade. 

 

Eu não gosto de posts largos e o tema os mitos da adopção em Portugal  dá pano para muitas mangas, pelo que o assunto será tratado em vários posts, vamos lá à primeira pergunta:

 

1 - Porquê que há tantas crianças para adoptar?

 

Na verdade não há muitas crianças para adoptar, há poucas, durante o ano de 2007 foram adoptadas em Portugal pouco mais de 500 crianças, o numero de crianças em condição de ser adoptada anda à volta disto, 500 crianças por ano. Existem em Portugal mais de 11000 crianças em instituições, mas estas crianças não são para adopção, uma criança só vai para adopção quando o seu projecto de vida é definido para isso, e isto só acontece quando a família ou família alargada (avós, primos, tios) passa mais de seis meses sem aparecer na instituição ou mostrar interesse pela criança.

 

Reparem bem, basta que alguém faça um telefonema para a instituição cada seis meses para que a criança passe a vida inteira sem uma família. A ideia de que existem muitas crianças para adoptar é errada. Na verdade existem muitos mais candidatos, mais  de 3000, que crianças.

 

O principal motivo para que as pessoas tenham que esperar anos até poderem ter um filho, é porque na realidade não há crianças para adoptar, isso e o facto de 90% dos candidatos quererem crianças brancas até três anos de idade. Também é verdade que existem algumas crianças que estão em condições de serem adoptadas e não há candidatos para elas, principalmente quando se trata de dois ou mais irmãos e de crianças com mais de 7 anos, mas são uma pequena minoria.

 

 

Jorge

PS:imagem retirada da internet

 

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publicado às 22:04


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