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Conto, Malandro não estrilha, muda de esquina!

por Jorge Soares, em 26.02.11
Malandro

 

Leonardo raramente saía, e quando o fazia preferia a companhia dos amigos, decididamente, não tinha o hábito nem gostava de sair sozinho pela noite.

 

Sentou-se e logo o Sérgio se debruçou sobre a pequena mesa que os separava para lhe dizer algo sem que os clientes mais próximos ouvissem:

Sabes de quem é esta merda? Sei! E então que me dizes? Sem o deixar responder continuou: já viste o dinheirão que a puta fez à conta dos papalvos que recebia lá em casa, enquanto o Jacinto ia trabalhar?
Estás a querer dizer que ela, a Verinha… - Sim pá, a puta andava nas lides enquanto o Jacinto ia trabalhar, tanto assim, que quando o gajo soube pirou-se que nunca mais ninguém o viu. Vendo que ele não reagira continuou: agora olha, o resultado está à vista, vê bem o dinheirame que a puta fez!
Calma Sérgio, tens a certeza do que estás a dizer? Estás a medir bem o que dizes? Então pá, estás a fazer-te de parvo ou quê, ela morava no teu prédio, com certeza também lá foste e agora estás a ver para onde foi a massa, mas é mesmo assim, esquece essa merda que a gaja vem aí.

 

Hoje, tinha-se aventurado a entrar naquele bar que abrira a semana passada a dois quarteirões da sua casa. Inicialmente, a ideia era ver o aspecto com que ficara, comer qualquer coisa e regressar a casa ainda a horas de acabar aquele trabalho que tinha de ser entregue amanhã sem falta na reunião das nove.

Olá Leonardo, afinal sempre veio ver o meu barzinho! Claro Verinha, o tempo não é muito e eu não costumo sair à noite, só a minha querida me faria quebrar os hábitos, mas olhe, já estou arrependido. Não me diga isso Leonardo, e fazendo um gesto que abarcava toda a casa perguntou: está assim tão mau? Leonardo então, olhando de frente o Sérgio respondeu: Não Verinha, o bar até está melhor do que alguma vez pensei, agora a Verinha é que merecia outra sorte com os clientes.


Nesse momento já ela acompanhava o seu olhar na direcção do Sérgio, este, sentindo-se incomodado mostrou intenção de se levantar, mas Leonardo agarrando-lhe o braço obrigou-o a permanecer, e olhando para Vera continuou: Diga-me aqui só para nós que muito a estimamos, como é que as cartas lhe renderam tanto dinheiro? Vera, compreendeu de imediato as intenções de Leonardo e decidiu entrar no jogo.
Que isto não saia daqui, só vos conto a vocês porque são pessoas honestas e acredito que saibam guardar um segredo, bem, o Leonardo está mais ou menos a par, mas o Sr. não sabe e eu vou-lhe contar em atenção a ele: aquela clientela que eu tinha, era tudo gente abastada como sabe o Leonardo, homens de negócios que nada faziam sem eu lhes deitar as cartas, depois, como eu os orientava nas aplicações que faziam na bolsa, foram passando a palavra aos amigos mais chegados, estes a outros e sabem como são estas coisas, até que, me apareceu lá em casa um industrial do norte, o merceeiro como lhe chamo, e o coitadinho estava desesperado porque os negócios lá por Espanha estavam a ir de mal a pior, eu deitei-lhe as cartas e dei-lhe alguns conselhos que o levaram a ter de novo êxito, ele como retribuição, deu-me um chorudo cheque com que abri aqui o barzinho, e foi assim.

Mas o inesperado aparece quando menos se espera e as coisas não aconteceram assim.

Leonardo olhou então para o Sérgio, que a essa altura já parecia um tomate e disse: A Verinha seria uma grande amiga se deitasse as cartas para nós, que também somos filhos de gente e precisamos de alguma sorte, isto se o Sérgio concordar como é evidente. Sérgio, que até aí permanecera calado e com os olhos enfiados no copo de cerveja, ainda tentou perguntar se o tal merceeiro era aquele gajo dono da - , mas Leonardo fazendo-lhe sinal para se calar, assentiu de imediato com um gesto de concordância, dizendo: esse mesmo em que estás a pensar.


Vera medindo bem a situação e depois de pensar um pouco, disse que sim, que lhes lançava as cartas, mas que seria a última vez que o fazia, é que, tinha começado a ficar assustada com a sua capacidade para interpretar tudo o que as cartas lhe diziam, por isso, queria pôr de parte aquela actividade, esta seria portanto a ultima vez e só o fazia em consideração ao Leonardo, mas agradecia que este nunca mais lhe pedisse o mesmo. Dito isto, pediu-lhes para entrarem na salinha privada que ficava no fundo do bar, que ela já lá iria com o Tarot.

Mal entrou, e ainda os seus olhos tentavam absorver a decoração do lugar, ouviu o seu nome gritado de uma mesa no fundo da sala. Olhou, e viu a mão levantada do Sérgio, seu vizinho de rua que o convidava a aproximar.

Leonardo e Sérgio, acomodaram-se na sala, e enquanto esperavam por Vera, Leonardo foi-lhe dizendo, se ele agora tinha percebido a razão de tantos homens visitarem a casa de Vera, este, consternado, dizia que sim, que pensara ser outra coisa, que nunca imaginara uma coisa daquelas e por aí adiante, até Vera chegar com as cartas.


Contou-as e verificou que estavam as 78 necessárias, baralhou-as, e perguntou qual queria ser o primeiro. Leonardo prontificou-se de imediato, começariam com ele. Vera, mostrou então o que sabia fazer e Sérgio bebia as palavras com que Vera acompanhava o ritual, como se, de um ser divino e omnipotente se tratasse, até chegar a sua vez.

 

Depois de baralhadas as cartas, Vera disse-lhe em tom muito sério e de olhos nos olhos: Tome atenção, eu não sei muito bem como isto funciona, mas funciona, agora, o mais importante é que acredite em tudo o que lhe vou dizer através das cartas, depois é consigo, que eu lavo daí as minhas mãos. Sérgio assentiu de imediato com um abanar de cabeça, só queria que Vera começasse logo, e ouviu com sofreguidão todas as banalidades que ela lhe dizia, até ao momento em que parou e se mostrou muito pensativa. Leonardo perguntou em tom preocupado: Não é aquilo que eu estou a pensar, pois não? Vera continuou calada, voltou a mexer nas cartas, baralhou de novo e voltou a lançá-las, voltando a ficar calada com os olhos fixos na mesa. 
Leonardo perguntou com voz assustada: É a torre que te preocupa? Vera olhou para ele com as mãos a tremer e disse: A Torre e a Caveira, eu sabia que nunca mais deveria mexer-lhes, e agora? Nesta altura, Sérgio, que ora olhava para um, ora olhava para outro, quis saber o que é que se passava, o que é que as cartas tinham de tão mau? Vera mostrava-se relutante, Sérgio insistia, queria saber, fosse lá o que fosse, tinha o direito de saber já que era com ele.


Leonardo, tomando o comando da conversa disse: deixe Verinha, eu digo-lhe, a culpa é minha que o meti e a si nesta encrenca, a Verinha não se preocupe, só fez o que sabe fazer, não tem culpa das coisas serem o que são, a Verinha é simplesmente o saber interpretativo das cartas, um veículo, nada mais. Virando-se então para Sérgio, com cara de pesar e depois de alguns segundos a pensar como lhe daria a noticia, disse-lhe: A Torre com a Caveira, representam a morte à pergunta que a Vera lhes fez, e a ti, saiu-te duas vezes, não há que enganar.

Sérgio estarrecido balbuciou: E agora, o que é que eu faço? Deve haver uma maneira, ela que faça a pergunta de outra forma? Não há nada a fazer, respondeu Leonardo, não há como fugir. O meu conselho é que tenhas cuidado com tudo, até a atravessares a rua para não seres atropelado. Dito isto, baixou a cabeça e elevou as mãos que se enterraram nos cabelos.


Sérgio levantou-se em estado de choque, branco como a cal, balbuciou qualquer coisa imperceptível e saiu.

Passados uns minutos e depois de terem a certeza que ele tinha desaparecido, desataram numa gargalhada pegada, recordando os tempos em que se divertiam a pregar estas partidas, aos bicéfalos anácronos dos seus colegas de liceu. Mas isso, era quando a Verinha ainda se chamava Rafael, tinha sido antes da operação de mudança de sexo que ela fizera na Holanda, mas também ninguém sabia, ela só mudara para o seu prédio depois disso acontecer e o Jacinto nunca o diria a ninguém. Ainda recordaram como ela se tinha livrado dele, quando decidiu deixar a prostituição. A ideia de lhe dizer que tinha Sida devido à vida que levava, tinha sido sua.

Por volta das cinco da madrugada, Leonardo despediu-se de Vera e saiu. Enquanto percorria os dois quarteirões que o separavam de casa, olhou para a janela do Sérgio que ficava logo no primeiro, constatando com um sorriso sacana, que a luz 

 

Retirado de Rua dos contos

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publicado às 21:03


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