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Conto, O Caseiro

por Jorge Soares, em 19.02.11

 

O caseiro

Laura e Jair compraram uma casa na praia em 75 e no mesmo ano contrataram um caseiro, o Higino, filho de pescador, que tinha fama no lugar de ser um "rapaz direito". Higino foi morar num quartinho atrás da casa, ao lado da garagem. Quando Laura e Jair chegavam para a temporada na praia de todos os anos, sempre encontravam a casa bem cuidada, o jardim impecável, tudo no lugar. Durante vinte anos, a única coisa que desapareceu de dentro da casa foi uma foto emoldurada, de casamento, de Laura e Jair. Laura nunca mencionou o desaparecimento a Higino. Ele poderia se ofender, e ela não queria perdê-lo. O Higino era uma preciosidade.

 

Quando voltavam das férias, Laura e Jair sempre tinham histórias do Higino para contar. Da sua eficiência, da sua seriedade - e que cozinheiro! E, quando Laura e Jair voltavam para a cidade no fim do verão, Higino também tinha coisas para contar no Bar do Garça, sobre o casal. Um dia, disse: "Esse casamento não vai longe." Dito e feito. No verão seguinte, Laura apareceu sozinha na praia, explicando ao Higino que o doutor Jair estava com muito trabalho.

 

"Ela tá caminhando muito na praia à tardinha", contou Higino no Bar do Garça. Para Higino, caminhar muito na praia à tardinha, se não era para pegar marisco, era infelicidade. E a dona Laura chegava em casa sem um marisco.

 

"O seu Higino fez peixes maravilhosos. Conversamos muito. Ele não sabe, mas se não fosse ele eu teria enlouquecido neste verão. Acho que me matava", contou Laura na cidade. "Ela está comendo demais", disse Higino no Bar do Garça. Outro sinal certo de desgosto.

 

Laura ficou com a casa e no mesmo ano do divórcio apareceu na praia com um grupo mais jovem do que ela, inclusive um moço loiro com rabo de cavalo e brinco numa orelha, que os outros chamavam de Catupiri, ou Catupa, e que despertou uma antipatia instantânea em Higino. "Ela está rindo muito de nada", disse Higino no Bar do Garça, preocupado. "Sabe quando eu me convenci que estava fazendo papel ridículo?" - perguntou Laura na cidade. - "Quando vi a cara do seu Higino olhando a mecha azul no cabelo do Catupa. No mesmo dia mandei todo o grupo embora".

 

- Ele não me chamou exatamente de gorda - contou Laura na cidade, entre risadas, na volta de outro veraneio. - Só se recusou a me fazer qualquer coisa com ovo, batata ou açúcar. Eu implorava e ele nada. E sabe que eu emagreci?

 

Uma vez Laura emprestou a casa para duas amigas, por uma semana. Quando o Higino comentou, admirado, que nunca vira duas moças tão amigas, Laura explicou que elas eram lésbicas. O Higino fez que sim com a cabeça, sério, depois comentou: "Como tem aparecido religião nova, né?". Laura fez sucesso na cidade com mais outra do seu Higino.

 

Laura apareceu na praia vestida de uma maneira estranha. Cabelos compridos e despenteados, muito magra. Em vez de caminhar na praia, ficava sentada num lugar só, com as pernas cruzadas, olhando fixo para o horizonte e dizendo "Rama-sã, ramasã" Recusava-se a comer. Mas não resistiu quando o Higino fez um dos seus peixes na brasa e carregou no pirão, e quando chegou o fim do veraneio declarou ao caseiro que tinha abandonado a busca interior do seu eu cósmico e voltado à realidade e ao bom senso por causa dele. E o Higino, modesto, dissera: "Não foi nada, não, senhora".

 

Outro ano, Laura apareceu com um senhor muito distinto, cabelo branco, cachimbo, fitas de música erudita, que chamava Higino de "meu bom homem". Laura ficou cuidando a reação de Higino ao namorado novo, o primeiro desde o Catupiri que ela tivera coragem de mostrar ao caseiro. Higino não comentou a brancura do homem, nem o Hindemith no toca-fitas, comentou o friso das suas bermudas. Nunca vira frisos tão retos em qualquer coisa, quanto mais em bermudas. Quando voltou para a cidade, Laura desfez o namoro.

 

"Ele é casado? Tem namorada?", perguntaram a Laura, na cidade. "Não que eu saiba. A única vida social dele é no tal Bar do Garça."

 

No ano passado, quando chegou na praia, pela primeira vez Laura notou que Higino também estava ficando grisalho, e com um ar distinto. "Envelheci junto com uma pessoa que eu mal conheço", pensou Laura.

 

No ano passado, também pela primeira vez, Laura convidou Higino a sentar à mesa com ela depois que ele serviu um dos seus peixes maravilhosos. "Sabe do que eu precisava, seu Higino? De um marido como o senhor." Ele sacudia a cabeça, gravemente. Laura não sabe se por polidez ou concordando. Mas recusou o vinho branco.

 

No meio do ano passado, Laura apareceu na casa da praia sem avisar. Nunca ia no inverno. Mas estava com um problema sério e queria a opinião do Higino, que também se revelara um bom conselheiro em matéria de finanças e negócios. Higino não estava em casa. Laura foi procurá-lo no seu quartinho. Não o encontrou. Então viu a foto desaparecida do casamento sobre a mesa de cabeceira de Higino. Ele tinha rasgado o lado em que aparecia o Jair. Laura voltou para a cidade em seguida.

 

Laura não sabe o que vai fazer quando chegar na praia neste verão. Afinal, descobriu que durante todos estes anos o Higino dormiu com a sua foto ao lado da cama. Acha que vai ter que despedi-lo.

 

Luís Fernando Veríssimo


Retirado de Quem tem sede venha

publicado às 21:05


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