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Conto, Mana Celulina, a esferográvida

por Jorge Soares, em 20.11.10

Grávida, esferográvida

Imagem da internet

 

Aconteceu no curral de nossa casa, num meio-dia de Verão. Respirava-se um ambiente de cortar à faca. Dado o lugar, se podia antes dizer: de cortar à vaca. De tal modo escorria o rosto de Ervaristo Quase que eu temia que ele perdesse formato, de tanto pingado no chão. O pobre homem, nosso vizinho congénito, cheirava mais que o próprio curral. Como avisava meu pai: ao final, nem todo o bicho é um animal.
Estávamos no estreito recinto há mais de uma hora, eu, meu pai e o vizinho Ervaristo Quase. Mais que todos estava este último, acusado de ter abusado de minha irmã Celulina. Meu velho, Salomão Pronto, convocara o encontro com broncas e circunstâncias. As vizinhanças conheciam a nossa família como exemplo de honra e respeito. Houvesse assunto e logo era chamado o velho Salomão. Até o governador o convocava em caso de sérias gravidares. Como sucedeu a semana antepassada na maka de um general da cidade que veio esgatanhar as terras dos camponeses. Foi o velho Salomão quem pronunciou sentença. E não podia ser de outro modo: não era ele um dos antigos donos da terra?
Sabendo de quanto gozava dos gerais respeitos, dava pena vê-lo, agora, sentado em curvatura derrotada. No seu corpo, não havia pele para o florir de tanto nervo. Para realce do seu estado de zanga meu pai soltava profundos suspiros:
- Só o porco é que é traído pelo farelo.
Eu, calado, não entendi. O vizinho acanhado ainda me sussurrou:
- Sou farelo, agora?
Falou baixinho. Mas o meu pai escutou e, logo, ripostou:
- Não é farelo, mas vai ser, não demora nada.
Enquanto proclamava ameaças, meu velho não tirava os olhos dos próprios pés. Já eu conhecia seus modos: em fúria, não ousava olhar para o mundo. Contemplava-se nas pernas, rectificava as unhas nos pés.
Descarregava-se assim, ele dizia. É como faísca que sai da terra e cai no chão.
- Sou eu o meu apara-raios- explicava.
Minha irmã Celulina, por fim, entrou. Sua silhueta no vão da porta atrapalhou a luz. Já se notava o arrendodado da sombra. A barriga dela era, afinal o assunto da briga. Salomão Pronto apontou a filha e perguntou:
- Estão ver?
Fez uma pausa e engoliu uma porção de ar antes de falar uma outra vez:
- Completamente gravida! Completamente.
Coração não tem gramática. Também eu, no momento, não tinha palavra. Menos ainda o desgraçadito do Ervaristo. Ficámos todos em silêncio, transidos, à espera que trovejasse a voz do dono terra.
- Tudo se resolve com as falas, tudo. Mas isto?
Salomão apontava a barriga da filha, o dedo murcho, a voz derrotada, enquanto repetia:
- Completamente, completamente gravida.
Foi então que disse: a menina até parecia uma esferográvida. Acenámos em concordância. Ervaristo ainda tentou, a medo
- Eu juro, vizinho Salomão Pronto, eu juro que não fui...
- Fale tudo menos isso. Qualquer uma coisa, menos isso.
Celulina só chorava. Ervaristo mexeu nos bolsos, certamente por instinto. Ou como sugestão que o diferendo se poderia resolver por via do dinheiro.
- Posso dizer uma pequena coisa, com o devido respeito?
- Humn-hum - meu pai grunhiu.
- Não é falar, vizinho. É só lembrar o ditado. Posso lembrar?
- Hum-hum.
- Lembra o que diziam os antigos? Diziam as sim: só podes ter a certeza que o rato entrou quando lhe vires a cauda.
- O rato entrou, Ervaristo. É você mesmo.
- O vizinho já me chamou de farelo. Agora sou rato?
- Você nem rato não é. Você é só a cauda do rato.
Estava dito. Faltava a sentença. Pelo olhar do velho Salomão desfilava o leque das possíveis e não imaginadas punições. Demorou o silêncio enquanto escorria o tempo como óleo espesso. O céu já escurecia quando Salomão levantou os olhos até então os nas suas magras pernas:
- Você vai ser castigado, Ervaristo. Ainda sei como, mas o sonho me vai visitar e vai revelai uma decisão.
- Esta certo, vizinho.
Dava-se por finda a sessão. Demos passagem ao velho Salomão Pronto. Hesitámos quem seria o seguinte a estreitar-se pela porta do curral. Minha irmã passou a mão pela redondura, acariciando o invisível ser que ali se enrolava. Ninguém notou o piscai de olhos que ela me dirigiu, em cúmplice ternura Desviei os olhos, o pulsar atrapalhando a pulsação. Ajudei o vizinho a escapar do escuro, meu braço apoiando o ombro dele, fosse para descarga de meu remorso.
E é assim, meus amigos. Escrevo o episódio, tiro a mão da consciência. Nem a culpa, agora, me pesa. É que a vida tem seus secretos correios: os olhos de minha amada, minha doce Celulina.

 

Mia Couto, In O Fio das Missangas

 

Via Contos de Aula

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publicado às 21:01

Conto: O novo padre

por Jorge Soares, em 03.07.10

O novo padre

 

O engenheiro Ludmilo Gomes entrou na igreja cheio de feição. Cabelo bem grenhado, engargalado de fato e gravata. Marchava mais que aspectuado, todo enfeitado de si. Abriram-lhe alas, estava-se à espera dele. Pelo menos, Ludmilo sentiu-se como sendo esperado. Sorriu. Atrás dele, com passos míopes, se apressava o secretário Olinto Machado. E foi ele que soprou, roçando a nuca do recém-chegado:
- Temos um novo padre, senhor engenheiro.
Ludmilo não cedeu importância. Ali, em pleno mato da colónia de Moçambique, os padres iam e vinham. A vila era um desamparadeiro, lugar de além do fim do mundo. Ou talvez fosse o clima que suscitava os homens a pecarem. E até os padres não resistiam à luxúria que os trópicos suscitavam. Mais engenhoso que engenheiro, Ludmilo Gomes governava-se com suas próprias leis. Essa era, provavelmente, a maior vantagem de viver longe do governo central, esfumado lá na longínqua metrópole. Mas essa autonomia não colocava em causa as suas obrigações religiosas. Com ou sem padre, o português mantinha-se praticante, obediente a Deus.
Momentos antes, quando ainda cruzava a manhã para se encaminhar para os dominicais deveres, o português deu conta de que algo anormal se passava na pequena vila. Contrariamente ao habitual, alguns negros se juntavam no bairro dos brancos. À entrada da casa de Deus, havia mesmo uma aglomeração de camponeses que rodeava o canhão que ali se posicionara, desde que começara a guerra. Os homens empurravam o canhão para fora do pátio.
- Para onde raio levam isso?
- Não estamos a levar. Só estamos a tirar lá para longe da igreja.
- Quem vos mandou?
- O senhor padre.
O engenheiro ainda hesitou em tomar as contramedidas. Atrasado que estava, optou por fazer isso mais tarde. Obediência do negro de que vale se é sempre falsa?
Esse era o suspiro do colono. Em África tudo é outra coisa: a mansa crueldade do leopardo, a lenta fulminância da mamba, o eternamente súbito poente. E isto era o que se dava a ver, junto ao benzido espaço da vila. O que dizer desses iletrados matos, terras que nunca viram cruz nem luz?
Já no interior da capela, Ludmilo suspirou aliviado. Na igrejinha estavam só brancos. Não era que ele fosse racista, insistia ele. Mas era sensível aos cheiros. Nessa manhã, os seus compatriotas soslaia-ram a sua chegada. E viram-no aproximar-se do altar e tomar posição para receber a hóstia.
Foi então que ele espetou a língua. As senhoras viraram a cara, recatadamente. Diziam as madames, nas resguardadas conversas do clube, que nunca se vira língua tão excessiva. Os homens comentavam à boca pequena sobre o modo despudorado como, por dá cá nenhuma palha, o engenheiro alardeava publicamente a língua. Não deveria ele ter outro exibível músculo, rematavam.
De joelhos frente à cruz, Ludmilo permaneceu longos e húmidos minutos, de língua exposta, até que o secretário lhe bichanou:
- Não vale a pena, senhor engenheiro. Não há hóstias.
- Como não há?
- Dizem que a farinha foi distribuída para outros fins. E dizem que, doravante, vão passar a fazer hóstias com farinha de mandioca...
- Onde está o padre?
O secretário nem falou: apontou para o confessionário. Ludmilo ergueu-se e aproveitou o caminho que se abria perante ele. Com altivez se ajoelhou no confessionário. Um homem superior tem que saber ajoelhar-se de modo a que não pareça submissão. O engenheiro inclinou-se até quase tocar com a cabeça na janelinha de madeira. Mesmo na casa de Deus, as paredes gostam de escutar. Ainda sorriu, ao de leve, recordando o último padre que era surdo e fingia escutar as confissões. Poderia Deus falar por sua boca, mas certamente que não ouvia pelas suas orelhas.
Desta vez, Ludmilo calculou a intensidade da fala. No início, até teve que se repetir: as palavras se mastigavam umas nas outras, as consoantes canibalizando as vogais. A eloquência do engenheiro se remelava. Finalmente, o discurso se aclarou. Que tinha pecado, tinha entrado numa cubata seguindo uma moça preta que ele há muito tinha fisgado.
- Continue, meu filho - encorajou o padre.
Essas pretas, não sei o que têm. A gente, de um lado, tem-lhes asco, sabe-se lá se estão lavadas, que doenças nelas se escondem. Por outro lado, os corpos delas saltam da natureza e agarram-nos pelos... entende, senhor padre?
- Não entendo.
Claro que não podia perceber. Era como perguntar ao chacal se tinha apreciado a alface. O engenheiro prosseguiu a narração do pecado: porque a coisa, nessa noite, tinha corrido mal. Estava assaltando a moça, e ela resistia. Ou melhor, fazia de conta que resistia, a malandra, qual a pretita que não quer ser... como direi, senhor padre, não quer ser possuída por um branco?
- E depois, o que aconteceu?
O pior ainda não revelei, padre. É que, no meio da luta, entrou na palhota o irmão da moça, chamado pelos gritos dela. O rapaz num ápice se lançou sobre a cama onde nos debatíamos. Pensei que me ia agredir. Mas ele, coitado, queria era bater na irmã por ela estar criando um conflito comigo. Sem entender, lhe atirei com um ferro. Dizem que foi aquilo que o matou. Mas eu acho, sinceramente, que ele já devia ter qualquer problema. Não se morre assim, o senhor sabe como os africanos são vítimas de maleitas e feitiços.
O português calou-se, espreitou em redor para confirmar o sigilo da confissão. Tossiu para sugerir que estava apressado, o dolente joelho parecia espreitar-lhe pelos olhos.
- Quantas orações devo rezar, padre?
- Nenhuma.
- O senhor me absolve? Deus me perdoa?
- Quem o absolve não é Deus, meu filho.
- Como não é Deus?
- Deus está cansado de ouvir. O demónio, foi o demónio quem o escutou. E de lá, do meio do Inferno, é o demónio quem o esta abençoando.

 

O engenheiro sentiu um calor entontecer os seus interiores. Os óculos, derretidos, descaíram pelo rosto. Assim, em desfoco, olhou a multidão como que uma desconformada espuma. Foi então que viu o padre sair do confessionário. Fosse a tontura que lhe dava, mas o coração, de um golpe, se confrangeu: o missionário era preto, retintamente negro.


Como se fosse vindo de um outro tempo, escutou o ranger das rodas do canhão. E depois, ouviu pés descalços cruzando os passeios do bairro branco. Em seguida, o silêncio. Ludmilo ainda sorriu. Seria um sorriso? Se o silêncio é sempre um engano: o falso repetir do nada em nenhum lugar. E em África tudo é sempre outra coisa.

 

Mia Couto in O fio das missangas

Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:59

Conto: A despedideira

por Jorge Soares, em 20.02.10

A despedideira, Mia Couto

 

Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.

No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.

Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.

Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeirissímo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comercia palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra e me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada

Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira vez. Como se aquele momento fosse, afinal toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por a parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.

No entanto, algo nele aparentava distância. O último escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco aí mesmo se consumia.

Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas.

Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insisti, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.

Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.

Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.

Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.

Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.

Assim, ele virá para renovar despedidas. Quando a lágrima escorrer no meu rosto eu a sorverei, como quem bebe o tempo. Essa água é, agora, meu único alimento. Meu último alento. Já não tenho mais desse amor que a sua própria conclusão. Como quem tem um corpo apenas pela ferida de o perder. Por isso, refaço a despedida. Seja esse o modo de o meu amor se fazer eternamente nosso.

Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.

Ninguéns.

 

Mia Couto, In O Fio das Missangas

 
 

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publicado às 21:25

Sonhar mulher

 

Meia culpa, meia própria culpa

 

Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. Nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. Daí o meu nome: Maria Metade.

 

Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.
 
A meu esposo chamavam de Seis. Desde nascença ele nunca ascendeu a pessoa. Em vez de nome lhe puseram um número. O algarismo dizia toda a sua vida: despegava às seis, retornava às seis. Seis irmãos, todos falecidos. Seis empregos, todos perdidos. E acrescento um segredo: seis amantes, todas actuais.
 
Das poucas vezes que me falou, nunca para mim olhou. Estou ainda por sentir seus olhos pousarem em mim. Nem quando lhe pedi, em momento de amor: que me desaguasse uma atenção. Ao que retorquiu:
- Tenho mais onde gastar meu tempo.
 
Engravidei, certa vez. Mas foi semiprenhez. Desconcebi, em meio tempo, meio sonho, meia esperança. O que eu era: um gasto, um extravio de coisa nenhuma. Depois do aborto, reduzida a ninguém, meu sofrer foi ainda maior. Sendo metade, sofria pelo dobro.
 
Pede-me o senhor que relate o sucedido. Quer saber o motivo de estar nesta cadeia, desejando ser condenada para o resto deste nada que é a minha vida? O senhor que é escritor não se ponha já a compor. Escreva conforme, no respeito do que confesso. E tal e qual.
 
Pois, conforme lhe antedisse: a verdade não confio a ninguém. Verdade é luxo de rico. A nós, menores de existência, resta-nos a mentira. Sovi pequena, a minha força vem da mentira. A minha força é uma mentira. Não é verdade, senhor escritor?
 
Por isso, lhe deitei o aviso: eu minto até a Deus. Sim, Lhe minto, a Ele. Afinal, Deus me trata como meu marido: um nunca me olha, o Outro nunca me vê. Nem um nem outro me ascenderam a essa luz que felicita outras mulheres. Sequer um filho eu tive. Que ter-se filhos não é coisa que se faça por metade. E metade eu sou. Maria Metade. Agora, o que aspiro é ficar em sombra perpétua. Condenada por crime maior: apunhalar meu marido, esse a quem prestei juramento de eternidade. É por causa desse crime que o senhor está aqui, não é assim?
 
Pois lhe confesso: aqui, penumbreada nesta prisão, não sofro tanto quanto sofria antes. É que aqui, sabe, acabo saindo mais que lá em minha casa natal. Vou onde?
 
Saio pelo pé de meu pensamento. Por via de lembrança eu retorno ao Cine Olympia, em minha cidade de outro tempo. Sim, porque depois de matar o Seis reganhei acesso a minhas lembranças. É assim que, cada noite, volto à matiné das quatro de minha meninice. Não entrava no cinema que me estava interdito. Eu tinha a raça errada, a idade errada, a vida errada. Mas ficava no outro lado do passeio, a assistir ao riso dos alheios. Ali passavam as moças belas, brancas, mulatas algumas. Era lá que eu sonhava. Não sonhava ser feliz, que isso era demasiado em mim. Sonhava para me sentir longínqua, distante até do meu cheiro. Ali, frente ao Cinema Olympia, sonhei tanto até o sonho me sujar.
 
Regressava a horas, entrava em casa pelas traseiras para não chorar ante os olhos sofridos de minha mãe. Minha fatia de tristeza era uma ofensa perante as verdadeiras e inteiras mágoas dela. Regressava depois do quarto, olhos recompostos, fingindo uma alegriazita. Minha mãe se apercebia do meu estado, desembrulho sem prenda. E me dava conselho:
- Sonhe com cuidado, Mariazita. Não esqueça, você é pobre. E um pobre não sonha tudo, nem sonha depressa.
 
Vantagem da prisão é que todo o dia é domingo, toda a hora é de matiné das quatro. É só meu sonho dar um passo e eu já vou sentando minha privada tristeza no passeio público. Volto onde eu não amei, mas sonhei ser amada. É só um passo e eu atravesso o passeio público. E não mais precisarei de invejar o sorvete, o riso, a risca no penteado.
 
Pouco restou da minha cidadezinha. Onde era terra sem gente ficou gente sem terra. Onde havia um rosto, hoje há poeira. O trilho das goiabas se asfixiou no asfalto. Nem a chuva tem onde repousar. A cidade se foi assemelhando a todas as outras. Nessa parecença, o meu lugar foi falecendo. Nessa morte foi levada minha lembrança de mim. A única memória que me resta: a migalha de um tempo, o único tempo que me deu sonhos. Sob vigilância de minha velha mãe, eu cuidava de não sonhar tudo, nem depressa. Ainda que fossem metades de sonhos, esses pedaços ainda me adoçam o sono, deitada no frio da cela.
 
O senhor não está aqui por mim. Mas por minha história. Isso eu sei e lhe concedo. Quer saber como sucedeu? Foi em tarde de cinza, o céu descido abaixo das nuvens.
 
Eu pretendia era revirar página de um despedaçado livro. Descosturar-me desse Seis, meu marido. Eu queria me ver separada dele para sempre, desunidos até a morte nos perder de vista. Até não ser possível morrermos mais.
 
Naquela vez, já a decisão me havia tomado. Fui recebê-lo na porta, a roupa abotoada por metade, o punhal escondido em minha mão. Chovia, de lavar céu. Eu mesma me aguei aos olhos de Seis. Brinquei, provoquei, mostrei o cinto distraído, desapertado. Provoquei com perfume que minha vizinha me emprestou.
- Você quer-me molhada pela chuva.
- Quero-lhe é mais molhada que chuva.
 
Então, quase derrapei em minha decisão. Estava-se emendando fatalidade? É que, por primeira vez, meu marido me olhou. Seu rosto se emoldurou, único retrato que comigo guardo. Para disfarçar, revirei a chuinga entre os lábios, fiz adivinhar o veludo da carícia. Mas o gesto já estava fadado em minha mão e, num abrir sem fechar de olhos, o meu Seis, que Deus tenha, o meu Seis estava todo pronunciado no chão. Decorado com sangue, aos ímpetos, mapeando o soalho.
 
Relatei o sucedido, tudo de minha autoria. Mas não confesso crime, senhor. Não. Afinal, não fui eu que lhe tirei vida. A vida, a bem dizer, já não estava nele. O que sucedeu, sim, foi ele tombar sobre o punhal, tropeçado em sua bebedeira. O Seis, meu Seis, se convertera em meia dúzia. A condizer com a minha metade de destino.
 
Não o matei. E disso tenho pena. Porque esse assassinato me faria sentir inteira. Por agora, prossigo metade, meio culpada, meio desculpada.
 
Por isso lhe peço, doutor escritor. Me ajude numa mentira que me dê autoria da culpa. Uma inteira culpa, uma inteira razão de ser condenada. Por maior que seja a pena, não haverá castigo maior que a vida que já cumpri. E agora, por amor dessa mentirosa lembrança, o senhor me abra a porta do Cine Olympia. Isso, faça-me esse obséquio, lhe estou agradecendo. Para eu, finalmente, espreitar essa luz que vem de trás, da máquina de projectar, mas que nos surge sempre pela frente. E sente-se comigo, aqui ao meu lado, a assistirmos a esse filme que está correndo. Já vê, lá na tela, o meu homem, esse que chamam de Seis? Vê como ele, agora, no escurinho da sala está olhando para mim? Só para mim, só para mim, só.
 
 
Mia Couto, O Fio das Missangas
Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:14


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