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Mulher na maré baixa

 

Imagem Minha do Momentos e Olhares

 

Se eu fosse cega não poderia estar agora fazendo caretas ao sol. Nem enxergaria essa luz que em todos os janeiros ferem esta praia.

— Ei. Não faça sombra. Não tape meu sol, por favor. — Disse. E era voz de mulher, da mesma mulher que ainda há pouco considerava a possibilidade de ser cega.

— O sol não é só seu, dona. Mas eu ouvi ontem a senhora pedindo ao Zequinha pra passear na jangada dele — respondeu-lhe a voz de um homem. De um homem não. Digamos, de um homem bem jovem.

— E ele disse que não. Que não carregava muié pro mar — explicou, bem emburrada, imitando o falar do referido Zequinha.

— É. Ele num carrega não, mas eu carrego — adiantou-se logo o rapaz.

— E quem é você? — ela indagou àquele metido.

— Sou o filho dele, meu nome é Humberto.

— O meu é Alba.

— Eu já sei. Aqui todo mundo sabe de tudo.

Até aposto que estão fuçando minha vida. Fui o assunto da semana nesta vila de pescadores. Eles são tão engraçados. São tão diferentes do pessoal que eu conheço, julgou a moça. Ele foi se sentando. A areia, afinal, era pública. Abancou-se bem pertinho, querendo se chegar, já todo cheio das afinidades, já puxando conversa, já íntimo. Era doidinho para experimentar uma turista como aquela, uma dessas que aparecem de vez em quando pela vila. Todas muito formosas, vindas das cidades grandes. Se um dia conseguisse namorar com uma, ia ser tão bom.

Foi com essa intenção que começou a prosear, contar coisas sobre a vida dos pescadores, sobre o vaivém das jangadas, pois esperto, notou que Alba tinha um fraco por elas.

Ela ouvia com paciência, sem prestar muita atenção. Ali estava o primeiro nativo com quem travava amizade, e travar amizades era seu desejo. Tinha vindo para aquela vila com a esperança de conhecer gente despoluída, simples, quem sabe até um homem novo, puro, diferente dos outros que conhecera até o momento e que lhes davam enjôo. Alguém especial para lhe dar sentido à vida; sonho secreto que não larga as mulheres; a eterna perseguição da aventura do amor romântico.

 

Joyce Cavallcante

 

Retirado de http://www.joycecavalccante.com/ 

 

 

publicado às 22:01


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