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 Um homem não tem país?

Imagem retirada de Charquinho

 

 

Em todo o mundo estrangeira!

Toda a vida peregrina!

Vede se há mais triste sina:

Ser rica, e não ter um lar!

Sempre a lenda do Ashevero!

Sempre o decreto divino!

Sempre a expulsar-me o destino ....

 

Já aqui falamos de pátria e nacionalidade, primeiro a propósito de quem é e diz que não quer ser, depois a propósito de quem quis ser e por isso cause polémica. Ontem no programa Linha da Frente, a Mafalda Gameiro apresentou uma reportagem que falava sobre aqueles que nasceram cá, que cá cresceram, que cá estudaram até onde os deixaram, que cá querem trabalhar e não os deixam.. , não são portugueses, não são de cá, não são de lá, não são de lado nenhum.

 

Ontem ante aqueles testemunhos senti pena, deles claro, e de nós... pena e vergonha, porque aquilo que se viu na reportagem, é para sentirmos vergonha, vergonha das leis que criamos, vergonha da forma como elas são interpretadas e vergonha da forma como nós, que parece que nos orgulhamos de ter dado povos ao mundo, tratamos os seres humanos que cá nascem.

 

Como entender que uma mãe que tem sete filhas, todas portuguesas, não tenha direito a encontrar um emprego porque algures há um funcionário que acha que ela nem tem direito a cá viver legalmente?

 

Como não entender aquele pai que cá nasceu e diz que sem documentos não consegue emprego e que se necessário terá que ir roubar para alimentar a sua filha, que lá está, ela sim é portuguesa?

 

A dada altura na reportagem, alguém mostrava a sua raiva porque até o Liedson podia ser Português, mas eles que cá tinham nascido, eles que não conheceram outra pátria, eles não podem, pior, nem tem direito a autorização de residência!!!!!, confesso, senti vergonha de novo.

 

Conheço vários filhos de emigrantes que não nasceram cá, nunca cá viveram, e que cá estiveram uma semana e conseguiram a nacionalidade para poderem ir viver para outro qualquer país da Europa, estive em Macau e conheci vários chineses que nunca cá estiveram, não sabem dizer nem bom dia em português, mas lá está, são portugueses... porra, porque é que estes portugueses que nasceram cá, que sempre cá viveram que não falam outra língua, que não conhecem outra pátria, não o podem ser?

 

"Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa". dizia Fernando Pessoa há muito tempo atrás, o que se passou desde então para chegarmos até este ponto?

 

Vergonha, eu tenho vergonha, e tenho receio, porque mais tarde ou mais cedo, todos nós vamos pagar a factura por este tipo de atitudes.


Que pode valer à hebreia

Sentir na alma chama infinda?

Como a linda Ester ser linda,

E amada como Raquel?

Se o coração da judia

Se entreabre do amor aos lumes,

Não lhe dá tempo aos perfumes

O seu destino cruel.   

 

Ai, trovador nazareno,

Não voltes! tenho receio…

Dizes que é Deus de permeio?

Não! Blasfemaste! Deus, não!

Pôs o mundo esse Impossível

Entre o desejo e a ventura;

O amor chama-lhe — loucura;

E o preconceito — razão.   

 

.... 

 

Mas se a crença nos separa,

E o mundo exige o suplício,

Dê-se o amor em sacrifício,

Deixando-se o pranto à dor;

Eu, cerro o peito à ventura;

Tu, esmaga o teu desejo;

Não mais virei junto ao Tejo...

Não voltes mais, trovador!  

 

 

Lisboa, Abril de 1864  

“Sons que Passam” — Tomás Ribeiro

(1831 - 1901)

 

 

 

Jorge Soares

PS Fragmentos do Poema a Judia (Obrigado Ana)

 

publicado às 20:52


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