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Conto - O menino

por Jorge Soares, em 18.04.15

omenino.JPG

 

 
São os olhos dele que não me deixam dormir. Os olhos opacos, estáticos, engessados, pousados na ausência. Eles não pedem, esses olhos. Não se movem em buscas. Sabem que seja nos arredores, seja no imensurável do longe, o que há é o nada. Não, não é. Antes fosse o nada. Esse vazio que não acalenta, mas que também não dói. O que cerca esses olhos vazios é o tudo. O inalcançável e esfuziante colorido do tudo. Que não lhe pertence. 
 
Ele apenas desistiu. Sabe que os vidros das vitrines foram feitos para promover o apartheid do pão. Ele sabe — aprendeu nas aulas de cotidiano — que lugar de menino pobre e preto é no sinal dos cruzamentos, nos montes de lixo, nos becos do morro, no papelão das caixas desmembradas em camas, na porta dos cafés pedindo um trocado e ganhando deboche. E limpa com cuspe o sangue do dedo que machucou na véspera. E cheira um pouco de thinner pra matar a fome que nem é de véspera. E não volta para o barraco pobre onde vive com a mãe porque lá agora tem um homem que faz a sua mãe de pasto, e que faz os filhos da sua mãe de pasto. 
 
Ele não quer olhar mais nada. Não quer ver o que não pode ter. Nem quer ver o que incomoda. Como a piedade nos olhos da mulher que lhe trouxe comida. Foi ontem? Ou anteontem? Ela passou as mãos nos seus cabelos sujos e emaranhados e sorriu e perguntou o nome dele e sorriu de novo. Depois lhe deu a marmita embrulhada num saco de plástico branco. E ele não aguentou. Sentiu o corpo esquentando, tremendo, se preparando para um abraço que não existiria. Mas existiu. Existiu, sim. E aí ela foi embora. Tinha mesmo que ir. Todos vão. 
 
Por isso ele não quer mais ver. Não ia suportar outro sorriso. Não para depois ter que olhar novamente para a feiura das calçadas cheias de escarros. Ter que olhar para a lata de cola, para os pés descalços, para o dedo sujo de sangue que ele vai limpar mais uma vez com a saliva grossa. Ele não quer mais ver o sol que é amarelo como o dos desenhos dos meninos que ele viu no mural do pátio da escolinha. Viu pela grade. E achou bonito. E quis ter lápis de cor de ponta afiada para desenhar um sol para si mesmo. Para guardar no bolso do short surrado e iluminar o breu do medo.
 
Ele não quer mais ver o que é bonito. Nem o céu cheio de estrelas, nem as nuvens gordas e brancas, nem os desenhos dos meninos, nem o sorriso da moça que acarinha os seus cabelos. Ver é sofrimento. Desejo de mais. E ele não quer, não pode. 
 
São os olhos dele que me mordem os sentidos. Até ontem, opacos, apáticos, tão cheios de renúncia. Hoje, dois buracos fundos de onde escorre o sangue ainda vivo que ele limpa com saliva. Dizem que furou com um lápis de cor. Para desenhar um sol por dentro.
 
Ele agora quase sorri. Eu sigo adiante. Com os meus olhos culpados
 
Cinthia Kriemler
 
Retirado de Samizdat

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publicado às 21:44

Porque é que a solidariedade paga IVA?

por Jorge Soares, em 08.12.14

iva.jpg

 

Imagem de aqui

É certo e sabido, nos dias a seguir às campanhas do Banco Alimentar contra a fome, alguém desenterra este artigo, ou outro parecido, e durante dias ele anda a circular no Facebook e nas restantes redes sociais.

 

Há muito de verdade no que ali se diz, mas o certo é que a forma como funciona o banco alimentar português leva a que as cadeias de supermercados e o estado sejam efectivamente muito beneficiados com este tipo de campanhas... não sei se será fácil fazer o estudo, mas era interessante sabermos em quanto aumenta a facturação dos supermercados nos dias em que há campanhas do Banco Alimentar.

 

Durante a semana passada a RTP, através da emissora de rádio Antena 3 desenvolveu a campanha Toca a Todos em que foram angariados mais de 365 mil Euros a favor da Cáritas, que em principio utilizará este dinheiro na luta contra a pobreza infantil.  

 

Uma parte deste dinheiro veio de chamadas telefónicas de valor fixo, 60 cêntimos + IVA, no fim cada chamada custa a quem está a ser solidário 74 cêntimos, sendo que pelo menos 14 cêntimos vão directamente para o estado. 14 cêntimos que são ganhos pelo estado à custa da solidariedade do povo português.

 

A questão é, faz sentido que o estado cobre IVA sobre a solidariedade? Ainda por cima quando estamos a falar de uma campanha que no essencial vai servir para cobrir necessidades que deveriam ser cobertas pelo estado? É ao estado que cabe em primeiro lugar garantir que não exista pobreza nem infantil nem de nenhum outro tipo no país, não seria lógico que se não consegue fazer o seu papel, pelo menos não cobrasse impostos a quem o tenta fazer por si?

 

Supondo que um terço dos 365 mil Euros vieram destas chamadas, 120 mil Euros, o estado terá arrecadado perto de 30 mil Euros em IVA, um grão de areia no meio do deserto das contas públicas, mas que de certeza fariam muita diferença nas contas de alguma associação de apoio à infância.

 

Será que não havia forma de criar um tipo de chamadas para este tipo de campanhas que não fosse sujeita a IVA e/ou nas que o imposto fosse directamente para a campanha e não para o estado?

 

Jorge Soares

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publicado às 23:00

Isabel Jonet

 

 

"Há profissionais da pobreza para quem assistência é forma de vida... que fazem da mendicidade um modo de vida"

 

“em Portugal há aquilo a que chamamos a transmissão intergeracional da pobreza e temos que quebrar essa transmissão”

 

Ela andava calada desde Abril.... bem que podia ter continuado.

 

Um dos problemas de quem vive na rua é que chegam a um ponto em que é muito difícil que voltem a ter a capacidade de terem uma vida estruturada, quanto mais tempo viverem na rua mais difícil será que de lá saiam, há estudos que mostram que assim é e todos os que andam na rua a tentar ajudar estas pessoas, tem consciência disto.

 

Mas isto é evidentemente muito diferente do que pretendeu afirmar Isabel Jonet, o facto de ser difícil retirar as pessoas da rua não significa que estas pessoas se tenham tornado em profissionais da pobreza, significa que o estado e todos nós temos que por um lado nos empenharmos muito mais para podermos efectivamente ajudar estas pessoas a voltarem a ter uma vida digna e por outro lado, melhorar a situação do país para que não haja mais pessoas a irem parar à rua.

 

Não sei onde foi Isabel Jonet buscar os dados para fazer estas afirmações, mas pretender que as pessoas vivem na pobreza porque querem é o cúmulo da insensibilidade e da estupidez.

 

Evidentemente há casos e casos, mas não se pode generalizar, se a pobreza é intergeracional é porque as pessoas não tem condições para dar uma melhor forma de vida aos seus filhos e termina por se entrar num círculo vicioso, não porque tenham escolhido isso como forma de vida, quem não quer o melhor para os seus filhos?, quem é o pai que se poder escolher não dá educação e meios aos seus filhos para que eles tenham uma vida decente?

 

Sinceramente não consigo perceber onde vai a senhora buscar estas ideias, mas ela fazia um enorme favor a si e ao resto do mundo, se estivesse sempre calada é que cada vez que abre a boca sai asneira, as suas palavras são uma enorme falta de respeito pelos milhares de pessoas que não conseguem ter meios para sobreviver sem ser na rua e até para quem os tenta ajudar.. que não me parece de todo que seja o caso dela.

 

É caso para dizer... E porque no te callas?

 

Ler Takes Anteriores aqui

 

Jorge Soares

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publicado às 21:30

Os ninguéns de Eduardo Galeano

por Jorge Soares, em 18.05.13

Os ninguéns


As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns em deixar a pobreza; que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

 

Os ninguéns: os filhos de ninguéns, os donos de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos.

Que não são, embora sejam.

Que não falam idioma, falam dialetos.

Que não praticam religiões, praticam superstições.

Que não fazem arte, fazem artesanato.

Que não são seres humanos, são recursos humanos.

Que não têm cultura, têm folclore.

Que não têm cara, têm braços.

Que não têm nome, têm número.

Que não aparecem na História Universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

 

Eduardo Galeano

(O livro dos abraços, tradução de Eric Nepomuceno)


Retirado de Trapiche dos outros

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publicado às 21:34

Ainda a Isabel Jonet ... Por que no te callas?

por Jorge Soares, em 04.12.12

Isabel Jonet e o pequeno almoço dos pobres

 

Imagem do Aventar

 

Isabel Jonet em entrevista ao CM


CM - Como é que analisa os casos das crianças que chegam à escola com fome?


Isabel Jonet - É inexplicável. Deve-se, em parte, à não responsabilização e falta de tempo dos pais. Sem o pequeno-almoço, os alunos não podem ter rendimento escolar.


Pois, está-se mesmo a ver que é por isso... os pais são uns irresponsáveis que deixam acabar o dinheiro que não ganham porque estão desempregados ou tem salários de miséria.

 

Realmente a pobreza está perto... mas acho que neste caso o que está mesmo perto é a pobreza de espirito, um comentário como este não tem nome. 

 

Mas esta senhora não se cala?

 

Jorge Soares

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publicado às 19:41

Quem é a Isabel Jonet?

por Jorge Soares, em 11.11.12

Isabel Joner

 

Imagem do Público 

 

Antes de mais, antes que me acusem de não ter ouvido ou de ter retirado as frases do contexto,  eu ouvi com atenção as palavras da senhora, quem não ouviu pode ouvir aqui.

 

O problema no que disse a senhora, não está no facto de ser verdade ou não o que ela disse, haverá sem duvida muita gente que não soube gerir o que tinha e que deu a vida por garantida, o problema é que a forma como ela diz as coisas, primeiro empurra para quem sente dificuldades  o ónus da culpa do que está a acontecer e depois torna pobreza quase como uma inevitabilidade, segundo ela, nós queríamos todos ser ricos quando a verdade é que somos pobres...e nada disto é verdade.

 

Em primeiro lugar não é verdade que todos vivessemos acima das nossas possibilidades, os portugueses, a maioria pelo menos,  tinham emprego, produziam e contribuiam para a economia do país.

 

Em segundo lugar, não me parece que seja uma inevitabilidade nem que estejamos condenados a ser pobres, nem que a situação actual do país seja definitiva. Temos que olhar em frente e pensar não que temos todos que ser pobrezinhos e sim que temos que nos esforçar para que o país nos volte a dar condições para voltarmos a viver decentemente.


Ao contrário do que diz a senhora, não há nada de errado em comer-se bife todos os dias, nem em ir-se a concertos ou ao cinema, aliás, a economia só funciona se existir quem compre bifes, vá a concertos e ao cinema, errado era a situação há 30 anos atrás em que havia muita gente que nunca via um bife na vida.... haverá quem ache que temos que voltar a essa época, mas isso não vai acontecer.

 

Quero acreditar que com a ajuda e o esforço de todos nós, o país vai dar a volta por cima, vai voltar a haver emprego, e vamos poder voltar a comer bife e ir ao cinema quando nos apetecer... mesmo..e quem não acredita, quem acha que o destino é a pobreza e a miséria, então o melhor é emigrar mesmo, porque está a mais por cá... Isabel Jonet incluída.

 

Também acho um exagero que se peça a demissão da senhora, todos temos direito à nossa opinião, temos é que saber dar a importância devida a cada pessoa e se pensarmos bem.. quem é a Isabel Jonet?

 

Jorge Soares

 

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publicado às 22:01

Guiné às escuras

Imagem do Sorrisos sem Cor


"Someday perhaps the inner light will shine forth from us, and then we'll need no other light" Goethe

"A Guiné-Bissau é um país sem luz.


Menos de 1% dos guineenses tem acesso à energia eléctrica.


Para além desta dura realidade que deixa o país praticamente às escuras é preocupante o facto de não conseguirmos ver uma "luz" ao fundo do túnel para as muitas crianças que são vítimas de abandono e da falta de condições de saúde e que levam as suas jovens mães a não resistirem ao parto e a deixá-las sozinhas, frágeis e vulneráveis.


Apesar das dificuldades por que passam desde que nascem e de serem verdadeiras sobreviventes de um país que pouco ou nada tem para lhes oferecer, estas crianças têm "energia" de sobra.


Por todo lado podemos vê-las a correr nas ruas de terra vermelha, a jogar ao pega-pega e a brincar ao surumba-surumba.


Os seus brinquedos são inventados com peças que encontram aqui e ali, divertem-se empurrando pneus e fazem de qualquer roda um verdadeiro carro de corrida.


Aqui quase ninguém vê televisão, usa o computador ou tem acesso à internet.


Aqui a luz que vai brilhando é apenas a do sol que teima em nascer todos os dias.


Era nos olhos destas crianças que queria ver brilhar uma luz: a da alegria e da esperança num futuro melhor..."

 

Joana Cruz no Sorrisos sem Cor 

 

Vivemos tão centrados nas nossas coisas, no nosso mundo que temos tendência a esquecer que existem mundos para além do que conhecemos,  é difícil acreditar que em pleno século XXI, exista um país em que menos de 1% da população tem acesso a algo tão elementar como a energia eléctrica, mas a verdade é que esse país existe mesmo.  

 

Todos nós damos por garantidas muitas coisas, os nossos filhos não se imaginam a viver sem elas, nós não nos imaginamos a viver sem elas.. luz, água, telefone, televisão, internet,... tantas coisas..e há tanta gente que nunca as teve.

 

Tudo na vida é uma questão de perspectiva, todos os dias nos queixamos de que estamos mal, de que as coisas estão mal,  hoje quando lia o post da Joana dei por mim a sentir de novo o que senti quando fui buscar a minha filha a Cabo Verde, afinal nós temos tudo e era preciso tão pouco para fazer tanto por tanta gente.

 

Só indo lá, vendo, sentindo o que tem e não tem estes povos, conseguimos verdadeiramente entender termos como terceiro mundo e subdesenvolvimento e  perceber que afinal, nós somos uns privilegiados.

 

Por vezes precisamos de ver o mundo pelo olhar dos outros para nos situarmos na vida.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:29

Os meninos dos carrinhos de arame, Cabo Verde

 

Há coincidências na vida bem curiosas, hoje de manhã abri um mail que recebi há um ou dois dias da Eugénia, o Subject era:Obrigatório Ler... , lá dentro um Texto de Fernando Nobre em que se fala do valor do salário mínimo nacional e dos valores altos das pensões, no geral é um texto com o que concordo, efectivamente o Salário Mínimo é baixo quando comparado com muitos dos países da Europa comunitária e há pensões que são um escândalo. Mas o que me chamou a atenção e me levou a responder à Eugénia foi a seguinte frase:

 

"Os números dizem 18% de pobres... Não me venham com isso. Não entram nestes números quem recebe os subsídios de inserção, complementos de reforça e outros. Garanto que em Portugal temos uma pobreza estruturada acima dos 40%, é outra coisa que me envergonha..."

 

O sublinhado não é meu.

 

Dei por mim a pensar na conversa do Taxista numa das viagens para o interior da ilha em Cabo Verde. "O Salário mínimo são 9000 Escudos, mas eu conheço pessoas que ganham metade disso" Para obter o valor em Euros basta dividir por 100. Tudo na vida é uma questão de perspectiva, se tivermos em conta que o preço das coisas nos supermercados custa o mesmo ou mais que cá, se chamamos pobres a 40% da população portuguesa, o que dizer do povo de Cabo Verde? E dizia-me alguém que Cabo Verde é dos países com melhor nível de vida em África.

 

Curiosamente a meio da tarde vi esta noticia do Público em que o senhor diz que é candidato à Presidência da República. ... Para alguém que é presidente da AMI, alguém que deve ver muitas vezes situações piores que as de Cabo Verde, acho que as afirmações acima estão completamente fora de perspectiva.... e só as entendo se as enquadrar na pré-campanha eleitoral.

 

Quando estava em Cabo Verde e apareceram as crianças das fotografias com os carrinhos feitos de arame, lembrei-me de uma conversa com o meu pai, em que ele contava que quando era criança fazia os seus próprios brinquedos com arames e madeira, tal qual os que as crianças traziam. Reparem, o meu pai tem mais de 60 anos, estamos a falar do Portugal de há  de 50 anos atrás.... .. é essa a situação actual das crianças em Cabo verde. E eu vi muitas crianças nas ruas e nas estradas, mas para além de uma ou outra bola, não vi mais brinquedos que estes...e não me lembro de ter visto uma loja de brinquedos, ou um centro comercial.. aliás, para além de dois ou 3 supermercados e muitas lojas de chineses, não vi lojas.

 

Tudo na vida é uma questão de perspectiva,eu também acho que deve ser difícil viver com 450 Euros por mês, e concordo que o salário mínimo deveria ser aumentado, mas não me digam que 40 % das pessoas em Portugal são Pobres, nunca neste país se viveu tão bem, alguém deveria dizer ao senhor o que é ser pobre, e todos deveríamos de vez em quando visitar Cabo Verde, ou outro país onde realmente exista pobreza... só para entrarmos em perspectiva.

 

Quanto ao Sr Fernando Nobre, é cedo para a campanha eleitoral..e se como presidente da Ami ainda não conseguiu colocar-se em perspectiva sobre a realidade do mundo em que vivemos, o melhor é que se continue a dedicar à Medicina e deixe a politica de lado.

 

Jorge Soares

 

PS:imagens minhas do Momentos e Olhares

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publicado às 21:31

Ainda a natalidade e a sobrepopulação

por Jorge Soares, em 12.08.09

Sobrepopulação e pobreza

 

Eu sei que disse que ia de férias, mas também disse que ainda faltavam 3 dias..e que poderia acontecer algo que me fizesse voltar... bom, aconteceu este comentário do Antonio Dias,  o comentário dele é pertinente e o assunto não deixa de ser interessante... comecei a responder na caixa de comentários e terminei aqui... na caixa de posts... até porque quem sabe e não há por aí algum ou alguma antropóloga que queira ajudar a fazer luz.

 

Diz o António o seguinte:

 

"Acho que já disse isto dezenas de vezes, mas aqui vai mais uma. Tomando como facto que há mesmo pessoas a mais no mundo (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Ecological_footprint ou http://www.footprintnetwork.org/newsletters/gfn_blast_0610.html ) temos três hipóteses de sair daqui:

1. Tomar medidas para voluntariamente reduzir a população mundial. Isto iria requerer uma coordenação de todas (ou quase) nações do mundo, iria levar alguns anos, dependendo das medidas adoptadas, e teria sempre como resultado que a população iria envelhecer. Porque é que uma população voluntária e controladamente envelhecida é um problema é uma coisa que ainda não consegui compreender.

2. Reduzir a população à força. Isto tem resultados muito mais rápidos... mas menos controlados. Ou seja, os efeitos laterais deste método podem atingir os seus executores.

3. Dizer que esta visão é pessimista, que ainda há lugar para muito mais gente ou que o excesso de população é apenas no terceiro mundo (esquecendo que a Europa é o continente mais sobre-povoado). Ou seja, enfim, deixar tudo correr como está e continuar com o velho esquema de pirâmide (http://pt.wikipedia.org/wiki/Esquema_em
_pir%C3%A2mide ) em que é baseada a economia capitalista global. O resultado será deixar os processos naturais de controlo de populações actuarem o que, trocado por miúdos, quer dizer que não haverá recursos para todos e uns morrerão por falta deles e outros lutando por eles até que a população chegue a um equilíbrio sustentável.

O que eu acho lamentável é que a espécie humana escolherá esta última opção, apesar de ser provavelmente a primeira neste planeta que tem o discernimento para perceber isto e os recursos para o evitar."

 

António, Porque é que uma população voluntária e controladamente envelhecida é um problema?

 

Eu acho que é, por vários motivos, vejamos:

-Infelizmente o mundo não vive numa sociedade global, os recursos não estão distribuídos uniformemente e para conseguir sobreviver e alimentar os seus habitantes, cada país tem que conseguir produzir já seja os bens alimentares ou a riqueza para os poder adquirir. Quanto mais envelhecida for a população, menos produtiva se torna, até que chega a um ponto de rotura em que a parte da população que consegue produzir não o consegue fazer de forma a conseguir alimentar quem já não produz... e não, não estou a falar de reformas e coisas dessas, só estou a falar de capacidade de produzir.

 

Reduzir a população à força não é um conceito novo, há décadas que a China com a sua politica de um só filho o tenta fazer, não conheço o suficiente como para poder expressar uma opinião sobre os resultados desta politica, pelo que li, os objectivos foram conseguidos em alguns meios urbanos mas ninguém sabe o que se passa na China Rural..e de resto, eles já são mil e trezentos milhões e continuam a crescer... na China e em todos lados.

 

É claro que há soluções mais drásticas... mas acho que ainda não estamos o suficientemente desesperados para isso. 

 

Quanto ao ponto 3, partilho da tua opinião, de facto, no estado de evolução tecnológico e de capacidade de produção em que estamos, dificilmente haverá capacidade para alimentar de uma forma equilibrada toda a população actual, o que não quer dizer que no futuro não aconteça uma de duas coisas: a evolução nos leve a um estágio em que exista uma maior capacidade de produção, ou, como muito bem dizes, a própria natureza na sua constante tendência para o equilíbrio se encarregue de colocar tudo no seu devido sitio, já seja através da mão humana ( e aqui podemos voltar à redução à força ou não) ou através de uma qualquer gripe (uma a sério, não esta) 

 

Até agora a evolução humana e a distribuição da população ao longo do planeta, foi feita numa procura incessante de melhores condições, há algum tempo que atingimos um estágio em que já ocupamos o planeta inteiro e foi a comida que se passou a deslocar....se calhar está na altura de recomeçar... e ou muito me engano, ou não haverá quem pare este movimento.

 

E agora... volto para a preparação das férias.

 

Jorge Soares

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publicado às 23:56

Há vidas assim!

por Jorge Soares, em 01.05.09

Encontrei este video no Margarida e Girassol, há coisas que nos tocam, por vezes esquecemos que para além da nossa realidade há mais realidades, realidades muito tristes, duras.

 

Vejam o vídeo

 

 



Talvez até seja só um filme, mas quantas vidas de estas haverá pelo mundo, quantas crianças viverão dos restos?  Quantos seres humanos viverão dos restos de tanto desperdicio? Chicken a la carte?

 

Jorge

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publicado às 22:05


Ó pra mim!

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