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Conto - Por um instante

por Jorge Soares, em 29.06.13

Por um instante

Imagem de aqui


Marlene entrou pela porta dos fundos do apartamento carregada de sacolas de supermercado. Ligada no piloto automático, perguntou a Nilcimar, sem olhar para a empregada.


- Alguém ligou, Nil?

- Ligou, sim senhora. Adriane da Sex Shop.


Por um instante, Marlene não entendeu. Olhou fixo para Nilcimar.


- É isso mesmo, Dona Marlene. Adriane da Sex Shop ligou para o Dr. Ricardo.


Por um instante, Marlene desconversou.


- Me ajuda arrumar as compras, Nil. Estou muito cansada. Essa lombar está me matando.


Marlene entrou no quarto e se jogou na cama. Sandálias foram arremessadas à distância. Pernas sobre o travesseiro latejavam. Por um instante, quis matar Ricardo. Como pode?


Ele estaria aprontando com uma vendedora de Sex Shop. Patife. É por isso que não procurava mais a mulher. É por isso que andava caladão, pelos cantos. Casamento ramerrame, marido que vira irmão. Tudo muito companheiro, tudo muito previsível, tudo muito sem graça.


Por um instante, Marlene teve um raio de imaginação. Amanhã seria seu aniversário de casamento. Claro. Ricardo estaria inventando uma surpresa. Por um instante, Marlene se viu dentro de uma lingerie de enfermeira. Calcinha cavada, triângulo minimalista na frente, fio imperceptível atrás, seios exibidos por uma transparência branca, uma cinta liga sobre os joelhos com uma rosa vermelha costurada em cetim, um termômetro preso entre os dentes de uma boca semiaberta pelos lábios carnudos e carmins.


Por um instante, Marlene vislumbrou Ricardo vestido de bombeiro. Quase nu. Mangueira pulsante na mão, machadinha entre os dentes. Cueca viril, de volumoso conteúdo. Cáqui e vermelha. No ponto mais proeminente da sunga libidinosa, um brasão de tochas cruzadas alimentando uma chama única, ereta em direção aos céus.


Por um instante, Marlene sentiu a chama percorrendo as pernas desejosas até o encontro das coxas, a esta altura, já com a ponta da calcinha à mostra, saia levantada, pensamento às alturas.


Por um instante, lembrou das amigas dizendo maravilhas do admirável mundo das sex shops, com seus rabbits autossuficientes, brinquedinhos amorosos, chicotes, gargantilhas tacheadas e algemas de falsas peles de onça, morangos de mentirinha para serem chupados a dois, colares de pompoarismo, anéis para potências eternas, géis de menta, fluidos lubrificantes de hortelã.

 

Por um instante, amou Ricardo como há muito não amava. Sentiu um homem inteiro e amoroso, criativo e surpreendente, meigo e feroz. E ainda por cima, romântico como nunca foi, capaz de celebrar em grande estilo a esquecida data do aniversário de casamento.


Por um instante, Marlene quase chegou lá.


- Dona Marlene!


Interrompida pela falta de traquejo de Nil, deu um pulo da cama, recompôs-se de imediato e viu-se de pé, ofegante, com as mãos úmidas enfregando dedos viscosos na barra da saia, que indisfarçava a calcinha enrolada nas coxas bambas. Tudo ainda latejava gostoso no momento da aparição súbita e indiscreta da empregada na porta entreaberta.


- Dona Marlene, é a moça da Sex Shop no telefone. Dessa vez quer falar com a senhora.

 

Por um instante, Marlene pensou em não atender. Fosse o que fosse, não queria estragar a surpresa de Ricardo. Muito menos saber que não era nada do que imaginava e que ele estaria de fato comprando produtos bizarros para relacionamentos além lar.

 

Por um instante, Marlene tomou coragem. E atendeu ao telefone.

 

- Dona Marlene, aqui é da Flex Shop.

- Flex Shop?

- É sim. Flex Shop Eletrodomésticos. Seu marido, Dr. Ricardo, comprou uma máquina de lavar roupa e mandou perguntar à senhora a que horas nosso técnico pode fazer a instalação.

 

Por um instante, Marlene quis bater em Nil.

E no instante seguinte, Marlene voltou a ser Marlene.

 

José Guilherme Vereza

Retirado de Samizdat

publicado às 21:03


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