Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Conto - Primavera no Inverno

por Jorge Soares, em 21.06.14

Primavera no Inverno

Andam falando que não sou mais a mesma, que não me importo mais com as pessoas à minha volta, que ando deixando velhos amigos de lado. Que eu, antes tão disponível e generosa, tornei-me egoísta, egocêntrica e com meu ego inflado. 
Pensei muito sobre tudo isso. Não gosto de ferir ninguém e não seria agora que o faria. Mas por mais que me tenha analisado, não vejo ponto de retorno. Sim, eu mudei, mas para melhor. Por favor, meus queridos e velhos amigos, é para vocês que tentarei explicar e, também, a quem mais possa interessar.
Sempre procurei entender a ordem natural de todas as coisas e com ela me acomodar. Comparo-me à natureza: lua nova, crescente, cheia e minguante; primavera, verão, outono, inverno; infância, juventude, maturidade e velhice. Simples e lógico, pois não? E se era simples, lógico e natural, tentava me convencer e enfrentar, serena, o inverno que chegava. Não seria tão ruim. Teria livros e livros para ler, filmes e filmes para assistir, não precisaria me preocupar com aparência, roupas novas e coisas do gênero. Seria até interessante, pensava, como pensava no saldo de amigos que me restou – pequeno, é verdade. Em nossos encontros, a conversa sempre girava em torno das últimas gracinhas e feitos dos netos, níveis de colesterol e glicose, quem adoeceu, quem se recuperou, quem morreu e, claro, falávamos do passado. Dessa parte até gostava porque tive uma vida bem vivida e havia muita coisa para lembrar e relembrar. Estava assim, sem tristeza ou melancolia, sem saudade ou nostalgia, conformada, acomodada e... Ganhando peso. Como engordei!
Aos poucos, fui perdendo a vontade de sair de casa. Jantar fora? Nem pensar. Cinema? Ora tinha os telecines da vida. Shows, teatro, pra quê? – perguntava - olhando para a quantidade de DVDs na estante. Os livros empilhavam-se à minha cabeceira sem que tivesse ânimo de ler, eu que sempre os devorava avidamente. À pergunta dos familiares se não iria retocar a raiz dos cabelos ou se ficaria de chinelos o dia todo, respondia com um simples sacudir de ombros. Meu interesse resumia-se a ler resultado de exames médicos e a assistir aos noticiários, demonstrando em voz alta para a mobília da sala minha revolta contra fatos tão mórbidos, políticos tão corruptos e meu time do coração tão displicente. Depois, nem isso. Já não lia sequer os jornais do dia. A única coisa que sobrou foi minha disposição para ouvir e a ajudar quem precisasse. Tinha tempo e certa disponibilidade financeira para socorrer amigos e parentes em apuro, o que me fazia sentir útil. Se não fosse pelo fato de gostar ainda de rir e de me interessar sinceramente pelas pessoas ao meu redor, poderia cogitar em estado depressivo. Mas não, não era depressão. Estava apenas enferrujada e enregelada pelo frio da última estação que vivia, sem muito ânimo para sair da minha hibernação. 
Foi então que a sorte, o destino, os deuses, o universo, seja lá o que ou quem for, resolveu agir.  Por mero acaso, numa rede social, cerquei-me de amigos jovens. Jovens de uma, duas, três e até quatro gerações depois de mim. Minha natureza inquieta voltou a se manifestar. A vida pipocava dentro de mim num movimento crescente e, como se fora uma apoteose, a primavera explodiu no meu inverno. Vi a lógica se inverter. Não queria mais falar sobre netos, doenças, perdas, não queria recordar mais nada, médicos uma vez por ano e olhe lá. Queria apenas viver! Ah... as risadas, a alegria, os impulsos que só os jovens sabem ter! E com eles troco ideias, discuto fatos, acontecimentos e, principalmente, dou risada. Alguns se revelaram verdadeiros amigos, já não mais meramente virtuais. Estivemos juntos pessoalmente, eles me devolvendo a juventude que julgava perdida, eu retribuindo como podia a experiência já vivida. 

 

Cecília Maria De Luca

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:46


Ó pra mim!

foto do autor


Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D