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Conto: Retalhos místicos

por Jorge Soares, em 22.10.11

COXAS

Indisciplinadamente meu olhar passeia e sempre passeia por onde não devia, se por acaso existisse coisa que se devesse ou não. Meu olhar instigado pela imaginação, se desprende do real e se transporta desse mundo e dos outros que existirem, pois existem mundos muito mais do que esses permitidos. Posso ver o que quero quando crio. Aventura constante é o ato de inventar. Concretizar o abstrato por meio de algum sentido, como por exemplo, o sentido do olhar. O mundo enxergado é intenso e forçado ao silêncio. O não declarado domina. Apenas mirar o que o pensamento admitir, e legítimo será tudo. Assemelhar-se aos deuses ou mesmo ser um deles. Assombrar os mortais dispondo de seus corpos, alisando-lhes tudo com os olhos, tomando posse de seus instintos como se fossem nossos. Contar histórias enganosas, fatos acontecidos apenas no desejo da memória. Explicar os sons a partir da oitava nota, as cores além das presentes no espectro solar, as letras pelas que caíram fora do alfabeto. Com indecência ou modéstia olhar, não só com os olhos, mas com todos os sentidos, tudo e muito mais do que o cristalino puder desenhar.

 

Sonhos e propostas. Opção. Assisto ou não a esse espetáculo de coxas unidas e pernas controladas? Apesar de teu pudor teu gesto imita um falo. Olho e cobiço tudo que vejo para meu regalo. Quero. Você receptáculo eu projeção. Depois poderemos inverter nossos conceitos, nossa posição. Feito espelhos complementares serão duas superfícies lisas e iguais a refletir jogos ancestrais como se fossem novidades.

 

Convencionemos que não quero ver teu rosto. Quero teu busto. E quando desse modo te contemplo, acredito que o mundo ali está em teus mamilos rosados. (Fitarei só um deles para deixar o outro enciumado). A seguir recolherei tuas sensações em minhas pupilas e as distribuirei como uma benção, visando um mundo de sossego baseado na poesia carnal.

 

Meus olhos giram e gira teu corpo artesanado em curvas, definição absoluta do belo. Tua cintura atrai possibilidades fantásticas. Se mostrando assim você aquiesce a minha gula. Entende meu desejo alterado. Permite. Se deixa contemplar como uma escultura pagã, apontando-me o objetivo de minha insanidade.

 

Apenas alguns graus mais para esquerda está exposto teu traseiro. É ele uma porção de teu corpo para ser admirada de joelhos pela semelhança que trás com o altar das mais impróprias catedrais. Não concordo que esse teu pedaço seja só músculos e lipídios. É muito, bem muito mais. Trata-se de um retalho místico.

 

Dirijo meus olhos agora para teus acidentes frontais. Umbigo, púbis, buracos, depressões, caixas de ressonância dentro das quais se deveria gritar orações: - Te penetrarei por algum orifício imaginário, espécie de local por onde entra e sai o diabo.


E como de súbito e só com meu olhar conseguir teu repouso. Ali teu corpo molhado, extenuado, ofegante, cansado. Teu coração batendo. Enfim, uma mulher agradecida em minha frente, após o jogo de gente com gente.

 

Retalhos Místicos

Joyce Cavalccante  

 

Retirado de Joyce Cavalcante

 

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publicado às 21:19


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