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Conto: A Mulher do Alfaiate

por Jorge Soares, em 29.09.12

A Mulher do Alfaiate

Inspirado na pintura La costurera de Diego Velásquez


Armando se abaixou para pegar as chaves e creeeec, as calças se rasgaram de cima a baixo bem nos fundilhos. Naquela hora, ele amaldiçoou o fato de não ter cumprido a promessa de ir à academia para perder os quilos que ganhou depois de se casar. Algumas pessoas o olhavam, certamente avistavam a cueca azul através do rasgo.

 

Ele retirou o paletó e, segurando as mãos atrás das costas, tentou disfarçar. Embrenhou-se por algumas ruas menos movimentadas e se perdeu numa parte daquela vizinhança que desconhecia. Muitas casinhas residenciais, com muros baixos e cachorros bravos tentando atacar pelos vãos dos portões. Ele avistou o cartaz dependurado na fachada de uma delas:

 

Alfaiate

Ternos sob medida

Fazemos pequenos reparos


Como não havia campainha, Armando bateu três palmas:

— Ô, de casa!

Por entre as cortinas na janela, uma mulher fez um sinal para que ele entrasse.

Ele a encontrou costurando um vestido.

— O senhor pode aguardar um pouco? O meu marido já volta — o alfaiate ia pelas manhãs ao Centro para comprar material.

— Desculpa, mas tenho um pouco de pressa, estava a caminho do trabalho quando... — Armando se virou, mostrando o rasgo nas calças.

Ela riu, mas logo tapou a boca com as mãos.

— Vai, pode rir! Eu também estaria rindo se não fosse comigo — e ele tentou dar uma gargalhada, mas soou tão artificial que pensou que até poderia tê-la ofendido.

— Nisto eu posso dar um jeito, é só tirar as calças que resolvo num minuto.

Ele procurou por um provador, ou um banheiro, mas ali só havia cadeiras, uma mesa, a máquina de costura, linhas, alfinetes e outros instrumentos de alfaiataria.

— Não precisa ter vergonha, tire as calças.

 

Se estivesse diante do marido, o alfaiate, não seria tão embaraçante. Apenas três mulheres haviam visto Armando de cuecas: a mãe, a primeira namorada com quem ele perdeu a virgindade e a esposa. Se você já esteve na mesma situação que ele, tendo de tirar as calças diante de uma mulher totalmente desconhecida, deve entender como ele se sentiu. Armando virou-se de costas para ela, desafivelou o cinto e desceu as calças. Pelo reflexo da janela, percebeu que a costureira examinava-o. Muito constrangedor!

Sem se virar, ele estendeu as calças para ela.

— Agora, sente-se aí enquanto eu faço o reparo — e Armando obedeceu, cruzando as pernas como uma moça, para não exibir suas partes.

 

Lentamente, a costureira passou a linha na agulha e começou a coser. As mãos eram delicadas e brancas, o olhar sempre fixo no trabalho, a respiração suave. A vergonha de Armando começava a passar e, pela primeira vez, ele reparou como a costureira era bonita. Sua blusa tinha um decote grande e ele podia ver as alças do sutiã e uma medalhinha da Nossa Senhora sobre o seu colo. Uma recordação de infância: de sua mãe sentada na sala, diante da TV, costurando as suas meias; uma memória tão singela que Armando quase se levantou para abraçar a costureira. Dois anos que sua mãe morrera. Mas logo lhe ocorreu uma outra cena: ele enfiando a mão dentro daquela blusa, puxando os seios para fora e beijando-os, chupando-os, podia até escutar os arfar de excitação da costureira enquanto a outra mão buscava espaço por dentro da saia, pelo meio das pernas, puxando a calcinha para o lado e penetrando-a lentamente. Ela gemia, gemia, gemia, e Armando teve uma ereção.

 

— Pronto! — ela disse, entregando-lhe as calças, mas Armando não queria, não podia se levantar — Aqui está.

Ainda sentado, ele a pegou, e dirigiu-lhe os olhos desesperados.

— Não vai prová-la? Ou vai embora apenas de cuecas? — ela riu.

Sem mais opções, Armando se ergueu e a costureira pode ver o que ele ocultava. Ela recuou, assustada, como se visse uma surucucu ou uma jararaca no mato. Depois se virou, fingindo que arrumava a mesa.

Ele não disse nada, apenas se vestiu, deixou o dinheiro na cadeira e sumiu. Acredito que ele até corria, de tanto constrangimento.

 

No entanto, mais tarde, na hora de dormir, Armando voltou a pensar na costureira, no colo branco, nos seios dela, em seus dedos penetrando-a, em como ele a segurava nos braços, levava-a para um quartinho nos fundos daquela casa, e transavam como cães, de quatro, ele puxando-lhe os cabelos enquanto ela encarava-o com o canto dos olhos e lambia os lábios. A esposa de Armando dormia ao seu lado, quase uma estranha para ele nestes últimos anos, com quem não conseguia conversar, sem sexo há mais de três meses. Ele até tentou despertá-la, roçando o pau duro contra ela, mas a esposa lhe pediu para deixá-la em paz, até mandou que ele se fodesse por tê-la acordado.

 

Quando Armando apareceu novamente, na manhã seguinte, a costureira não acreditou. A caminho do trabalho, ele se debateu contra esta ideia, chegou a ensaiar a entrada no elevador da firma umas cinco vezes, mas, por fim, retornou àquela região do bairro, à procura da casa do alfaiate. Ele rasgou uma das mangas de sua camisa, como pretexto.

 

— Você não vai acreditar, mas tive outro probleminha hoje — ele resmungou, bastante desconcertado. Armando mostrou-lhe a manga de camisa rasgada.

— Não prefere esperar pelo meu marido? — ela disse. A presença de Armando a perturbava.

— Não tenho tempo. Tenho de ir ao trabalho — e ele começou a tirar a camisa. A respiração dela se acelerou. Ela mexeu nos cabelos, e evitava fitá-lo. Armando se aproximou e segurou suas mãos.

— Você é um anjo, sabia? — mas ela não respondeu.

Ele chegou mais perto e sussurrou no ouvido dela.

— Pensei a noite toda em você. Acho que estou enlouquecendo — e ele beijou pescoço dela e mordiscou a orelha. A costureira estremeceu.

— Meu marido... Meu marido... — ela balbuciava, enquanto enlaçava Armando num abraço.

Eles se beijaram e, aquilo que Armando tanto imaginara nas últimas horas, se tornava realidade, no entanto, todo o tempo, mesmo enquanto ele a penetrava de pé num canto da lavanderia, ela gemia.

— Meu marido... Ai, meu Deus, o meu marido!

Assim, todas as manhãs, antes de ir ao escritório, Armando passava na casa do alfaiate para transar com a esposa dele.

— Vamos fugir — um dia a costureira sugeriu — Vou largar meu marido, você deixa sua mulher e vamos ser felizes juntos.

— Jamais daria certo — ele respondeu, contrariado — Somos tão diferentes. E você não é como minha mulher...

— Como assim?

— Não sei explicar... Você é apenas uma costureira — Armando disse e, na mesma hora, se arrependeu.

— Apenas uma costureira? O que você quer insinuar com isto?

— Não foi o que quis dizer...

— Acha que não sou boa o suficiente para ser sua mulher? Sou apenas um objeto no qual você mete este seu pinto mole? — e ela apanhou uma tesoura de costura, daquelas grandes, pretas, de ferro, e apontou para Armando — Não sou mulher pra você?

 

O alfaiate encontrou a esposa morta num canto do quarto, toda ensanguentada, os pulsos cortados. Nas mãos, apertando com uma força imensa, a tesoura de costura e uma recordação de Armando, que, naquele mesmo instante, chegava mutilado ao Pronto Socorro.

 

— Foi a costureira! — ele berrava — Queria apenas que ela costurasse as minhas calças... As minhas calças!


Henry Alfred Bugalho


Retirado de Samizdat

publicado às 20:55

Conto, 11 da noite

por Jorge Soares, em 22.09.12
São 11 da noite, sandálias pretas


São 11 da noite. Eu não sei se pressinto ou se estou mesmo ouvindo os passos que se aproximam novamente da minha porta.


Desde que me mudei para este prédio, escuto as pisadas de todos os moradores com nitidez. O chão de cerâmica dos corredores faz ressoar todos os sapatos, especialmente aqui no meu andar, que é o último. O mais estranho dos passos é que a gente sempre imagina como é o corpo em cima da sola. Depois de um tempo, um esbarrão na entrada do prédio, um encontro na escada confirmam a suspeita de quais passos pertencem a quem. E é quase sempre batata! Existe uma intimidade até promíscua em reconhecer o outro pelos passos.


O edifício não é grande. São três andares com quatro apartamentos em cada um, todos de um quarto só. Apartamentos para solteiros, embora eu tenha certeza de que em vários deles esteja morando mais de uma pessoa, principalmente crianças.


Reconhecer as crianças é mais fácil, porque menino não anda, corre. E grita. Vira tudo um escarcéu que mais parece briga, tropel. Mesmo assim, tem os que andam com um passinho miúdo e rápido, como a menina do primeiro andar que sobe aqui de vez em quando para brincar com o garotinho que mora duas portas depois da minha. Tem minha vizinha da direita, que chega sempre tarde e sobe as escadas de salto alto, fazendo um estrondo que acorda meio mundo. Eu não sei como ela é, nem quantos anos tem, porque nunca a vi, mas escutei sua voz uma vez e me pareceu alguém entre os 25, 30 anos.


É divertido este pretenso controle diário de idas e vindas, de subidas e descidas. Como meu horário de trabalho é variável, fico brincando comigo mesma de identificar os passos da manhã e as pisadas da tarde. Já as passadas da noite são quase sempre as mesmas: um estudante universitário que chega por volta de meia-noite; o senhor do 403, que bebe, cambaleia e faz “psiu” para si mesmo; visitantes ocasionais, parceiros de um sexo também ocasional, e que andam sempre na ponta dos pés; e, é claro, os visitantes habituais, já quase aceitos como moradores — namorados, noivos, amantes fixos.


Quando a gente conhece assim tão bem os passos, fica difícil não se desconcertar com alguma coisa que soa diferente. Como esses passos. Não faz uma semana que dei para escutar esses pés impacientes que param à minha porta. São saltos de mulher, sem dúvida, mas parecem frouxos, perdidos. Ficam um pouco, depois se afastam. Não reconheço a direção de onde vêm ou a que tomam em seguida, mas sei que chegam sempre, sempre às 11 horas. O que fazem esses pés na minha porta?


Sondei se há moradoras novas no prédio. “Não, ninguém se mudou“ — afirmou o porteiro indiferente. Minha segunda pesquisa foi junto às solteiras como eu, com quem acabei travando um tipo corriqueiro de amizade ao longo dos dois anos em que moro aqui. Alguma amiga dormindo em casa? Parente? Não, nenhuma delas tem recebido visitas. Enfim, não tenho a menor pista sobre os passos. Além disso, reclamar com o síndico sobre quem tem ou não as chaves do prédio é bobagem. Em lugar de gente solteira, tudo é cumplicidade.


Hoje, tomei banho mais cedo e fiz um lanche leve. Ando tendo pesadelos quando como demais antes de dormir. Um filme talvez me traga o sono mais rápido. Mas... O que é isso?! Droga, a luz acabou de apagar no prédio todo! O que será? Logo eu que detesto escuridão. E para completar os passos estão aí fora, novamente. Ai que agonia! Preciso realmente fazer alguma coisa a respeito dessa criatura inconveniente! Vamos, coragem, vamos! Abro a porta de supetão e não há ninguém no corredor. Sobre o tapete de entrada, apenas um par de sandálias pretas, elegantes, de saltos altos. Já chega! Amanhã pela manhã vou reclamar com o síndico dessa bagunça! Que cara de pau dessa mulher!, esbravejo, enquanto bato a porta com força.


São apenas 5 da manhã e o alarme chato do celular está tocando. Eu, hein! Na escuridão de ontem, devo ter me distraído e programado errado o horário. Agora, não vou conseguir dormir de novo e o resto do meu dia está arruinado! Mas isto não é... não é o despertador... É a campainha! O síndico ignora os meus olhos quase fechados e pede desculpas pelo incômodo. Apresenta-me rapidamente a um policial de bigode e a dois bombeiros compungidos, e pergunta, sem rodeios: “Você tem visto a sua vizinha de porta?” Não vi. Aliás, vejo pouco. A moça não aparece no trabalho há quase uma semana e alguém deu queixa do sumiço dela. Eles me avisam, então, que vão fazer barulho, porque é preciso arrombar a porta do apartamento dela.


Lá dentro, uma mulher de cabelos pretos, caída no chão da sala, está morta há uma semana, comentam os bombeiros em voz baixa. Nos pés, um par de sandálias pretas. Elegantes. De saltos altos.


CINTHIA KRIEMLER  


Retirado de Samizdat

publicado às 21:46


Ó pra mim!

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