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Conto - Santos Populares

por Jorge Soares, em 25.05.13
Santos populares

 

 

 

– Foi aqui que nasceu o António, em 1195, onde está agora esta igreja com o nome dele. – O homem, de cabelo crespo e barba, alargava o gesto enquanto caminhava. – Uma fidalga deu-o à luz a 15 de Agosto.

 

– Então, por que é que lhe fazem a festa a 13 de Junho: amanhã? – estranhava o companheiro, um homem de cabelo ralo e barba curta esbranquiçada.

 

– É o dia da sua morte aos 36 anos em Pádua. Aproveitou-se para dar cunho religioso a umas festas das colheitas que havia nesta altura. Mas esta noite é que são as grandes festas populares.

 

– Bonita igreja!

 

– O povo de Lisboa fez-lhe aqui uma capela, alargada para igreja no século XV. O terramoto deitou-a abaixo, mas foi reconstruída através de peditórios. Montavam tronos com a imagem dele, aí pelas vielas, e pediam umas moedas, como ainda hoje.

 

– Já era venerado!?

 

– Sim, e com razão! O António era um grande conhecedor das escrituras e um orador notável. No fim da vida tinha multidões a ouvi-lo e a crerem que fazia milagres. A fama era tão consensual que é, ainda hoje, o santo mais rapidamente canonizado: menos de um ano depois da morte.

O duo, embrenhado na conversa, ia descendo placidamente a Rua das Cruzes da Sé, enquanto a tarde caía, sem se aperceber de alguns olhares irónicos às suas roupagens.

 

– Ó, João, ele teve alguma formação? – perguntou o mais velho.

 

– Estás mesmo esquecido! Sim, estudou aqui na Sé até aos quinze anos e esteve mais uns três em S. Vicente de Fora. Depois passou sete anos em Santa Cruz de Coimbra onde foi ordenado sacerdote. O ensino lá era bom!

 

– Mas ele não era franciscano?

 

S. João encheu um pouco mais o peito semi-descoberto, sem suspirar.

 

– Pedro, ele ficou muito exaltado com a fé e o exemplo de cinco franciscanos que foram evangelizar os gentios de Marrocos e foram mortos pouco depois. Ele viu-os partir de Coimbra e viu chegar os seus corpos. Esse acontecimento representou uma viragem na sua vivência religiosa. Mudou-se para os Franciscanos e mudou também de nome, porque de batismo era Fernando de Bulhões.

 

– Ah, sim?! – O rosto de S. Pedro adquiria um vivo interesse nas palavras do companheiro.

 

Agora entravam na Rua de S. João da Praça, embrenhando-se em Alfama. Aqui e ali cheirava a manjerico e a sardinhas assadas.

 

– Rumou também ele a Marrocos mas adoeceu e acabou por ir parar a Itália.

 

– Bela terra! Bem, quando lá cheguei não era flor que se cheirasse, mas agora ninguém me tira Roma!

 

– Os ideais franciscanos estavam então a atrair vocações e foi o próprio Francisco de Assis que nomeou o António para ensinar Teologia em Bolonha. Também esteve no sul de França onde ganhou fama a converter heréticos.

 

Já havia muita gente nas ruas mas ainda se andava bem. Chegaram a um pequeno largo onde estavam montadas duas esplanadas. S. João olhou a procurar mesa e virou-se para S. Pedro:

 

– Sentamo-nos?

– Sim, sim! Já descansava um bocadinho.

Instalaram-se, pediram caldo verde, sardinhas e vinho tinto.

– Estou impressionado! – S. Pedro avaliava o fluxo de gentes na rua.

 

– E ainda não viste nada! Nesta noite, há arraiais e bailaricos em todos os bairros e faz-se uma competição de danças marchadas. Há muita coisa para organizar. Foi por isto que ele pediu desculpa e se despediu de nós tão cedo. E amanhã há uma cerimónia em que casam, ao mesmo tempo, dezenas de pares de noivos, porque o António ganhou fama de casamenteiro. As solteiras fazem-lhe promessas, se o António lhes arranjar noivo. Quando isso não acontece é que é o diabo! Algumas vingam-se e viram-no de cabeça para baixo ou roubam-lhe o Menino. – S. João não se continha e ria divertido a imaginar a cara de enfado de Santo António quando lhe acontecia tal percalço. – Os pedidos são tantos e, às vezes, tão difíceis de atender, que nem com milagres!

 

S. Pedro acompanhava-o no riso em notas mais graves.

 

– Também ouvi dizer que fez carreira militar…

– Essa é a mais engraçada! No século XVII, um regimento de Lagos tomou-o como protetor e incorporou-o. E alguns anos depois promoveu-o a Capitão. Aquando das Invasões Francesas, foi promovido a Tenente-Coronel. Gratidão castrense!

 

Uma aparelhagem começou a tocar uma música popular.

 

– Tratam-no bem na arte? – S. Pedro ia tentando comer as sardinhas sem meter parte das largas mangas no prato.

– Sim. Geralmente tem o Menino ao colo e um livro. Também costuma ter um lírio. Às vezes, tem o Menino sobre o livro, ou sentado ou em pé. Outras vezes representam-no a pregar aos peixes.

 

A música fizera aumentar a vozearia e era difícil ouvirem-se.

– Aos peixes? Isso não foi aquele padre jesuíta, António Vieira, não é?

 

– Sim, mas foi inspirado na pregação do António aos peixes, perto de Pádua. Aliás, já o Francisco de Assis falava aos «irmãos pássaros»!

 

Acabada a refeição, incorporaram-se na enchente de povo que percorria Alfama a comemorar o Santo António. Foi um erro. A progressão era difícil, os mantos de ambos enredavam-se nas outras pessoas, levavam empurrões e as sandálias não os protegiam das pisadelas. Num encontrão mais agressivo, S. Pedro voltou-se, de olhos raiados. S. João agarrou-o, gentil mas firmemente. Olhou-o nos olhos e disse-lhe muito sério:

 

– Pedro, tem calma! Já passámos por coisas piores, se ainda te lembras!

S. Pedro acalmou, mas resolveram sair rapidamente do meio daquela turba.

Apanharam um táxi e S. João foi acompanhar S. Pedro ao aeroporto. Abraçaram-se:

– Dá cumprimentos ao Chico. Diz-lhe que vou visitá-lo assim que acabarem as festas por aqui.

 

Depois, rumou à estação do Oriente para apanhar o comboio para o Porto. Ainda tinha três horas de viagem pela frente. Felizmente, não tinha pressa, que as festas em sua honra eram só no fim do mês.

 

Joaquim Bispo

Retirado de Samizdat

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publicado às 22:04


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