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Conto - A minha avó lia Nietzsche

por Jorge Soares, em 19.07.14
cartas

 

Toco a campainha. Gesto ridículo. Costume. Entrar na casa da avó sempre foi um ritual. Tocar, esperar que seus passos lentos  equilibrassem o corpo magro e velho em direção à porta, escutar os quatro ou cinco cliques das chaves e cadeados feitos para impedir algum bandido de forçar a entrada para roubar móveis antigos e bibelôs saudosistas. Bolo de cenoura ou de milho, café passado na hora, manteiga de verdade, pães fresquinhos.
Coloco no chão as caixas de papelão que trouxe desmontadas e começo a testar as chaves nas trancas, bem devagar. Tão devagar que desperto os olhares do homem no fim do corredor de portas iguais. Ele entra indeciso no elevador, imaginando se sou a nova inquilina ou uma ladra bem vestida.
Estou dentro. O corpo retesado procurando fantasmas. Das minhas narinas sai um vento quente e rápido que conheço de sobra. Desde o meu divórcio tumultuado que é assim. Passei meses hiperventilando por qualquer besteira que me causasse ansiedade. E tudo me causava ansiedade. Até que a avó me viu em plena crise. Abriu a gaveta do móvel da cozinha e tirou de lá um saquinho marrom de papel, desses de padaria. Põe na boca, depois inspira e solta o ar dentro do saco, ela me disse. Recusei a oferta. Anda, ela insistiu, faz o que eu estou dizendo. Fiz. Parei de ficar tonta. E melhorei ainda mais um ano depois, após começar a terapia. Mas o artifício dos saquinhos carreguei comigo. Dentro da bolsa. Até hoje, em qualquer lugar, quando sinto que a respiração começa a descompassar, é só me afastar para um canto e soprar.
Os pelos do gato ainda estão nas almofadas. Talvez eu deva levar todas elas para casa, agora que Oscar Wilde está morando comigo. Ele vai gostar. Gato estranho. Desde que saiu daqui, parou de miar. O veterinário me diz para esperar, porque os gatos são avessos às perdas. Como as pessoas. Mas eu acho que ele não mia de pirraça. Não gostou de se mudar.
Quantos livros. Vou encaixotar e mandar tudo para uma biblioteca. Nada disso me interessa. Coleções encadernadas de receitas, atlas, dicionários. Romances antigos de M. Delly que pertencem à minha mãe, constato pela assinatura nas folhas de rosto. Biblioteca das Moças é o nome da coleção. Um mundo condicionante de felicidade para jovens bem comportadas. 
Interessante. Nas prateleiras mais altas, Byron, Lorca, Flaubert, Balzac. Bela safra. Edições originais misturadas a livros traduzidos. São da avó, com certeza. Meu avô só lia jornais e novelas policiais. É uma estante ambígua. Definitivamente, ambígua. 
Vou montar mais uma caixa. Ainda faltam os livros da última prateleira. Deve ter uns vinte lá em cima. O que não tem é escada. Levei para casa junto com o gato. Tudo bem. O cabo do rodo resolve. Só tenho que cutucar. E aí vem o primeiro. A Gaia Ciência. Nietzsche...? A avó lia Nietzsche? Talvez tenha sido presente de alguém. Uma folheada e vejo as expressões "Deus está morto" circuladas a lápis. São três. No rodapé de uma das páginas, escrita com a letra miúda e desenhada da avó, a anotação: "declarar a morte é reconhecer a existência?", seguida de outras duas que não consigo ler. Em outra página, há uma frase inteira marcada: "Há qualquer coisa de estupidificante e monstruoso na educação das mulheres da alta sociedade, talvez nada mais haja tão paradoxal. Todos estão de acordo em educá-las numa ignorância extrema das coisas do amor...". 
Além dos comentários em Nietzsche, há expressões grifadas e questionamentos anotados em Sartre, Beauvoir, Camus. Desconcertantes. Como a mulher que os escreveu.
Finalmente, o último livro da prateleira vem para as minhas mãos. A capa amarrada por uma fita estreita chama a atenção. Cartas a um jovem poeta. Rilke subjugado, sequestrado, preso em seu próprio livro é um pensamento idiota. Mas é tudo o que me vem à cabeça. Desfaço o laço empoeirado e quatro envelopes amarelados caem no meu colo. Eu me pergunto se devo ler; se quero ler. Mas meu constrangimento não resiste ao argumento conveniente de que as fatalidades não devem ser desprezadas.
No primeiro deles, uma carta que me parece em escrita lusitana. José de Arimatéia Sobrinho é o remetente. O texto é curto. A despedida magoada e piegas de um amante ressentido. "Não te importunarei mais. A nossa história morrerá comigo. Eu só estou a cismar como há-de ser possível que consigas viver ao lado desse gajo que teu pai te escolheu para marido, porque eu sei que não és rapariga de aceitar cabrestos. Mas como tu mesma o disseste, isso não é da minha conta. Envio-te os retratos que pediste, e que tanta apreensão te causam."
Quem é esse homem? Que fotos são essas? A data na carta não deixa dúvida: a avó ainda era bem jovem quando a recebeu: Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 1950. Foi escrita aqui mesmo e não vejo carimbo dos correios, o que me leva a crer que tenha sido entregue por um mensageiro ou por um amigo comum, cúmplice de histórias obscuras. 
No segundo envelope, a data da carta é anterior à primeira: Rio de Janeiro, 4 de junho de 1950. Talvez revele um pouco mais. Mas não. O tal José de Arimatéia pede desculpas por não ser um homem livre e declara-se apaixonado. Mais adiante, escreve um parágrafo de desprezo por Alberto Vargas, a quem se refere como "o marido de conveniência”.
Não, José de Arimatéia. Alberto Vargas não foi um marido de conveniência. Foi o meu avô amado. Que me dava escondido as balas e os chocolates que mamãe proibia. Que me ensinou a andar a cavalo, a jogar cartas, a gostar de viajar, a caminhar pela praia às seis da manhã. Que foi o único pai que eu tive, depois que o meu morreu tão cedo. Você, sim, é um oportunista, José de Arimatéia. E eu não gosto de você. Aliás, eu detesto você. 
O terceiro envelope não está sobrescritado. Dentro dele, um recorte de jornal, com data de 23 de setembro de 1950, mostrando o desfecho daquela história incompleta: "Fogo em Laranjeiras mata empresário português". Na matéria, a dúvida da polícia entre acidente e incêndio criminoso, seguida de uma declaração da mulher do morto e de uma breve  menção aos três filhos do casal. 
No último envelope, também não endereçado, quatro fotografias em preto e branco. E é você, avó, em cada uma delas. 
Você, exibindo os seios para o homem atrás da câmera. Você, de braços levantados, de pernas abertas, equilibrando o corpo despido sobre os saltos altos. Você e uma nudez descarada sobre a cama desfeita de um quarto qualquer. Você feliz. De uma felicidade que dá estocadas nos meus olhos. 
Você sabia que seria eu. Quem mais? Sabia que eu encontraria o seu segredo, e que as minhas narinas iriam respirar rapidamente em descompasso, e que eu precisaria usar de novo os saquinhos de papel marrons, e que eu vomitaria no banheiro o meu pudor oportunista. Porque somente eu viria aqui. Para levar o gato. Para esvaziar o apartamento. Para folhear seus livros. Para invadir a sua morte. Você sabia. E preparou a armadilha da fita amarrada. Só não me preparou para você.
Tenho que levar as almofadas para Oscar Wilde. Ele sente falta delas. Colocar em caixas separadas as roupas de cama, a louça, os bibelôs. Avisar à transportadora que pode vir buscar os móveis da sala, da cozinha, dos quartos. Levar comigo os quadros menores; a coleção de M. Delly que vou devolver à mamãe; a caixa com os existencialistas, que acabo de doar a mim mesma para poder ler com atenção cada anotação da avó.
Preciso de mais tempo para me decidir se vou rasgar estas fotos. Ou para me convencer de que isso já não faz diferença. Rasgada ou intacta no envelope amarelado, não importa, a avó dos bolos e da manteiga de verdade não é mais de verdade. Mas talvez a mulher nua das fotos seja. A mulher que esperou a morte para se apresentar honestamente a mim. 
Cinthia Kriemler
Retirado de Samizdat

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publicado às 21:37

Conto - Recruta

por Jorge Soares, em 28.06.14

sedutora

 

Não estava em seus planos apaixonar-se. Desde a separação, há oito anos, só pensava em cuidar dos filhos e honrar o estável cargo público. Tudo caminhava bem, sem rebolados, desvios ou cambalhotas. Nunca mais dera gargalhada. Um sorriso magro era suficiente. Nunca mais saíra dos trilhos. Descarrilar era para cambetas. Bastava ir naquela direção, firme e sempre — para esquivar-se de eventuais escorregos e desastres.

 

Margarete era assessora de imprensa. Preparava clippings, contextualizava para a chefia os fatos mais pertinentes, agendava entrevistas, escrevia releases. Bem informada, a criatura. Lidava com gente de todo o naipe, peneirava declarações, sintetizava casos emblemáticos. 

 

Conhecia bastante da vida alheia, mas procurava reservar-se. Gostava de novidade, mas não queria virar notícia. No gabinete, pouco falava de sua vida pessoal.

 

Seu lema era manter a objetividade jornalística e a discrição pessoal.  O casamento aconteceu de forma planejada, com um namorado da faculdade. Durou até bastante: doze anos. E acabou sem grandes sofrimentos, amor já mirrado. Desde então, optou por não mais se iludir com promessas de afeto. 

 

Era comum nutrir admiração por homens com quem convivia. Porém, quando ela sentia a iminência de uma paixão, tratava de podar o sentimento logo na cepa para que a decepção não frutificasse.

 

Margarete só não contava com um novo estágio em sua vida. Naquele bendito agosto, foi contratado pela assessoria de imprensa do tribunal o jovem Márcio, que cursava o penúltimo período de jornalismo na Universidade de Brasília. A vaga foi concorrida: oito estudantes pleiteavam o emprego. Márcio desbancou os concorrentes pela escrita clara e desenvoltura. Redigiu, à queima-roupa, um texto interessante sobre a crise dos Três Poderes no Brasil. Além de cultura, o rapaz demonstrou disposição, simpatia e a maior das virtudes: uma boniteza linda de arder.

 

Contratado com louvor, o candidato perfeito passou a cumprir vinte horas semanais de estágio remunerado. Enquanto aprendia jornalismo, Márcio cativava, seduzia, enlouquecia Margarete, num vertiginoso crescendo. 

 

Os colegas notaram a diferença: a mulher renovou, perfumou-se, desembestou a rir alto, passou a falar de si como que a exigir elogios. Estava timbrado em sua testa: APAIXONADA. 

 

A diferença de idade seria relevante para o belo foca? A incerteza atormentava a chefa. Queria se declarar logo para o moço e confessar que ele lhe trouxera novas cores e que aquela paixão fulminante não cessava e que aquilo estava muito errado, mas que ela não podia perder a chance da grã-felicidade. 

 

Enlouquecida pelo estagiário! Poderia haver situação mais ridícula para uma respeitável servidora pública? Só crescia o medo de ser enjeitada pelo jovem atlético, espetacular. Ao mesmo tempo, o desejo de conquistar o estagiário movia e dava sentido a cada respiração de Margarete — uma mulher de 44 anos completos e não privada de beleza.

 

Foi num final de expediente, em sexta-feira de entrevista coletiva, que Margarete cercou Márcio. A repartição já estava vazia, e ela considerou o momento inadiável:

 

— Você é o melhor estagiário que já tive.

— Bom saber. Eu me esforço bastante.

— Tenho sonhado com você, Márcio.

— Espero que não seja pesadelo

— brinca, mostrando aquele sorriso.

— Você me acha velha?

— Claro que não. 

— Feia?

— Nada disso. Você é muito bonita, chefa. E inteligente.

— Topa sair comigo agora?

— Opa. Demorou.

 

Márcio encarou a situação com naturalidade e acompanhou Margarete. Ela dirigia o carro tremendo — de febre, comichão... “Será que devo avançar?” Durante o caminho até o Parque da Cidade, a mulher emudeceu. Pensou em retroagir. Não sabia se o encontro resultaria em graça ou desgraça. “E se Márcio for virgem?” — pensava, em estado de choque. “E se zombar de mim?”.

 

Ela parou num dos estacionamentos do parque, debaixo de uma árvore frondosa. Tentava manter a calma; mas estava pálida, doente de angústia. Perguntou se ele gostava de verde, se amava Brasília, se queria mesmo trabalhar como jornalista. Ele respondeu positivamente, com uma doçura inacreditável, a boca rogando um beijo imediato.

 

Se Márcio a repeliu? Não, muito pelo contrário. Agarrou Margarete como ela assim desejava: demorado, quente, com conhecimento de causa e sem pudor. “Como pode um garoto de 20 anos com uma pegada dessas?” — suspirou, boba de tão feliz. 

 

Vendo os olhinhos virados da chefa, Márcio ousou mais, com brincadeiras de amor criativas e carícias pontuais. A assessora de imprensa se desmanchou, permitindo tudo, sem hesitar. Cheia de esperança, paixão, encantamento, completamente desbussolada, Margarete deixou-se amalgamar ao corpo hercúleo de seu jovem aprendiz.

 

Ele se comportou de forma gentil e delicada. Não delatou o ataque nem menosprezou o sentimento da patroa. Propôs a Margarete — por que não? — um encontro por semana, em sigilo, onde ela desejasse. 

 

“Será que é verdade?” — delirava a quarentona, sentindo-se desmerecedora de tão insólito e apetitoso enredo.

 

A jornalista bem que tentou, mas não conseguiu disfarçar a doentia preferência pelo discípulo. Percebeu um ou outro olhar de repreensão e despeito de alguns colegas. Mas e daí? Quem nunca se apaixonou e, por conta disso, deu bandeira, vacilou? 

 

A relação acabou abrupta, com o fim do estágio profissional de seu amado. Foi um adeus embargado, dolorosamente necessário. Margarete abateu-se, mas sem desespero ou desejo de morte. Aprendeu muito com a história vivida. Aulas práticas de vaidade, confiança, autoestima, superação, feminilidade, prazer... A mulher desprezível ficou pra trás e deu lugar a uma criatura em constante descarrilamento. 

 

No seguinte processo seletivo de estagiários, o escolhido foi Raul. Não tão belo, não tão jovem quanto Márcio; mas também interessante e vigoroso. 

 

Desta vez, a iniciativa não foi da chefa; mas do novato, que, em menos de um mês de trabalho, já a convidava para um programa romântico na Ponte JK. Ela bem que achou graça daquele assédio ao contrário.

 

À saída de um motel, no Núcleo Bandeirante, os dois foram surpreendidos por um assaltante de capuz encardido e arma brilhante graúda. O delinquente entrou no carro como demônio.  Ainda haveria muitos deliciosos estágios a viver, mas a bela assessora de imprensa foi friamente abatida nos braços de Raul. 

 

No exato momento do tiro, o celular de Margarete assobiou: era Márcio disparando pra ex-chefinha um recado carinhoso pelo WhatsApp: “Saudade”.

 

Maria Amélia Elói.

 

Retirado de Samizdat

 

 

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publicado às 21:20

Conto: Equívocos

por Jorge Soares, em 05.03.11

Sedução Lez

 

Aquele era um bar diferente, apreciou com agrado as ânforas espalhadas pelos cantos, reparou nos quadros que decoravam as paredes, verificando, que estes emolduravam folhas com profecias, revelações e até conselhos. Olhou para Isabel, sua companheira de há cinco anos, e viu nos seus olhos imediata aprovação pela escolha. Mentalmente, agradeceu à Clara sua colega, a informação. Tinha recorrido a ela, solicitando-lhe um sítio engraçado para levar Isabel. Tinham perdido o hábito de sair e porque as suas vidas atravessavam uma fase difícil, sentiu necessidade de um ambiente diferente para desanuviar da tensão, que teimava à demasiado tempo permanecer entre os dois.

 

Junto ao balcão, ajudou Isabel a subir para um tripó forrado a couro negro e acomodou-se noutro a seu lado, com os olhos, procurou o empregado para pedir as bebidas, e deu de chapa com uns olhos negros que o fitavam. Reparou que era uma mulher belíssima que não soube precisar a idade, andaria entre os trinta e os quarenta. Influenciado pelo ambiente da decoração, o olhar penetrante da mulher lembrava-lhe as pitonisas que costumavam ler oráculos, ela sentava-se no topo direito do balcão, os cabelos tão negros como os olhos davam-lhe um ar misterioso e ao mesmo tempo belo, e ele, enquanto tentava captar a atenção do empregado, reparou que esta continuava a olhá-lo.
Sentiu-se um pouco incomodado, e o receio que Isabel percebesse surgiu, ele não conseguia desviar os olhos daquela mulher.

Isto tinha logo de lhe acontecer quando estava com a Isabel, já era azar. O olhar da mulher não se desviava e pareceu-lhe vê-la sorrir. Nessa altura, ficou definitivamente incomodado pela presença da Isabel, e a situação piorou quando a viu pedir uma caneta com que escreveu num cartão. Olhando na sua direcção, entregou-o ao empregado enquanto lhe segredava qualquer coisa. Era para si pensou, e em pânico tentou manter a postura, e esperar para ver como o empregado lho entregaria sem que Isabel percebesse. Reparou que o copo de Isabel estava praticamente vazio, despejou o seu num gole rápido com o objectivo de renovar as bebidas e proporcionar ao empregado a entrega disfarçada do cartão, assim fez, e seguindo os movimentos daquele, reparou que colocava o cartão, de forma habilidosa por baixo de um dos copos, viu-o aproximar-se e enganar-se, tinha posto o do cartão à frente da Isabel, olhou instintivamente para o topo do balcão, e viu que a pitonisa dos olhos negros lhe sorria, não devia ter reparado que o empregado tinha trocado os copos e que agora o cartão estava bem debaixo do copo da Isabel.

Por uns momentos sentiu-se perdido, até que, Isabel lhe disse: Querido, vou à casa de banho. Ficou aliviado, estava ali o momento oportuno para retirar o cartão e quem sabe combinar alguma coisa. Enquanto seguia com o olhar Isabel que se afastava, viu que aquela mulher belíssima de olhos negros se levantava, aproveitando a oportunidade para se acercar dele, mas, contrariado reparou que não o fez, em vez disso, sorriu-lhe, e seguiu na mesma direcção da Isabel.Aproveitando o momento, retirou o cartão de debaixo do copo e leu-o, acto contínuo, sentiu uma tontura, leu novamente sem acreditar no que lia, o cartão, em duas linhas dizia:


Quero-te agora. Casa de banho.

 
Retirado de Rua dos contos

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publicado às 21:05

Conto: Confissões da sedutora

por Jorge Soares, em 10.04.10

Confissões da sedutora

 

A sedução tornou-se minha maldição. Era aprisionada por esse poder, como Cassandra não podia escapar a seu dom adivinhatório, o que a levou à desgraça. Eu era uma espécie de Cassandra, o poder que possuia - que as mulheres invejavam e fascinava os homens - me destruía, me afastava de toda a realidade. Buscava um métron, um equilíbrio, mas era tarde demais. Era feita do excesso. Excesso em minhas formas, em meu ser, em minhas virtudes e em meus defeitos. Com certeza, Deus estava drogado pelos perfumes do paraíso quando me fez.

 

Envolvia-me em situações caóticas, engraçadas, que me sugeriam eu era uma série de mulheres concentradas em um invólucro, um único corpo. Quantos homens me quiseram! Antes, porque queriam a si mesmos. A história é antiga: Helena era apenas o pretexto para que os heróis se disputassem em honra, força e virtude.

 

A sedução era minha vingança. Eu cavalgava, orgulhosa amazona, conduzindo seus ginetes. O problema é que cavalgava sem destino. Não é que não tenha podido optar, muitas opções se apresentaram para mim, embora deva dizer que, nos dias de hoje, ainda é quase impossível uma mulher escolher sua própria existência. Mesmo as revistas que se dizem feministas nos ensinam sempre como nos adequar melhor aos modelos que se julga serem os que os homens esperam de nós. Impressionante a quantidade de receitas para afastar o envelhecimento, como se, para sermos amadas, não pudéssemos ser humanas. É irônico que, talvez, as próprias mulheres ajudem a alimentar as imagens nas quais se aprisionam. Meu triunfo como sedutora vinha da recusa desses modelos. Os homens inteligentes queriam mais do que um autômato pasteurizado.

 

O primeiro  que me era oferecido era clássico: casar-me e ter filhos e conformar-me a uma  falsa, feita das migalhas da felicidade dos outros. Mas, eu, escrava?! Não. Preferia antes escravizar do que ser escrava. Quando fraquejei, e o que possuia foi excessivo para mim, pensei refugiar-me nesse caminho. O casamento uma armadura que me protegeria de mim mesma. Mas eu seria capaz de suportar a paralisia sob o peso dessa instituição de lata?

Descrente da hipótese de casar-me, cogitei internar-me em um convento e dedicar-me ao conhecimento. Eu renunciaria a todos os prazeres terrenos, protegeria meu corpo jovem da concupiscência até que ele se degradasse a ponto de perder todos os atributos que, aparentemente, o tornavam desejável. A idéia era mais do que atraente: murar-me e dedicar-me ao senhor. Ah, as delícias do conhecer! Eu seria uma nova Tereza d'Ávila, abriria meu seio e meu espírito para o  que neles quisesse cravar a sua lança. Em pouco tempo, porém, descobri não agüentaria. Não que não pudesse suportar a renúncia às coisas terrenas. Não agüentaria justamente porque os conventos estão longe da idéia de espiritualidade que eu buscava. Freiras são fêmeas ainda mais terríveis, porque privadas dos prazeres do sexo e, com frequência, sem nada para ocupar o lugar dessa falta. Eu seria trucidada, eu sei.

Farei uma concessão, uma auto-crítica: talvez eu não suportasse o convívio de outras mulheres. Competitiva, eu? Não! Não sou. Falo sério. Pelo contrário, costumava anular-me o tempo todo diante delas. Eu as temia. Reproduzia em todas as mulheres que conhecia uma mãe terrível que se imprimiu na fragilidade da minha adolescência. Criava mães em série, como uma máquina produz enlatados. Cresci angustiada pela idéia de que era a causa da infelicidade sexual de minha mãe. Era eu o objeto do desejo... de meu pai? Vivi minha adolescência torturada: exteriormente, porque minha mãe, por insegurança, vingava-se em mim dos atributos que julgava não possuir. Interiormente, por minha própria culpa em relação a ela. Por que nós, mulheres, estamos condenadas a esses tristes jogos?

Quando fazia faculdade, trabalhei como "acompanhante de executivos". Usei o dinheiro ganho na prostituição para fazer análise, o que colocava meu analista em um curioso dilema: curar-me seria fazer-me abandonar minha rendosa profissão e deixá-lo? Não importa, foi ali, na arena daquele consultório, onde eu era touro e toureira, que percebi o quanto era narcísica. Ali aprendi a aceitar meus rituais de morte e sedução. O que pode haver de mais narcísico do que a idéia de que era a causa da separação e do ódio entre meus pais? Então eu tinha culpa do incesto! Um incesto que se processava nos abismos mais recônditos da minha imaginação. Como são fáceis e confortadoras as verdades descobertas em análise!

O desejo é uma fruta proibida. Só se pode desejar o que não se tem. Eu o quis. A meu pai. Por ódio e por amor. Por vingança contra ele e contra todos os homens que secularmente nos perseguiram e desejaram, como se quisessem de volta o que Deus lhes roubara. Eu o quis e, de algum modo, o tive.

Estudei a sedução, decidida a fazer desse propósito a razão da minha existência. Aprender a seduzir era esmerar-me em uma arte, exercitar-me horas para tocar um instrumento com perfeição, embora o dom já tivesse nascido comigo. Li tudo o que se escrevia sobre o assunto, de Kierkegaard a Laclos, de Sade a Bataille. Estudei, desde o comportamento da serpente do paraíso, até a Madonna de nossos dias. Descobri que a sedução mais prazerosa, é aquela que se exerce sobre um espírito livre, um homem emancipado de mim, encantado pela alquimia das minhas poções, porém, não dissoluto em sua vontade.

Maquiavel exortava o Príncipe a se adequar às representações de virtude do povo que pretendia dominar. Eu me fantasiava para ser a representação ideal para as expectativas dos homens. Aos poucos, percebia, aterrorizada, que eu não existia mais, não passava de uma névoa. Essas artimanhas, contudo, não fui eu que as criei, são feitiçarias que as mulheres passam milernamente umas para as outras. As não iniciadas, mesmo conhecendo o potencial auto-destrutivo que esse poder oculta, dariam tudo para obtê-lo.

Deixemos a palavra a vocês, pobres homens, que há tantos séculos invejam nossa fertilidade e nossa força. Nós não necessitamos de alarde. Desfiamos fórmulas secretas, enigmas que, em outros tempos, nos levaram à fogueira. 
Somos feitas do silêncio,

 

Guiomar de Grammont

 

Retirado de:Tanto

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