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lavalla.jpeg

Imagem retirada da internet 

 

Não, as pessoas lá ao fundo em cima da rede não são espectadores do jogo de golfe, a fotografia foi tirada algures em Melilla, uma das cidades espanholas no norte de África. A rede na que estão sentadas aquelas pessoas é "la Valla", uma cerca de arame protegida com arame farpado  e vigiada dia e noite pela guardia civil espanhola do lado Europeu e pela policia marroquina do lado Africano.

 

Aquela rede está ali para evitar que as milhares de pessoas que provenientes da África sub-saariana se vão acumulando nas cidades marroquinas à espera de uma oportunidade para de alguma forma conseguirem saltar para o outro lado e conseguirem ter sonhos.

 

De há uns tempos para cá a forma de tentar passar a rede consiste em formar grupos  de dezenas e até centenas de pessoa e assaltar a cerca desbordando os policias marroquinos pelo número. Apesar destes e do arame farpado há quem consiga passar, mas há quem como no caso da fotografia, não o consiga fazer antes da chegada da policia espanhola.. e ficam ali, sem querer voltar para trás, mas sem poder seguir em frente sem cair nas mãos da guardia civil que os espera do lado de cá.

 

Há quem tenha passado quase um dia em cima de um daqueles postes, até que vencido pelo cansaço se deixou cair...  se tiver sorte e cair para o lado espanhol, será levado para um dos centros de acolhimento e com alguma sorte, pode até obter o estatuto de refugiado, a sorte de quem cai para o lado marroquino não é fácil de adivinhar, há quem esteja ali no dia a seguir para tentar de novo.. e há quem vá parar a milhares de kms algures numa fronteira a sul.

 

Mas o que mais me chamou a atenção na fotografia foi a forma desinteressada como os golfistas, aqueles que de certeza nunca tiveram que lutar muito para poder ter uma vida, continuam a jogar apesar do drama que se passa ali a umas poucas dezenas de metros.

 

De resto, é esta mesma indiferença a que se vive em toda a Europa, apesar das dezenas de vezes em que isto já aconteceu, quantas vezes foi noticia em Portugal?

 

Há uns tempos morreram centenas de pessoas num naufrágio de um barco carregado de imigrantes em Lampedusa, uma ilha italiana, entretanto a Itália para evitar outras tragédias como esta, colocou em marcha uma operação em que resgata  e auxilia estes emigrantes dos frágeis barcos nos que se aventuram na travessia do mediterrâneo. Para espanto de muita gente, o governo inglês acusou o italiano de estar a desperdiçar o dinheiro europeu e a incentivar a vinda de imigrantes... palavras para quê?

 

Jorge Soares

publicado às 23:00

O fim do sonho

 

Imagem do Público

 

As hipóteses não era muitas, mas no fim ficamos com a sensação de que seriam maiores que aquelas em que todos, incluindo os jogadores, acreditávamos. Não foi um jogo por aí além, mas foi um jogo em que na maior parte do tempo Portugal esteve por cima e criou oportunidades suficientes para ganhar pelos tais 4 golos de diferença.

 

Tal como aconteceu desde o primeiro dia, faltou sorte, aquela tal estrelinha de que tantas vezes se fala e que normalmente acompanha os campeões.... é claro que a sorte é muitas vezes o resultado de muito trabalho, mas não me parece que hoje tenha faltado vontade e trabalho.

 

Paulo Bento apostou de inicio num meio campo diferente e acertou em cheio, o Gana só a meio da primeira parte conseguiu ter algum controlo do jogo, de resto, Portugal foi superior, só não conseguiu traduzir em golos as oportunidades criadas.

 

Cristiano Ronaldo marcou finalmente um golo neste mundial, foi considerado o melhor em campo e Portugal foi eliminado com 4 pontos.

 

No outro jogo do grupo, a Alemanha entrou cheia de vontade de resolver, marcou um golo e ficou-se por aí, a vitória por um zero era mais que suficiente e até servia aos dois. Os Estados Unidos ficaram com os mesmos 4 pontos que Portugal, classificam-se graças aos 4-0 da Alemanha a Portugal.

 

Nos outros jogos do dia, a Argélia empatou com a Rússia 1-1 e com isso, surpreendentemente mandou os Russos de volta a casa.

 

A Bélgica, a jogar com 10 desde o meio da primeira parte por expulsão do portista Defour, ganhou por 1-0 a uma Coreia do Sul cheia de vontade mas muito pouco esclarecida.

 

Jorge Soares

publicado às 22:49

Conto - Fuga do tempo em fragmentos roubados

por Jorge Soares, em 15.03.14

Fuga do tempo para fragmentos roubados

 

Um belo dia, senti que fiquei sozinha. Foi quando, naquela luminosa manhã, abri a janela e o sol entrou. Olhei pra mesa onde faltava ele, faltava ela... Faltavam tantos eles e elas!

 

Ouvi batidas na porta. Era o tempo. E, antes que começássemos a eterna discussão sobre quem passou ou não passou, resolvi que iria sair por aí, levando minha vida debaixo do braço.

 

Mas não vou parar em cada esquina não – pensei. Apenas caminhar, caminhar, caminhar, sem saber aonde chegar. Sim. Caminhar contra o vento, sem lenço nem documento. Deixar a vida me levar e soltar a voz nas estradas sem querer chorar.  Ver manhãs com gosto de maçãs, ver e ouvir o despertar das montanhas por onde eu passar e gritar: “eu quero amar, eu quero amar, eu quero amar...” Quem sabe, numa tarde silenciosa, eu chegue em Lindoia e veja o sol morrer tristonho, embora eu bem o preferisse risonho. Vou me sentar e pedir ao meu sonho que vá buscar quem mora longe e, como ele não buscará, vou me contentar em ver a dança das flores no meu pensamento, lembrando-me de momentos iguais aqueles em que eu o amei e de palavras iguais aquelas que eu lhe dediquei. Repetirei que eu sei e que talvez ele saiba que a vida quis assim, mas que, apesar de tudo, ela o levou de mim. Vou tentar me convencer de que quem anda atrás de amor e paz não anda bem, porque na vida quem tem paz amor não tem. Quando a noite chegar, vou olhar para a lua branca, cheia de fulgores e de encantos, pedir-lhe que me dê abrigo, não sem antes indagar: “quem sabe se ele é constante e, mesmo tão distante, se ainda é meu seu pensamento”.  Antes de adormecer, vou pisar no chão salpicado de estrelas e, espalhando meus olhos pela plantação, vou lembrar que amanhã será um lindo dia, cheio da mais louca alegria. Sim, porque amanhã quero ir para o mar e quando eu pisar na areia ele vai serenar. Vou olhar para a jangada saindo ao raiar do dia e para o barquinho que vai enquanto a tardinha cai. Vou, vou sim, porque lá na beira do mar, todo mar é um. Talvez lá eu me esqueça de que o Brasil mostrou sua cara e sua cara me assustou. Talvez lá eu me esqueça da gente que deveria se indignar e não se indignou. Talvez lá eu consiga evitar a dor que me aperta o peito pelo despeito de não ter como lutar. Talvez eu lá me esqueça de querer vingança e vingança aos santos clamar. Então vou deixar isso de lado, juntar tudo o que é meu, não seu, e recomeçar tudo de novo. Caminharei pra beira de outro lugar ou pra dentro do fundo azul. E lá irei eu pela imensidão do mar, ou voltar a andar, andar, andar até encontrar... O que? Sei lá, não sei, este vazio é tão grande que nem sei como explicar. Ah, não vou me esquecer de pisar em folhas secas caídas de uma mangueira. Pedirei à tristeza que, por favor, vá embora, não vou querer saber da minha alma que chora e, se ela insistir, lembrarei que a vida é tão linda que não pode se perder em tristezas assim. Vou olhar para a rosa na janela, não para me queixar, mas para lhe dizer: “ah, se todos no mundo fossem iguais a você!” Muito provavelmente vou querer conversar, comigo mesma, é claro. E, de conversa em conversa, vou me perguntar o por quê de meus olhos tão fundos, ao que responderei que guardo, senão toda, pelo menos boa parte da dor deste mundo.  Vou me perguntar se não vou voltar. Direi que sim. Sim, vou voltar, sei que ainda vou voltar para o meu lugar, mesmo sabendo que o meu lugar bem poderia ser por aí. Mas, antes de voltar, recordarei as três lágrimas que derramei nesta vida. A primeira quando minha vida se complicou. Éramos então duas crianças, cheias de vida e esperança. Lembro-me bem do seu olhar espantado quando me roubou um beijo bem roubado e uma lágrima dos olhos me rolou. A segunda, quando minha vida desmoronou. Tínhamos mais vinte anos, mágoas, saudade e desenganos. Ele me olhou com aquele olhar esquisito, surpreso, tão aflito! E uma lágrima dos olhos me rolou. A terceira, quando minha vida se acabou. Vinha pela rua amargurada, quando ouvi o seu chamado. Lembro-me só que, do nosso olhar, fugira a meiguice. Agora era apenas a velhice e uma lágrima dos olhos nos rolou.

 

Enfim, e por fim, nessa tristeza que vai, nessa tristeza que vem, com os olhos cansados de olhar para o além, sei que vou acabar sentindo saudade, uma torrente de paixão que me trará de volta para este lugar todinho meu. Esta casinha pequenina onde nosso amor, que nem aqui nasceu nem aqui morreu, aqui ficou encantado e cantado em versos fragmentados como estes roubados, sem qualquer pudor.

 

Despertei do meu devaneio, assustada com as batidas na porta, agora cada vez mais fortes. Afastando uma mecha de cabelos que teimava em me cair sobre a face, suspirei fundo: - Que viagem! E tudo para esquecer esta vida inexplicável. Tudo para fugir do tempo que, implacável e inexorável, esmurrava a porta.

 

Levantei, sacudi a poeira e, dando a volta por cima, criei coragem, deixando-o  entrar. O tempo não se fez de rogado, Entrou e me sorriu. Entreguei os pontos. Não iria mais discutir, nem resistir. Afinal, não era ele o senhor da razão? Deixei que ele dançasse e girasse à minha volta, repetindo cruel o seu refrão: eu passara, ele não.,. 

 

Cecília Maria De Luca

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:54

Livro - Comer orar e amar

por Jorge Soares, em 10.12.13

 

Quantas vezes já nos apeteceu deitar tudo para trás das costas e simplesmente partir? Aos 30 anos, Elizabeth Gilbert tinha tudo o que uma mulher ocidental formada e ambiciosa podia querer, tinha a vida que muita gente ambiciona e nunca consegue, o marido dos seus sonhos, a casa com que a maioria pode sonhar e uma carreira de sucesso.


Aos 34 deu por si a olhar à volta e a sentir que não era dali e resolveu simplesmente deixar tudo para trás, começar a sonhar de novo e partir à aventura, à procura de experiências de vida e de novos sonhos.


A primeira escala é em Itália, e esta é para mim a melhor parte do livro, em poucas páginas podemos encontrar toda a magia e romantismo com que tantas vezes imaginamos  tanto Roma como o resto da Itália. Esta é a parte do comer e tudo o que se come nesta parte do livro é simplesmente sublime, quase que conseguimos sentir o sabor e os aromas da Itália mais tradicional... tudo envolto numa enorme aura de romantismo e beleza... não fosse eu já ter estado na Itália e juro que me candidatava ....


A segunda escala é na India, é a parte do Orar, foi a parte que gostei menos do livro, para mim a descrição da oração, do yoga e da concentração são levados a um extremo que por vezes torna a escrita enfadonha... mas imagino que faça parte... é claro que de novo as descrições são sublimes. 


A terceira parte é a de amar e passa-se em Bali.. aprendeu a equilibrar o prazer sensual e a transcendência divina. Tornou-se aluna de um feiticeiro nonagenário e apaixonou-se da melhor maneira possível - inesperadamente.


Eu vi o filme antes de ler o livro e recomendo os dois, este é um livro sobre muitas coisas, sobre os sonhos e a forma como estes vão mudando ao longo da nossa vida, sobre os prazeres da vida e sobre como muitas vezes temos que fazer enormes sacrifícios em troca de pequenas coisas que pouco a pouco e no seu todo nos vão preenchendo... mas é sobretudo um livro sobre o recomeçar. Quantas vezes já abdicámos de sonhos achando que tínhamos a relação ideal e o emprego de sonho, e chegamos à conclusão que às vezes temos de recomeçar do zero?... há quem consiga e se dê bem... pelo menos nos filmes.





Jorge Soares

publicado às 22:40

I have a dream

 

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the colour of their skin, but by the content of their character.


Martin Luther King


Passaram 50 anos sobre o discurso em que foram proferidas estas e muitas outras palavras de esperança para um futuro muito diferente para melhor, um futuro de igualdade, sem discriminações, sem injustiças baseadas na cor da pele.


Hoje o mundo e os Estados Unidos são diferentes em muitas formas, e até há um homem negro sentado na cadeira do poder do páis mais poderoso do mundo, mas a verdade é que lá, como cá, como na maioria dos países, o sonho de Martin Luther King segue por cumprir.. e ainda há muitíssimas vezes em que os homens continuam a ser julgados pela cor da sua pele, ou pela sua ideologia, ou pelas suas escolhas sexuais, ou... em lugar de pelo seu carácter...


Passaram 50 anos e ainda falta tanto para que se cumpra o sonho


Jorge Soares

publicado às 22:37

Sinto falta de Lugares que não conheci

por Jorge Soares, em 10.08.13

Os lugares que não conheci

 

 Imagem minha do Momentos e Olhares

 

PEDAÇOS DE MIM

Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos

Sou feito de
Choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci

Eu sou
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante


Tive noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não-prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir,para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivendo e aprendendo.

 

Martha Medeiros 


 

Fim de uma tarde de Outono no Parque Urbano de Albarquel

Setúbal, Outubro de 2012

Jorge Soares

publicado às 17:55

Conto - Último Clarão

por Jorge Soares, em 03.08.13
Último clarão


Cerro os olhos para enxergar melhor a memória. Talvez por isso este aroma de saudade que minhas narinas engolem e expelem, libertando a cada vez uma brisa diferente de lembranças. Meus ouvidos estão escancarados como portas e neles rodopiam melodias que eu não sabia que ainda estavam lá. As mãos ávidas do pensamento emaranhado encontram, por fim, todas as pontas soltas, e reconstroem o bordado das emoções escondidas pelos anos.


O sol de fim de tarde esbarra no meu rosto... Ou vem de dentro este mormaço carinhoso? Não vou abrir os olhos. Ainda não. Não quero. Preciso antes fazer amor com os acordes que me arrepiam os sentidos.


— Maria?


Então, é isso! A imaginação me faz trapaças. Ninguém, em meu mundo de olhos abertos, me chama por esse nome. Não vou abrir os olhos. Não quero.


— Maria?


Não, não, por favor, fiquem fechados olhos desobedientes! Tão logo vocês se abram, tudo irá embora. Vamos, diga o meu nome só mais uma vez, uma vez apenas!


— Maria Beatriz, onde ponho essas flores? — interrompe-me a empregada.


Minhas lindas flores chegaram e a possibilidade do encontro dos meus olhos com a beleza faz-me, finalmente, entreabri-los. Frescos, todos brancos, lírios, copos de leite, pequenas rosas de perfume acanhado e cútis de marfim. Perfeição.


— Enfeite todo o salão com elas. Abra as janelas, deixe que caiam dos parapeitos como tranças. — peço-lhe, me arrependendo logo em seguida — Não, não! Deixe que eu mesma enfeito.


Retiro-me em paz das memórias. A saudade de Augusto sempre me faz tomá-lo por empréstimo ao céu. Não creio que isso seja bom. Não, não é bom. Que fique em paz e aproveite o descanso eterno. Vou parar de incomodá-lo com essa saudade que não passa.


— Bolinhas de gude, bolinhas de gude! A mamãe fez bolinhas de gude! — distrai-me a euforia de minha filha.


O dedinho de Melissa aponta para o meu rosto e ela se diverte com as lágrimas pingando. Quando me viu chorar pela primeira vez, eu lhe disse que eram bolas de gude nascendo, e sua pequena crença inocente acreditou em mim. Belisco levemente a bochecha rosada da pequena e saio correndo com as pontas dos dedos unidas, gritando para ela, enquanto me afasto:


— Não devolvo a maçãzinha da Mel, não devolvo!


Escuto os passinhos dela atrás de mim e finjo cansar, para deixar que me alcance. Às gargalhadas, ela toma dos meus dedos o pedaço imaginário de sua bochecha e grita, eufórica:


— Peguei de volta, peguei de volta!

Depois, se afasta correndo, procurando uma nova distração.


Já começa a escurecer e paro à porta do salão onde a festa começará às nove da noite em ponto. É mesmo um desafio de encantamento. As janelas grandes e antigas foram escancaradas, abrindo-se a um espelho d’água que refletirá, logo mais, a lua cheia. Os cinco lustres de cristal estão sendo testados, neste momento, para que não se acanhem na frente dos convidados. Entrelaço e penduro nas janelas os terços de flores brancas, deixando que repousem para aguentar a festa.


Tem sido assim desde que eu mesma tinha a idade de Mel. Uma vez por ano, fazemos esta recepção grandiosa para agradecer aos médicos e colaboradores do hospital. É sempre uma noite de sonhos.  E hoje estou mais animada que das últimas vezes, porque será um baile de máscaras. Não sei por que não tive antes esta ideia tão comum e sedutora. A fantasia que escolhi, de cortesã, foi um impulso picante. Encantei-me pelo formato que deu aos meus seios. Fecho os olhos e tento novamente fazer com que voltem as memórias que estavam por aqui faz pouco, mas não consigo. E nem tenho tempo. No quarto de vestir, a enigmática mulher pendurada no cabide espera que eu a penetre com as minhas formas.


Só por hoje, permito que sirvam a minha refeição e a de Melissa em meu quarto, para que ela possa ver-me colocando o vestido e a peruca, já que na hora do baile estará dormindo.


— Mamãe, mamãe, deixa eu ver, deixa!

— Ainda não. Primeiro vamos comer bobagens!

Desfazendo o beicinho que sempre faz quando ouve um não, ela se anima:

— Bobagens? É mesmo? Posso comer bobagens hoje? — repete, agitando as mãozinhas no ar.

— Sanduíche, bolo de chocolate com calda, suco de laranja, sorvete com cobertura. Hum, que delícia! E é tudo meu! — provoco, retirando de perto dela o carrinho com as comidas.

— Não é! Não é não! — protesta, inocente.

— Então... está bem! Acho que vou dividir com você.


Gargarejando um riso, ela se joga em minha cama e espera que eu a sirva. Um sanduíche gigante aparece em seu prato sobre a bandeja de cama, seguido, logo depois, por uma taça de sorvete com cobertura.


— Hum... Está faltando alguma coisa por aqui. Uma cobertura especial.

Ponho nas mãos um pouco de chantilly e o esfrego no nariz e nas bochechas da pequena, antes que ela possa reagir.

— Mamãe, para! Assim não vale, você é mais maior que eu!

— Maior. Maior que você, meu amor! — corrijo, com vontade de rir.


Sem entender, Mel procura no carrinho de comidas alguma coisa para me dar o troco. Finjo que não percebo e me sento bem ao lado das coberturas de sorvete. E aceito o carinho de uma calda de morango que ela esparrama em meu rosto, deixando que pense que me pegou de surpresa. Por fim, exausta da farra e das guloseimas, me faz prometer que eu a acordo para que ela me veja fantasiada. E, sem aviso, dorme.


Aproveito a deixa e corro para o banho. Como não tenho tempo para a banheira, abro o chuveiro e estremeço com o jato revigorante e frio que me estimula os sentidos. Por uns instantes, grudo meu corpo na parede úmida de ladrilhos desenhados, braços abertos, rosto comprimido contra a água que escorre . Um hábito tolo, mas relaxante. Em seguida, toco minha pele, primeiramente com a esponja macia e depois com os dedos, dando-lhe o carinho que há muito tempo não recebe. Enxugo devagar o corpo relaxado, esquecendo-me da pressa, e logo entrego-me à cortesã que me espera pendurada, pacientemente. Onde é que eu estava com a cabeça quando escolhi isto? — penso, lutando para fechar a fantasia apertada. Mas olhando para a imagem no espelho, as recriminações dão lugar à excitação. Para falar a verdade, sinto-me sensual, e isso mexe com os meus pensamentos. Mel acorda pela metade no momento em que acabo de ajeitar a peruca de época. De início, leva um pequeno susto, mas logo sorri, meio debochada, e dorme novamente, vencida pelo dia agitado. Desço para conferir pela última vez a casa e saboreio uma taça de kirr royal antes que o movimento dos convidados me impeça de cuidar de mim mesma.


Os primeiros carros chegam, trazendo a família. Logo após, alguns amigos, o pessoal do hospital, outros amigos e, finalmente, pessoas que não sei quem são. Pronto. Este é o momento em que finalmente posso me afastar da porta principal. Não há mais rostos conhecidos e o cansaço começa a tomar conta das minhas panturrilhas retesadas sobre os saltos altos e finos.


No entanto, no instante em que me viro para me recolher ao salão, uma voz profunda e cheia me alcança.

— Boa noite, Maria.

O ar me falta enquanto me volto lentamente. Caminho, incrédula, até o homem parado na calçada de pedras. Sob a lua cheia, Augusto sorri para mim. Augusto que não podia estar aqui. Porque Augusto é do céu.


                                                     *****

Os braços de Mel estão em volta do meu corpo agitado e eu a escuto pedir ao enfermeiro que me aplique mais uma injeção. Não! Ainda não, filha! Ainda não! Você não entende? Mas minha boca já não fala e o grito dos meus olhos não consegue dizer a ela o quanto eu precisava deste último clarão. Agora, tudo será novamente esquecimento.


Cinthia Kriemler


Retirado de Samizdat

publicado às 21:26

Conto - Algo do tipo

por Jorge Soares, em 16.03.13

Mesa de escritora

Imagem de aqui


Semana passada, realizei um sonho de uma romântica escritora que a tudo romantiza: fui a um antiquário aqui perto e comprei uma máquina de escrever. Escolhi a mais capenga e o vendedor pareceu feliz em despachar logo aquele caco velho quando a envolveu num jornal (?), colocou dentro de várias grandes sacolas forradas por outras grandes sacolas e me entregou. Ia perguntar sobre garantia, mas achei que seria perca de tempo. Minha coluna meio torta e o suor brotando debaixo do meu cabelo, carreguei-a pela rua. Ô coisinha pesada, viu? Passei na papelaria para comprar tinta e papéis e canetas, várias delas. Disse à moça do balcão que não precisava de outra sacola. Segui adiante. Na esquina de casa uma padaria. Parei. Comprei um maço de "Um raro prazer", pó de café, refrigerante, vodka e biscoitos. Dessa vez dividi o peso. Segui. A próxima e última parada seria apenas em casa.

Peguei minha máquina de escrever, capenga, tão velha quanto eu, e coloquei em cima da mesa de madeira. Ajeitei-a de modo imperfeito. Demorou um pouco até que eu pudesse atingir o torto-sutil perfeito, que era minha meta. Fui na cozinha e comecei a preparar o café. Enquanto ficava pronto, fui cuidar do resto. Peguei copos de geléia e extratos de tomate, acendi vários cigarros e os deixei queimando para que as cinzas caíssem dentro dos copos. Abri os blocos de papel, coloquei um ou outro na máquina e comecei a digitar coisas incoerentes, como esse texto. E daí tirava furiosamente a folha e fazia bolas de papel que jogava por ali; alguns na cesta de lixo, outros não. Fiz isso várias e várias vezes. Abri a garrafa de vodka e a empurrei com a ponta do dedo, propositalmente. O líquido escorreu pela madeira por uns segundos, quase um minuto — parece pouco, mas foi quase a garrafa inteira, filho — e depois fui lá, coloquei a garrafa em pé e coloquei folhas de papel por cima. A essa altura os cigarros eram apenas cinzas, amassei as guimbas contra o vidro e em seguida as deixei deitadas no fundo do copo. Achei que não era suficiente, definitivamente um maço não era o bastante.

Peguei o elevador e comecei a bater nas portas. "Oi, você é fumante? Não? Desculpe."; "Oi, você é fumante? É? Você pode me dar caixas vazias? Espero sim, obrigado." Quando achei que vários olhares confusos e que uma semana de comentários sobre minha pessoa já era bom, voltei ao meu apartamento com mais ou menos seis maços vazios. Coloquei dois em cima da mesa, mais três dentro do cesto e o resto no chão. Parecia bom. Voltei minha atenção para o café que não beberia. Peguei várias pequenas xícaras dentro do armário e dois pratos grandes. Espalhei farelo em um dos pratos, tive que esfregar um biscoito no outro para ter o maior número de farelo possível. Daí peguei o outro prato e coloquei por cima — nesse eu coloquei os biscoitos meio inteiros, meio defeituosos. Espalhei um pouco de farelo pela mesa também. Peguei a jarra de café e comecei a dividir o conteúdo entre as xícaras. Deixei-as lá, descansando, por uma hora ou um pouco mais. Derramei um pouco de café nos pratinhos, deixando-os meio manchados. Derramei também em cima da mesa e em alguns papéis. O cheiro da bebida impregnou o recinto.

Corri pela casa. Espalhei livros novos, livros antigos, dicionários de línguas que nem falava por tudo que era canto, principalmente na mesa e em volta dela. Fiz uma pequena pilha ao lado do sofá com um dos copo-cinzeros (?) para fazer companhia. Coloquei copo-cinzeros no banheiro também. Eu sei que é estranho. Espalhei jornais e discos de vinil também. Dei uma olhada e parecia bom. Só faltava mesmo uma coisa. Peguei mais copos de extrato de tomate e os virei de cabeça para baixo, deixando a base para cima. Acendi velas e as prendi no fundo dos copos. Deixei-as queimar por um bom tempo, algumas chegaram a ficar pela metade antes de apagá-las. As espalhei por lugares estratégicos. Coloquei duas na mesa, perto da máquina de escrever.

No final, peguei um copo de refrigerante e comi um biscoito enquanto contemplava o que tinha feito com meu apartamento. Pronto. Agora convenço qualquer um de que aqui mora uma escritora.

Qualquer um, menos eu.


Rebecca Albino


Retirado de Releituras

publicado às 20:04

Conto - Para ela, que não virá

por Jorge Soares, em 23.02.13

Para ela, que não virá

Imagem minha do Momentos e Olhares


Chega. De antemão te peço desculpas por não insistir mais em caber no molde. Eu tentei, me esforcei, mesmo. Namorei sério, morei junto, amei para valer, criei a cena adequada, posicionei os personagens, e não. Suportei cobranças das mais descabidas, desnecessárias e antigas, perdi para a frustração e ganhei dela tantas vezes, segui à risca anos de terapia, mas não consegui. O desejo de dar a passagem nunca nasceu em mim. Não é pessoal, não tenho nada contra quem és ou quem te tornarias. Estou certa de que serias alguém decente e realizada apesar da minha proximidade. Tu, do lado de fora, não me assustas. Meu fracasso está no meio do processo. Minhas mãos suam e algo na região da barriga se retorce quando te imagino ganhando o mundo, descolada de mim. Sofro de pavor, de agonia, de medo de morrer com dor, urrando. São pensamentos assim e outros piores que preenchem qualquer espaço vago que haja para a vontade da maternidade.

As vezes sinto que não seria segura a nossa convivência, pelo menos nos primeiros anos. Tenho tido um sonho recorrente, que me atordoa durante os dias que seguem o episódio: sou eu te olhando bem de perto enquanto dormes, meus braços apoiados no limite do berço, sou eu absolutamente feliz te contemplando. O sol da manhã ilumina o quarto e poucos de vento sacodem a cortina de voil branco. De repente, o calor me invade pelas tripas e sobe até a nuca, entendo que estou prestes a perder o controle e embora queira parar, é outra quem me comanda. É meio que possessão, estou em mim, mas me divido com esse duplo meu, uma louca. Grito forte que a outra não ouse, paraliso, e ela me ignora. Desliza as minhas mãos e age, não posso impedir. Apertamos o teu pescoço até que o contorno da tua boca de recém-parida escureça e teu choro acabe. Então, acordo desnorteada, querendo esquecer, mas é impossível. Não és tu o que me assombra, entendes? 

Difícil de admitir é que a minha parte insana talvez não more lá, em uma casa onírica. É provável que já tenha se mudado de mala, cuia e chinelinhos para a vida real. Tem sido rotineiro vê-la saltar e complicar as coisas. Faz pouco, surtamos. Repetiram aquela pergunta desgraçada, para a qual não sei dar a resposta que exigem com olhos e sorrisinhos maliciosos, “e quando vem o bebê”, me torturam. Que tanto querem saber, afinal? Ela não virá. Não virá. A informação me sai entre dentes. Não sei de onde tirei a certeza de que, caso viesse a gerar, meu broto seria mulher como eu. Me julgam pelas palavras. Dizem que me referir a ti assim já é meu corpo e minha alma querendo a tua presença aqui. Agora. Reparei que meus ossos, seios e cabelos estão diferentes e reconheço que o relógio biológico avança, pedindo também explicações. Perdoa, filha, por não te deixar me atravessar. Por favor, se não puderes entender, minimamente aceita que meu conflito escancara uma covardia tremenda. De um jeito torto, já te protejo, e quase me convenço que isso, por si, vai dando à luz uma mãe. É a melhor que podes ter. Por hora, sigo na combinação anticoncepcional/camisinhas, com todo meu respeito a ti. E a mim.


Andréia Pires


Retirado de Samizdat

publicado às 19:12



Evidentemente a resposta a esta pergunta vai mudando com a idade e com as nossas vivências, hoje, se me saisse o Euromilões ou se a minha vida não dependesse de dinheiro eu sei o que queria mesmo fazer, ia para um país do terceiro mundo onde os meus conhecimentos fizessem mesmo a diferença... e tu, terias a mesma vida se o dinheiro não existisse?


Jorge Soares

publicado às 23:15


Ó pra mim!

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