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Conto - Que bonito seria se pudesse voar

por Jorge Soares, em 02.08.14
Voar
Gira o copo entre os dedos e o resto de líquido amarelo se agita em redemoinho. É o último gole do whisky roubado do pai. A garrafa atirada no tapete pinga o fim da bebida formando uma pequena poça, suficiente para encher a sala de um cheiro adocicado que faz arder o nariz. Mas Augusto nem repara mais. Tem a garganta aquecida e uma vontade constante de vomitar. E de morrer. O que vier primeiro está de bom tamanho para ele, parado no canto da ampla janela do oitavo andar, nu, a cabeça encostada no vidro há mais de três horas. Augusto olha o mais para baixo que pode e acompanha o movimento dos carros da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, da bifurcação para longe, e imagina que bonito seria se pudesse voar, dali, e pousar no topo da antena telefônica que fica atrás do posto de gasolina. Só para sentir o sol nas costas e o vento nos joelhos enquanto observa o trânsito de uma distância em que o silêncio abafa as buzinas e suas ideias feias. 
 
Augusto acha que tem ideias feias. Ele próprio, de fora, não é feio inteiro. As orelhas de abano se disfarçam muito bem entre os cabelos desalinhados e compridos. Os lábios grossos, rosados, e os grandes olhos castanhos compensam com sobra a perna ligeiramente mais curta do que a outra. Ele escorado numa parede, ninguém diz. Faz um tempo, aparecem na cabeça de Augusto uns pensamentos-apito, daqueles que soam de repente e depois estancam, como que produzidos por um sopro forte. Não são iguais, mas tem por constância o objetivo de dolorir. Se Augusto se demora em pensar, quer explodir o açougue do João com garrafa de álcool gel e fósforos longos; quer cortar os tornozelos do padre com a tesoura de podar; quer vazar os olhos da diarista com a agulha de costura da mãe, depois de cavoucar a mãe pelo umbigo com a faca de churrasco; quer ver pane no semáforo para os carros baterem de frente; quer martelar a testa do vizinho enquanto ele dorme. Quereres que não cessam. 
 
Desde ontem cresce uma vontade nova, finalmente um pensamento para si. Já entendeu que precisa escrever e vai usar a pele em lugar de papel. O que registrar ainda não decidiu. Uma carroça carregada de areia grossa e pedra brita cruza a rua e some na esquina. De onde está, vê com nitidez a cola preta abanar enquanto o cavalo caga verde no asfalto. Que bonito seria se pudesse voar e pousar entre as orelhas do animal, cogita Augusto, que bonito. O copo já vazio escorrega das mãos e se estilhaça no piso frio. Os cacos transparentes estão por toda parte. Augusto, descalço, não se move: paralisa. Quer dominar o desejo absurdo de sambar que o inunda, hoje eu vou tomar um porre não me socorre que eu tô feliz. Não consegue. Samba. Samba feito passista nascida e criada em barracão do Rio de Janeiro. Que bom seria se pudesse voar e desprezar os pés que agora ardem, ardem, ardem. Então cata um pedaço pontiagudo de vidro e risca, começando entre os mamilos em direção à barriga, “Que bom seria se pudesse voar”. O sangue escorre pelas pernas. Augusto se afasta da janela uns cinco passos. Convencido de quão bonito é ser livre, toma impulso, corre, atravessa a vidraça e voa.

 

Andréia Pires

Retirado de Samizdat

 

publicado às 21:16

Conto - O homem perfeito

por Jorge Soares, em 22.02.14

O Homem Perfeito

 

A decisão estava tomada. Ele se mataria naquela noite. Estava orgulhoso de si mesmo. Afinal, ia se matar pelo motivo certo. Pensou nos homens que conhecera e que haviam decidido tirar a própria vida. Motivo: falência, chifre, doença terminal. Não, ele não era um desses que se matam por dinheiro. Ou porque são cornos. Ou ainda porque não aguentam sentir dor. Ele era, por assim dizer, completamente normal.

 

Não deixaria um bilhete. Homens que deixam bilhetes são todos uns dramáticos. Morrem querendo deixar para trás uma dezena de culpados. A mãe que devia ter entendido os sinais; a esposa que não devia ter gastado tanto; a amante que não devia tê-lo trocado pelo garotão mais novo; os amigos que deviam ter oferecido um ombro em vez de deboche. Não, homens que escrevem palavras de adeus são vingativos. Sempre querendo semear o remorso, infernizar os vivos.

 

Ele morreria de forma muito digna. Morte com planejamento. Já tinha pagado até pelo caixão e pela cremação. E por uma corbeille grande, com faixa escrita e tudo. Uma corbeille... Mas afinal o que era a porra de uma corbeille? Não sabia. Alguma coisa que se usa em enterros, com certeza. E que é chique. Senão a mocinha da funerária não teria lhe vendido com tanto orgulho o pacote 3C Primeira Classe, ou 3C-PC, como era carinhosamente chamado. Bem, isso ele sabia explicar o que era. Um pacote 3C-PC significava caixão-corbeille-cremação. Aliás, essa tinha sido uma das razões que o haviam levado a escolher entre ser enterrado ou  virar cinzas. Explica-se. É que havia dois pacotes 3C disponíveis. O de Primeira Classe, composto por caixão-corbeille-cremação, como já se disse. E o Executivo, ou 3C-E, oferecido com caixão-corbeille-cova. A propaganda impactante feita pela Boutique do Último Leito (sim, mortais, funerária é coisa do passado) contribuiu decididamente para a escolha. Do pó vieste, ao pó retornarás. Mas tu decides como,  dizia o folheto com letra em negrito. Embaixo dos dizeres, duas fotos: em uma delas, um caixão sendo baixado à terra por homens circunspectos; na outra, uma urna de porcelana magnífica, nas mãos de uma pessoa sorridente. Na verdade, ele havia achado o sorriso um tanto excessivo. Mas a mocinha das vendas logo o fizera mudar de ideia. "Veja bem que é o sorriso de alguém feliz por poder levar consigo as cinzas da pessoa amada." Como é que ele não tinha pensado nisso? De um lado o chão frio e úmido dos vermes, de outro o frescor da porcelana acolhendo as suas cinzas. Tudo bem que essa frase também era da mocinha, mas serviu bem naquele momento de decisão. 

 

Fez tudo sozinho. Não podia envolver no processo as secretárias, nem a família, nem os amigos. Não se imaginava dizendo "Eu gostaria da sua ajuda para organizar a minha morte". Não, eles não entenderiam. Como explicar que se mataria porque era feliz? Que não havia nada que já não tivesse feito na vida? Que tinha alcançado o que todos os homens desejam: a plena realização — e que, exatamente por isso, estava na hora de morrer?

 

Tudo em sua vida era perfeito. Tinha sido uma criança feliz, sem traumas. Um adolescente bem sucedido, bom aluno, cheio de amigos e namoradas. Adulto, tinha ficado rico. Muito rico. De um tipo de rico que não se vê, só se ouve falar. Antes dos 40 anos, já conhecia 24 países. Em 10 deles comprou propriedades luxuosas e estabeleceu-se em negócios diversificados. Casou-se com uma mulher linda e gostosa. Deus, como era gostosa! Mas não o bastante para impedi-lo de ter todas as amantes que quis, loiras, morenas, roliças, magras, negras, asiáticas. Mulheres discretas que sabiam como chegar e quando ir embora. Teve dois filhos. Lindos como a mãe. Inteligentes como ele. E até mesmo o divórcio foi feito sem mágoas. Separou-se da esposa enquanto ainda a achava bonita e excitante. Porque não queria permitir a si mesmo vê-la definhar com a idade. Porque não deixaria que ela se fosse quando já não a desejasse, ou quando não houvesse mais homens para cortejá-la. Ele a amava demais para esperar ao seu lado o desgaste da relação.

 

Tinha saúde. E como tinha. Os médicos repetiam a todo instante que ele era um exemplo de homem no cuidado consigo mesmo. Um dos filhos já estava ao seu lado nos negócios e o outro fizera sua própria fortuna. Eles o amavam e respeitavam. E haviam lhe dados netos. Crianças educadas, rosadas e bonitas. 

 

Sem pendências, portanto. Vida perfeita. Podia morrer pelo motivo certo: plenitude. E na noite certa. Estrelada, silenciosa, cheia de uma brisa fresca com cheiro de bos... Bosta?! De onde vinha aquele cheiro de merda insuportável? Aquele fedor de embrulhar o estômago? Alarmado, pensou que nada, nada podia quebrar o clima perfeito da noite da sua morte. 

 

Descendo as escadas com rapidez, saiu correndo, transtornado, pelo jardim meio escuro, buscando a fonte do cheiro fétido. Na pressa, tropeçou nos instrumentos deixados na grama pelos homens que haviam trabalhado à tarde na abertura do buraco da nova piscina. Uma piscina olímpica longa e funda. A topada o jogou para a frente com força e ele se sentiu voando até que estatelou-se em alguma coisa malcheirosa e gosmenta. E nada teria acontecido não fosse o azar de ter batido a cabeça em outro objeto qualquer deixado ali por descuido. Maldito objeto.

 

Enquanto morria, sentindo o cheiro de merda que, agora percebia, vinha da lama úmida que servia de chão ao buraco, e sem conseguir mover nem um único membro do corpo grande, lembrou-se de que não tivera tempo de escrever as instruções sobre o pacote 3C-PC para deixar sobre a cômoda. Lembrou-se também de que não havia escrito cartas ou bilhetes se despedindo, porque isso era coisa de homens dramáticos. Por fim, lembrou-se de que dissera à mocinha da Boutique do Último Leito para esperar até ser procurada por alguém com instruções. Não seria. E ele não seria cremado. E os vermes lhe fariam companhia. E ele ficaria na terra fria, ossos amontoados, distante de tudo o que amava, sem o frescor da urna de porcelana envolvendo suas cinzas.

 

Enquanto o sereno descia sobre o seu corpo imóvel, pensou em como gostaria de processar aquela empresa maldita, aqueles operários relapsos. Se ele não morresse, talvez ficasse paralítico. E teria que depender das pessoas e contratar enfermeiras e reformar a casa. Todas as casas. Em 10 países. Se ele não morresse, e ficasse paralítico, se tornaria incapaz para o trabalho, para o sexo. Se ele não morresse, veria, em poucas horas, aquele jardim repleto de policiais colhendo evidências, confiscando os objetos malditos. Se ele não morresse...

 

Ainda pensava nas possibilidades quando policiais e paramédicos chegaram para salvá-lo, na manhã seguinte. Agora sim. Infeliz, miserável, incompleto, não tinha mais nenhum motivo para querer morrer. Era, finalmente, dono de uma vida imperfeita.

 

Cinthia Kriemler

 

Imagem: O Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci

 

Retirado de Samizdat

 

publicado às 21:21

Escola de Braga

 

 

Imagem do Público

 

"Nélson tinha 15 anos. Colocou termo à vida, enforcando-se num pinheiro próximo de casa, em Adaúfe, Braga, na noite do passado sábado. Eram 23.36 horas. Deixou duas cartas: aos pais e à namorada. O que o terá levado ao suicídio não é ainda claro"

 

Talvez porque vivi estas coisas em carne própria, talvez porque já senti que os meus filhos podiam estar a passar por isto, o bullying é algo ao que sou muito sensivel. Hoje ao ler no JN online o artigo sobre o suicídio de mais um jovem, não queria acreditar no que estava ali escrito.

 

Segundo os colegas do Nelson na sexta feira este foi despido ou obrigado a despir-se no recreio da escola,  li também algures que não era a primeira vez que este tipo de coisas lhe acontecia, mas Fausto Farinha, director do Agrupamento de Escola Sá de Miranda em Braga onde está integrada a EB 2/3 de Palmeira, desmente a existência de "bulliyng". Segundo o senhor isto são brincadeiras inocentes.

 

Brincadeira? Que tipo de pessoa é um director de escola que acha que alunos que despem outros e os deixam em cuecas no pátio da escola é uma simples brincadeira? Para este senhor isto não é Bullying,  que será necessário para que ele considere Bullying? Arrancar olhos? Deixar os colegas nus e cheios de penas de galinha? Violar um colega? Talvez matar?

 

É precisamente por termos à frente da escola pessoas com esta mentalidade que jovens como o Nelson se suicidam, que outros se negam a ir para a escola e que muitos outros crescem com medo, traumas  e vergonha.

 

É claro que agora ninguém quer assumir as suas responsabilidades, a escola não sabia de nada, as autoridades não sabiam de nada, como é que ninguém sabia de nada se há colegas que dizem que falaram do assunto com os professores? Como é que o padre da aldeia sabia o que se passava na escola e os responsáveis não sabem de nada?

 

Bullying são muitas coisas, há muitos tipos de violência e muitos jovens que sofrem todos os dias em silêncio, é responsabilidade das escolas e das autoridades estarem atentas ao assunto, se enterram a cabeça na areia e dizem que tudo não passa de brincadeiras, estão a ser cúmplices de quem maltrata.

 

Para mim o senhor que diz que o que fizeram ao Nelson foi só uma brincadeira, devia ser acusado de homicidio, será que o senhor tem consciência? Como é que nós pais podemos estar descansados quando entregamos a segurança dos nossos filhos a pessoas como estas?

 

Jorge Soares

publicado às 22:25

A morte não tem piada nenhuma.. mas a vida tem?

por Jorge Soares, em 10.12.12

Mel Greig e Michael locutores da 2Day FM

 

Imagem do Público 

 

Os dois senhores que na fotografia estão com cara de caso, são os dois locutores australianos que durante a semana passada fizeram um enorme sucesso na imprensa e na internet mundiais quando conseguiram a proeza de se fazerem passar pela rainha da Inglaterra e o Príncipe Carlos e com isso obterem em primeira mão do hospital informações sobre o estado de Kate Middleton.


Ontem foi noticia a morte de Jacintha Saldanha, a enfermeira que terá falado com eles e que ante a enorme proporção que o assunto tomou se terá suicidado na sua casa de Londres.

 

É evidente que qualquer morte é sempre uma tragédia e é claro que as mortes não tem piada nenhuma, é lamentável que uma brincadeira parva tenha resultado no suicídio da senhora, mas de quem será a culpa?

 

Quantas brincadeiras como estas vemos e ouvimos todos os dias na rádio, na televisão, na internet? É claro que o humor deve ter limites, mas alguém me explica onde neste caso foi quebrado algum limite? Para além da mentira inocente de se dizer avó da doente, onde é que está o exagero naquilo que aconteceu?

 

Goste-se ou não e dê-se a importância que se dê aos membros da coroa britânica, Kate Middleton é uma figura pública, acho que ninguém tem duvidas que a sua gravidez irá nos próximos meses encher páginas e páginas de tudo o que é imprensa seja ela cor de rosa ou não. O assunto será tratado de todos os ângulos e formas possíveis, não há como fugir a isso, não pode valer tudo, mas há de certeza coisas bem piores, ainda que na maior parte dos casos não terminem em mortes. Não foi há muito tempo que alguém vendeu, de certeza por muito dinheiro, fotografias em topless da mesma Kate e não vi ninguém dizer que se ia suspender quem as publicou.


Todas as mortes são lamentáveis, mas esta morte será culpa dos dois radialistas agora lançados para a fogueira ou da enorme industria que se alimenta do escândalo e da fofoca? 

 

A morte não tem piada nenhuma, mas a vida tem? Vamos acabar com as brincadeiras e o humor por causa deste caso? E depois rimo-nos de quê? de nós próprios?

 

Jorge Soares

publicado às 22:10


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