Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Conto - Sina

por Jorge Soares, em 05.07.14
Sina
Dagoberto descendia de uma linhagem muito especial. Desde o século XIX, quando Dagoberto Lemos de Castro batizou seu primogênito como Dagoberto Filho, uma tradição teve início naquela família: todos davam seu nome ao filho mais velho. O sobrenome da mãe sumia em meio a Dagoberto Filho, Neto, Bisneto. Quando chegou a vez da quarta geração, optou-se pela numeração, dando origem a Dagoberto Quinto, Sexto, Sétimo... Fosse por ignorância acerca da terminologia, fosse por considerar, no íntimo, que o número conferia um ar meio de realeza à família, todos, desde então, reproduziam ad eternum a sina de Dagoberto.

 

Tudo ia muito bem, até que a mulher do Bertinho – ou Dagoberto Lemos de Castro VII – decidiu pôr fim àquela tradição que, segundo ela, além de machista, era ridícula.

 

– Eu não quero nem saber dessa palhaçada! – ela esbravejava, indignada. – Filho meu não vai ter o nome do seu tataravô!

 

– O que é isso, Lurdinha?!  É o meu nome também...

 

– E o do seu pai, do seu avô, e de gente que eu nunca conheci. E é nome antigo, Berto! Eu quero um nome atual pro meu filho...Tipo Pedro, Gabriel... – ela suspirava, sonhadora.

 

– E desde quando nome de apóstolo é atual, Lurdinha? E Gabriel foi o anjo que anunciou a vinda de Nosso Senhor...

 

– Mas você vê crianças com esse nome, homem! Já Dagoberto, só você... E toda a sua família. Eu quero que meu filho seja feliz!

 

Os dias se passavam, e o irmão teve dois filhos. Para manter a tradição, batizou os gêmeos de Zé Roberto, e Humberto.

 

– Zero e um. Sorte a deles não serem trigêmeos – caçoou Lurdinha.

 

– E o nosso filhinho, quando vem?­­­­  pedia, esperançoso.­­

 

– Se depender de mim, nunca! Não quero ser a chocadeira de mais um Dagoberto pra essa ninhada. Quero que meu filho seja feliz!

 

Mas o destino estava do lado de Dagoberto, e a mulher descobriu-se grávida. Na tentativa de apaziguar os ânimos, ele ensaiou um trato:

 

– Vamos fazer o seguinte: se for uma menina, você escolhe o nome. Se for menino, quem escolhe sou eu.

 

– Escolhe nada: aí é mais um Dagoberto na área. Nada feito. Quero que meu filho seja feliz! – e encerrou a conversa.

 

 Chegou o dia do parto, e a polêmica continuava. Nem o sexo eles quiseram saber antes, para manter a paz até o nascimento da criança. Na hora de entrar no centro cirúrgico, Lurdinha ainda teimava:

 

– Eu não quero esse nome no meu filho! Não quero, ouviu??!!

 

– Tudo bem, meu amor. Mesmo que seja um menino, você escolhe o nome.

 

– Eu só quero que meu filho seja feliz – repetia ela, entre uma contração e outra.

 

– Está bem, Lurdinha. Tudo bem.

 

O menino nasceu lindo e saudável. Dagoberto olhava nos olhos da criança, tentando encontrar uma saída para o impasse que se criara.

 

No dia seguinte, Berto foi visitá-los no quarto da maternidade. A mulher e o filho ainda pareciam mais belos à meia-luz.

 

– Registrei nosso menino, querida! Fiz o que você me pediu. – disse ele, agitando a certidão nas mãos. A mulher olhou-o, incrédula.

 

– Ele não tem o meu nome, Lurdinha. Ele será Feliz...berto.

Tatiana Alves

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:19

Conto - Pela estrada afora

por Jorge Soares, em 04.01.14

 

Pela estrada afora

Era uma vez uma menina que possuía um casaquinho vermelho. Era sempre vista com ele, não propriamente por uma questão de preferência, mas por ser o único no velho armário do miserável cômodo onde vivia com os pais. A vida lá não era de todo ruim, e ela, nascida ali, conhecia os mecanismos e sobrevivia, com dignidade e alegria. Havia dias em que as coisas ficavam mais difíceis, como hoje, quando o frio do inverno que se aproximava entrava pela janela da pequena casa, desencorajando-a de sair. Masnão podia fraquejar, pois o momento era realmente crítico, e ela tinha de tomar uma atitude. Desprezando a chuva fina, vestiu o surrado agasalho e ajeitou o capuz, preparando-se para ir ao encontro da avó.

 

Teria de ser breve, pois tinha de estar de volta antes que os pais chegassem, já que eles ignoravam que a moça tivesse contato com a avó, de relações cortadas com ambos antes mesmo de ela nascer. Tudo porque a filha lhe dera o desgosto de se apaixonar por um rapaz do morro, um favelado, nas palavras da sogra. Filha que um dia atravessou as pistas que separavam o luxuoso condomínio da enorme favela que se agigantava a cada dia para viver o seu amor proibido. Nenhum conto de fadas daria a dimensão exata da anti-Cinderela em que ela se tinha transformado. Dos sapatinhos de cristal de sua adolescência, hoje calçava sandálias incômodas e rasteiras, mais adequadas à longa subida diária. Jamais olhara para trás ou se arrependera do que fizera, e hoje, ao mirar as imensas quadras de lazer do antigo prédio, tinha a impressão de que pertenciam a outro mundo, a outra vida, aos quais ela renunciara voluntariamente havia quase quinze anos.

 

Dois anos depois, nasceu Clara, embelezando os dias naquele morro. Menina suave e de personalidade forte, rapidamente se transformou numa moça adorável. O desemprego do pai, um pedreiro que vivia de biscates desde a falência da construtora, bem como as encomendas cada vez mais escassas aos quitutes da mãe, fizeram-na começar a vender balas nos sinais. Os pais, que haviam tentado de tudo para demovê-la da ideia, renderam-se à teimosia da moça, inegavelmente herdada da mãe.

 

Havia três dias que não vendia um doce sequer. A única coisa que obtinha dos carros que passavam era a água, atirada de forma proposital e impiedosa por alguns motoristas. Nessas horas, lembrava-se com tristeza da tia Macabéa, irmã do pai, que viera do Nordeste tentar a sorte, e acabara atropelada e sem auxílio. Uma moça tímida e simples, que jamais tivera realmente chances na cidade. Lembrava-se também do tio Fabiano, que fugira da seca com a família, tornando-se um indivíduo cada vez mais embrutecido e taciturno diante das agruras da vida. Talvez por isso o pai fosse tão orgulhoso.

 

A água que respingou da poça em seu rosto foi humilhante e decisiva. Andando até o orelhão mais próximo, discou um número que os pais prefeririam esquecer.

– Oi, vó. Sou eu... Você disse que eu poderia ligar, quando precisasse. – ela falava rapidamente, olhando para os lados.

– Meu Deus! Clara, é você? – a avó não acreditava no que ouvia.

– Sou eu, sim. Eu preciso falar com a senhora.

– Claro, claro... – a voz da avó estava trêmula. Vira a neta três vezes, furtivamente, na creche comunitária, e se rendera completamente àqueles olhinhos idênticos aos da filha. A briga não impediu a aproximação entre avó e neta, ainda que os pais da menina nem sonhassem com isso. – Onde você está, meu anjo?

– Aqui, na subida do morro. Não consegui vender nada, mas preciso levar alguma coisa pra casa. – a menina recusava-se a admitir que aquela atividade era inútil, e aceitar a proibição dos pais.

– Venha aqui, meu amor. Eu tenho algum dinheiro em casa. Não é muito, mas...

– Não posso aparecer com muito dinheiro, vó. Só queria algumas frutas, ou legumes...

– Claro, claro... Eu espero você aqui, então.

– Vó, eu não vou subir aí. – a voz da moça tornou-se fria. –Não com essa roupa. Eu prefiro que a senhora me encontre aí na portaria, tá?

– Mas, Clara...

– Vó, meus pais nem sabem disso. Eu não posso arriscar...

– Então eu desço, querida. Dê-me cinco minutos e venha - disse a avó, ansiosa.

 

A menina sentou-se no meio-fio, contando os minutos para encontrá-la. Não passaria da portaria. Fora tão humilhada na primeira vez em que foi à casa da avó – desde o porteiro, que a obrigou a subir pelo elevador de serviço aos rapazes que jogavam bola na quadra, por causa da simplicidade de suas roupas –, que jurara jamais voltar lá. Desde então, encontrava-se com a avó no calçadão da praia, espaço neutro, e então caminhavam juntas e lamentavam que o rompimento entre a avó e a mãe tivesse criado umasituação daquele tipo. A avó jamais subiria o morro e, mesmo que o fizesse, o horror diante das condições precárias em que a filha vivia – ela nunca entenderia o quanto a filha poderia ser feliz ali, sem o conforto a que estava habituada – acabaria por acirrar ainda mais os ânimos. Já a filha, ao cruzar as pistas que dividiam os dois mundos, renunciara por completo ao lado de cá, e tentar trazê-la de volta seria fazê-la admitir que fracassara, o que ela, a despeito das dificuldades financeiras e da violência que começava aimperar ali, não sentia. Na verdade, era como se sempre tivesse vivido ali, e no íntimo gostava da casa em que morava, cuja vista, em sua opinião, era superior à dos melhores prédios do outro lado da pista. O rapaz nem era mau, mas o orgulho o impedia de aceitar qualquer ajuda da família da mulher. Apenas os olhos cor de mel de Clara eram capazes de adocicar a ambos os lados.

 

A avó viu de longe a menina, e seus olhos se enterneceram ao ver aquele bibelô vestindo roupas que, para o seu padrão, eram quase andrajos. Aquele casaco, então, desbotado de tanto uso, parecia acentuar a precariedade em que a menina vivia. Com o tempo, pretendia dar um jeito nisso. Planejava trazer a neta para viver com ela, ou, pelo menos, proporcionar-lhe uma educação decente.

 

Pensando nisso, apressou o passo em direção ao portão do condomínio. Tinha início naquele momento uma intensa trocade tiros entre a polícia, cujo camburão acabava de estacionar na subida do morro, e alguns bandidos, que se acastelavam num edifício abandonado, bem na entrada. A menina, acostumada a operações desse tipo, abaixou-se instintivamente, mas se levantou ao ver a avó cruzar o portão rumo à rua.

 

– Vó, não sai daí, não! – gritou, desesperada.

 

– Dona Ana, volta, que é tudo bandido! – bradou o porteiro, tentando trazê-la de volta ao prédio.

 

– A minha neta está lá! A minha neta... – a frase foi abafada pela queda da avó, na calçada. Um policial, cujo nome o porteiro apenas vislumbrou de relance: Lopo? Lobo? saiu em disparada, e arrancou com mais dois na viatura, apelidada de caveirão pelos moradores. Clara aproximou-se e pousou os olhos de mel na avó.

 

– Meu doce, tudo poderia ter sido tão diferente...

– Não fala assim, vó. A senhora vai ficar boa... e vai ficar tudo bem – a menina mal conseguia falar, enquanto se ajoelhava e punha a cabeça da avó no seu peito.

– Você devia ter subido... Seus pais podiam ter me deixado ajudar... Isso não é vida...

 

À medida que a voz da avó se enfraquecia, seu sangue ia encharcando o casaco da menina, cuja cor subitamente se avivara. Uma imensa mancha se alastrava, como o mar invadindo a areia em dias de ressaca. Um mar vermelho-sangue. Casaco encarnado.

 

Quando a ambulância chegou, já era tarde. Os olhos de mel de Clara estavam baços, eternizando, num grotesco vitral, a cena que se desenrolava diante dela. O casaco vermelho, marca registrada da menina, estava agora empapado de sangue. Jamais seria usado novamente. Os doces que não vendera tampouco chegaram às mãos da vovozinha. O sargento Lopes também não foi encontrado. Ao contrário dos depoimentos dos moradores do local, seus superiores dizem que ele não estava de serviço naquele dia.

 

Muita coisa mudou desde então. Clara e os pais nunca mais foram vistos ali. Há pouco tempo, ela teria sido avistada na madrugada, em um bairro turístico, em trajes sumários. Hoje é ela quem sai para caçar e, se for preciso, sabe usar a navalha...

 

Tatiana Alves

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:39

Conto - a teia de renda negra

por Jorge Soares, em 06.04.13

A teia de renda negra

Imagem de aqui


a teia de renda negra

 

Tomava agora mais um cálice de vinho, sabendo que já ultrapassara há muito aquele que constituía o limite do que seria próprio ou não. Esperava, como sempre, por ele, que não se dava ao trabalho de respeitar a etiqueta, deixando-a frequentemente aguardando nos restaurantes, via de regra isolados, já que não podiam ser vistos juntos.

 

Conhecera-o no aeroporto, terra de ninguém, onde se tem a impressão de poder mudar o próprio destino apenas observando, nos monitores, os horários de embarque para os diferentes lugares do mundo. Ele assobiava baixinho, num compasso um tempo mais lento do que o arranjo original, a música de sua vida. Ela virou a cabeça, querendo descobrir quem com ela compartilhava do mesmo gosto e que, sem saber, invadira o mundo de seus devaneios. Descobrira-lhe a senha e adentrara, sem cerimônia, um território cada vez mais bem guardado, impenetrável. Tamanha ousadia não ficara impune. Trocaram telefones, risos, prenúncio das muitas outras trocas por vir.

 

Impaciente, em parte pelo atraso do amado, em parte pela melancolia trazida pelas recordações, consultou o relógio, jurando que só esperaria mais cinco minutos. Que viraram dez, quinze, vinte... Quando ele chegou, percebeu de imediato o que aquele atraso lhe custaria. Ela trazia os olhos borrados, indício claro de que tinha chorado. Tirou-a rapidamente dali, e seguiram para o local de sempre.

 

Deitado enquanto ela tomava um banho, deslumbrou-se ao ver a nova lingerie que ela havia comprado. Tudo bem, ela sempre fora lindíssima, argumento com o qual ele justificava a fraqueza, e assim a vinha enrolando há quatro anos. Mas naquele dia ela parecia especialmente bela. Irresistível, ele diria. Talvez se ela lhe pedisse hoje, ele resolvesse de vez a situação. Não queria se separar, mas também não podia mais viver sem ela.

 

Mas ela não lhe pediria nada. Cansara-se das promessas vãs, tão falsas quanto o anel que ele lhe dera no Natal passado.

 

Amaram-se como nunca naquela tarde, com a urgência do desejo e com a calma da derradeira vez. Sim, porque ela planejava deixá-lo. Tencionara que esta fosse a despedida, e nem dessa vez o canalha chegara na hora. Hoje diria o definitivo não, a partir do qual pretendia iniciar uma nova fase em sua vida.

 

Com a negligé negra e com um jeito sacana no olhar, ela dirigiu-se a ele. Parou, no meio do caminho, para se servir de mais uma taça de vinho. Ele tentou impedi-la, argumentando que ela já bebera demais, que ia passar mal... Ela então esbravejou, dizendo que para ele não faria a menor diferença, que as ressacas ela costumava curar sozinha, já que ele nunca estava mesmo por perto quando ela precisava, como da vez em que ela abortou, por insistência dele, o filho que esperava. E em sua revolta, tão maior porque misturada à mágoa e à paixão, ela quebrou a garrafa de vinho e o feriu. A embriaguez não lhe tirou a capacidade de perceber que ele morria. Ajoelhando-se, colocou-lhe a cabeça no colo, ninando-o, como teria feito com o filho de ambos. O sangue misturou-se à renda negra da lingerie, que parecia uma imensa teia. Como a aranha, espécime que executa o macho após o acasalamento, ela pusera fim à angústia de esperar que ele ligasse no dia seguinte. Entretanto, havia uma irônica diferença: nem viúva-negra ela era, já que ele nunca fora, realmente, seu.

 

Tatiana Alves

 

Retirado de Escritoras Suícidas

publicado às 21:44


Ó pra mim!

foto do autor



Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D