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Conto, Outra história de caveira

por Jorge Soares, em 02.04.11

Hibiscos

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Pois bem: eu não sou o fantástico Murilo Rubião, mas também tenho a minha história de caveira. No caso não assusta no sentido assustador - dá pra entender? Causa um friozinho na barriga, devido ao que podemos nos tornar quando nos apaixonamos e esta paixão, mais pela espera de sermos notados e correspondidos, transforma-nos em puro e duro osso.


A casa eu sei onde fica. Só não revelo porque não quero me sentir culpada pela romaria em busca da graça. Perderia a graça, sacou? 
Contam que Joãozinho era um rapazote, que por excelência amava o amor. 


Não havia bola de gude, pião ou as descidas penduradas em tronco de bananeira pelo Arrudas que fossem mais importantes do que engraxar sapatos, vender mangas do quintal, para juntar um dinheirinho, encher de bala os bolsos e distribuí-las com devoção às meninas que, ao entardecer, passeavam de um lado ao outro da pracinha.


Lá estava ele. Segura por suspensório a sua larga bermuda, sapato tinindo, blusinha de algodão, olhos brilhando, e mais uma menina no papo.
Deu-se que a vida seguia... E parou, de repente, descompassando o coração do moleque, quando o seu olhar se derramou sobre o rosto tímido de Hortência. Poderia não ser um nome apropriado para uma menina, mas, sem dúvida, para uma flor.


Sabe-se que, paixão, por si só, já é sinônimo de demasia. Dá dor de barriga, insônia, vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo, e nem mesmo devorando o outro, sacia-se o buraco que se cava fundo. E alguém sempre tem que perder. No caso, foram as meninas. Não perderam somente os galanteios, mas também as balas, o mel da boca, a oferta das mãos do agora distraído Joãozinho.


É de domínio dos que vivenciaram saber que se apaixonar é uma máquina de produzir insegurança, e há uma complexa variável entre a fabulosa e cruel imaginação. Do moleque, fugiram-lhe encantadas palavras, outrora tão fáceis, a bela estampa e as moedas, já que mal falava, pouco se enxergava e jamais voltou a engraxar ou vender uma manga sequer. O seu negócio era criar imagens, deitado de barriga pra cima, mascando aquela parte mole da pontinha do capim.


Para Joãozinho, que se transformara em um nada, ver, apenas ver Hortência, já era o suficiente para convertê-lo, ainda que em poucos instantes, no ser mais feliz do mundo. Por causa dessa dependência e rica fantasia, seus miolos aprontaram-lhe uma boa, que foi, digamos assim, a sua ruína.


Acontece que Joãozinho havia furado um pequeno buraco na parede de seu quarto. Da cama ele poderia consultá-lo como a um oráculo. Seria algo como tomar café e ler a sorte na borra do fundo da xícara, ou os astros no céu.


Como a paixão passa a perna no apaixonado, era mais do que certo que Joãozinho se abandonasse, por completo, ao autoengano. A coisa funcionava mais ou menos assim: se pelo buraco ele avistasse uma Papilio thoas brasiliensis, era o sinal de que o seu amor na praça estaria. Ele sairia correndo e, não raro, ficaria a ver carroças. É claro que não podia dar certo. A parede do quarto dava para um jardim cheio de hibiscos, e onde há fartado pólen, decerto no ar planam alegres insetos.


Se as borboletas surgissem, ele sairia correndo. Se a visse, ela não o veria. Se ela o enxergasse, jamais saberia, pois a coragem da aproximação lhe fugia.


Dizem que os anos se passaram e a loucura acabou domando a sua promissora inteligência. Hortência se mandou, a pele do Joãozinho foi enrugando, murchando, caindo, secando, devorada pelo tempo. 


Sobre a cama, uma caveira se levanta, e corre as ruas na madrugada, na esperança de encontrar a sua borboleta, nem que seja a alma, a esperá-lo na eternidade das horas no enferrujado carrilhão da matriz. 

 

Maria Célia Ferrarez

 

Retirado de Hoje em dia

publicado às 21:50


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